João Cotrim de Figueiredo: E depois do Adeus

(João Cotrim de Figueiredo, Presidente da Iniciativa Liberal e deputado à Assembleia da República)

A revolução estava planeada. As tropas, de prevenção, aguardavam a senha para dar execução ao plano. Na verdade, duas senhas que tinham de chegar, simultânea e discretamente às várias unidades conjuradas. Em 1974, só através de uma rádio se poderia fazê-lo.

Foi assim que, às 22:55h do dia 24 de Abril de 1974, quem estava sintonizado na frequência da estação Emissores Associados de Lisboa pôde ouvir, sabendo-o ou não, a primeira senha do movimento militar que haveria de derrubar a ditadura no dia seguinte. Paulo de Carvalho cantava “E depois do Adeus” e Portugal nunca mais seria o mesmo.

Quis saber quem sou/

O que faço aqui/

Quem me abandonou/

De quem me esqueci

(Letra: José Niza. Música: José Calvário)

 

A canção devia ser, por esses dias, das mais ouvidas na rádio. Menos de um mês antes tinha representado Portugal no Festival da Eurovisão em Brighton. Ficou em último lugar, sem surpresa. Mas a sua popularidade entre portas continuava alta pelo que ninguém estranharia, nem mesmo a polícia política, ouvi-la na rádio. Era uma canção popular e sem conotações políticas. Foi escolhida como primeira senha da revolução exatamente por isso: para passar desapercebida a todos menos aos capitães de Abril.

No entanto, como tantas vezes acontece na nossa incessante busca de significado, é possível encontrar algo de premonitório naqueles versos. 47 anos depois de dizermos adeus à ditadura e olá à liberdade, é altura de perguntar se, como País, sabemos quem somos, o que fazemos aqui e, sobretudo, de quem nos esquecemos.

Portugal é hoje uma democracia, mas não perdeu a reverência hierárquica, nem a sua matriz corporativa. Portugal integrou-se na Europa, mas não assumiu a herança europeia de ser o berço da ideia de progresso assente nas liberdades individuais. Portugal institucionalizou o Estado, estabilizou e envelheceu.

Portugal enterrou o seu passado e esqueceu o seu futuro.

Esqueceu-se de criar oportunidades para os que vierem a seguir e insiste em não deixar que essas novas gerações criem oportunidades para si próprios. Esqueceu-se que a liberdade nunca está garantida e que, se não for defendida a cada momento, é à estagnação e ao bafio que nos condena.

A pandemia chegou e há-de partir, mas as evidências da fragilidade do nosso sistema ficam. Foi demasiado fácil convencer os portugueses a prescindirem das suas liberdades. Foi demasiado reverente a atitude perante a autoridade. Foi demasiado frequente a troca da liberdade pela segurança.

Por isso, os liberais sabem que é importante, no momento em que festejam com alegria mais este 25 de Abril, afirmar alto e bom som, que o período que se segue à pandemia é uma oportunidade única para mudar. Para valorizar mais a liberdade que tanto custou a conquistar, para soltar as amarras que nos prendem ao imobilismo conformista. E para não nos esquecermos das gerações de portugueses que se seguem.

Depois do adeus ao passado, um olá a um futuro mais livre.

 

Comments

  1. estevesayres says:

    Esta será a melhor altura de todos os traidores se juntarem.. E já agora não se esqueçam do partido neofascista “Chega”… Que a comunicação social e não só, tantos gosta!


  2. Enchem a boca com as liberdades, mas não são capazes de se opor contra o uso de máscaras generalizado pela população e fora do contexto hospitalar.

    • Paulo Marques says:

      Nem pela obrigação de usar cinto de segurança e não beber a conduzir, nem pela liberdade de andar nú na rua, nem pela liberdade de estacionar em cima do passeio (bem, o Moedinhas anda a pensar nisso), nem pela liberdade de usar o fio de electricidade do vizinho, nem pela liberdade de bloquear telemóveis na propriedade privada… gandas liberais da treta.

      • Carlos Almeida says:

        Qualquer dia eles começam a apagar os teus posts aqui no Aventar, como têm feito a quem não alinha nas sua ideias. Conheço a quem ja fizeram isso.
        A mim não fazem porque cada vez leio menos e escrevo muito menos neste Blog, controlado por quem sabemos

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