XII Convenção do Bloco de Esquerda: Justiça na Resposta à Crise

Fotografia: LUSA

Realizou-se este fim-de-semana, em Matosinhos, a XII Convenção do Bloco de Esquerda.

Depois de quatro anos de “geringonça” e de acordos firmados à Esquerda com o Governo do Partido Socialista e depois de mais quase quatro anos de oposição a um Governo teimosa e prepotentemente minoritário do mesmo partido, o Bloco de Esquerda reuniu-se a Norte para aferir o pulso aos seus militantes e à sua direccção. Catarina Martins, apesar de algo contestada interiormente, venceu e parte assim para pelo menos mais dois anos à frente do partido.

Mas vamos ao fundo da questão. Depois de quatro anos em que o objectivo foi, em conjunto com o PCP e com o PS a governar, reverter a maioria das medidas da Troika, o PS partiu para as eleições de 2019 a apostar em dois trunfos: um, o primeiro, o da maioria absoluta; esperança acalentada até ao fim, tratada como tabu publicamente, mas objectivo premente nas hostes internas; o outro, menos significante para António Costa e Cª, a da continuação dos acordos à Esquerda. Contudo, findado o acto eleitoral de 2019, decidiu o PS governar sozinho, minoritariamente, julgando que podia ceder à Esquerda e à Direita quando melhor lhe conviesse, arregimentando, assim, votos de um lado e do outro, e secando a oposição. Podemos dizer, ainda assim, e tendo por base as sondagens que têm vindo a público, que a estratégia do Partido Socialista não tem saído, de todo, furada – mas, neste ponto em concreto, teríamos base para outro texto.

Fazendo jogo duplo, julgou o PS que, chegada a hora da votação do Orçamento de Estado, tudo se decidiria sem sobressalto. Enganou-se. Para o OE’21, o Bloco de Esquerda insistiu num x número de medidas – que, diga-se de passagem, nem eram todas quantas o partido idealizaria -, entre as quais o reforço do SNS (através da contratação de mais profissionais, sejam médicos, auxiliares ou enfermeiros), a reversão das medidas do Governo PSD/CDS, impostas pela Troika, no que diz respeito à Lei Laboral, e um aumento da rede de protecção social, para prevenir o desemprego e ser possível responder ao aumento anunciado do mesmo, face à situação pandémica. A nenhuma destas propostas atendeu o PS, preferindo, todavia, ceder noutras matérias propostas pelo PCP e contar com a abstenção dos comunistas (e do PAN). Teve azar, o Partido Socialista, pois no Bloco de Esquerda nunca nos contentamos com pouco. Mesmo quando o contexto é mais apertado e complicado, sabemos é que é possível ir mais além e conceder mais a quem trabalha. Ao contrário do PS, não está o Bloco de Esquerda, (bem ou mal, dependendo do espectro político e dos valores ideológicos de cada um) preso às imposições neo-liberais da Comunidade Internacional, encabeçadas pela União Europeia e pelos Estados Unidos da América. Está, isso sim, interessado o BE em dar mais condições a quem trabalha, a quem está à margem, a quem não vê reconhecidos os seus direitos nas áreas do trabalho, da educação, da saúde ou da segurança social. E isso basta-nos para sabermos dizer “não” às pretensões do PS de colonizar a Esquerda.

O chumbo ao OE’21 não chocou a quem esteve mais atento àquilo que eram as intenções do Bloco para o dito cujo. Uns, aqueles que, supostamente, deveriam ser os nossos parceiros na alternativa à Esquerda a António Costa, preferiram fechar os olhos e alinhar com os social-democratas do PS. Esses, que outrora se diziam os maiores inimigos da neo-liberalização do centro em Portugal, os ortodoxos irredutíveis que, “nem que a vaca tussa” ficariam sozinhos a suportar um Governo do PS, eram, agora, afinal, os responsáveis que não deixariam “o país a viver em duodécimos”, mas que não pensaram que o PS, como Governo, sem ser capaz de fazer passar o primeiro diploma, teria de o reformular. A idade pesa, afecta a memória e amansa o Velho do Restelo. O partido de António Costa, esse, acusou o BE de se posicionar de plantão junto da Direita, fazendo chumbar o OE. O argumento até seria certeiro, sabendo que estamos na base do debate político e que esse pode ser dissimulado sem que ninguém, na opinião pública, realmente o questione. Mas, mesmo assim, há quem saiba fazer a simples conta de que 2+2 não são 5, e que aquilo que era exigido pelo BE para fazer passar o Orçamento, não era o mesmo que era exigido pela Direita (e nunca o seria, ou não se tratassem de espectros distintos). Ou seja: convergência Bloco-Direita no chumbo, afastamento total entre Bloco e Direita nas razões pela qual se chumbou o Orçamento.

O tempo viria a dar razão ao BE. Foi necessário investir nos serviços públicos, para que estes não ficassem, ainda mais, corroídos, e já admite, agora, o PS, ter de reforçar os apoios sociais, apesar da habitual prepotência de não aceitar nem à primeira, nem à segunda (e nem aí Marcelo Rebelo de Sousa serviu de muleta).

De atrelado, chegaram, em 2020, as eleições presidenciais. E este é um ponto chave para chegarmos ao que realmente é o assunto deste texto, a Convenção do BE.

Marisa Matias foi a escolhida pelo partido para as eleições à Presidência da República. E sublinho “escolhida”. Marisa Matias foi um nome imposto pelas directrizes do Bloco. Não foi proposto, com outros nomes, a uma votação. Não houve votação. Foi Marisa Matias e ponto final. Parágrafo. E tudo culminou num resultado desastroso. Segundo se diz no seio do partido, é estimado que cerca de 3 em cada 4 militantes não respeitaram a vontade da direcção, e, como tal, não votaram em Marisa Matias. Por mim falando, e mesmo discordando da forma como foi decidido o nome, votei em Marisa Matias. Mas não votei pelo Bloco. Votei em Marisa Matias; porque não a quis deixar ainda mais sozinha, porque lhe reconheço a capacidade, evidenciada pelo trabalho feito no Parlamento Europeu, e porque, apesar de tudo, os nossos serão sempre os nossos, e Marisa é das minhas. Mas nem a candidata parecia à vontade na campanha e durante todo o processo eleitoral. Fica a dúvida se, tal como imposta aos militantes, foi imposto a Marisa Matias que se candidatasse pela segunda vez às presidenciais.

A juntar a isto, e porque muitos, internamente, também não entenderam o chumbo ao OE’21, há um certo clima de contestação à direcção do BE, encabeçada por Catarina Martins, com críticas visando a centralização do partido num pólo (Lisboa) mas, também, críticas ao modo como o partido se foi moderando e afastando da radicalização, tentando centrar-se à volta do PS e de um possível acordo de governação com o mesmo. Tentativas de silenciamento, acusações que visam a vida privada de militantes e deputados, facções internas e algumas desvinculações graças a desentendimentos no seio dos Jovens do Bloco. Tudo isto serviu, nos últimos meses, para agitar as hostes bloquistas e gerar contestação em torno da coordenação.

Mas vamos à Convenção. Apresentaram-se a votação cinco moções: A (da actual liderança), E (da tendêndia Convergência), Q, C e N. No fim, resultou da vontade dos militantes que a moção A elegesse 233 delegados, a moção E 66 delegados, a Q 9 delegados, a C 8 outros lugares e a N outros 5.

Durante o fim-de-semana, assistimos, grosso modo, a críticas dirigidas ao PS, nomeadamente à Legislatura 2019-2023, mas também a críticas internas, vindas das outras moções. Ficou a saber a direcção anterior que, agora, terá de contar com os novos eleitos para, pelo menos, haver uma mudança na atitude, não só relativamente ao PS, mas também face à própria Esquerda e naquilo que diferencia BE de PCP.

As bandeiras serão as mesmas: a defesa do SNS, da Escola Pública, dos trabalhadores, das questões raciais e da imigração, dos LGBTQI+, da habitação. Resta saber qual será a postura nos próximos tempos.

Catarina Martins sabe que terá de ser capaz de unir as tropas internamente (mesmo que o partido seja, em parte, anti-militarista), dar mais liberdade aos militantes para poderem, também, ser voz activa e, no futuro, tomar as rédeas do partido, e descentralizar o poder em torno da concelhia de Lisboa, alargando-o aos outros pontos do país onde o BE se encontra largamente representado, em termos de militância (especialmente no Norte Litoral e Algarve), sendo capaz de atrair o eleitorado do Interior (que fugiu, em larga escala, para a extrema-direita).

Os próximos tempos serão duros e, por conseguinte, de combate. A ameaça da extrema-direita continua presente, com os proto-fascistas do CHEGA a ameaçarem o terceiro lugar do BE alcançado em 2019. É, por isso, primordial, saber chegar aos descontentes, saber falar de frente para o País e saber reagir aos ataques quer da Direita, quer da extrema-direita, sem nunca se descaracterizar ou entrar no jogo sujo da recém-quádrupla Rio/Ventura/Cotrim/Chicão. Por outro lado, é preciso saber fazer, de forma inteligente, oposição ao PS, sem que essa oposição entre na ferocidade que faça os socialista repelir a presença do Bloco em futuros acordos de governação.

A Catarina Martins pede-se, sobretudo, sobriedade e capacidade de liderança. Daqui a 2 anos tudo pode ser diferente e, daqui a 4, podemos ter outras caras a representar o Bloco de Esquerda. Até lá, contemos com o mesmo Bloco, combativo e capaz, que não se prostra nem nunca deixará de ir à luta por aquilo em que acredita, pela justiça face a cada crise.

O Bloco de Esquerda é jovem, mas sabe ao que veio; é jovem, mas sabe ao que vai.

O Bloco de Esquerda é jovem, mas veio para ficar.

Comments


  1. Lamentavelmente, o congresso e a direcção não deram nenhuma resposta credível à maior oposição interna de sempre. Parece que os donos do partido decidiram mais uma vez varrer tudo para debaixo do tapete, tal como varreram o último desastre eleitoral. Esperam conseguir o quê, com isso? Têm medo?
    Tal atitude só poderá dar ainda mais força à Convergência.

    • João L Maio says:

      joseliveira,

      Se assim for, será normal. A democracia interna assim o exige. Se a Convergência ganhar força, por alguma razão será e, aí, ilacções terão de ser tiradas, de uma maneira ou de outra.

      O que também é inegável, é que a esmagadora maioria dos que se apresentaram para exercer o direito de voto enquanto militantes, escolherem a continuidade. Tal como eu. E é um direito que assim, certo?

      Mas não nego: são necessárias mudanças internas, maior poder local às concelhias e outra forma de comunicar, que não o já gasto é velho truque da Esquerda moralmente superior que, muitas vezes, se recusa a ajoelhar para falar com quem necessita ser ouvido.

      A ver vamos. Mas temos futuro, apesar de tudo. Teremos sempre futuro.

  2. Filipe Bastos says:

    O Bloco de Esquerda é jovem, mas sabe ao que veio; é jovem, mas sabe ao que vai.

    O João Maio é também jovem, não é? Julgo que tem, como o Chico Figueiredo, praí a idade do BE?

    O problema de se pertencer a um partido é a submissão a esse partido; a parcialidade; a perda de isenção e de independência. Como diz o João, “os nossos serão sempre os nossos”. Mas não são nossos; isso é uma ilusão.

    Mesmo que o propósito inicial fosse bom, os partidos, enquanto entidades que visam o poder, ganham vida própria: deixam de ser colectivos democráticos para se tornarem coutadas dos seus líderes, tachistas e senadores; deixam de priorizar o bem comum para priorizar o sucesso do partido.

    Pior, defender qualquer partido é pactuar com esta partidocracia podre. Os partidos são contra uma democracia mais directa, pois esta tirar-lhes-á poder. Todos agem e falam como se tivessem toda a razão; como se o mundo não passasse sem eles.

    • João L. Maio says:

      Sou um pouco mais velho do que o BE, não muito, mas um pouco. Tenho pelo menos mais 3 anos que o partido.

      Quanto ao resto que aí diz, não o posso rebater, porque faço parte de um partido. Discordo, mas não contesto, é a sua visão. Acho natural, sendo parte de um partido, que se seja parcial e dependente. Mas nem tudo é preto, nem tudo é branco; que ninguém ponha em causa o meu pensamento e a sua liberdade, seja eu portista, bloquista, vilacondense ou qualquer outra entidade que me seja querida. Eu gosto muito dos meus pais, mas não sou os meus pais. Há diferenças.

      Mas já pensou no seguinte?: se não existissem partidos, o que criticaria o Filipe Bastos no Aventar? Provavelmente não existiria Aventar.

    • Filipe Bastos says:

      …seja eu portista, bloquista, vilacondense…

      É normal, enquanto animais sociais, querermos sentir-nos parte de algo. À medida que os anos passam vamos-nos (ou não) distanciando dessa necessidade de identificação e grupos de pertença: vemo-los cada vez mais como arbitrários – o local onde nascemos, a família que tivemos, o clube ou a religião com que crescemos, as coisas de que calhámos a gostar – e menos como parte intrínseca de nós.

      Se tem já essa noção, com essa idade, tanto melhor.

      Se não houvesse partidos discutíamos o que realmente importa, João: ideias. Discute-se demasiada politiquice e pouca política. Aquilo a que chamamos política – aqui, nos media, em todo o lado – é uma espécie de futebol rasca armado em coisa séria.

      • Rui Naldinho says:

        “O problema de se pertencer a um partido é a submissão a esse partido; a parcialidade; a perda de isenção e de independência. ”

        Qual é a solução, Bastos?
        Acabar com os Partidos? Ou prender os militantes?
        Sem Partidos não há democracia. Essa coisa da democracia direta, do qual você falava há dias só existe na ficção política. Na prática é irrealizável. Ou melhor, a bagunçada.

        O facto de se pertencer a um partido retira idoneidade e equidistância à pessoa?
        Depende. Se o partido estiver no Poder com uma maioria absoluta até era capaz de concordar consigo. Na oposição, ou mesmo no Poder com uma maioria relativa, já sou calar de ter muitas dúvidas.
        No BE a Catarina Martins ganhou com 2/3 dos mandatos. Quer isto dizer que tem cerca de 1/3 dos militantes contra a sua estratégia. Ou pelo menos com dúvidas. Acha isto unanimismo?
        É verdade que nos partidos militam muitos oportunistas. Muitos bajuladores. E alguns vira casacas. Mas daí inferir que se perde autonomia intelectual e se torna submisso, é um raciocínio abusivo. Há lá de tudo. Como há no futebol. Na Igreja. Nas Forças Armadas. Na Justiça.
        O que não há de facto é uma verdadeira vigilância democrática sobre os actos de decisão política e administrativa dos actos de governação, muito por culpa do Centrão político, “roubam à vez”, que estabeleceu regras legislativas de tal forma distorcidas, manietando tudo o que lhes faz frente. Depois acontece o que se viu na banca, nas PPP, nos fundos comunitários, onde campeia a irresponsabilidade, a fuga fiscal, o tráfico de influências e por fim a corrupção.
        Portugal necessita sim, de estar dotado de órgãos de fiscalização com meios humanos, técnicos, e legislativos adequados à sua função. E é aí que está a nossa doença crónica. Incapacidade de barra o caminho aos trafulhas. Ou mete-los na prisão quando são apanhados.
        Quanto ao resto, não estamos nem pior nem melhor que os outros Estados.
        A Alemanha já vai na quarta legislatura sem uma maioria absoluta. Uma grande coligação entre os dois maiores partidos. Um de direita e o outro de centro esquerda. Bem ou mal têm-se entendido.
        Em Portugal, se PS e PSD não conseguem alcançar uma maioria absoluta, passam a vida a lamentar-se porque querem carta branca para todo o tipo de abusos de Poder.
        Foi isso que o PSD teve, com aquele sucedâneo chamado CDS, e viu-se no que deu. É isso que o PS agora procura a todo o custo.
        Nada os impede de governar. Não podem é governar como se os outros não existissem.

        • Filipe Bastos says:

          “Sem Partidos não há democracia.”

          Sim, essa é uma das falácias que nos impingem. Outra é a “não há economia sem Banca (privada)”. Ambas treta.

          Pertencer a um partido não retira idoneidade, mas retira certamente equidistância. Os partidos são como tribos.

          Mesmo boas intenções iniciais acabam numa competição onde a prioridade passa a ser o partido ganhar, não o bem comum. E quanto mais os membros se dedicam ao partido mais isenção perdem; e mais dependem do partido, e dos cargos que este obtenha, até porque vão abdicando da sua vida profissional. Depois é uma bola de neve.

          Veja como o PAN: só boas intenções, defender os animais e tal. Mal elegeram deputedos, o fundador saiu enojado e o partido tornou-se mais um viveiro de chulos que fazem acordos sujos com o Partido da Sucata.

          Tem razão quanto a precisarmos de mais fiscalização: mas não pode vir desta canalha pulhítica, ou será apenas mais do mesmo. E não quero esta canalha a governar. Não quero esta canalha a decidir por mim.

          Caramba, Naldinho, 40 e tal anos não chegam? Que raio de medo tem de uma democracia mais directa?

      • Paulo Marques says:

        Os Indignados deram no Podemos, o Fórum Manifesto deu o Livre, em França o Insubmissos, e por aí adiante. Não há luta sem liderança.
        E, sim, todos fizeram a sua merda, a questão é que continuam unidos e orgânicos (e, portanto, em processo de mudança, pelo menos ainda), e com poder. Outros morrem à nascença, ou são cooptados, ou já nem se ouve falar sem ir à procura.

  3. luis barreiro says:

    Muito photoshop para as gordas aparecerem magras