António Costa, o vencedor das Autárquicas 2021

Confesso que estou surpreendido com alguns comentários e comentadores que falam numa grande derrota do PS. E se é verdade que as derrotas de Coimbra e Funchal eram expectáveis, a queda de Medina é a grande surpresa da noite e um ponto importante para o PSD, que regressa ao poder na capital. Mas, sejamos sérios: controlar a capital vale por isso mesmo, pelo controle da capital, mas não equivale a vencer as eleições. E o controle que Moedas exercerá sobre a capital, convenhamos, tem muito que se lhe diga, na medida em que a sua coligação tem 7 vereadores, o PS outros 7, o PCP tem 2 e o BE tem 1. O mesmo se passará na Assembleia Municipal, onde Moedas não tem maioria e a direita tem menos quatro representantes do que a esquerda. Pelo que Moedas tem duas opções: ou negoceia à esquerda, ou não governará.

O que ganha eleições autárquicas, como em anos anteriores, é a conquista de mais câmaras municipais e freguesias. O PS conquistou 148, o PSD, sozinho ou nas múltiplas coligações em que se envolveu (e aqui vou incluir as câmaras do CDS, para dar volume à coisa) não chega às 120. Serão 119, se não estou em erro, menos 29 que o PS. Significa isto, portanto, que o PS mantém o controle sobre a Associação Nacional de Municípios.

Olhando para os concelhos mais populosos, notamos que, entre os 20 maiores, o PS controla 11, o PSD e as suas coligações controlam 6, sendo que as três restantes são do PCP e dos independentes Rui Moreira e Isaltino Morais. De pouco adianta acenar com uma vitória em Portalegre, que, sendo capital de distrito, tem menos população e importância eleitoral que o mais jovem concelho do país, a Trofa, na ultraperiferia da AM do Porto. Acresce a isto que o PS mantém a maioria nas AM do Porto e de Lisboa.

Olhando para os distritos, o PS controla-os todos com excepção de Leiria e Guarda, e da Região Autónoma da Madeira. Perdeu Leiria para o PSD, ganhou Aveiro ao PSD e ainda destronou o PCP em Setúbal. Ou seja, controla mais um distrito do que controlava desde 2017.

António Costa, consegue aqui mais uma vitória, apesar da derrota em Lisboa e da perda de algumas autarquias, o que era expectável, após um resultado de 2017, que foi o maior alcançado por um partido em eleições autárquicas. O limite fora atingido, dali só poderia descer. Mas mantém o controle do mapa autárquico, a seis autarquias de uma maioria absoluta de concelhos, e adia a revolução no PSD, que mantém Rui Rio na liderança da oposição, empurra Rangel borda fora, deixa os passistas em suspenso e Costa sem oposição real de uma direita mais preocupada em saber quem manda na própria direita do que em disputar o país com a esquerda.

Reformulando o que escrevi na noit eleitoral: são todos contra todos e no fim ganha o António Costa. Melhor só mesmo o Pedro Nuno Santos, que sai reforçadíssimo da noite de ontem, mas esse deixarei para outra posta.

Comments

  1. J. M. Freitas says:

    Os analistas espantam-me. Começaram por dizer que Moedas era mais um homem de gabinete do que de mobilizar eleitores ou de fazer grandes discursos. E é verdade. Diziam que não conseguia mais votos do que os do PSD e Assunção Cristas somados. E é verdade, conseguiu de facto mais uns 500 votos. Que não tinha ideias para Lisboa. Era verdade.
    Agora promoveram-no a grande vitorioso o que não é verdade. Foi Medina que deixou fugir votos e baixou das projecções para um pouco abaixo do que Moedas valia. Não foi Moedas que ultrapassou Medina.
    Graças à Lei que temos, Moedas será Presidente das Câmara. Mas sem poderes devido a ter menos vereadores do que a Esquerda.
    Se a Lei fosse diferente, Medina seria o Presidente.
    Atenção. Não estou a afirmar que Medina é melhor que Moedas. Estou somente a tentar (digo, a tentar) fazer uma análise objectiva (na medida do possível) do que se passou. Quem deu a vitória a Moedas e o transformou num grande tribuno foram os media.
    Penso que Moedas vai continuar a ser o que é: homem capaz de gabinete, homem incapaz para mobilizar apoiantes. O modo como falava na campanha era confrangedor.

    • Paulo Marques says:

      Capaz de gabinete ou capacho no gabinete? Para bem e para o mal, não é Costa nem Rio, e os caciques sabem-la toda bem melhor que ele.


  2. Onde é que o PS destronou o PCP no distrito de Setúbal?

    • João L Maio says:

      Aqui:

      PS. 36.08%
      PCP‑PEV. 31.86%

      • Victor Nogueira says:

        Mas outra leitura pode ser feita – PS – 6 autarquias, PCP-PEV – 7 autarquias, sem esquecer que presumivelmente no Barreiro, Loures e Almada o PS tenha benefiiado do voto útil …. da direita.

        PARTIDOS
        VOTOS
        VOTANTES
        PRESIDENTES
        MAIORIAS
        ABSOLUTAS
        CONCELHOS
        CONCORREU
        MANDATOS
        PS
        36.08% 122.863 6 3 13 50
        PCP-PEV
        31.86% 108.497 7 3 13 44

  3. Victor Nogueira says:

    No 1º parágrafo, onde está Medina não deveria estar …. Moedas, na frase «Pelo que Medina tem duas opções: ou negoceia à esquerda, ou não governará.»

  4. Luís Lavoura says:

    o PSD […] regressa ao poder na capital

    É uma vitória de Pirro para o PSD. Porque, com a minoria de vereadores que tem, dificilmente ou de forma nenhuma conseguirá exercer qualquer poder efetivo. Terá que se aliar a um partido de esquerda (quiçá o PCP) e, na prática, ficará de mãos atadas e não poderá implementar o seu programa (se é que àquilo se pode chamar programa). Para todos os efeitos, a Câmara de Lisboa ficará em modo de gestão durante este mandato todo.

  5. Rui Naldinho says:

    Em termos aritméticos António Costa é o vencedor.
    Em termos psicológicos ficou com um ganda melão 🍈 .
    Imagino que lhe palpitasse perder Coimbra, mas nunca lhe passou pala cabeça perder Lisboa.
    Para ser sincero, fiquei satisfeito pelo resultado, não tanto porque acredite em Moedas, longe disso, mas porque acho António Costa cada vez mais parecido com um contorcionista, cheio truques e malabarismos, e Medina um verdadeiro demagogo.
    Medina e Moedas lá bem no fundo não são assim tão diferentes um do outro. Ambos filhos de ex comunistas, marimbaram-se e bem para a revolução socialista dos papás, mas em vez de pararem a meio, o que seria o mais racional, não, aceleraram a fundo com o intuito de vingar neste mundo liberal, em proveito próprio, variando apenas no discurso e na narrativa das justificações.
    Não acredito que estejam ali minimamente preocupados com os Lisboetas, nunca estiveram, estão sim preocupados com os negócios imobiliários, por exemplo, que se geram em Lisboa e à volta desta, dos quais a capital é o catalisador financeiro.
    Com excepção de Jorge Sampaio que tinha uma ideia minimamente consistente para a capital, todos os ex Predidentes de Câmara, foram sempre, nas sempre, agentes imobiliários disfarçados de edis.
    O Turismo e os Vistos Gold têm sido nos últimos anos um verdadeiro maná para esta gente e seus acólitos.

  6. Filipe Bastos says:

    As fatais análises pulhítico-futeboleiras: quem ganhou, quem perdeu. Taças e chicotadas psicológicas. A malta adora isto. Mas que tem isto a ver com política? E com democracia?

    Os partidos são meros gangues de acesso ao poder e ao pote. Não há qualquer accountability. Os programas eleitorais são fantasias vagas e demagógicas a que ninguém liga, a começar por eles. Nada é discutido, nada é cumprido. Política, isto?

    Os cidadãos, os que ainda votam, limitam-se a rodar o pote, a teta e o tacho. Ora mamas tu, ora mama ele. Não fazem a menor ideia do que os eleitos farão, não têm como os influenciar, quanto mais auditar ou responsabilizar. Democracia, isto?

    Mas sim, podemos discutir a bola. Quem ganhou, quem perdeu. E depois queixamo-nos. Queixamo-nos muito.

    • Paulo Marques says:

      Tem quase razão, tem muito pouco a ver; afinal, o que muda, e sem ser só em Lisboa?
      Já quando a fiscalizar e auditar, as audiências ainda são abertas; também nunca fui, mas poder mais acessível não há.

    • Filipe Bastos says:

      as audiências ainda são abertas… poder mais acessível não há.

      Acessível como? Que poder tem o cidadão e contribuinte? Como pode participar das decisões, auditar – ou reverter – o que foi decidido em seu nome, ou responsabilizar quem decidiu?

      Que político português se justifica perante os cidadãos, quanto mais pedir-lhes validação democrática para seja o que for, além de um cheque em branco de 4 em 4 anos?

      Em que raio de democracia um autarca ou um governo eleito é rejeitado por 83% dos cidadãos? E metade nem vota? E quem vota nada decide além da cor do tacho?

      • Paulo Marques says:

        Vai lá e faz perguntas, toma notas, divulga e organiza para exigir diferente. Depois responsabiliza passados 4 anos, porque o país não pode parar à espera que os Filipes encontrem e contactem um comité de peritos para lhes perguntar.

  7. J. M. Freitas says:

    “Em que raio de democracia um autarca ou um governo eleito é rejeitado por 83% dos cidadãos?”
    As abstenções e falta ao voto contam-se como rejeições? Foi assim em 1933 mas agora não é bem assim.
    Nas outras democracias como é quando a abstenção é alta? Não é como cá?
    “E metade nem vota?”
    É porque não quer. Ninguém é obrigado a não votar.
    “E quem vota nada decide além da cor do tacho?””
    Não é bem assim.
    E não há dúvida de que um só cidadão tem muito pouco poder uma vez que é só um entre milhões. Como ampliar o poder de um cidadão em detrimento do poder dos outros?

  8. Filipe Bastos says:

    As abstenções e falta ao voto contam-se como rejeições?

    Havia de contá-las como aprovações? Este regime está podre, mas o voto é realmente livre: só não vota quem não quer. Se após meses a dizerem-lhe para votar alguém não vota, então não quer nenhuma das opções. Rejeita-as. Não lhe merecem o voto.

    Nas outras democracias como é quando a abstenção é alta?

    É igual. O caso português é bastante sujo e corrupto, para um país europeu, mas a democracia representativa excedeu o seu tempo e utilidade em todo o lado. Sempre foi uma espécie de monarquia 2.0, uma ínfima minoria a decidir por todos.

    Metade nem vota porque não quer.

    Exactamente. E muito bem.

    “E quem vota nada decide além da cor do tacho.” Não é bem assim.

    Ah, não? Que decidiu o eleitor do Moedas, do Merdina, do Isaltino, do Costa ou do Rio? Que influência concreta tem o seu voto, além de um cheque em branco válido por quatro anos?

    E não há dúvida de que um só cidadão tem muito pouco poder uma vez que é só um entre milhões.

    Isso é matemático. Falamos da falta de legitimidade democrática: o cidadão Costa ou Merdina tem mesmo o poder de milhões. Decide tudo sem perguntar nada. Para cúmulo, só 17% votaram nele.

    • Paulo Marques says:

      Pois decidem, continuam a aparecer buracos nas casas, os jardins continuam a crescer, a demografia continua a mudar, o lixo e o saneamento continuam a ter que ir para algum lado, os trabalhadores continuam a ter que ser substituídos, etc.e só alguém que se chegou à frente é que pode resolver o assunto.

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