Carla Castro: A liberdade chegou para os jovens? 

Carla Castro, Membro da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal.

Abril é considerado em Portugal o mês em que se celebra a liberdade. É uma boa altura para refletir sobre as liberdades que estão em perigo ou que não estão garantidas. Será que a liberdade chegou mesmo para os jovens?

Em traços gerais, hoje um jovem herda uma dívida pública castradora, sobre a qual vai ter de pagar um enorme défice, depara-se com um sistema de segurança social frágil, num país que está envelhecido e pobre e vai ter de suportar um dos mais elevados esforços fiscais no mesmo país que tem vindo a perder consecutivamente posições na tabela da competitividade. Este jovem vive num país que regista um consumo elevado de ansiolíticos e que apresenta, em todas as gerações, um estado de saúde mental deteriorado. Urge reerguer as condições necessárias para se percorrer individualmente o caminho da concretização de sonhos e, em sociedade, fazer-se um percurso de prosperidade. Tenhamos consciência de que, para se fazer esse percurso, o caminho tem de ser de liberdade.

Mas, como podemos nós falar de liberdade no início de vida quando:
– Não podem escolher a escola que querem frequentar, sobretudo se não tiverem um elevado nível socioeconómico; 

  • Terminam o ensino superior (muitas vezes com um excelente nível de qualidade, reconhecido internacionalmente), mas não há empregabilidade para um elevado número de cursos;
  • Vêem que os empregos de maior valor acrescentado e com maior procura global têm piores condições remuneratórias e cargas fiscais maiores, em comparação com outros países;

  • O incentivo à captura de investimento é baixo, os custos de contexto extremamente elevados, tudo associado a um baixo incentivo à criação de emprego. 

O que encontram é na realidade, um país estagnado, com poucas oportunidades, com uma carga fiscal excessiva, com uma enorme complexidade administrativa, legislativa e regulamentar e cheio de falhas e desalinhamentos de incentivos. Um país onde demasiadas vezes a opção pela emigração se faz por necessidade ou porque outros países oferecem mais e melhores alternativas, e não por opção de vida, consciente, ou pela experiência que se quer adquirir voluntariamente. E são muitos os jovens que partem por estes últimos motivos e não conseguem regressar condignamente ao seu país, porque não lhes é oferecida uma situação equivalente.

“Não contentes” com todas estas falhas e disparidades, temos ainda, porventura, a maior crueldade de todas: uma aflitiva e injusta reprodução intergeracional de pobreza. A pobreza, no nosso país, herda-se! Esta herança é o maior sinal de um elevador social avariado e de uma total incapacidade da educação potenciar igualdade de oportunidades, libertando as crianças e os jovens dos grilhões da condição socioeconómica de onde provêm. 

Por isso, falarem concretização de sonhos é falar também em políticas que potenciem e dinamizem estes sonhos. É falar da verdadeira possibilidade de nos realizarmos individualmente. É falar de liberdade. E, convenhamos: esta liberdade anda a ser desprezada e muito mal tratada.

Urge mudar este paradigma, o que se revela ainda mais vital em tempos de recuperação económica, com toda a reconstrução necessária face à disrupção havida. Precisamos, pois, de conjugar os desígnios de liberdade e de realização individual com as sinergias de uma sociedade justa e próspera. 

Os jovens deparam-se com a inevitabilidade de um país que lhes falha, bem ao estilo da música que diz que “o que o mundo lhes pede não é o que o mundo lhes dá”, e se é um facto que acredito absolutamente que cada um deve “pensar no que pode ser feito”, também acredito que as políticas que estão a ser prosseguidas são erradas e que precisamos de uma outra visão política que constitua uma verdadeira alternativa. Uma alternativa de prosperidade. 

A política e a economia em Portugal arrastam um fardo que já pesa demasiado aos que querem andar, quanto mais para os que querem correr ou dançar. Temos de exigir o máximo das funções essenciais do Estado, naquilo que é verdadeiramente importante e que não pode falhar, e libertarmo-nos do peso de um Estado que nos atira constantemente uma pesada conta para pagar para que possamos andar ao nosso ritmo e gosto. Em cada uma das restrições enunciadas acima, há uma forma diferente de encarar a essência da (boa) ação do Estado, a utilização dos impostos e as condições de criação de riqueza.

E é por tudo isso que a liberdade não é um tema apenas de abril, mas de todos os meses e de todos os anos. Um tema de luta, de cidadania ativa e de liberdade. Luta pela construção de um sistema político, económico e social com políticas liberais que potenciam liberdade a todos os níveis. Liberdade para se construir uma vida e ser-se aquilo que se quiser ser. 

 

Comments

  1. JgMenos says:

    Logo a cambada irá dizer que tudo resulta de haver pouco Estado e pouca dívida e não se assaltou o bastante.

    • POIS! says:

      Pois, mas…

      A que horas vai V. Exa. proferir tal afirmação? Estamos todos em pulgas! “Logo” é muito vago.

  2. ANTONIO CARDOSO says:

    A senhora usa palavras muito caras para o portugues: O que e isso de “ansioliticos” para a maioria dos portugueses. Formem-se menos doutores de “bla-bla” e mais tecnicos em boas escolas Industriais/comerciais que, eventualmente, possam aceder aos Institutos e ate ao doutoramento. E preciso tecnicos na educacao, agricultura, pecuaria e ordenamento florestal, ciencias do mar, etc. Acabe-se com a mentalidade que os filhos devem ser todos”dotores”. Falem para o povo!

    • João Gomes says:

      Não saber o que são ansiolíticos…. E terminar com : “falem para o povo”… Se isto não é bla-bla, o que será ?

  3. Paulo Marques says:

    Querer livrar-se da dívida pública diminuindo quem paga e aumentando o número de rendas é um mimo. Mas nada perto de aumentar a liberdade deixando a escolha do mérito às condições no nascimento. Tudo regado com um bom fio de falta de noção que são as suas vitórias nos últimos 40 anos que levaram, não Portugal, mas o mundo a isto pela segunda vez.
    Depois da farta refeição, recomenda-se um Rennie para matutar em quantas escolhas foram sugestões para continuarmos a salvaguardar a Alemanha, que se prepara para uma nova dose depois de nos permitir usar umas folhas de alface para um novo aeroporto.

  4. Tal & Qual says:

    Afinal és liberal e ,não sabias…

  5. Ana Fernandes says:

    Temos de construir um pais onde os nossos filhos possam ficar, e não é insistindo no socialismo, mais à esquerda ou mais à direita, que já teve 48 anos para mostrar o que vale e não nos tira da cepa torta…

    • Paulo Marques says:

      Mostrou? Porra, e nunca me chamaram para votar no conselho da direcção da empresa?
      Ah, não, espera, o socialismo onde os trabalhadores não só não mandam, como ficam mais precários todos os anos. Pois, desse não gosto, mas também não é socialismo. Pelo contrário, quem tem ganho tem sido ali o lado da Carla e da Ana, os resultados é que são uma chatice quando quem manda é quem tem mais força.

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