À Moda do Medina:

(Texto do Autor Convidado Jorge Cruz)

A destruição do edifício do Diário de Noticias, na Avenida da Liberdade em Lisboa, é um escândalo e um sinal dos tempos que vivemos em que o capital destrói tudo, mesmo com um governo que se diz socialista, ou social democrata, eles próprios não sabem o que são, e suportado por partidos que se dizem de esquerda, supostamente defensores do património e dos valores culturais.Tanta defesa do património, tantas classificações de património da Unesco, tanta cagança com o património, e todos os dias se arrasa e destrói património. E tudo disfarçado de grandes “recuperações”, porque se “mantém a traça” e se “mantém a fachada”. Tudo o resto é destruído, demolido, alterado.

O edifício do Diário de Noticias, do Arqt. Porfírio Pardal Monteiro, um dos mais icónicos edifícios da boa arquitetura existente em Portugal, desenhado para ser uma sede de um jornal com escritórios, redacção, gabinetes, salas de jornalistas e tudo o demais pensado para aquela função específica, foi travestido para edifício de apartamentos. Mantiveram a fachada, deixaram o anúncio luminoso, a entrada foi salva, e ficou um guichet de vidro e alumínio como símbolo da destruição perpetuada. Para que serve termos um Ministério da Cultura, uma Direcção Geral do Património Cultural, uma Câmara Municipal com serviços técnicos, tantos técnicos especialistas e serviços para analisar projectos e dar pareceres, se depois, quando há alguma coisa que deve ser salvaguardada, defendida, protegida, ninguém faz nada, ninguém cumpre com o seu papel?

Todas as regras, cartas internacionais, procedimentos devidos são negligenciados sem nenhum agravo. Pelo contrário, não faltam as referências elogiosas, e até prémios. E assim se destrói o património arquitetónico modernista do Séc. XX. Em Lisboa, e por todo o país, edifícios de serviços, teatros, cinemas, hotéis, mercados, escritórios, edifícios industriais e outros, são adulterados e transformados, com aquele triste selo de se ter “mantido a traça”, que é o termo chave sinónimo de destruição, mantendo um berloque ou um bocadinho da fachada. É um termo sem nenhum significado técnico, usado com frequência por ignorantes que não sabem do que falam. Trata-se de pura destruição de património nacional do mais importante que temos.

Triste país que tem à frente dos mais importantes serviços públicos pessoas ignorantes, irresponsáveis, vigaristas, corruptos, sem capacidade profissional ou outra, que se deixam comprar pelos interesses imobiliários, pela especulação e pelo poder económico que apenas pensa no lucro imediato e vai destruindo tudo o que pode. Atenção que na maior parte dos serviços há gente séria, profissional e competente. Os que mandam, os que dirigem e decidem, os que estão acima, é que são os responsáveis por estas destruições. É um dia de luto pelo património arquitectónico português.

O edifício do Diário de Noticias, um dos mais notáveis exemplares da arquitectura moderna Portuguesa, foi destruído e entrou ao serviço na sua nova função, mais um projecto imobiliário merdoso.

Comments

  1. JgMenos says:

    O fachadismo é o menor mal de uma exigência funcional e de segurança que evita transformar largas áreas do espaço urbano em zona museológica.

    Mas fica sempre bem adicionar as frases que são de uso como: ‘se deixam comprar pelos interesses imobiliários, pela especulação e pelo poder económico que apenas pensa no lucro imediato e vai destruindo tudo o que podem’.

    Um mundo de filantropos e de de um Estado tirânico é mistura típica do abrilesco pensar.

    • POIS! says:

      Pois, mas tem V. Exa. de concordar…

      que é essa tirania que lhe dá força, homem! Queixa-se de quê?

      Tem de reconhecer que o salazarismo adormeceu V. Exa., assim, à sombra de uma palmeira, deitadinho numa cama de rede a ver passar nativas já com idade para coser meias ou outros serviços domésticos mais elevados. Tudo ali á mão! Era maravilhoso!

      Se a coisa não tem mudado, V. Exa. já estaria hoje feito em gelatina. Queixa-se de quê?

  2. Luís Lavoura says:

    Não percebo. Se mantiveram a fachada, que mais queria o autor do post? Que tivessem mantido também a função?
    Em toda essa zona, montes de edifícios têm sido (e continuam a ser) reconvertidos, geralmente com manutenção da fachada, com grandes ganhos para a zona. Será que o autor do post também protesta contra essas reconversões?

  3. jorge paulo sanches da cruz says:

    já agora queria que também tivessem demolido a fachada, para que serve a fachada se tudo o resto foi destruído?

  4. xico says:

    O edifício foi transformado em condomínio residencial. Que bom! Sempre traz gente para o centro da cidade. Não entendo o rasgar das vestes.

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