Formação contínua: os professores pagam para trabalhar

Embora muita gente não acredite, parte do horário de trabalho dos professores é (ou deve ser) ocupada com a formação contínua, isto é, com a actualização científica e pedagógica, porque o paradoxo da profissão docente é o de obrigar a que se seja aluno para sempre.

Como é evidente, um professor, como qualquer profissional superiormente qualificado, deve ter autonomia suficiente para encontrar sozinho os meios necessários para se actualizar, mas isso não é suficiente. Em todas as áreas do conhecimento científico e da prática docente há novidades a que nem sempre é fácil aceder, especialmente quando dependem, por exemplo, da investigação universitária. Para isso, é fundamental que existam meios de fazer chegar essas mesmas novidades aos professores que estão no terreno (ou num terreno diferente) e isto é apenas um dos aspectos essenciais da formação contínua de professores, que é também o território ideal para a partilha entre profissionais de escolas e de áreas diferentes.

No afã de poupar a qualquer preço, os últimos três governos têm levado a cabo a destruição de um sistema que, não sendo perfeito, tinha condições para melhorar e era fundamental para que a actividade dos professores tivesse condições para ter qualidade, ao mesmo tempo que a legislação obriga a que os professores frequentem acções de formação para efeitos de progressão na carreira. Seja como for, sem um sistema de formação contínua que garanta variedade e constância, é a própria Educação que fica empobrecida e este não é um problema corporativo. Cometendo, mais uma vez, o pecado da auto-citação, já tratei deste tema em vários textos (aqui, aqui e aqui).

O jornal i de hoje faz referência ao assunto na capa, chamando a atenção para o facto de que os professores são, no fundo, obrigados a pagar as acções que, por lei, têm de frequentar. Se admitirmos, portanto, que a formação contínua é parte integrante do trabalho dos professores, chegamos à conclusão de que os professores são obrigados a pagar para trabalhar. No texto disponível online, ficamos a saber que há muitos formadores que se disponibilizam para dar, gratuitamente, acções de formação, o que quer dizer que trabalham e não são pagos, se partirmos do princípio de que preparar e dar acções de formação é trabalhar.

Se um trabalhador deve ser remunerado pelo seu trabalho e, portanto, não deve pagar para trabalhar, o que se passa na formação contínua de professores é mais uma brecha no depauperado edifício da Educação em Portugal. Se é certo que nunca tive nem terei problemas em pagar para ir a congressos ou para assistir a conferências, tal como nunca me recusei a, graciosamente, dar uma ou outra palestra ou a participar em actividades culturais, recusar-me-ei a pagar para obter a formação contínua a que tenho direito, tal como me recusarei a frequentar acções de formação em que o formador não seja pago pelo seu trabalho. Quem fizer o contrário está a contribuir para criar factos consumados que muito dificilmente poderão ser corrigidos.

Comments

  1. Margarida Alegria says:

    Subscrevo na totalidade! Esta situação está a enraizar-se e é inadmissível! Já basta raramente termos tido direito a despesas de deslocação.
    Mas quase todos acabam por ceder e pagar, o que leva o Estado a continuar a prevaricar.
    Bom dia!


  2. A formação contíniua dos professores sempre foi uma vigarice, que teve como único objetivo justificar o controlo de fundos por parte dos governos. Para isso, criou-se uma clientela obrigatória e permitiu-se que a oferta (dos centros de formação) dominasse a procura. Com o fim das transferências de fundos, chegou-se ao atual estado das coisas…


  3. A profissão de professor é das que menos regalias dá, tendo em conta que quase todos os contratados e mesmo muitos efetivos fazem kms e kms por dia para ir trabalhar, sem despesas de deslocação, sem carro da empresa e sem TM de trabalho. Muitos dos contratados pagaram sempre ao longo dos anos a formação contínua do seu bolso, porque as vagas de formação gratuita não chegavam para todos… Com a crise, querem colocar professores a dar formação gratuita a outros professores, pois, os Centros de Formação não tem verbas.
    Haja, Educação…

  4. António Fernando Nabais says:

    #2
    Já se sabe que houve muita vigarice e muito clientelismo e que a formação de professores doi encarada, muitas vezes, como um negócio, o que não é o mesmo que dizer que devemos acabar com a formação contínua, que é o que, na realidade, acontece. Ninguém nega a necessidade de haver Saúde e Justiça, mesmo sabendo que há muita coisa a funcionar mal.

  5. António Fernando Nabais says:

    #4
    “foi” e não “doi”, claro.


  6. os do quadro porque há profes de 1ª setôres de 2ª e gaijos de 13ª

    e há ainda directores e sub-sub-sub-directores e outra maralha…quanto à formação ou deformação também há da grátis…por falar nisso

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  1. […] chegada ao terreiro da hemodiálise septuagenária, vociferou “Pagamento ou morte!” Também a formação contínua dos professores, o negócio da TDT ou a infindável dívida das SCUTs, entre muitas outras sobrecargas, podem […]


  2. […] neste texto, deixei escapar alguns truísmos sobre o facto de a formação contínua ser um dever e um direito […]

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