Um país cobarde tem os Sócrates que merece

José Sócrates é corrupto. E foi Ivo Rosa quem o disse. Mas antes de Ivo Rosa o dizer, já nós o tínhamos sentenciado. Porque a informação disponível nos convenceu disso. Da parte que me toca, e sabendo que a minha opinião de jurista virtual, no que à aplicação da lei diz respeito, vale zero, há vários anos que não tenho dúvidas que Sócrates foi corrompido, que usou o seu cargo para favorecer amigos e militantes do partido, entre outras cunhas, que lesou financeira e moralmente o Estado, que utilizou recursos públicos em benefício próprio, ou para pagar favores, para não falar nas múltiplas fraudes cometidas.

Dito isto, e voltando a um tema que me é caro, porque inclusive já cheguei ao ponto de uma antiga chefia directa me dizer, no final de uma avaliação anual, que “fizeste globalmente um bom trabalho mas tens que parar de escrever e denunciar situações relacionadas com a CM da Trofa, mesmo que tenhas razão, caso contrário deixará de haver lugar aqui para ti, porque existem pessoas com muito poder e influência a exigir que sejas silenciado ou despedido”, quero dizer-vos duas coisas:

  1. A grande maioria dos autarcas deste país já foi corrompida, ou usou o seu cargo para favorecer amigos e militantes do partido, entre outras cunhas, ou lesou financeira e moralmente o Estado, ou utilizou recursos públicos em benefício próprio, ou para pagar favores, para não falar nas múltiplas fraudes cometidas. Ou todas as anteriores.
  2. Não vale a pena estar aqui com merdas politicamente correctas: a esmagadora maioria dos portugueses tem conhecimento destes casos e opta pelo silêncio. Todos conhecemos negócios combinados, concursos públicos viciados, empresas que financiam campanhas e ganham concursos públicos viciados, boyada servil e medíocre que abana bandeiras, limpa botas de caciques com a língua e lincha adversários nas redes para de seguida ser contemplada com cargos eternos na função pública, ajustes directos ou outro tacho qualquer. E o que fazemos para combater este flagelo? Não fazemos grande coisa. Porque somos muito fortes para bater em políticos caídos em desgraça, mas uns gatinhos bebés cheios de medo, quando os corruptos moram e mandam na nossa cidade. Pelo que temos exactamente os Sócrates que merecemos.

Continuação de uma boa tarde e cuidado com o senhor doutor professor engenheiro que usa o dinheiro dos nossos impostos para garantir a sua rede de tráfico de influências privada a funcionar. Deixem o homem ou a mulher ser corruptos em paz e não sejam invejosos. Ou do contra. Ou outra expressão qualquer que os donos das autarquias todas dão aos cães de guarda para ladrar.

Comments

  1. José Meireles Graça says:

    Eh lá, nem estou em mim: onde é que eu vou parar se de longe em longe leio aqui um texto, como este, com o qual concordo?

  2. Teresa Palmira Hoffbauer says:

    Não, não lhe vou „roubar“ novamente um artigo seu

    https://ematejoca-ematejoca.blogspot.com/2021/04/jose-socrates-democracia-e-o-monopolio.html

    só lhe quero dizer que concordo absolutamente com „Um país cobarde tem os Sócrates que merece“ alias „Cada país tem o governo que merece“

  3. estevesayres says:

    À mulher de César não basta ser séria … tem de o parecer! Já o diz um velho ditado popular.

    É preciso um total descaramento e falta de vergonha para Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, vir hoje declarar-se “indignado” contra a corrupção praticada por um antigo correlegionário seu – JosÉ sócrates – e acolher o “espanto” e “repúdio” pelas conclusões a que o juiz Ivo Rosa chegou no término do Processo de Instrucção Criminal que o Ticão dirigia contra o ex-primeiro-ministro.

    A corrupção é uma condição do modo de produção capitalista. Deriva do facto de, durante o processo de acumulação do capital, os capitalistas terem necessidade – para que ela se produza a contento dos seus interesses -, corromper quem, depois de ter ajudado a alcandorar no poder, lhe possa “facilitar” a vida e esse desiderato.

    Do acto de corrupção pode, no entanto, resultar um benefício material para o corrompido … ou não! O benefício pode – e é o que acontece em grande número de casos – resultar em mais poder e influência para satisfazer uma agenda política gananciosa.

    Medina, tal como a mulher de César, quer apresentar-se como pessoa séria. Mas, tal como ela, teria de, também, parecer sério. Ora, a história revela-nos que existem fortes indicadores de que nenhum dos parâmetros da seriedade que exige para os outros tenha respaldo na sua própria conduta. Senão, vejamos:

    · O que é feito do Projecto de uma nova Feira Popular de Lisboa, um Parque dos Recreios para os lisboetas e não só?

    · e, já agora, como foi possível alterar o Plano para a reabilitação dos terrenos que aquela feira ocupava?

    · Para quando o romper do secretismo quanto aos “negócios” do Parque Mayer?

    · Como foi possível licenciar as Torres das Picoas, em Lisboa, expropriando terrenos públicos para integrar num projecto privado?

    · Para quando uma completa clarificação dos negócios da Câmara Municipal de Lisboa com os clubes de futebol da capital, nomeadamente com o Benfica?

    · Para quando um cabal esclarecimento do negócio com os terrenos que a CML detinha na zona do Aeroporto da Portela?

    · Como pode continuar obscura a história – muito mal contada – do negócio com os terrenos onde está instalado o edifício sede do Quartel do Regimento de Sapadores de Lisboa, construído em 2014, para supostamente libertar os terrenos para que o Grupo Luz pudesse ampliar as suas instalações hospitalares naquela zona de Lisboa, vizinha do Centro Comercial Colombo?

    · Como é possível que pontifique na vereação da CML uma figura tão sinistra como a de Manuel Salgado, alegadamente responsável pelos mais obscuros negócios em que a CML se tem envolvido?

    · Para quando um esclarecimento cabal sobre o negócio que permitiu ao ex-vereador Ricardo Robles – eleito pelas listas desse “campeão” da anti-corrupção que é o Bloco de “Esquerda”, e que se apresentava como grande crítico do “carrossel da especulação” – comprar um edifício em Alfama por 347 mil euros para, no curto prazo de 4 anos, o estar a vender por 5,7 milhões de euros, isto é, com uma mais valia de cerca de 4 milhões!!!

    Acredito, ainda assim, que os leitores ficarão perplexos quanto à curta dimensão da lista que aqui evoco. Também eu sei que existem muitas mais dezenas de situações que, pelo menos, serão alegadamente passíveis de classificação como actos de corrupção.

    Pois, é! Sobre o ímpeto da luta contra a corrupção e a natureza da perplexidade de Medina quanto ao desfecho do caso Sócrates no âmbito do Processo Marquês – que ainda irá fazer correr muita tinta – estamos conversados!

    Serei sempre a favor do julgamento de corruptos – corrompidos e corruptores em igual medida . Mas, não à custa do atropelo sistemático de leis que visam garantir um julgamento justo. Um julgamento que se produza em Tribunal e não na praça pública, com constantes e recorrentes violações ao segredo judicial, assassinatos de carácter e condenações extra-judiciais.

    Claro que, enquanto o edifício jurídico e judicial actualmente existente em Portugal for, no essencial, o mesmo que existia antes do 25 de Abril, para dar resposta às necessidades de um regime fascista, autoritário, castrador das liberdades, prepotente, pouca ou nenhuma esperança deposito no aparelho jurídico nacional.

    Publicada por Que o Silêncio dos Justos Não Mate Inocentes à(s) 19:06

  4. Filipe Bastos says:

    Pois é. É mesmo assim. De norte a sul, dos Açores à Madeira, do Paralamento a todas as instituições da ‘democracia’.

    E que acontece quando alguém o constata, João Mendes?

    Lá vem o taxista, o botabaixista, o radical, o anarca, o que critica tudo e todos… as pessoas rejeitam a realidade. Preferem discutir politiquice – ou pulhitiquice – a que chamam ‘política’.

    Quando alguém constata que tudo se resume a poleiro, tacho e mama, pronto!, lá está ele/a a ‘desconversar’. Mas é esta a única conversa que importa; o resto é que são devaneios.

    Encaram o crítico como um descontente, um ressabiado: jamais lhe ocorre que já pensou tudo que elas pensam, já pesou tudo e chegou à conclusão racional e informada de que é tudo a mesma trampa. Sim, carneirada: tudo a mesma trampa.

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