Já Chega ou querem com mais molho?

Ontem, o Chega fez uma manifestação nas ruas de Lisboa. Pelos vistos, só de fora de Lisboa, vieram uns 30 autocarros. A desculpa para a demonstração de força foi a história da ilegalização do partido. A realidade é outra: o Chega está a mostrar que a rua deixou de ser um exclusivo do PCP e do BE.

Ontem, para enorme surpresa minha, nas imagens que vi nas redes sociais, encontrei nas fotos vários conhecidos meus. Antigos colegas de escola no ciclo e de faculdade que marcaram presença na dita manifestação. Ainda estou sem palavras. Alguns deles que, nessa época, me diziam para eu não ser tão radical nas questões de futebol. Para eles, radical era discutir com paixão um golo, um erro de arbitragem, uma derrota do clube adversário. Estamos a falar de pessoas absolutamente normais e não de “xoninhas”. Estamos a falar de microempresários, trabalhadores por conta de outrem, funcionários públicos, profissionais liberais, professores, etc. Alguns deles vi, no passado, em acções de campanha do PS, do PSD e até do Bloco. Viu-os apoiar movimentos completamente opostos ao Chega. Como foi possível chegar até aqui?

Foi possível graças ao estado de podridão a que isto chegou. Quando a meritocracia é preterida a favor do cartão do partido certo ou o lobby que estiver na moda. Quando a educação se transformou num bem transacionável. Quando os casos de corrupção prescrevem. Quando o Estado é forte com os fracos e fraco com os fortes. Tudo isto somado e por junto são fermento para os Chega. E não se combatem com a ilegalização do Chega. Nem com o silenciar da sua voz. Basta combater o fermento. Dá é muito mais trabalho. Lutar por uma educação de qualidade, pela defesa da meritocracia, pela transparência na vida interna dos partidos, por uma justiça que funcione, pela reforma do sistema político português. Temos de perceber os motivos que levam pessoas absolutamente normais a ver no Chega a solução. Pessoas que não são racistas, que não são xenófobas, que não querem viver em ditadura mas que vão na cantiga dos Venturas. Percebendo o porquê é mais fácil encontrar as soluções. E, sejamos sérios, todos sabem o porquê, os porquês do crescimento do Chega. Dá é muito trabalho resolver como deve ser. Fácil é ilegalizar, proibir, calar. Só não é solução.

A corrupção não pode ser normalizada, escreveu hoje no Aventar o Renato, um artigo cuja leitura aconselho vivamente. Nem o Chega. O mesmo se pede para uma análise ao eleitorado do Chega. Porque devagar devagarinho, já estão a tomar conta da rua e daqui a pouco vamos passar da surpresa para o pânico e daí para o facto consumado. A grande dúvida é se com os actuais dirigentes políticos se consegue fazer o que é preciso ser feito. Não acredito.

 

(Foto de Mário Cruz/LUSA)

 

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    1) Como é que o Fernando conseguiu ver os seus conhecidos na manifestação, se (ao que vejo na fotografia que está no post) os manifestantes estavam mascarados? E se alguns desses conhecidos já não eram vistos pelo Fernando há muitos anos?

    2) O Chega pode ter manifestantes, mas tem muito pouca estrutura e muito pouca qualidade. As propostas que apresenta na Assembleia da República são de uma falta de qualidade confrangedora (foi-me dito por quem lá trabalha). Afora o André Ventura, não tem mais ninguém que se apresente como quadro do partido. É uma coisa unipessoal.

    • Fernando Moreira de Sá says:

      1) Publicaram nas suas páginas de facebook a sua presença na dita manifestação. Sim, uma parte deles, tirando o facebook, já não estou com eles há muito tempo – o facto de não viver em Portugal também ajuda.
      2) É verdade. Mas está a ter votos. Está a ter participação nas actividades. Teve o resultado que teve nas presidenciais. Está com os resultados que se vê nas sondagens (que vale o que vale)

    • JgMenos says:

      «…mas tem muito pouca estrutura…É uma coisa unipessoal.»

      De momento é uma vantagem, não exibe as quadrilhas que povoam outros partidos.
      É ver o afã com que se procura ligá-lo a este e àqueloutro para o igualar à pandilha partidária que nos explora.

  2. carlso says:

    E porque há pessoas que não são racistas nem são xenófobas, não é natural que o possam ser ou têm que ser o que outros quiserem?

  3. JgMenos says:

    Viva a Democracia!
    O Estado Novo não caiu pela maior qualidade dos adversários – pela maior parte uma cambada de idiotas e desertores/ traidores – mas porque não os deixou exibirem-se à luz do dia e não suscitou que houvesse gente na luta da informação e da rua.
    O Ventura faz o que é certo para sacudir esta asfixia abrilesca ainda dominante por quarenta e seis anos de demagogia e estupidez.

    • abaixoapadralhada says:

      “O Ventura faz o que é certo para sacudir esta asfixia abrilesca ainda dominante por quarenta e seis anos de demagogia e estupidez.”

      Muito bem Sa Lazarento

      Nada que nós já não soubessemos, mas agradecemos a confissão

    • Paulo Marques says:

      Se calhar porque ninguém acreditava na desinformação do querido líder, nem ela lhe punha comida na mesa e sapatos nos pés.

    • POIS! says:

      Pois realmente…

      O Venturoso Enviado a sacudir-se é um espetáculo.

      E consegue ficar com o pelo bem lustroso, não há dúvida!

      Completamente livre das carraças que teve de abrigar durante os seus longos anos de lanugem laranjona que lhe davam um tom de felpa bastante baço.

  4. ANTONIO CARDOSO says:

    O proprio artigo explica claramente como e que se chegou a este “estado de podridao”. O recente exemplo do branqueamento e legalizacao da corrupcao – mais um – foi a decisao de Ivo Rosa (a cereja no cimo do bolo). Por este caminhar, onde chegaremos?

    • Paulo Marques says:

      Nem é legal, nem branqueada, nem foi por Ivo Rosa. Mas a iliteracia é o que é.

      • Filipe Bastos says:

        Continue a largar postas crípticas do alto do seu cavalo sobre os reles mortais, que vai bem.

        São apologistas deste regime podre como o Paulo que quase me fazem desejar dez Venturas. Mas nem assim acordam.

        • Paulo Marques says:

          Não tem nada de críptico; a lei proíbe várias formas, hoje ainda mais e de forma mais clara do que a aplicável ao caso; nem Rosa deixou de deixar claro que é corrupto.
          É mais do que, por exemplo, o camarada Cameron passar pelos pingos da chuva da sua ligação a Lex Greensil. Só por exemplo.

        • Filipe Bastos says:

          Não falo da lei, falo de si: a maior parte dos seus posts parecem tweets para alguém que pensa exactamente como v. pensa, leu o mesmo que v. leu, tem as mesmas referências… quase telepatia.

          A brevidade é um dom, mas apenas quando é clara; v. está tão viciado na sua echo chamber que nem lhe ocorre que os outros não partilham dela; ou que as seus posts telegráficos são tão abstrusos como as leis que defende.

          De resto, continua a fazer de conta que algo na sórdida história do Trafulha 44 ou do bandalho Ivo se parece sequer vagamente com justiça. Não é preciso exemplos estrangeiros: neste esgoto que v. continua a branquear temos exemplos com fartura. O 44 é o fim da picada.

          • Paulo Marques says:

            Se o Bastos e demais carneiros têm orgulho em ser iliterados e manipulados a desejarem ter o que não querem para os outros, para depois serem eles a ficar sem nada, tenho mais que fazer com o meu latim.

          • Filipe Bastos says:

            “Se o Bastos e demais carneiros têm orgulho em ser iliterados e manipulados a desejarem ter o que não querem para os outros, para depois serem eles a ficar sem nada”…

            Vê o que digo? De que raio está a falar? Desejar ter o quê, ficar sem o quê? Devo adivinhar?

            Talvez isto o surpreenda, mas também outros leram Marx, Gramsci, Sartre ou Chomsky; há mais gente ‘literata’ no mundo. Não é só o Paulo.

            E não vale a pena aborrecer-se: às vezes gosto de lê-lo, outras menos, é normal. Mas é algo bizarro falar consigo porque 1) nunca explica o que quer; 2) nunca quer saber nada dos outros.

            Todos aqui temos a mania que sabemos tudo; mas o Paulo é especialista naquele tom ‘toma lá que já almoçaste’, de dono da verdade que larga umas postas em código e quem quiser que as decifre. Uma espécie de esfinge woke.

  5. Paulo Marques says:

    Ver um liberal usar teoria materialista é bonito. Porque, sim, era previsível há anos, quando há anos se instalou a narrativa, cá como no resto, de que só não temos, e cada vez não temos mais, porque o outro tem qualquer coisinha.
    Meia dúzia de casos são uma boa distracção para a aceitação de privilégios de empresas do bem a serem eficientes para os accionistas.

  6. Rui Naldinho says:

    Imaginarmos que o eleitorado do Chega se afeiçoou a André Ventura e ao seu discurso populista e demagógico, apenas pela degenerescência do nosso regime democrático, não cola. Ou se cola é com cuspo.
    O eleitorado do Chega sempre existiu. Não tinha é representação política sob a forma radical. E todos nós sabemos onde estava esse eleitorado. Não é necessário fazer nenhum desenho.
    Muitos deles também foram e são meus colegas de escola e profissão. Alguns frustrados, outros intempestivos, outros extremistas, sempre prontos a fazer justiça à lei da bala, desde que isso não interfira com o seu grupo familiar. Gostava de os ver defender a pena de morte dos seus filhos, netos ou irmãos, caso estes degenerassem em criminosos. Ou a castração química dos padres pedófilos. Ou retirar os ovários à mana galdéria, que faz abortos à la carte.
    Inferir que um qualquer néscio simpatizante do BE, PCP, PS e até mesmo de uma boa parte do PSD, fugiu para o Chega por desencanto com o regime vigente, é chamarmos atrasados mentais aos outros que não seguiram esse percurso.
    “Quando tens um feto deficiente, com forte probalidade de se tornar um monstro, ou abortas até às doze semanas, ou não o fazendo, adquirindo ele o estatuto de ser racional, mesmo com fortes limitações psico somáticas, só os podes combater no terreno da luta política.
    Os meus colegas que são do Chega, só me provaram até agora, que eu sem ser muito inteligente, ainda consigo ser menos néscio do que eles.

  7. Filipe Bastos says:

    Custo a entender a surpresa do Moreira de Sá sobre os conhecidos que andaram em campanhas de outros partidos: eram carneiros, continuam carneiros. Só mudaram de pastor.

    Os outros, bom, talvez seja desespero e frustração. O QAnon atraiu milhões de pessoas, incluindo europeus. Alguns saberão que é treta, mas não vêem alternativa. O resto é mais do mesmo.

    Ora o Ventura é muito menos extremo que o QAnon; e também aqui o resto é mais do mesmo. Que quer que façam? Que desistam, que amochem? Que emigrem? Que continuem a ir botar o botinho nas falsas alternativas de uma partidocracia podre?

    Há malta aqui que continua a não perceber: esta merda não serve. Este regime fede. Esta pseudo-democracia fede. Deitar fora o bebé com a água do banho? Qual bebé; qual banho. Isto é um esgoto.

    • Paulo Marques says:

      E ainda não criou o primeiro tiroteio em massa do país? Tá fraco.

    • Filipe Bastos says:

      Tiroteio? Disparate. Até seria engraçado imaginar o Breivik à solta no Paralamento; mas só com uma arma descarregada. Só para ver alguns deputedos cagarolas a esconderem-se atrás das mulheres, dos funcionários, do que estivesse à mão.

      Bombas e tiroteios em massa não escolhem vítimas: atingem canalhas e inocentes. Não queremos isso.

      Queremos que a canalha tenha medo. Para isso, deve sentir-se directa e pessoalmente visada. Não uma vaga ameaça a que logo chamaria ‘terrorismo’; algo concreto e deliberado.

      É malhar na canalha. Ir à procura dela, apertar com ela. Há uns anos alguém confrontou o Relvas, salvo erro no Brasil: disse-lhe umas verdades, filmou e meteu no YT.

      Foi muito, muito leve. É daí para baixo.

      • Paulo Marques says:

        Pois, como culpado do crime de pensamento de defender a canalha, dispenso. Até falava na revolução francesa, na revolução cultural, ou muitos outros medos, mas ainda estava a ser críptico.

  8. JgMenos says:

    Se há factor resiliente é a cretinice da esquerdalhada!
    Nada é resultado das suas acções, tudo são origens obscuras de obscura e néscia gente!
    Ainda recentemente a cretinagem alçou com estrépito duas das suas velhas bandeiras: os horrores do Império e do racismo da nação portuguesa.
    Lutamos em África 13 anos e em todo o tempo progrediu Portugal metropolitano e ultramarino.
    Veio a independência, e para o Ultramar prosseguiu a guerra em modelo devastador e o empobrecimento só poupou umas elites predadoras; por cá salvou-nos as dívidas e as esmolas.
    Mas que cheios de vaidade estão os coirões!!!!

    • Paulo Marques says:

      O progresso foi tanto que caiu de podre.

    • POIS! says:

      Pois tá bem, mas interrogo-me sobre…

      O que teria acontecido para a malta ter assim, sem mais, abandonado o paraíso salazamarcelesco em que se encontrava, para preferir inferno que lhe sucedeu?

      Pois talvez o progresso tenha sido tal que começou tudo a ficar enjoado. Os primeiros a dar por isso partiram para França, em gozo de merecidas férias enchendo profusamente a cadeia de hotéis “Chez Bidonville”.

      Depois veio a malta da tropa que estava cansada de não fazer nada. Como todos sabemos a guerra não existia, era um aborrecimento, a ponto de andar tudo bêbado a acelerar por aquelas picadas afora sujeitos a espatifarem-se contra um elefante ou a morrer afogados debaixo de uma girafa com problemas de incontinência enquanto dormiam a sesta.

      Temos de compreender porque se revoltaram. Aquilo não eram mortes que se apresentem!

  9. Daniel says:

    O fenómeno da extrema-direita explica-se com palermas iludidos à procura de milagres ou de soluções fáceis para problemas difíceis!…
    Os “indignados” ignorantes são os primeiros a juntar-se aos rebanhos das extremas-direitas, e que depois dão o resultado que se viu, por exemplo, no Capitólio!

    O partido CHEGA (de Ventura) deve continuar a existir porque, mesmo que o partido acabe, as pessoas que o suportam vão continuar por aí (embora muitos apoiantes estejam enganados, outros são mesmo assim e não vão desaparecer com o desaparecimento do partido/seita) e assim é mais fácil para o resto da população ficar “vacinada” contra o vírus do populismo e dos vigaristas/charlatões “enviados por Deus” para salvar a nação!…

    • JgMenos says:

      É a vantagem da Democracia, ver-se o que estica e o que encolhe.
      O jogo só está viciado num ponto: os fdp que endividam o país para comprar votos e apascentar a sua quadrilha, dando de barato que pedir esmola na Europa é o novo Império Chulo, orgulho da esquerdalhada.

      • POIS! says:

        Pois, mas o problema pode ser…

        O que teriam de fazer os generosos esmoleiros Imperadores Chulos para rentabilizar os seus generosos fundos proveito da inteligente alavancagem permanente se não tivessem este joginho à mão.

      • Paulo Marques says:

        Os mesmos fdp que acertam as metas de Bruxelas, embora os efeitos internos sejam iguais aos do querido líder? É quase como se a despesa do estado fosse lucro da economia privada e vice-versa, ou lá o quê é.
        Mas não se preocupe, vai ver que podemos salvar o DB outra vez com dinheiro emprestado que nem pára cá; é quase como se fosse infinito e seja para isso que esta moeda existe. Porque, afinal, os seus arquitectos sabiam que as crises internas eram impossíveis cumprindo as regras no orçamento que é aprovado pelos DDT todos os anos.

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