A máquina do tempo: a minha rua

douradores

A Rua dos Douradores é, sem dúvida, uma das mais feias da quadrícula pombalina da Baixa, mas tem para mim o encanto de os meus avós paternos, terem ido para ali viver em 1913, ali nasceu o meu pai, nasci eu e um dos meus filhos. Por isso a nossa máquina do tempo vai percorrê-la e tentar fazer um levantamento dos motivos que a tornam numa das ruas de Lisboa mais ligadas à história da literatura. Na verdade, para além das circunstâncias familiares que me ligam à rua, há ali muita história acumulada, sobretudo no século XIX e no início do século XX. Antes do terramoto também, pois segundo o olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira, num capítulo sobre os «pátios das comédias» existentes em Lisboa antes do sismo, publicado na «História da Literatura Portuguesa» Ilustrada (dirigida por Albino Forjaz de Sampaio), situa no local onde seria implantado o prédio em que nasci, entre as ruas dos Douradores, da Assunção e da Prata, um desses pátios onde se representava Gil Vicente, Camões, António Ferreira, Lope de Vega…

Como se sabe, douradores eram os artífices que douravam, ou seja, que revestiam a folhas de ouro, livros quadros e outros objectos, embelezando-os ou restaurando-os. Era um trabalho delicado que exigia uma longa aprendizagem, uma função que, pela sua minúcia e nível de especialização, ficava a meio caminho entre o ofício e a arte. Cristóvão Rodrigues de Oliveira, no seu «sumário» sobre «Lisboa em 1551» regista 39 destes profissionais, enquanto João Brandão em «Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552» nos dá conta de «15 tendas de douradores». Calculando de dois a três «criados» em cada uma delas, estima num máximo de 45 os «douradores» a trabalhar na cidade por aqueles anos, pelo que o número de Oliveira, cabendo no intervalo da estimativa de Brandão, me parece mais rigoroso. A maioria destas tendas situavam-se na Rua Nova dos Douradores, na freguesia de São Nicolau. Como se sabe, o grande terramoto de 1755 destruiu toda esta zona da cidade e na toponímia da cidade que Eugénio dos Santos concebeu, renasceram alguns dos velhos topónimos, ainda que as novas vias não coincidissem espacialmente com as suas homónimas anteriores à catástrofe. Mas não podiam ficar muito longe. Contudo, seria a literatura e não a arte de douração ou restauro a dar notoriedade à rua.
Em tempos mais recentes, menciono apenas alguns nomes da longa lista dos moradores ou frequentadores ilustres e das personagens de ficção que por ali circularam: João de Deus (julgo que em 1868) viveu ali num pequeno quarto alugado, cuja localização não consegui encontrar. Antero de Quental que, no ano de 1872, ali residiu no nº.135, 4º andar, Aquilino Ribeiro, e Fernando Pessoa, que trabalhou por ali perto (no 1º andar do nº 44 da Rua dos Fanqueiros) e frequentava vários estabelecimentos da rua, nomeadamente o restaurante «Antiga Casa Pessoa» (que nada tem, além do nome, a ver com o poeta). Em 1913 almoçava nesse restaurante com grande frequência. Num largo constituído pelo cruzamento da Rua dos Fanqueiros com a de São Nicolau, a poucos metros da esquina com a Rua dos Douradores, ficava o posto do Vale do Rio, do Abel Pereira da Fonseca, onde o fotografaram em «flagrante delitro». Ali situou o seu Livro do Desassossego, uma das mais belas obras da literatura portuguesa do século XX: «Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores».

flagrante delitro

Para não falar de Alfredo Costa, um dos regicidas, que morou no nº. 20, 4º, e aí teve o seu negócio de representações comerciais. Falando do Regicídio e da Carbonária, num escritório comercial da Rua dos Douradores, junto à esquina com a Rua de Santa Justa, António Maria da Silva, que viria a chefiar o Governo em diversos executivos da I República, na qualidade de elemento da Alta Venda, órgão máximo da Carbonária Portuguesa, ia sendo surpreendido pela polícia quando presidia à cerimónia de catorze iniciações. Não esqueçamos também que, nesta rua, situou Eça de Queirós a novela Alves & Cª. Gervásio Lobato, no seu romance burlesco «Lisboa em Camisa» põe as suas personagens por ali perto, moram na Rua dos Fanqueiros, mas o baptizado em torno do qual gira a intriga, realiza-se na Igreja de São Nicolau que, embora com o escadório e a fachada na Rua da Vitória, tem um dos alçados na Rua dos Douradores. O meu pai frequentou a escola da Igreja, escola cuja entrada se fazia precisamente por uma das portas desse alçado. Muito recentemente, outro autor escolheu a Rua como cenário de um romance. Refiro-me a «Boa Noite, Senhor Soares» (2008), de Mário Cláudio, uma ficção em torno de Bernardo Soares e do seu «Livro do Desassossego».

Os galegos que, fugindo à terrível crise que a Galiza atravessou na segunda metade do século XIX, emigraram em massa para Portugal (e não só), fixaram-se em grande parte em Lisboa. As ruas menos «chiques» da Baixa eram o seu território preferido – moços de fretes e aguadeiros, os menos afortunados, comerciantes ou empregados nos comércios de patrícios, outros. Conforme diz Aquilino Ribeiro em «Lápides Partidas», um aguadeiro de Porriño dizia numa carta para a mulher e referindo-se a Lisboa e aos lisboetas «A terra é boa, a xente é tola; a auga é deles e nós vendemoslla». Contudo, o negócio preferido dos galegos eram os restaurantes e as casas de pasto – O João do Grão, na Rua dos Correeiros, o Bessa e o Pessoa na Rua dos Douradores são apenas alguns desses negócios que ainda hoje estão nas mãos de galegos ou de portugueses deles descendentes. Na minha escola primária, a nº. 44 da Rua da Madalena, tive alguns colegas de ascendência galega.
Num agradável serão, numa consoada, de há mais de quarenta anos, na acolhedora casa de Luís Roseira em Covas do Douro, Manuel Mendes, um grande escritor, injustamente esquecido, e um inesquecível conversador, quase me garantiu que Camilo Castelo Branco residira episodicamente no prédio onde nasci. Não pude confirmar esta convicção do autor de Pedro. Relacionando Camilo com a Rua dos Douradores, apenas sei que ali, no nº 29, morreu, em 1835, seu pai Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco. Mas a minha lista de personalidades e eventos de algum modo ligados «à minha rua» é mais extensa. Ficará talvez para outra ocasião e para outro local desfiá-la por completo.

A máquina do tempo: a Academia Galega da Língua Portuguesa

Em 6 de Outubro de 2008 foi criada a Academia Galega de Língua Portuguesa, sediada em Santiago de Compostela e presidida pelo Professor José Martinho Montero Santalha. Segundo Montero Santalha, a criação da Academia corresponde a uma ideia do Professor Carvalho Calero que, na década de 80, concebeu o projecto de uma instituição que «mantivesse de modo inequívoco a unidade linguística da Galiza com os outros países de língua portuguesa». A cerimónia de fundação da Academia, de qual pudemos apreciar alguns dos momentos mais importantes no vídeo acima, realizou-se no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela. Foi apadrinhada pelos Professores Malaca Casteleiro e Artur Anselmo, da Academia das Ciências de Lisboa, pelo escritor moçambicano João Craveirinha (filho de José Craveirinha), pelo Professor Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, pelo Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, pelo Professor Elías Torres Feijó, presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e vice-reitor da Universidade de Santiago de Compostela, entre outros.

Como se vê, padrinhos não faltaram à jovem Academia. Ângelo Cristóvão, presidente da Associação promotora da AGLP comentou: «Não podemos dizer que viemos ao mundo sem padrinhos!» E acrescentou: «queremos devolver ao galego o lugar que lhe corresponde, que é o de uma forma do português e não o de um dialecto do castelhano».

Em 23 de Maio deste ano de 2009 realizou-se em Lisboa, na Academia das Ciências, uma sessão inter-académica entre as duas entidades. Agora, quando falarmos em países de língua portuguesa, nunca devemos esquecer a Galiza. Somos nove e não oito, como se costuma dizer. Tanto mais que foi ali, na Galiza, que o nosso idioma comum, o galego-português, nasceu. Foi ali que pela primeira vez se falou a nossa língua, a língua de Camões, de Rosalía de Castro e de Fernando Pessoa e de Eduardo Pondal.
No entanto, na Galiza, além dos que defendem a reintegração no português, dos que são pelo acentuar da castelhanização do galego e dos que pugnam por uma via autónoma, ligada à fala popular distanciada do português por oito séculos de deriva, há também quem defenda uma mais versão radical, ainda que, em parte, apoiada na palavra do Professor Carvalho Calero e cientificamente verdadeira. Digo em parte, porque o Professor sempre defendeu a integração do galego no universo da lusofonia – a tal tese radical é a de que o nosso idioma se devia chamar galego e não português. Vamos tentar saber se esta corrente de opinião é válida. Numa outra crónica, falei aqui um pouco da história da Galiza, um tema que me apaixona. Hoje pedi reforços ao professor Ramon Villares e à sua «Historia de Galicia», um livrinho de bolso editado em castelhano, que, há mais de 20 anos (em Agosto de 1988) me foi oferecido por um professor da Universidade de Santiago de Compostela. Ponhamos então a nossa máquina a funcionar.
Não vou recuar tanto no tempo como seria desejável. Jorge Castro (OrCa), num amável comentário ao meu texto anterior sobre este tema, sugere que a irmandade galego-portuguesa poderá ter raízes ancestrais, localizadas para lá da última grande glaciação (Teoria da Continuidade Paleolítica). É uma possibilidade cuja exploração deixo para quem saiba, mas que, a ser provada, nos daria conta de uma afinidade que não deve e não pode ser destruída; muito menos pela gula hegemónica de um estado artificial como o estado espanhol. Por hoje, não recuando tanto, limitar-me-ei a visitar a época em que o condado de Portucale e o da Gallaeciae seguiram caminhos diferentes.
Quando, em 1065, morreu Fernando I de Leão e Castela, reino de que os dois condados eram vassalos, o seu reino foi dividido entre os filhos, ficando D. García com a Galiza, um território que se estendia até ao Mondego, pois Fernando I, o Magno, conquistara aos Mouros Lamego (1057), Viseu (1058) e Coimbra (1064) território que o conde governou entre 1065 e 1070. Deposto D. García e levado preso a Leão, a Galiza ficou transformada numa província de Leão, dirigida por sucessivos condes. Assim, em 1090 foi enviado para a Galiza como conde Raimundo de Borgonha, casado com D. Urraca, uma das filhas de Afonso VI. No ano seguinte, o condado portucalense foi entregue a Henrique de Borgonha, casado com a irmã de Urraca, D. Teresa. Quando Raimundo morreu, em 1107, verificou-se uma profunda crise política em que a nobreza galega participou activamente, tanto a laica ( Pedro Froilaz, conde de Traba), como a eclesiástica (D. Gelmírez. Uma parte desta nobreza aliou-se a D. Urraca, ligando-se à ideia imperial leonesa, enquanto outro grupo defendeu os direitos de Alfonso Raimúndez, filho de Urraca, que em 1109 foi proclamado rei da Galiza. Porém Alfonso Raimúndez, transformou-se, mercê da sua posição na linha dinástica, em Afonso VII de Castela e Leão, proclamando-se «Imperator totius Hispaniae». De certo modo, foi o último rei da Galiza, pois com ele integrou-se na monarquia leonesa a nobreza galega mais rebelde, representada pela estirpe dos Traba.
O que nos diz respeito sabemos nós bem – Afonso Henriques, primo direito do autoproclamado imperador, queria um reino só para ele, venceu sua mãe, D. Teresa que alinhara com a nobreza galega, prestando vassalagem ao sobrinho, na batalha (ou escaramuça; ou torneio) de São Mamede, em 1128, e proclamou unilateralmente uma independência que só em 1143, pelo Tratado de Zamora, seria reconhecida pelo rei de Leão. Como José Mattoso salienta e Ramón Villares cita, a independência de Portugal não pressupõe qualquer reacção anti-galega, pois entre os que apoiaram o nosso Afonso I estavam famílias galegas, entre as quais a dos Traba, que procurava em Portugal o êxito que na Galiza lhes era negado.
Resumindo – a formação de Portugal obedeceu a causas complexas que remetem para diferenças existentes desde a época romana entre as regiões bracarense e lucense, que constituíam a Galécia. E como Villares sublinha, correspondeu também à «incapacidade da nobreza galega para se constituir em reino próprio desde os primeiros momentos da reconquista»; a expansão territorial portuguesa, seria feita a partir da parte meridional da Gallaecia, enquanto que a região lucense, mais recolhida sobre si mesma, inserida perifericamente na monarquia castelhana, mas ligada à Europa pelo cordão umbilical do Caminho de Santiago, iria desenvolver um conjunto de traços específicos que lhe permitiriam conservar a sua identidade ao longo da história até aos nossos dias.
Nestes séculos de domínio estrangeiro, o galego foi muito invadido por castelhanismos, inquinado foneticamente e não só. Apenas no século XIX, com o Rexurdimento de Rosalía, Murguia, Pondal e tantos outros, a língua e a cultura galegas começaram a recuperar a sua identidade usurpada. Do ponto de vista da ciência linguística não parece existir dúvida de que português e galego nasceram de uma mesma matriz. Podemos chamar por isso galego-português ao idioma que, sob duas formas dialectais, falamos lá e aqui. Que fique muito claro que quando se fala de reintegrar, não estamos a falar de Portugal anexar politicamente a Galiza, estamos só a falar de uma reintegração na tal matriz comum que quase nove séculos de domínio castelhano na Galiza quiseram apagar. Gostaria muito que a Galiza fosse independente (adoptando o galego, o português ou o galego-português como língua oficial – é um problema dos galegos). Com a certeza, porém, de que chamem o que lhe chamar, as palavr
as
que os galegos pronunciarem serão as mesmas, tenha o idioma que falam o nome que tiver. Serão as mesmas e soarão aos nossos ouvidos como uma língua semelhante à nossa. Mas voltemos ao percurso histórico e ao paralelo fluir do idioma.
Referi-me à língua falada desde a Alta Idade Média nos territórios da antiga província romana da Galécia, uma variante neolatina ou, como diz com maior rigor científico Carvalho Calero, uma forma primitiva do romance hispânico ocidental. Forma que veio a resultar no galego-português (ou galaico-português). Um momento alto da evolução deste idioma é quando, no século XII, a poesia lírica produzida nesta região era escrita na língua que, além de utilizada pelos naturais, ultrapassando as suas fronteiras, chegava a Leão e Castela – as «Cantigas de Santa Maria», do rei castelhano Afonso X, o Sábio, foram escritas em galego-português. Era, pois, uma língua de cultura. No século XII ocorreu a separação de Portugal da coroa leonesa. À época a Galiza gozava de alguma independência relativamente à coroa castelhano-leonesa. Contudo, no século XIV, a intervenção galega a favor de Pedro I de Castela contra Henrique Trastâmara, motivou com a vitória deste, o exílio de muitos galegos em Portugal. Quando a sua nobreza tomou o partido de Joana, «a Beltraneja» ou, como se dizia em Portugal, da «Excelente Senhora» contra Isabel de Castela, a Galiza viu as suas instituições destruídas e a sua aristocracia perseguida, deixando de existir como nação independente.
Muito basicamente, descrevi, com a ajuda do Professor Villares, o momento da separação das duas partes irmãs, em que começou a deriva histórica e consequentemente a linguística. Dizer-se que em Portugal se fala galego é, pois um exagero radical (embora compreensível), é desconhecer o papel que Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões, para referir só alguns nomes, tiveram na criação da língua e na sua fixação em monumentos literários. É esquecer que os portugueses, trezentos anos decorridos sobre a independência, sulcavam os oceanos, descobriam novas terras, criavam uma maneira própria de estar no mundo. Talvez não a melhor, mas própria, em todo o caso.
Por tudo isto e não porque de algum modo a ideia nos ofenda, parece-me um exagero querer que o português se passe a designar por galego, como o pretendem os tais galeguistas radicais. Eles afirmam, em consequência, que em Portugal, no Brasil, em Moçambique se fala galego e que o galego tem, portanto, 200 milhões de falantes. Digo que são radicais porque radicam a sua tese nas raízes profundas e comuns do galego e do português. Porém, penso que o cerne do problema não se situa aí, no nome do idioma – o importante é que a língua da Galiza seja aquela que os galegos queiram como sua. Um dialecto do castelhano todos estamos de acordo que não é. É uma forma diferente de falar português (ou o português uma forma diferente de falar galego)? Penso que tudo aponta para esta hipótese. A decisão só pode ser dos irmãos galegos. Todavia, a viagem já vai longa e por hoje apenas acrescento:
– Bem-vinda ao universo da lusofonia, jovem Academia Galega da Língua Portuguesa!

Antologia de pequenos contos insólitos: Mário Henrique-Leiria

Hoje apresentamos Mário-Henrique Leiria e alguns contos de três dos seus livros «Contos do Gin-Tonic» (1973),a sua obra mais conhecida, «Novos Contos do Gin»(1974) e «Casos de Direito Galático» (1975). Mário-Henrique Leiria nasceu em Lisboa em 1923 e morreu em Cascais em 1980. Ligado ao movimento surrealista, chegou ao grande público através da frequente declamação que, na televisão, o actor Mário Viegas fazia dos seus textos. Começamos com um conto do seu último livro, «Casos de Direito Galático».
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Ilustração de Cruzeiro Seixas para a capa do livro «Casos de Direito Galático».
CASO 37 007 339 – 3º VIII
Sector de Rigel
(Crostol contra Pul-Tra)
Pul-Tra, rastejador polipoide de Algol-7, caixeiro viajante de máquinas de solidão, ao desembarcar no porto estelar de Troikalan em actividade profissional, foi abordado no bar do dito astroporto por Crostol, indivíduo insecto-voador, indígena do planeta, que delicadamente o convidou a tomar um recipiente de «Grum-Kvas VOP» como símbolo de boas vindas.
Pul-Tra, com dois tentáculos e extremo cuidado, pegou no insecto indígena e, em gesto ritual, arrancou-lhe cerimoniosamente os órgãos visuais.
Dado este acontecimento, foi detido para averiguações por um membro do Departamento Gravito-Sentencioso que gravitava de serviço no astroporto.
A queixa foi imediatamente apresentada por Brastol, membro do grupo reprodutivo de Crostol (5º sexo), baseada na alegação de destruição desnecessária praticada na pessoa de um indivíduo do citado grupo.
Processando-se em seguida a análise de Conjuntos, Circunstâncias e Condições, alegou a defesa que Pul-Tra, como todos os naturais de Algol-7, era de condição pacífica, sempre pronto a retribuir qualquer delicadeza recebida.
Dado que, por contingência psico-somática, todos os naturais dessa região prezam e consideram como o maior bem a solidão e a contemplação interna (zan-zan-dag), Pul-Tra, ele mesmo vendedor das mais requintadas máquinas de solidão produzidas pela sua raça, devolvera no melhor estilo a amabilidade de Crostol, libertando-o dos órgãos visuais e, assim, da presença de imagens externas inoportunas.
A acusação (Ministério Público – Comarca de Troikalan) no entanto, não aceitou esta argumentação, considerando que, como é sabido, os órgãos visuais dos indígenas de Troikalan são o elemento sustentador do equilíbrio sexual (5º sexo) dos grupos reprodutivos e a destruição desnecessária dos mesmos pode pôr em grave risco a imprescindível polinização das fecundações de grupo. A ignorância deste facto, disse, não pode de forma alguma servir como argumento para a absolvição do rastejador polipoide Pul-Tra, de Algol-7. Como fez notar, há outras maneiras de ser agradecido além de «andar por aí a vazar olhos» (sic).
A sentença (Sector de Rigel – Comarca de Troikalan) foi benigna, considerando como circunstância atenuante a boa-fé com que o acto fora praticado, embora a acusação tivesse protestado energicamente.
Pul-Tra foi sentenciado a suportar luz nos olhos directa e ininterruptamente durante 37 rotações algolianas (factor + 7), com pena suspensa por 3 ciclos de Rigel. Ao grupo reprodutivo de Crostol foram concedidos dois binóculos reprodutores extra e, como indemnização simbólica, a posse temporária, durante a pena suspensa, do apêndice caudo-solitário de Pul-Tra.
Pergunta-se aos estudantes atentos: foi a sentença coerente com os trâmites planetários em vigor (Sector de Rigel) ou houve abuso de poder?
(Casos de Direito Galático)
Torah
Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima acenou a Moisés.
Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente. Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em erro. No dia seguinte Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei.
Olhou em volta, viu o seu povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:
– Está aqui tudo escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já.
Alguns foram.
Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico.
Depois disso, é o que se vê.
(Contos do Gin-Tonic)
Bus stop
Deu uma corrida rápida e saltou para o autocarro no momento exacto em que a porta começava a fechar-se.
Sentiu a pancada atrás de si e ouviu a campainha.
O autocarro arrancou, talvez com violência excessiva. Agarrou-se ao varão metálico e respirou fundo, para aliviar o cansaço vindo da corrida inesperada.
Procurou as moedas necessárias no bolso das calças e entregou-as ao cobrador, ao passar o torniquete. Deu uns passos pelo corredor central, deteve-se, deitou a mão à argola que lhe pendia por cima da cabeça para garantir o equilíbrio e olhou em volta. Nenhum lugar sentado.
Baixou os olhos. No chão parecia que alguém havia pisado flores e deixado uma pasta esmagada, viscosa, com vestígios de vermelho e amarelo. Escorregava, quando lhe passou com o pé por cima. Afastou-se um poco e mudou a mão para a argola da frente.
Os passageiros liam ou olhavam pela janela. Num silêncio pouco vulgar. Lá, no lado de fora do banco do fundo e com uma perna meio estendida para o corredor, um velho de longa barba ainda quase ruiva e um boné gasto de pala amachucada olhava para ele fixamente, impassível. Desviou os olhos com uma sensação de súbito desconforto que não conseguiu compreender.
Pela janela reparou que estava na Avenida da Liberdade. Do lado de lá dos vidros as pessoas moviam-se pelos passeios e os carros deslizavam num ruído que lhe chegava abafado. As casas, as árvores e o tempo iam ficando para trás.
Começou a admirar-se. Não havia paragens. Ninguém saía nem entrava. No entanto, como o autocarro ia realmente cheio, talvez fosse assim mesmo. Andam sempre a mudar os regulamentos, não há nada a fazer.
O autocarro dobrou a esquina e entrou por uma rua estreita, empedrada, escura. Que era aquilo? De um lado e doutro pequenos prédios de tijolo avermelhado, sujo, perfilavam-se, monótonos. As pessoas na rua eram poucas e pareciam caminhar com extrema cautela. Nenhum carro. Apenas o som insistente do motor do autocarro.
Sentiu-se inquieto. Desviou os olhos da rua. Um ressalto dos pneus fê-lo procurar o equilíbrio apoiando-se levemente com a mão esquerda, no ombro da menina que, no banco ao lado, lia uma revista muito colorida. A menina ergueu os olhos. Tristes. Uns cabelos exactamente negros e longos ladeavam-lhe o pequeno sorriso só esboçado. Baixou a cabeça e retomou a leitura da revista colorida.
Retirou a mão numa desculpa silenciosa e ficou ainda a olhar os cabelos negros que desciam sobre os ombros e tornavam a esconder o rosto da menina.
Depois, de novo inquieto, voltou a observar a rua.
Teve uma sensação repousante de alívio. O autocarro acabava de entrar na Avenida da República. Mas que volta aquela!
Olhou o relógio. Tinha 17 minutos para apanhar o comboio. Era pouco. Com aquele caminho disparatado ia com certeza perdê-lo. E ter que esperar meia hora pelo outro. Que chatice, o trânsito.
O autocarro travou chiando, para deixar passar um grupo que, com uniforme leopardo e olhando correctamente em frente, atravessava a praça.
Aproveitou para admirar mais uma vez o Monumento. Realmente era bonito. Sempre apreciara a escultura. Devia ter dado um trabalhão dos diabos, o Monumento.
Num solavanco sem aviso o autocarro seguiu.
O ruído da Avenida deixou de se ouvir e apenas restou o silêncio interior, com o ciciar discreto de alguém que virava a página.
Lá fora, passad
a
a praça, o campo estendia-se, o sol poente a desenhá-lo com nitidez e alguma melancolia.
Começou a fixar a janela quase obsessivamente. Viu as vacas que pastavam, as casas pequenas e distantes e até lhe pareceu ouvir um sino a badalar.
Não se conteve. Assim ia perder todos os comboios.
Largou a argola em que se pendurava e, com passos de marinheiro em autocarro, chegou junto do condutor.
– Mudaram o percurso? – interrogou quase agressivo.
O condutor não virou a cabeça. Continuou a olhar em frente, para a estrada que surgia, recta. Disse só:
– Não.
O autocarro acelerou um pouco.
Voltou para a sua argola e pendurou-se de novo.
No banco da frente, uma criança, ao colo da mulher forte de cabeça inclinada, virou-se para ele e ergueu um braço pequenino, num gesto mais pequeno ainda. E inútil.
Sempre preocupado com o comboio, ficou a olhar e a tentar compreender o que acontecia lá fora.
Passado o último renque de árvores, o autocarro entrou de novo na Avenida.
Respirou fundo. Talvez ainda chegasse a tempo.
Mas não conseguia saber onde se encontrava. Uma Avenida muito longa e larga sem nome conhecido, com prédios excessivamente altos de um lado e de outro. Rigorosamente iguais até ao fim.
Uma avenida. Vazia. Sem carros. Sem gente. Sem árvores.
Desistiu.
Passou algum tempo, no silêncio que o envolvia, sempre pendurado na argola e olhando inutilmente a mancha das flores esmagadas que marcava o chão.
O autocarro estacou de repente.
Balançou, desequilibrado, mas logo recuperou o equilíbrio e avançou para a porta que se abria, automática,
Foi o primeiro a saltar. Olhou em volta.
Uma estrada asfaltada prolongava-se até à entrada distante do que lhe pareceu, dali, ser uma quinta com um portão largo.
De cada lado surgiram-lhe dois homens altos e calados, uniformes negros e pequena metralhadora em bandoleira.
Seguraram-no. Um pelo cotovelo esquerdo, o outro pelo cotovelo direito. Começaram a andar. Os três. Em silêncio.
Sentiu passos atrás de si. Muitos.
Ao aproximar-se, o portão tornou-se-lhe mais nítido. Era bastante largo r gradeado.
Então, quando a distância lho permitiu, leu em letras metálicas numa faixa ondulante por cima da entrada
ARBEIT MACHT FREI
Realmente não se preocupou muito. Nem sequer sabia alemão.
(Novos Contos do Gin)

Vejam e ouçam agora Rifão quotidiano, outro dos «Novos Contos do Gin», dito pelo inesquecível Mário Viegas.

Poemas com história: Poema ecologista

Era com um longo Poema ecologista (podendo também servir de prefácio) que abria uma colectânea de poemas que publiquei em 1990 – O Cárcere e o Prado Luminoso. Na altura estava envolvido num projecto cuja direcção científica era conduzida pelo Professor Luís de Albuquerque, professor catedrático da Universidade de Coimbra, doutor honoris causa pela de Lisboa, figura cimeira na investigação histórica do período dos Descobrimentos, enfim, um grande intelectual, um cidadão exemplar e um homem bom. Foram alguns anos de convívio intenso, travámos uma grande amizade e, naturalmente, quando publiquei o livrinho, ofereci-lhe um exemplar. Pois Luís de Albuquerque escreveu uma réplica a este poema que hoje vos apresento. Guardo ciosamente o original escrito pelo punho do Professor e hoje compartilho convosco a leitura desse texto. Luís de Albuquerque, em plena actividade, presidindo à Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos, foi ceifado por um acidente cardiovascular e faleceu em Janeiro de 1992. Aqui vos deixo a parte inicial do meu poema e, em baixo, o valioso «contraditório» de Luís de Albuquerque.

Poema ecologista

Vítima de uma certa e cruel
forma de poluição,
de um desgaste acelerado
dos meios naturais,
tal como o bisonte, o castor,
o lince, a cabra selvagem,
o poeta é hoje
um bicho ameaçado de extinção.
A destruição indiscriminada
de elementos essenciais
ao equilíbrio da vida,
a água contaminada, a voragem
que destrói a floresta,
a natureza consumida,
põem em perigo
a existência de muitos animais.
O poeta não se extingue porém
com a dramática violência
da baleia: a fúria utilitária
que se apossou das sociedades,
a súbita transformação
dos cafés em bancos comerciais,
roubaram-lhe o habitat
e ameaçam-lhe a sobrevivência.
Não flutua morto como o peixe
na albufeira da barragem,
entre o pneu velho, o preservativo,
a embalagem perdida,
as garrafas de plástico,
os detritos industriais:
não obedecendo já ao mote,
busca o spot, a «mensagem»
que ajude o pesticida
a matar o peixe e a vender mais
a margarina,
a «promover» o cancerígeno sumo:
aparece uma manhã a boiar
na secretária da agência,
morto heroicamente
ao serviço do consumo.

Não meu Amigo

O poeta não está em vias de extinção.
O lince, o castor, a foca, o homem
não vão resistir
ao fumo fétido das celuloses
suecas,
aos rios contaminados dos detritos das celuloses
suecas,
aos verdes plásticos
que alastram por prados artificiais,
ao crude.
que faz todo o mar negro, negro.
Mas salvam-se as cabras de Cabo Verde
que se riem dos plásticos
e comem-nos.
E com elas salvam-se os poetas
que sabem viver a angústia
de não haver mais amigos nos cafés, nos jardins, na noite,
e são capazes de fazer poemas de tudo,
mesmo dos plásticos.
E a poesia, meu amigo,
não é nada um péssimo produto;
é o único produto
que anda por aí
e não se adultera.
Para a poesia não é necessária a inspecção,
nem a defesa do consumidor.
Cada um consome a poesia que quer
e se ninguém a quer
a poesia morre e não deixa despojos deletérios.
Por isso,
Os poetas não são bichos em extinção
enquanto a poesia circular,
mesmo que seja em meios pútridos,
enquanto houver alguém que a sorva
como sorve o ar ignorado
de cada manhã irrepetível.

Luís de Albuquerque
1990.04.05

albuquerque

A máquina do tempo: diversas maneiras de ser livro

A viagem de hoje começará por ser de quase dois mil anos na direcção do passado. Depois voltaremos ao presente. Neste ziguezaguear entre épocas, o tema será sempre o mesmo – o livro e algumas das formas sob as quais nos tem acompanhado. Talvez por deformação profissional, o anúncio mais antigo de que tenho conhecimento é precisamente feito a livros e diz assim:
Tu, que desejas levar contigo os meus livros para qualquer parte
e procuras tê-los como companhia de longa jornada,
compra aqueles em que o pergaminho fica apertado em pequenas tábuas.
Deixa as prateleiras para os grandes (livros), em mim segura com uma só mão.
Não deixes, porém, de saber onde estou à venda e não andes errante,
perdido pelo cidade toda; com a minha indicação estarás certo:
a seguir às portas da Paz e ao foro de Minerva.

É aquilo a que se pode chamar um spot publicitário dos finais do primeiro século da nossa era. Escreveu-o Marcial, um poeta latino, nascido na Península Ibérica, em Bilbilis, (c. de 40-104). A sua obra principal são os «Epigramas», poesias curtas e satíricas, tais como esta, muitas vezes citada: «Se a Glória vem depois da morte, não tenho pressa de a alcançar». No anúncio, além da oportuna informação sobre a localização da livraria, de notar a alusão à portabilidade do livro por oposição aos pesados rolos, e à acessibilidade do texto, bem como à maior resistência do pergaminho relativamente ao tradicional papiro. Só para termos uma ideia, quem quisesse possuir uma versão completa da Eneida teria de se haver com doze rolos (arrumados numa caixa pesada e de grandes dimensões). O códice de que Marcial faz a propaganda permitia arrumar todo o texto num volume. Um pouco, à escala da época, vantagens semelhantes às que hoje o kindle nos oferece relativamente ao livro impresso.

Na realidade, tal como actualmente ocorre na ameaça que o livro digital representa para a sobrevivência do livro impresso, as resistências eram muitas. Os bibliófilos da altura riam-se daquelas folhas de pergaminho apertadas entre duas tábuas – pois era lá possível que aquela geringonça ridícula substituísse os rolos, herdados da Grécia, que, durante séculos, foram o suporte da palavra escrita?
Terá sido Secundo, o editor de Marcial, quem lançou em Roma a nova forma de livro. Mas sem sucesso imediato. A reacção e a resistência à mudança foram mais fortes do que a evidência das vantagens. A adaptação progressiva à nova forma de livro iria demorar cerca de quatrocentos anos, vindo a consumar-se no decurso do século V, embora já durante o século III nas compilações jurídicas prevalecessem os códices. De certo modo, o mesmo que hoje se diz dos e-books e do kindle – «Ora! Isso é bom é para substituir enciclopédias, obras de referência…».
Não tenho dúvidas de que não demoraremos quatro séculos a acolher um suporte novo (que já não será o kindle, mas sim qualquer outra coisa que hoje não podemos sequer imaginar e que entretanto surgirá). Porque estas mudanças, como já anteriormente disse, fazem-se por pragmatismo e não por mera vontade de inovar. Pode mesmo dizer-se que a vontade de mudar radicalmente de suporte tem uma história de sistemática resistência a essa mudança – nunca foi fácil. Contudo, um das barreiras que se colocam a uma maior difusão do livro electrónico, é o pagamento de direitos a autores e editores. Problema que afecta também (talvez ainda mais) os compositores e as editoras discográficas. As pessoas, pelo menos a maioria delas, não têm a noção de que ir à Internet e imprimir um livro ou gravar uma canção é um acto de pirataria. No entanto, sabem que não devem roubar livros ou discos nas lojas.
Mas as coisas vão andando no sentido de os livros digitalizados se irem tornando um sistema honesto e respeitável, aceite por editores e autores. Já este mês de Setembro, a Google fez propostas de um acordo aos editores europeus relativamente ao respeito pelos direitos de autor. Nos Estados Unidos esse acordo entre a empresa que controla o motor de busca mais utilizado da Web e os representantes das outras partes interessadas já existe. Se o acordo se concretizar também no nosso continente, milhões de livros publicados na Europa, mas que já não se encontram disponíveis nas livrarias, poderão ser digitalizados e colocados em linha. Em Bruxelas, a Comissão Europeia convocou uma reunião para examinar o complexo mecanismo jurídico que a exploração electrónica de milhões de livros pressupõe. A função principal desse mecanismo seria a de regular a divisão do dinheiro gerado pelas vendas online – quanto desse dinheiro irá caber à Google, quanto ficará para autores e editores. Segundo a proposta, os editores e os autores ficarão com 63% e a Google com 37%.
Não vai ser fácil porque, como lembra a associação de Editores Italianos, a implantação do sistema iria violar vários pontos da Convenção de Berna sobre os Direitos de Autor. Mas encontrar uma solução que contemple os interesses de todos os envolvidos e que compatibilize o sistema com a Convenção, cuja primeira forma data de 1886, será apenas uma questão de tempo. Provavelmente com o sacrifício de princípios da Convenção, assinada há quase 150 anos, quando não era possível prever o rumo que o livro começaria a tomar na transição do século XX para o XXI.
Para terminar a nossa viagem de hoje, percorramos com este pequeno vídeo o caminho do livro desde a pré-história até aos nossos dias. O livro, nas suas diversas formas, tem sido um companheiro fiel. Talvez não sobreviva durante muito mais tempo sob a forma que nos é hoje familiar. Mas, podemos estar certo, continuará a acompanhar-nos.

A máquina do tempo: apresentação

«A máquina do tempo» porquê? Porque entrando nela, posso ir até ao passado, regressar ao futuro, revisitar o presente. Porém, antes de mais, é de toda a justiça e gratidão começar por falar no dono do título (surripiado como vai sendo meu hábito). Herbert George Wells, nasceu em 1866 em Bromley, Inglaterra, e morreu em 1946, em Londres. «The Time Machine», publicado em 1895, foi um dos seus primeiros romances e um dos seus maiores êxitos. Mas teve outros, como por exemplo «The Invisible Man» (1897). De 1898 é «The War of the Worlds», a famosa «Guerra dos Mundos» que, pela mão de Orson Welles, que a transformou em peça radiofónica, pôs em 1938, a América em pânico, pensando que os marcianos estavam a invadir a Terra (hei-de contar esta história). Ideia que o Mário-Henrique Leiria, o António José Forte e outros manos do Gelo aproveitaram para a sua «Operação Papagaio». Como muitos sabem, a história original conta como «o viajante no tempo» (the Time Traveller) inventa uma máquina capaz de se mover também na quarta dimensão. E lá vai ele parar, nem mais nem menos, do que ao ano 802 701 a um mundo estranho, uma espécie de Eden, mas com um inconveniente – os Elois, uma raça de gente boa e vegetariana, serve de alimento aos malvados Morlocks, carnívoros o mais possível (que se escondem em subterrâneos). Ora bem. H.G. Wells, se bem que jovem escritor estreante, era tudo menos inocente – a época vitoriana em que o livro é escrito era fértil em «elois», que trabalhavam literalmente como escravos a partir dos cinco anos de idade, para alimentar os «morlocks» que se pavoneavam por Londres e não só, porque a desenfreada exploração a que a Revolução Industrial deu lugar, foi o «caldo de civilização» em que Karl Marx, de colaboração com Engels, escreveu em 1848 o seu «Manifesto Comunista», tal era a densidade da injustiça social vivida na Europa. Mas Wells escusava de ter ido tão longe no tempo – andando pouco mais de um século para a frente, encontraria, sem se mover no espaço, morlocks e elois, ali mesmo em Londres. Se quisesse deslocar-se um pouco para Sul, sobretudo se viesse durante a primeira década do século XXI, encontraria por aqui exemplares bastante interessantes dessas duas espécies de humanóides.
*
A minha máquina funciona a baterias alimentadas pela memória e pela imaginação. Memória de livros lidos, de filmes vistos, de factos vividos; imaginação de conjecturas feita. Muitas vezes, misturando umas coisas com as outras e unindo-as com a argamassa de alguma fantasia. Passado, futuro, presente, tudo misturado. Um exemplo – num dos primeiros posts falarei da evolução da língua galega e da recente criação da Academia Galega da Língua Portuguesa, ou seja de uma projecção do passado no presente. Também especularei sobre o que vai ser da televisão no futuro próximo – como já devem ter reparado, a televisão é uma espécie de obsessão que me ficou desde, quando, há muito tempo, trabalhei na RTP. Falarei também sobre o marketing do livro (outra obsessão), mas desta vez na Roma do século I da nossa era. Dedicarei uma crónica à história da minha rua (mas, desta vez, sem roubar o título ao Mário Zambujal). Viajaremos até ao dia de Outubro de 1936 em que Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, proferiu a sua lição magistral e visitaremos Antonio Machado, o autor do verso «o caminho faz-se caminhando». Regressaremos ao drama do Chile, em Setembro de 1973. Daremos os parabéns a Óscar Lopes, um homem do futuro que, felizmente, vive entre nós. Veremos como eram brandos os costumes na PIDE e lembraremos, noutro post, alguns marcos da luta armada, civil e militar, contra o regime salazarista. Enfim, prometo-vos algumas dezenas de viagens. Prometimento que espero poder cumprir (e talvez cumpra mesmo, pois não sou político).
Para finalizar por hoje, ouçam esta descrição de uma ida ao futuro feita por quem a fez: «O Futuro é tão antigo como o Passado. E ao caminharmos para o Futuro é o Passado que conquistamos», disse António Maria Lisboa (1928-1953), o grande poeta surrealista que morreu com 25 anos, louco e tuberculoso. Porém, digo eu, sabendo como gostaria que fosse o Futuro, ignoro totalmente como irá ser. O Presente, salvo excepções raríssimas, é mesquinho. Não me apetece muito falar destas coisas, da gente da política. Serão talvez pessoas, mas não são personalidades e, muito menos, personagens. Falar deles é dar-lhes uma espessura que não têm nem merecem ter. Não sei o que dizer mais sobre isto que estamos a viver. No Passado, que envolve algumas décadas vividas por mim, procurando bem, como quem anda no sótão das arrumações, lá vou encontrando factos, personalidades e personagens, ou seja, gente de que merece a pena falar (coisas que não deitei fora, está a ver Carla?). Por isso talvez viaje mais até ao passado, não por ser passadista, mas pela razão aventada pelo António Maria Lisboa. Pondo-a do avesso, fica assim: – «o Passado é tão novo como o Futuro. E ao caminharmos para o Passado é o Futuro que conquistamos» – ou que, neste caso, compreendemos. De acordo? Não? Não faz mal – porque o mesmo poeta também dizia «que tudo é e não é alternadamente». O que, a ser verdade – e é – pode ser utilizado como saída de emergência para qualquer situação – TUDO É E NÃO É ALTERNADAMENTE! – já viram?. Numa máquina do tempo, esta frase dá muito jeito, pois funciona como uma espécie de assento ejectável.

Falando de democracia: Democracia vs «homens bons»


Esta canção «Tanto mar», que o Chico Buarque, compôs inspirado na nossa revolução dos cravos, espelha bem a esperança que, não só em Portugal, o 25 de Abril veio trazer. Voltaremos a falar delas – da esperança e da canção.
Em Outubro de 1987, Karl Popper veio fazer uma conferência a Lisboa a convite de Mário Soares, então presidente da República. Já aqui vos falei, a propósito do papel da televisão na sociedade pós-industrial, de Karl Popper (1902-1994), o grande filósofo britânico de origem austríaca. Nessa conferência, contou como, atraído na juventude pelo Comunismo, foi verificando ao longo da vida que a teoria da História de Marx e a sua profecia sobre o advento do Socialismo, apresentavam muitas falhas. E aqui meto a minha colherada – na minha modesta opinião, as falhas não são de Karl Marx, cujo raciocínio límpido só podia trabalhar com os elementos que possuía – a máquina a vapor, símbolo da Revolução Industrial, estava a revolucionar o mundo do trabalho, a transformar artífices em operários, a criar um «proletariado» e um «lumpen» ou seja, um «subproletariado». Quanto a esta última classe, colocada à margem do processo produtivo, Marx entendia-a como susceptível de se unir à vanguarda revolucionária ou de ser instrumentalizada e transformada em núcleo principal do exército contra-revolucionário. Gente que nada tem é mais vulnerável às promessas, sobretudo às falsas promessas.
Ele não podia conceber um futuro muito mais longínquo em que os operários iriam praticamente deixar de ser necessários, em que a força do trabalho (que era feita por trabalho de força) iria ser desempenhada por robôs e em que o lumpen seria substituído por marginais agressivos e poderosos, substituindo, de facto, nas chamadas democracias os poderes ocultos que as polícias políticas exercem nas ditaduras, mantendo os cidadãos aterrorizados. Isto era inimaginável há cento e sessenta anos. Aliás, prever o futuro é exercício impossível. Sou leitor frequente de Ficção Científica. Os amigos que compartilham este vício já repararam que os escritores de FC previram tudo, desde viagens a Marte até ao povoamento de galáxias a milhares de anos-luz, viagens no tempo e o diabo a sete, mas não foram capazes de prever o advento do telemóvel?
Quanto a mim, as falhas foram dos seguidores – por ingenuidade, estupidez, maldade, tirania, abusos de poder, corrupção – todos estes desvios foram cometidos nos diversos «comunismos» que irromperam no século XX. Marx já cá não estava. E como as seitas cristãs fazem com a Bíblia, assim os diversos seguidores fizeram com as ideias de Marx e de Engels – cada um deu-lhe a interpretação que mais água levava ao seu moinho.
Mas voltemos ao Popper – continuando, apesar do seu cepticismo, a sentir-se socialista, estudou o Marxismo em profundidade, acabando portanto por descobrir essas falhas e verificar que os marxistas mantêm uma atitude de arrogância intelectual. Lembrou que, há dois mil e quinhentos anos Sócrates disse «Sei que nada sei – e mal isso sei; só sei, portanto, que não sei. Mas quero saber e quero aprender». Foi ao amor pelo conhecimento, juntamente com a consciência da nossa ignorância, que Sócrates chamou «Filosofia», palavra que significa «ânsia de conhecer», «desejo de saber». Terá dito ainda que todos nós ansiamos por ter aquilo que não temos – neste caso, a sabedoria. Infelizmente, a tradição socrática perdeu-se e a maior parte dos filósofos, nomeadamente os marxistas, estão convencidos de que sabem (disse Popper). Falou depois sobre a sua «Teoria da Democracia».
A teoria clássica da democracia defende que o poder reside no povo e que este tem o direito de o exercer. Platão foi o primeiro teórico a sistematizar as diversas formas que pode revestir a Cidade-Estado: Monarquia – governo de um só homem bom: Tirania (governo de um só homem mau – perversão da Monarquia); Aristocracia, governo de vários homens bons – Oligarquia (distorção de Aristocracia, um grupo de homens maus partilhando o poder); finalmente, surge a Democracia – governo de muitos homens, ou seja, do povo; para esta forma de governação, não encontrou perversão ou distorção, visto que muitos homens, formam uma «Turba», e o conceito de Democracia inclui já, a par da sua forma correcta – um bom, governo do povo, a forma perversa – a barafunda e o caos – a «Turba».
Portanto, comprova-se que de Platão a Karl Marx, o problema foi sempre o de saber quem deve governar, quem deve estar à frente do Estado. Platão respondeu ingenuamente à sua própria questão – devem governar os melhores – os Aristocratas, os homens bons, mas nunca a Demos, a Turba, a balbúrdia, com saneamentos selvagens, manifes a toda a hora, assembleias populares por tudo e por nada (o Popper, coitado, não disse nada disto; é a minha mais do que suspeita interpretação do que o respeitável velhinho disse).
Popper terminava defendendo o sistema bipartidário, com argumentos que na altura até talvez tenham parecido razoáveis, mas que mais de vinte anos depois, verificamos não terem tido correspondência na prática, pelo menos na nossa prática. PS e PSD constituíram, cimentaram, uma «Aristocracia» perversa, endogâmica, feita de clientelas, de trafulhices mafiosas, de sacos azuis e negócios obscuros. De jogadas obscuras, como esta da TVI que vai configurando um golpe de um dos bandos em presença – ou um golpe e um contra-golpe – Sócrates (o José) não se livra da suspeita de ter assumido uma atitude censória, tenha-a ou não cometido. Porque «homens bons» é coisa que não existe nesta Aristocracia feita de gentinha rasteira que vai enriquecendo com o exercício desta coisa disforme a que chamam «democracia».
Esta é a realidade triste em que vivemos. Mas será que, sabendo que Karl Popper vinha defender um governo da Turba, Soares o teria convidado a vir fazer a conferência? Cá por mim, acho que Soares conhecia a teoria dos «homens bons» e por isso, porque ela lhe convinha (a ele, supremo «homem bom») convidou o mestre a vir contá-la aos indígenas.
*
Durante uma grande parte da minha vida, identifiquei Socialismo com Democracia e vice-versa. Mas desde cedo, foi para mim evidente que o chamado «socialismo real», o do Leste da Europa, o da China, constituíam traições descaradas ao espírito e aos princípios do marxismo. Considerava esses regimes como aberrações, fixava-me mais na Cuba de Fidel e de «Che» Guevara e prosseguia com o meu sonho. Até que Fidel, acossado pelo poderoso inimigo imperialista, foi forçado a cair nos braços doutro imperialismo.
Apesar destas desilusões, pensava que, mais tarde ou mais cedo, o verdadeiro Socialismo brotaria e floresceria. Pessoas mais velhas e algumas da minha geração, ouviam ao longe os harpejos dos «amanhãs que cantam». Eu bem apurava o ouvido, mas não escutava nada. Como de dentro dos búzios, vinha apenas o som das batidas do meu coração. E iam mais longe – identificavam esse tal «socialismo real» como paradigmas de liberdade e democracia. O 25 de Abril aconteceu e os que pensavam como eu e queriam construir o socialismo a partir do zero (quando falámos de socialismo à portuguesa, houve logo um gajo qualquer, cheio de «realismo» e «bom senso», que afirmou que «à portuguesa», só conhecia o cozido – reflexão a atirar para o estúpido, mas que se verificou estar certa; porque geralmente a razão dos estúpidos revela-se mais de acordo com a realidade). Outros, os que traziam o manual, as instruçõ
es
de montagem do sistema, no bolso, escritas em chinês, em russo, em coreano, em servo-croata ou até em albanês pensaram o mesmo que eu e todos exultámos – Vai ser agora. Mas foi rebate falso.
O sonho era belo. Como se diz no tema central de «Les Misérables», o musical americano (que, por acaso, vi em Londres e que o «fenómeno Susan Boyle, colocou de novo na ribalta) – but the tigers come at night, / with their voices soft as thunder… O sonho que sonhámos, the dream we dreamed, afogou-se em doses maciças de «realismo» e de «bom senso», quero dizer, falando claro, de corrupção e de jogadas sujas. Os tigres, ou, traduzindo, os tais «homens bons», estavam a pau.
Após a euforia, a disforia – comprovou-se o axioma de Tommaso de Lampedusa aventado em Il gattopardo – «Para que tudo fique na mesma é preciso que alguma coisa mude». Na realidade, estávamos todos enganados. Alguns porque queriam estar enganados (só quem não queria saber não sabia do sinistro pesadelo que na União Soviética e nos países do Pacto de Varsóvia se construiu em nome do socialismo; na China, embora Tiananmen ainda não tivesse acontecido, sabia-se também que chamar «socialismo» ao que ali se fazia era pura mistificação). Da Jugoslávia e da Albânia não merece a pena falar. Os que pensavam que era possível, partindo das ideias de Marx, Engels, não esquecendo os «contributos» de Lenine, Estaline, Trotski, Mao-tse-tung, Tito e outros, construir uma sociedade socialista, contavam apenas com o entusiasmo que transbordava das ruas para os partidos, sindicatos, comissões de trabalhadores, comissões de moradores, para os quartéis. E vice-versa. Esqueceram-se que paredes-meias com a nossa festa, o chamado «mundo livre» não dormia, pá.
Para lá da moribunda «cortina de ferro» também havia olhos postos em nós. E o «mundo livre» começava logo aqui ao lado, na Espanha sob a ditadura de Franco, com os generais impacientes a pedir autorização aos chefes do Pentágono para vir pôr ordem no quintal das traseiras. Sobretudo quando alguns tontos que se diziam de extrema-esquerda lhes fizeram o favor de assaltar a embaixada. Os americanos, mais experientes, estavam à espera que acalmássemos, que pousássemos. Que o problema se resolvesse internamente sem intervenções estrangeiras à vista – dá sempre mau aspecto. E o 25 de Novembro aconteceu. E de então até hoje a «normalidade» nunca mais deixou de crescer. «Socialismo em Liberdade», anunciavam os cartazes dessa época – «Capitalismo à solta», traduziram logo alguns.
Aí o temos, ao socialismo em liberdade.
*
Com este texto termino a série «Falando de democracia». Não que a democracia não justifique milhares de textos, mas porque creio que quem teve a paciência de ler alguns destes trabalhos já percebeu sobejamente em que águas navego e também aquelas em que não quero navegar (embora, mais ainda do que viver, como dizia o Fernando Pessoa, seja preciso navegar). Já sabem o que penso sobre Democracia e também sobre a «democracia» que podemos esperar desta gente que ocupa as cadeiras do poder. Só tinha a minha perspectiva para vos oferecer e já vo-la mostrei de muitos ângulos. Continuar seria como chover no molhado. Não quero tornar-me (ainda mais) chato. Desculpem algum excesso de rabugice (e se pensam que é da idade, procurem nas hemerotecas textos dos meus vinte anos – estou muito menos rabugento, acho eu). Até à vista.

A segunda versão de «Tanto mar», com que termino, dá conta da esperança que perdura, pois pode ser que, nalgum canto do jardim, tenha ficado esquecida uma semente…
Foi bonita a festa, pá.

Apontamentos & desapontamentos: Fechando o caderno

É tempo de fazer um balanço a este caderno de apontamentos e desapontamentos e de o encerrar. Em cerca de 20 textos, abordei diversos temas. Comecei com uma homenagem ao meu amigo José Pedro Machado que, com os seus «Grande Dicionário» e «Dicionário Etimológico» e muitos outros livros sobre o nosso idioma, continua, todos os dias, a ensinar-me, como fazia em vida, amenamente, à mesa do «Pardieiro», no Largo da Graça, ou da «Chineza», da Rua do Ouro. Aproveitei para, de raspão, aludir à função catártica dos blogues, de que modo os posts nos aliviam de frustrações, de como as palavras que neles colocamos precisamos de as dizer, para delas nos libertarmos. Até para homenagear amigos que já não estão entre nós. Não esqueci o grande jornalista e amigo que foi o Adriano de Carvalho.
Recordei as «primaveras» de Praga e a marcelista que, em 1969 nos deram alguma infundada esperança, e gravei na pedra e no bronze deste blogue a heróica «Operação Papagaio». Verberei o consumismo elevado à categoria de religião e as malditas claques dos clubes de futebol. Referi impressões de uma inesquecível viagem a Cuba. Na onda das minhas embirrações de estimação, não me esqueci da televisão – dediquei-lhe quatro desapontamentos, num deles citando a frase de Luiz Pacheco – «a televisão é para estúpidos!». Lembrei o filósofo Albert Jacquard e a sua fórmula mágica para acabar de vez com o desemprego – acabar antes com o trabalho. Não esqueci também nem os nossos irmãos brasileiros, nem os irmãos galegos.
Falei sobre a palavra como instrumento da evolução, do primado do conteúdo sobre a forma, e sobre a sobrevivência, ou não, do livro na era digital e, a propósito, dei os parabéns a Ray Bradbury, um defensor do livro impresso, e um indagador do Futuro. E não me esqueci de Marx, de Groucho Marx o tal que dizia ter princípios, mas que os podia mudar num ápice, caso não estivéssemos de acordo com eles – e nesta acepção, verifica-se que os nossos políticos, ou quase todos, são «marxistas». É precisamente por causa dos políticos, da classe política, que falo mais do passado, não porque seja saudosista – sendo falador (escrevinhador, no caso vertente) falo sobre aquilo que melhor conheço – o Passado. Também conheço razoavelmente o Presente, mas há dias em que faço por esquecê-lo. Dias em que nem ligo a televisão. Como quando não olhamos para o espelho por haver dias em que não suportamos enfrentar o próprio rosto. Por isso é que nestes «apontamentos & desapontamentos», falei mais de mortos do que de vivos, mais do passado do que do futuro. E quando falei do presente foi para dele me queixar. É que não estou a gostar nada do presente. E agora vêm aí eleições em dose dupla e todo o lixo está a vir ao de cima. Mas vejo que a maioria dos «aventadores» se está a divertir com a chegada do circo. Do mal o menos.
Paul Auster, um autor norte-americano de que não perco um livro, em «A Noite do Oráculo» (2004), cria uma personagem, um escritor que se habitua a escrever nuns cadernos, ou blocos de notas, azuis, fabricados em Portugal, que compra na loja de um chinês em Brooklyn e que lhe estimulam a veia criativa: «A partir do momento em que começamos a escrever neles, nunca mais nos apetece escrever em mais coisa nenhuma.», diz. Não indo tão longe na minha caderno-dependência, escrevo e tomo os meus apontamentos, desde há anos, nuns cadernos pautados de capa preta revestida de plástico, salvo erro produzidos pela Ambar (será que a Ambar me vai conceder um patrocínio devido a este discreto anúncio?). Foi a esses cadernos que fui buscar alguns dos apontamentos e desapontamentos de que aqui vos dei conta. Sempre que vou de férias ou de viagem, levo um caderno destes. No entanto, ao contrário do que aconteceu com os cadernos azuis do escritor do Auster, que deixaram de se fabricar (interrompendo-lhe a produção literária), estes belíssimos cadernos de capa negra continuam a encontrar-se em qualquer grande superfície.
Em suma, é tempo de fechar este caderno de «apontamentos & desapontamentos». Outro caderno será oportunamente aberto.

Comentário a comentários sobre «Falando de democracia»

Desde o primeiro texto desta série que tenho vindo a pôr em causa o conceito de democracia que enforma o regime político em vigor em Portugal e noutros estados. Nesse primeiro texto («Enquanto não somos deuses»), socorria-me de Jean-Jacques Rousseau e depois fui pedindo outras ajudas. Seria ocioso repetir aqui toda a argumentação que fui expendendo ao longo de trinta textos (série de que, aliás, o próximo será o último), pois ninguém que tenha lido algumas dessas crónicas alimentará dúvidas quanto ao que penso sobre o tema. O que, obviamente, não signifique que concorde. E por que raio, haviam todos de concordar comigo? Esperar essa unanimidade de opiniões seria estulto da minha parte Porém, nem que seja eu o único a concordar com o que escrevo, tenho o direito de o expressar. O que não me coíbo de fazer, embora saiba que o que aqui escrevo não tem qualquer influência no regular funcionamento das «instituições democráticas». Era o que mais faltava.
Vem este intróito a propósito dos comentários que João Cruz tem vindo a fazer a «Rotativismo e “alternância democrática”», ontem publicado. Nesses comentários acusa-me de diversas felonias, a saber:
a) – acho que milhões de portugueses são manipuláveis débeis mentais o que
b) – no mínimo é paternalista e no máximo fantasioso;
c) – que o meu paternalismo é semelhante ao que anima as vanguardas revolucionárias.
Penso que nestes três pontos se sintetiza o ponto de partida para a argumentação com que João Cruz teve a amabilidade de contemplar um texto que apenas pretende chamar a atenção para um aspecto histórico e particular de um conceito de democracia com o qual, na plena posse dos meus direitos de cidadania, tenho vindo a manifestar o meu desacordo. Direitos que (vá lá!) João Cruz me concede porque, diz ele «A ICAR – Igreja Católica Apostólica Romana? – orienta para seu lado, outras vanguardas detentoras de outras verdades orientam para outro. Enfim, as democracias plurais como a nossa também têm a virtude de cada um poder puxar a brasa à sua sardinha». Não sabia que existiam democracias «não-plurais», mas adiante, o autor destes comentários concede magnanimamente a cada um o direito à sua utopia, que é como quem diz à sua loucura.
Num comentário a um post de Adão Cruz, em que este nosso amigo aprofunda a explicação que eu tentei dar nas respostas a João Cruz, fazendo-o da maneira clara e directa que lhe é peculiar, o João comenta – «Valha-nos os blogs de gente culta e esclarecida para abrir os olhos ao povo apoiante!». Nunca tinham, que eu saiba, chamado ao Aventar um «blog de gente culta e esclarecida». Registe-se o elogio.
Fique também registado que nunca me animou a intenção de fazer proselitismo, de esclarecer, de iluminar ou de ensinar seja quem for. Nem estou a querer criar um novo partido, nem uma nova vanguarda, nem uma nova igreja. Escrevo para mim próprio e para quem, eventualmente, esteja de acordo com alguma coisa do que digo. E também para os que não estão de acordo. A única pessoa que procuro esclarecer, é a mim mesmo. E já tenho tarefa que baste.
A minha argumentação foi sendo feita nos textos que compõem a série. Não vou repeti-la só porque um leitor da sua trigésima parte não a aceita. Nem lhe recomendo que a leia, não porque não a compreendesse, mas porque não a quereria compreender (direito que lhe assiste). Sem paternalismos, sem querer iluminá-lo ou conduzi-lo seja onde for, recomendo-lhe apenas que leia com atenção os seus comentários. Talvez neles descubra alguma daquela arrogância e pesporrência de quem chega a uma aldeia e pretende impor justiça a torto e a direito, de pôr as coisas no seu devido lugar. E, sobretudo, esclarecer os pobres aldeãos que sem a sua vinda continuariam na escuridão. Embora seja uma aldeia de gente culta e esclarecida.
Em suma, o João Cruz tem todo o direito a dar sua opinião e estou-lhe grato por ma ter dado. Não tem é o direito de ironizar, ou de colocar suspeições, sobre o direito que os outros têm às suas próprias opiniões (ou utopias, se quiser).
E sobre este tema, tenho dito.

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Falando de democracia: Rotativismo e «alternância democrática»

Há um provérbio beduíno que diz, mais ou menos, «por cada vez que olhares para trás, olha três vezes para a frente». Vem isto a propósito daquela tese, se assim lhe podemos chamar, segundo a qual a história se repete. Eu diria que, mais do que uma tese, é uma superstição. Um político que se guiasse por esse princípio no exercício da sua função, seria como um automobilista que conduzisse o carro olhando para o retrovisor. Senão vejamos – já por diversas vezes me têm chamado a atenção para a similitude entre aquilo a que, nos nossos dias, chamamos o «bloco central» e «alternância democrática» (e ainda «pacto de regime») e o sistema político-partidário que antecedeu a ditadura de João Franco (1906) e deu pelo nome de «rotativismo». Vejamos então o que há de comum e o que existe de diferente entre a realidade portuguesa de há pouco mais do que um século e a situação política actual.
O rotativismo fora experimentado na Grã-Bretanha desde meados do século XIX, com tories e whigs alternando-se no governo. Em Portugal, houve um primeiro ensaio do sistema entre 1851 e 1865, com os partidos Histórico e Regenerador. Em 1876, da fusão do partido Histórico com o Reformista, nasceu o partido Progressista, sob a liderança de Luciano de Castro. Foi este quem defendeu nas duas Câmaras a implantação de um sistema bipartidário, com um partido conservador e outro mais liberal alternando-se no Poder. Os partidos Regenerador e o Progressista assumiram esse papel e o sistema funcionou até que o Ultimato britânico de 1890 provocou uma crise que se prolongou até 1892, impedindo o sistema de funcionar. No ano seguinte começou a derradeira fase do rotativismo. Em 1906, o Partido Regenerador-Liberal, liderado por João Franco, venceu as eleições legislativas. O rotativismo acabou. Entretanto, desde a traumática questão do ultimato, que desacreditou não só a instituição monárquica como também o próprio sistema parlamentar, o Partido Republicano e o Partido Socialista (nada tinha a ver com o actual, a não ser o nome) ganharam força. As Cortes transformaram-se numa liça de lutas verbais (e não só). D. Carlos quis reforçar o poder real e encarregou João Franco de formar um governo de ditadura – um pouco como aquilo que Manuela Ferreira Leite sugeria quando falou de «seis meses sem democracia, para pôr tudo na ordem» – a ideia do rei era mesmo essa, pôr tudo na ordem (menos ele, claro), mas a coisa não resultou – em 1908 deu-se o Regicídio e em 1910 a proclamação da República.
A democracia como sabemos, nos seus primeiros tempos, quer em 1910, quer em 1974, provocou agitação e aquilo a que os amantes da ordem, e os nostálgicos do antigo regime, chamam caos. De facto, durante a ditadura do Estado Novo, reinara uma paz e uma ordem semelhantes às que imperam nos cemitérios. Foi então que, em nome da estabilidade política, começaram a irromper os «pactos de regime» e começou a edificar-se o «bloco central»com uma «alternância democrática» no poder partilhada por PS e por PSD.
Comparar o rotativismo com a «alternância democrática» faz algum sentido na medida em que ambas as soluções conduzem a uma situação efectiva de não-democracia, àquilo a que se usa designar por «partidocracia» e de que já aqui falei. Quando vejo, agora neste período eleitoral, sobretudo, a sanha com que PS e PSD se digladiam, se denunciam reciprocamente, não posso deixar de pensar que se trata não de uma comédia representada para povo ver, mas de uma luta real não pelos interesses nacionais, como nos querem fazer querer, mas pela ocupação de um poleiro de onde se pode chegar aos tachos, distribuí-los pela família e pelos amigos, não esquecendo os adversários, que amanhã, por certo, os substituirão no governo e retribuirão a gentileza. É o chamado «acordo de cavalheiros». Os grandes grupos económicos apostam num ou noutro dos dois grandes partidos, embora não se lhes possa exigir fidelidade. Apoiam, contestam ou apeiam ao sabor dos seus interesses – convicção política é coisa incompatível com esses interesses.
É ocioso estarmos a discutir se queremos ou não queremos, se gostamos ou não gostamos do «bloco central», como diz Mluciano Amaral em artigo do «Diário de Notícias», o «bloco central» ou «pacto de regime» instalou-se no dia em que Sá Carneiro morreu: «uma social-democracia e um welfare state que nunca foram grande coisa, agora claramente disfuncionais e (o que é mais) muito brevemente inviáveis. O PS nunca quis mais do que isto. E a partir do dia em que caiu o avião em Camarate, o PSD também não». Porém, para que o «bloco» funcione, é preciso que os dois partidos se digladiem, que se acusem, que descubram falcatruas no campo oposto – Isaltino de Morais, Avelino Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, são as personagens pícaras da mesma tragicomédia – a commedia dell’arte da democracia. Commedia onde não faltam Pantaleões, Pierrots, Columbinas, Arlequins e Polichinelos – embora polichinelos como Alberto João Jardim sejam nefastos para o sistema, pois põem a nu a fragilidade da sua estrutura. E vêm provar que a moral desta comédia é precisamente não haver moral.
Isto que temos, este sistema teoricamente multipartidário, mas bipartidário na prática, é uma democracia? Claro que não? Há liberdade de expressão e há liberdade de associação, mas falta um dos pressupostos do demokratía (governo popular ou do povo) – por acaso, o principal dos seus pressupostos que é a de ser o povo a governar. Salazar era tacanho e, fez a tradução do grego muito à letra – (Governo do povo? Era o que faltava!) não compreendeu um dos mecanismos essenciais das sociedades modernas – o poder do marketing político. Quando, após a vitória dos aliados, converteu o seu fascistóide regime corporativo, na tal «democracia orgânica» – faltou-lhe dar o passo decisivo – proceder a eleições livres, sem fraudes nos cadernos eleitorais nem «chapeladas» – talvez não ganhasse as primeiras eleições, mas acabaria por ganhar. Mas a democracia era, para o seu espírito moldado à dimensão de Santa Comba e do seminário de Viseu, um papão. Os partidocratas deram esse passo. E afinal não aconteceu nada. O País é deles, os cargos e sinecuras são deles. O que mudou de essencial? Podem falar à vontade, dizem eles., que é como quem diz – «falem pr´áí». Temos de nos contentar com isso?
Não perfilho a ideia de que a «história se repete», pois é um conceito acientífico, que remete mais para o foro da superstição religiosa, fugindo à objectividade com que os fenómenos históricos devem ser analisados. Diria, perante certas listas de coincidências que por aí circulam (algumas forjadas) que se trata não de ciência histórica, mas de curiosidade de almanaque. No entanto, não pode duvidar-se que, em circunstâncias idênticas, a humana condição leva os acontecimentos pela rédea e conduz a comportamentos e soluções também idênticos.
Semelhanças entre o rotativismo e este sistema de «alternância democrática», apenas uma: quando uma classe, um grupo social ganha o poder, cria mecanismos para os conservar. É difícil comparar Portugal e o Mundo de há um século com os de hoje. Há cem anos as economias nacionais eram compartimentadas e as respectivas políticas também. Hoje, com tudo o que tem de fantasioso, a globalização torna-nos mais dependentes do que éramos então – se em Nova Iorque abrem uma porta e uma janela, nós constipamo-nos com a corrente de ar. Porém, hoje como há um século, há uma elite político-económica que apenas está dividida por questões formais e que, para preservar «valores» comuns, como o da prevalência dos seus interesses, encontra acordos tácitos que não necessitam de ser lavrados em documentos – pacto de regime, bloco central, alternância democrática, rotativismo… um partido aparentemente mais de direita, outro formalmente mais de esquerda (para dar o toque democrático), mas visand
o
ambos o mesmo objectivo – conservar o poder – lutam pelo «poder». O resultado não precisa de ser combinado – ganhe quem ganhar, o poder dos grandes grupos político-económicos não será posto em risco. Hoje como há cem anos, governam partidos governados por gente afim. Há cem anos, uma elite de bacharéis e de negociantes endinheirados, hoje um escol de licenciados (uns mais do que os outros) dependente das multinacionais, das grandes empresas indígenas e, last but not least, das centrais de inteligência, dos centros de poder político mundial..
Agora que olhámos uma vez para o retrovisor, olhemos, de olhos bem abertos, as próximas três para a estrada que á frente se nos abre. Porque os beduínos devem ter razão. Semelhanças com o rotativismo de há cem anos, só esta – quando uma classe ou um grupo social atinge o poder, muda as regras do jogo de modo a ganhar sempre. Mesmo quando parece que perde.

Falando de democracia: Ainda o tema do iberismo (II)

continuação daqui

No primeiro semestre de 2009 o défice espanhol disparou – o governo de Zapatero gastou quase o dobro da receita encaixada – situava-se esse défice no final de Julho em aproximadamente 40 mil milhões de euros. Segundo a OCDE, a taxa de desemprego em Espanha situava-se nos 18,7%, sendo a mais elevada entre os países pertencentes à instituição, cuja média estava, em Maio, nos 8,3%. Em Portugal a percentagem de desempregados, embora elevadíssima, andava pelos 9,1%. Não significa isto que em Portugal se viva melhor do que em Espanha – as estatísticas não dizem tudo e a economia paralela, lá mais do que cá, é uma realidade. Tomaram muitos de nós viver como alguns daqueles «desempregados».
No entanto, no caso de uma integração num mercado de trabalho tão rarefeito, os portugueses partiriam em desvantagem – índices de formação mais baixos e a desvantagem da língua – o castelhano (ainda que isso fosse dito de outra maneira) seria o idioma oficial e obrigatório e os portugueses que, embora, de facto, compreendem o castelhano, não o falam conforme supõem e indicam nos «curricula». Na sua quase maioria, falam um «portunhol» ridículo do qual o jornalista João Marcelino nos deu um excelente exemplo num dos vídeos que pudemos ver. Para os portugueses em geral a integração seria um desastre. Contudo, há portugueses e «portugueses».
Os empresários, alguns empresários, vêem na integração uma solução para a grave crise económica que atravessamos. Os grandes vislumbram a hipótese de um mercado mais do que quintuplicado, a oportunidade de parcerias com grupos espanhóis ou com grupos internacionais sediados em Espanha. Falaciosamente agita-se a miragem de um mercado de 800 milhões de pessoas, como se as ex-colónias obedecessem ainda aos ditames das antigas metrópoles. Outros, menos grandes, sonham com a possibilidade de vender os seus negócios em condições favoráveis a esses grupos. Quer nuns, quer noutros, verifica-se um desprezo generalizado pelo conceito de independência nacional. Tudo se reduz a uma questão de mercado. Mas esta gente da alta roda do capital, eu compreendo. Se for preciso até dizem que são patriotas, e que estão a defender os interesses nacionais… O que se torna mais difícil compreender é ver esse desprezo compartilhado por gente que, no seio de uma «Ibéria unida», passaria à condição de cidadãos de segunda, a heróis de «chistes» que os falantes castelhanos logo inventariam sobre os «portuguesitos». Com a arrogância própria da ignorância, riem-se quando lhes falamos de valores como o idioma, a História, a cultura. Nem sabem o que são essas coisas. Vi num blog a afirmação de que «seria giro» os clubes portugueses jogarem no campeonato espanhol – o que representa, pelo menos, uma visão inédita do tema, reduzindo-o a uma dimensão futebolística. Embora os cidadãos do estado espanhol não pareçam muito entusiasmados com a ideia, ao centralismo castelhano ela não deixa de ser simpática, porque provaria àqueles bascos, catalães e galegos que defendem a independência das suas nações que até os portugueses, mais de trezentos anos depois de terem abandonado o redil a ele regressam de cabeça baixa e pedindo licença para entrar.
Quem defende a integração de Portugal em Espanha, onde seria uma Comunidad autonómica, a 19ª, salvo erro, tem de ter consciência de uma coisa – Num referendo a anexação não passará. Se este ou outro governo nos integrassem à revelia da vontade popular, como entrámos na União Europeia, violando a Constituição da República, teríamos um grande problema – todos nós, portugueses, traidores e invasores. Onde quero chegar é que confio em que há portugueses e portuguesas corajosos em número suficiente para fazer a vida negra a quem nos quisesse anexar e a quem nos tivesse vendido. Poderia ser o fim de um estado artificial e sem razão para perdurar – a Espanha hegemonizada pela Castilla miserable, ayer dominadora,/ envuelta en sus andrajos desprecia cuanto ignora como disse Antonio Machado em «Campos de Castilla» e Josep Vidal nos recordou. E Vidal disse-nos também no seu excelente comentário ao meu texto sobre a questão do iberismo: «A Espanha é uma má companheira de viagem para qualquer projecto de integração em qualquer âmbito cultural, estando totalmente incapacitada, não só para liderar, como também para participar em qualquer projecto de iberismo.» (…)«Os actuais estados europeus, independentemente de serem monarquia ou república – e não é necessário que te diga que não sou, de modo algum, afecto à monarquia, que considero uma forma de governo anacrónica e periclitante – não conseguiram afastar-se do conceito patrimonialista que herdaram das antigas monarquias (Ponho-te como exemplo a questão da capitalidade do Estado; hoje em dia não faz sentido falar de “capital”, mas continuamos a fazê-lo em vez de falarmos de pólos ou centros dinâmicos para determinados projectos… O governo pode estar em qualquer local, mas nem tudo deve passar pelo governo, seja Lisboa, Madrid, Barcelona ou Valência…) E enquanto não nos desfizermos desse lastro, os projectos de integração – inclusivamente de convivência em igualdade – estão condenados ao fracasso, por algo de tão básico como a falta de respeito. Em suma, podemos dar cabo da cabeça discutindo, mas, basicamente, estamos perante uma questão de respeito: respeito pela singularidade, pela diferença, pela identidade… Essa é a premissa sobre a qual se podem construir num plano de igualdade todas as alianças e todos os acordos para trabalharmos juntos em projectos concretos… Mas em Espanha – onde se diaboliza o nacionalismo catalão, rotulando-o de excludente – pratica-se visceralmente, para além de toda a racionalidade, um nacionalismo incluente, assimilacionista. Essa é a tónica dominante, com todas as honrosas excepções que podemos assinalar (e oxalá fossem muitas). E isso conduz-nos a outro dos motivos essenciais pelos quais os projectos de integração – ou de convivência em igualdade – estão condenados ao fracasso: a ignorância. Não é que não nos tenham ensinado a conhecermo-nos, é porque nos ensinaram a ignorar-nos, ensina-se a «desconhecer» o que é diferente. Com? Com preconceitos, com desinformação, com a tergiversação da história até limites escandalosos.»
«Se Espanha não tem solução, se Espanha não quer outra solução, por que não aceitamos que a única saída que depende estritamente de nós, a que não passa por pedir licença a mais ninguém, é a da independência? De maneira surpreendente, os argumentos contra a independência são do tipo: “A independência não pode ser e, além disso, é impossível”. Quero dizer que quem argumenta contra é que a torna impossível. Não sou tão estúpido para subvalorizar as dificuldades do processo, está claro. Porém, se me colocam perante a alternativa de uma impossibilidade historicamente experimentada – a inclusão em Espanha – e uma impossibilidade por experimentar, inclino-me pela segunda via». (Salvador Cardús, sociólogo e escritor, que publica semanalmente um artigo no jornal diário Avui, dizia em 3 de Julho (citado por Josep Vidal).
Em 19 de Agosto , um leitor galego fez o seu comentário, lamentando a falta de uma referência à dimensão económica do tema, na sua opinião (e na minha) fundamental. Terminava dizendo: «Como galego amante de Portugal, só posso desejar aos portugueses que não acabem cedendo a sua soberania a Espanha
.
Para a minha nação – a Galiza – a dependência dos espanhóis tem sido historicamente nefasta… e continua a sê-lo». A este amigo, para já, deixo-lhe uns versos da também nossa Rosalía de Castro em «Cantares Galegos»: «Que Castilla e castellanos,/todos num montón a eito,/non valen o que unha herbiña/destes nosos campos frescos».
Acrescente-se que o tema da integração tem uma raiz eminentemente económica (o leitor galego tem toda a razão). O que o que se esconde por detrás desta campanha, tem como base o desiderato de um mercado alargado onde algumas empresas portuguesas possam expandir-se, o que é natural que aconteça com meia dúzia delas. Enquanto isso, a grande massa das empresas, nomeadamente as PMEs, seriam implacavelmente cilindradas e destruídas, implicando uma taxa de desemprego que não é possível calcular, mas que nos mergulharia numa miséria ainda mais atroz do que aquela em que estamos.
Em contrapartida, a desconstrução do estado espanhol implicaria na Catalunha, por exemplo, uma catástrofe de sentido inverso – milhares de empresas, competitivas como só os catalães sabem ser, perderiam um mercado de mais de quarenta milhões de pessoas, passando a estar confinadas ao pequeno mercado nacional. Por isso, apesar da vontade de muitos patriotas, os tubarões catalães querem continuar a ser espanhóis. E alguns tubarões portugueses almejam também esse mercado.
Estranhamente, os grandes aliados de quem quer preservar a independência nacional portuguesa, são, sempre segundo o tal estudo de Salamanca, a maioria dos cidadãos do estado vizinho. Enquanto apenas 34% dos portugueses seria contra a união, do lado espanhol a percentagem dos opositores seria de 30%, havendo 29,1% que se manifestou indiferente ao projecto. Isto significa que, se prevalecesse a estúpida ideia de nos integrarmos, teríamos de pedir licença para entrar e, obviamente não impor condições, aceitar um rei como chefe de Estado, a capital em Madrid e o português como segunda língua, sendo o castelhano o idioma oficial da tal Ibéria (que, obviamente, continuaria a chamar-se Espanha. Porque haveriam eles de se dar ao incómodo de mudar o nome?).

*
Em 1965, com um grande grupo de gente apanhada na leva de prisões causada pela traição do controleiro do sector universitário do PCP (um tipo que, curiosamente se chama ou chamava Nuno Álvares Pereira), eu à época ligado à FAP, estive com Mário Lino num calabouço colectivo do 2º piso do Aljube e depois em Caxias. Recordo nele um militante do PCP, onde esteve até 1991, rapaz amante de cinema (creio que dirigia o Cineclube Universitário), bem disposto, inventor de boas pilhérias – lembro-me dele, ataviado de bispo, com trajos fabricados por nós e por um báculo feito com um cabo de vassoura oficiar uma missa em improvisado latinório. Porém, aos poucos, a imagem do ministro arrogante e trapalhão, faz desvanecer a recordação positiva que guardo do jovem de há mais de 40 anos. Agora é o golpe final – Mário Lino, ministro das Obras Públicas Transportes e Comunicações declarou-se «iberista confesso», numa palestra em Santiago de Compostela (afirmando que «temos uma língua comum»). Como já vimos, há várias espécies de «iberismos» Na maior parte dos que se dizem iberistas existe a ideia da integração na monarquia espanhola, com capital em Madrid, e o castelhano como língua principal. A ideia tão absurda, respondo, citando o meu antigo companheiro de prisão: Jamais! Jamais!

Poemas com história: Canto da cela 10

Em Janeiro de 1965, envolvido na grande vaga de prisões que afectou estudantes e intelectuais das duas organizações clandestinas existentes – o Partido Comunista e a Frente de Acção Popular – fui preso e, antes de ir para a sede da polícia política onde, durante muitos dias, fui interrogado da forma que se sabe ou imagina, estive uns dias encarcerado na cela nº 10 do Aljube, num daqueles desumanos cárceres a que se chamava os «curros», celas estreitas e insalubres onde a luz filtrada através das grades e atravessando o corredor, era a única coisa agradável que acontecia. Quando, três meses depois, fui libertado, a recordação daqueles dias num «curro» do Aljube (que nem foram os piores…), ditou-me este texto que depois publiquei em A Voz e o Sangue. De notar, e não me canso de insistir neste tópico, que a Liberdade que invoco não é esta que vivemos – muito feita de «liberdades» – mas sim aquela que, há mais de 40 anos, eu e muitos sonhávamos alcançar.
Canto da cela 10

Sem título

Este esquife de pedra e de aço em que viajo,
onde navego as horas e as constelações do ódio,
é uma cela imóvel plantada no coração do medo.
Um manto de argamassa e ferro cobre a minha voz.
Não mais a mordaça invisível da falsa liberdade
que ante o Sol floresce impudicamente: agora
a voz abafada por sucessivas grades e paredes,
submersa sob este céu de estuque, sem estrelas;
agora, esta feia gaiola pintada de desespero,
em cujo dorso vai cravada a aranha possessiva
da lâmpada gradeada sempre acesa sobre a porta,
feroz sentinela da noite eterna. E, todavia,
para lá das grades, do corredor, do carcereiro,
a minha face adivinha o hálito fresco da madrugada
e eu navego a madrugada sobre o meu bailique,
sobre este corcel rescendente a suor e a sangue.
Durante as refeições abrem a porta e eu vejo
uma estreita fatia da janela do corredor:
são cinco grades de sé e três de céu
e estes são os melhores momentos do dia.
De pé, como a sopa do estado e olho a catedral –
– tive sorte – fiquei em frente a uma bela rosácea
(o quotidiano de um preso constrói-se
de factos humildes e pequenos).
Na parede cinzenta tatuaram um camelo sem pernas,
Um perfil de mulher com longos cabelos,
Uma estrela, nomes e riscos, muitos riscos,
sulcos no tempo, dias rasgados a golpes de solidão
pelos muitos camaradas que já aqui estiveram
e deixaram a sua passagem impressa nas paredes,
no chão, nas mantas e no ar, neste odor,
escandindo angústia e dolorosa expectativa.

Já não olho a parede – conheço-a de cor –
gasto as horas passeando nestas estreitas tábuas,
quatro metros para lá, quatro metros para cá.
Lá fora
passam eléctricos e os pombos rufam as asas.
………………………………………………………
À noite a prisão é um corpo pétreo, mas que pulsa,
As suas velhas empenas vibram sob os nossos dedos,
levam e trazem palavras fraternas.
Com o amor com que Ísis juntou o corpo de Osíris
disperso ao vento, junto letra a letra
uma mensagem que palpita aos meus ouvidos
– coragem companheiro – coragem companheiro.

Ah Companheiros,
nem a pedra e o aço conseguem esmagar as nossas vozes,
elas virão um dia como um rio impetuoso e forte
rasgar a noite em que as querem aprisionar,
destruir as grades da tirania, a opressão
e a crueldade – tudo isto derrubarão
na corrida para o seu oceano – a Liberdade.

Apontamentos & desapontamentos: A defesa da palavra

Porque escrevemos? Porque usamos a palavra como utensílio de eleição? Eduardo Galeano responde: – «Escrevemos a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar o que dói e partilhar o que dá alegria. Escrevemos contra a própria solidão e contra a solidão dos outros. Supõe-se que a literatura transmite conhecimento e actua sobre a linguagem e o comportamento de quem a recebe; que nos ajuda a conhecermo-nos melhor para nos salvarmos juntos. Mas «os outros» é um termo demasiado vago; e em tempos de crise, tempos de definição, a ambiguidade pode assemelhar-se demasiado com a mentira. Na realidade, escrevemos para pessoas com cuja sorte, ou má sorte, nos sentimos identificados, os mal alimentados, os sem abrigo, os rebeldes e os humilhados desta terra, e a maioria deles não sabe ler. Entre a minoria que sabe, quantos dispõem de dinheiro para comprar livros? Galeano responde: – Resolve-se esta contradição proclamando que escrevemos para essa cómoda abstracção chamada “massas”?»
Eduardo Galeano (Montevideu, 1940), é um escritor e jornalista uruguaio. Autor de mais de 40 obras traduzidas em diversos idiomas, a mais conhecida das quais é «Las venas abiertas de América Latina», 1971 («As Veias abertas da América Latina»,com prefácio de Isabel Allende, edição de Paz e Terra, São Paulo, 2007).Preso em 1973, quando do golpe militar, exilou-se depois na Argentina, de onde, em 1976, com a criminosa ditadura de Videla, teve também de fugir, pois estava nas listas dos esquadrões da morte. Refugiou-se em Espanha, regressando ao Uruguai quando, em 1985, a democracia voltou. No seu livro «Crónicas 1963-1988», publicou o texto «Defensa de la palabra», no qual inspiro a presente crónica – aconselhando vivamente a leitura das obras deste lúcido escritor latino-americano). Este texto mereceria uma análise mais aprofundada, porque referindo-se à América Latina, tem um alcance universal, abordando problemas que afectam e afligem todos os que usam a palavra como arma e como ferramenta de trabalho.
Lançado o tema eterno do abismo que se abre entre o escritor e os destinatários da sua escrita, Galeano aborda a questão da miséria na América Latina, seu tema de eleição, concluindo que os países pobres pagam para que seis por cento da população mundial possa impunemente consumir metade da riqueza que o mundo inteiro gera. Assinala o desenvolvimento de uma indústria restritiva e dependente, assente sobre velhas estruturas agrárias, agudizando as contradições sociais em vez de as atenuar. Referindo-se sempre á sua América Latina (embora, com já disse, os pressupostos que apresenta assumam uma validade universal), pergunta: «por que não reconhecer um certo mérito de sinceridade nas ditaduras que oprimem, hoje em dia, a maioria dos nossos países? A liberdade das empresas implica, em tempo de crise, a prisão das pessoas.» Refere também a desertificação que a miséria provoca no tecido cultural dos países latino-americanos, com a fuga dos cientistas em particular e dos intelectuais em geral, abandonando laboratórios e universidades sem recursos.
Eduardo Galeano passa em revista toda a contradição que resulta do contraste entre a liberdade de expressão dos escritores, que podem dizer o que queiram, e o cárcere de limitações das necessidades mais básicas em que vivem aqueles a quem as suas palavras se destinam. Defende algo que os defensores da pureza da arte, sempre condenaram – a escrita como instrumento. Para esses, o objecto da arte é a própria arte. Mas Galeano termina o seu extenso discurso em defesa da palavra, afirmando que «Lentamente vai ganhando força e forma, na América Latina, uma literatura que não ajuda os outros a dormir e que, pelo contrário, lhes rouba o sono; que não se propõe enterrar os nossos mortos, mas perpetuá-los; que se nega a varrer as cinzas e procura, em contrapartida, acender o fogo. Essa literatura continua e enriquece uma formidável tradição de palavras lutadoras.» Curiosamente, este discurso em louvor da palavra, vem reacender uma controvérsia que, sobretudo nos anos sessenta, fez correr muita tinta – a dicotomia entre a forma e o conteúdo.
Um texto lúcido e escrito numa linguagem límpida e que merece ser lido e estudado com atenção, demonstrando que a palavra não pode estar dissociada da vida. Talvez volte a este tema e a esta preocupação que, afinal, está na base de um poema, com mais de trinta anos, que há semanas atrás aqui publiquei – «Natureza morta» – há discussões que são eternas. Esta é uma delas.

Ainda o iberismo (I)


Tinha prometido não voltar a este tema, pois dizem que falar muito dos fantasmas lhes pode dar entidade corpórea. Contudo, uma sondagem que para aí circulou no princípio de Agosto, aqui referida pelo Luís Moreira num post de 5 desse mês, constitui um desafio e uma tentação. E, tal como acontecia com o Oscar Wilde, eu resisto a tudo menos às tentações. Ainda por outro lado, gostaria de comentar dois comentários que me chegaram do interior do estado espanhol – um do meu querido amigo Josep Vidal, de Barcelona, e outro de um leitor galego.
Houve uma sondagem, feita há três anos pelo Expresso, que indicava que 27% de portugueses estavam dispostos a uma união com o estado espanhol. Neste estudo, mais recente, o da Universidade de Salamanca, a percentagem subiu para 40%. Alarmante? Acho que não. Começo por não acreditar na isenção desta sondagem (nem na da anterior) É um estudo mais do que suspeito. A Universidade entrevistou 876 pessoas em Portugal e em Espanha, nos meses de Abril e Maio. Que pessoas? Quantos portugueses, quantos espanhóis? Em que regiões de ambos os territórios? A que estratos sociais e a que faixas etárias pertenciam os entrevistados? Todos sabemos que é na composição do universo seleccionado previamente que os resultados das sondagens se manipulam.
Curioso é que o trabalho tenha sido feito pela Universidade onde o grande intelectual Miguel de Unamuno foi reitor e onde os falangistas, gritando «Viva la muerte!», em 1937, o levaram a uma histórica intervenção e a morrer de angústia pouco depois. Pelos vistos, o espírito do velho mestre, um iberista e não um anexionista, já não paira pelos claustros da vetusta instituição salmantina – quem encomendou a tal sondagem – uma coisa chamada Barómetro de Opinião Hispano-Luso – pagou e hoje em dia tudo se compra e vende; pelos vistos, até mesmo a honorabilidade de universidades centenárias.
Não acredito na isenção desta sondagem, tampouco creio na da anterior, mas acredito ainda menos na «coincidência» da reiterada insistência com que este tema vem sendo abordado – as sondagens, as declarações de Saramago, as de Arturo Pérez-Reverte, a afirmação de «iberista confesso» feita pelo ministro Mário Lino em Santiago de Compostela, a entrevista de Ricardo Salgado, do Banco Espírito Santo ao Público, para não falar no clamor, que sobre este tema, vai pela blogosfera, faz que eu não acredite em «inocências» e muito menos em «coincidências». Pensar que tudo isto obedece a uma orquestração seria alinhar na desacreditada «teoria da conspiração»?
Creio que não seria, porque não faz sentido chamar «conspiração» a uma tentativa canhestra de criar um movimento de opinião favorável à união, ou seja, à absorção de Portugal pelo estado espanhol. Tentativa falhada ou falsa partida, pelo menos para já. Ao contrário do que diz a locutora espanhola no vídeo, em Portugal o assunto só não morreu porque não chegou a nascer.
Nas tais declarações de finais de Julho passado de Ricardo Salgado, líder do Banco Espírito Santo, ao Público, vem defender o TGV «como forma de acelerar a construção da Ibéria». A Ibéria está construída – é um conjunto de países que deveriam ser todos independentes. E se assim fosse, espanhóis (designemos deste modo os castelhanos e os seus colonizados mais submissos, os andaluzes, por exemplo), bascos, catalães, galegos e portugueses, poderiam talvez pensar numa federação de Repúblicas, unindo-se para o que fosse comum e continuando autónomos para o que não é susceptível de ser amalgamado – a língua, a cultura, a história… Mas a esperança do homem do BES nada tem a ver com iberismo – acha é que o seu banco teria uma expansão maior se estivéssemos integrados num espaço comum com as regiões ricas de Espanha – Madrid e Catalunha.
Em entrevista ao Diário de Notícias, em Julho de 2007, José Saramago defendia a mesma coisa: «Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos», acrescentando que não seria uma integração cultural e dando o exemplo da Catalunha: «A Catalunha tem a sua própria cultura, que é ao mesmo tempo comum ao resto de Espanha, tal como a dos bascos e a galega, nós não nos converteríamos em espanhóis.» Porém, mais adiante, desdiz-se, quando o jornalista pergunta se Portugal seria mais uma província de Espanha e Saramago responde: «Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla-La Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente (Espanha) teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria.» O escritor defende, pois, a anexação, o desaparecimento de Portugal no meio das regiões autónomas. É uma «ideia absurda» – Cavaco disse algo com que concordo – e aventá-la é fazer o jogo de quem nos quer absorver e de quem quer ser absorvido.
Há tempos, Mário Soares, posto perante a questão, assegurou que o papão da perda da independência já teria passado à história, achando mesmo que podemos com base neste «espaço integrado ibérico, fazer trampolim para termos uma influência efectiva na Europa». Pela mesma altura, Joana Amaral Dias, na época assessora da campanha de Soares, opinava que neste projecto de união se podia ver os sinais de «um novo internacionalismo». Claro que a Joana não deve fazer ideia do que é o internacionalismo – pode estar certa de que um país perder a sua soberania a favor de outro estado, nada tem a ver com tal conceito. Provavelmente a exclusão da Joana Amaral Dias das listas do BE terá também a ver com a sua sede de protagonismo e com a sua incapacidade para ficar calada mesmo quando se trata de temas que não domina (como nota à margem, diga-se que é verdadeiramente espantosa, num partido que se reivindica do Socialismo, a tendência para escolher figuras mediáticas, mesmo que fúteis como a Joana – que o Bloco recusou – ou indo a extremos ridículos, como a escolha para «mandatária para a juventude» de Carolina Patrocínio: é bonitinha – não tão bela como se supõe – mas intelectualmente medíocre e de um burguesismo de caricatura – uma Lili Caneças adolescente. Como é possível? O que tem esta gente a ver com o Socialismo?).
No plano da comunicação, vemos envolvidos nesta campanha de tentativa de intoxicação da opinião pública portuguesa, além do El País e dos já referidos semanário e diário portugueses, outros órgãos ditos de informação onde o capital espanhol tem um peso significativo, como é o caso da TVI e da Rádio Comercial, ambos da Prisa – Media Capital. Mas a própria RTP, a estação de serviço público, sustentada com o dinheiro dos nossos impostos, dá uma mãozinha – remeto-vos para um texto que aqui publiquei há semanas atrás sobre «Tele-política». Já em Dezembro de 2006 a RTP dedicara um largo espaço informativo à ideia da criação da «eurociudad» Elvas-Badajoz.
Como dizia Francisco Martins Rodrigues no seu texto «Ibéria», publicado no livro «A Galiza do Século XXI – Ensaio para a Revoluçon Galega», 2007, é uma campanha «promovida a partir de cima». Com a clareza de linguagem que o caracterizava, Francisco Martins Rodrigues, afirmava que «a Espanha se tornou em poucos anos a potência colonizadora de Portugal em termos económicos.» E que, embora os governos falem de um «saudável intercâmbio de investimentos», «a dimensão dos grandes grupos espanhóis cilindra autenticamente quaisquer veleidades do capital português». E cita os grupos que são «o rosto de uma autêntica invasão de capitais» – Santander, Iberdrola, Repsol, Prisa, Zara… Pro
vo
cando, segundo Martins Rodrigues, uma subversão do tecido capitalista tradicional.
Lucidamente, como sempre, denunciava, há dois anos, aquilo que agora se tornou muito claro – a tal campanha promovida a partir de cima quando, em 2004, o director do semanário Expresso e o banqueiro José Manuel de Mello levantaram a dúvida se Portugal, dada a fragilidade da sua economia, tinha viabilidade como nação. E perguntavam – «porque não dividir o país em duas ou três regiões e incorporá-lo no estado espanhol». Creio que é isto que em linguagem de mercearia se chama «vender a retalho» (embora à luz do Código Penal tenha um nome mais dramático…). O texto do Expresso foi mal acolhido e os promotores da «ideia» meteram (provisoriamente) a viola no saco.
Agora aparece este estudo, oriundo de um tal Barómetro de Opinião Hispano-Lusa 2009 e realizado pela Universidade de Salamanca. A ideia da jangada de pedra, lançada há vinte e três anos por Saramago e que pareceu uma inocente parábola literária, era afinal na cabeça do escritor um projecto político que na entrevista de há dois anos ao Diário de Notícias aparece definido com palavras claras. Como parábola literária era interessante, pois salientava a singularidade das gentes desta ocidental península europeia; porém, como projecto político é surpreendentemente disparatado e insensato. Então o José Saramago, em nome de um «bom senso» que lhe deve ter sido incutido pela Pilar, manda às urtigas quase nove séculos de História, a cultura a língua? Ainda por cima, numa altura em que a jangada aqui ao lado está a meter água.

Recordando João Vieira


Uma das consequências de se viver durante muito tempo é assistir-se à partida de muita gente, familiares, amigos, conhecidos. Ontem, estava a almoçar e a ver televisão (um mau hábito), e fui surpreendido com a notícia da morte do pintor João Vieira. Não se pode dizer que fôssemos amigos; tampouco inimigos. Digamos que nos conhecíamos e nas poucas vezes em que nos víamos tínhamos uma relação cordial. Sentia uma grande admiração pela grande qualidade da sua pintura. Tenho uma serigrafia do João em minha casa e, na última vez em que falei com ele – num restaurante de que foi proprietário em Azeitão – levantei a hipótese de lhe comprar um quadro. O problema eram dois, disse-lhe eu – ele ser um artista muito cotado e eu não ser rico. Estava com a minha mulher e com um casal amigo, o António e a Célia Gomes Marques (sendo o António, por via do teatro, mais íntimo do João do que eu). Rimo-nos e o João Vieira logo disse que se havia de encontrar uma solução. Coisa que nunca aconteceu nem acontecerá, visto que o João nos deixou.
Em Março, no Dia Mundial da Poesia, estive em Vila Real, a convite do Grémio Literário, para, com o Eurico de Figueiredo, animar um debate sobre o Movimento Setentrião no qual nos anos 60 participei. Já não ia à cidade há uns anos e um dos anfitriões, o Elísio Amaral Neves, andou a mostrar-me as novidades que o burgo tinha para exibir – muitas e nem todas boas – entre elas, e entre as melhores, estão os vitrais que o João Vieira criou para a Igreja de São Domingos ou Sé Catedral. Confesso que a minha primeira reacção foi negativa – a pintura do João incrustada num monumento gótico acordou o reaccionário que há em mim. Pareceram-me duas coisas isoladamente muito belas, mas separadas por cinco séculos, criando uma relação anacrónica que me chocou. Mas fui caindo em mim e o tipo mais desempoeirado, que também cá mora às vezes, levou a melhor. A beleza é intemporal. Os vitrais do João estão muito bem na Sé de Vila Real.

Uma das imagens que guardo da juventude do João (e da minha, claro) é estarmos os dois no Café Gelo, numa manhã de domingo ainda cedo, em que ainda ninguém aparecera (mas eu morava perto e ele tinha o ateliê mesmo por cima) a falar sobre a música popular brasileira, trauteando canções e de repente o João sai-se a cantar muito bem o «É doce morrer no mar», do grande Dorival Caymmi. O Herberto e o Forte que entretanto chegaram não o interromperam e ele pôde chegar ao fim da canção. Um dote do João que talvez poucos conheçam – cantava bem.
Enfim, o João Vieira deixou-nos. E, com ele, um dos maiores pintores portugueses desta atribulada época.
Escutemos Dori Caymmi cantando a linda balada criada por seu pai.

Falando de democracia: A nave dos loucos (caos e democracia)

loucos
Na passagem do século XV para o XVI, um escritor alsaciano de língua alemã, Sebastian Brant (1457-1521), um jurista formado em Basileia, escrevia, em 1494, uma obra, Das Narrenschiff ou Stultifera navis, na versão em latim. Obra que, sem grande mérito literário, teve uma grande repercussão não só na sua época como nos tempos que se seguiram. Chegou o seu eco até aos nossos dias. Para um escritor menor, ser recordado ao longo dos quinhentos anos que se seguiram à sua morte, não está nada mal. Grandes artistas como Hieronymus Bosch e Albrecht Dürer, inspiraram-se nesta obra de Brant. Teve epígonos por todo o mundo. Gil Vicente, por exemplo, pensa-se que a poderá ter lido. A ideia central do livro é muito simples – numa era de navegações, a simbologia náutica era uma constante. Assim, Brant fez embarcar numa nave – a Sultifera navis – diversos tipos de loucos, 112 ao todo – todos os loucos do fantástico país da Cocanha, quer dizer, da abundância, numa nave que atravessa a Narragonien (Mattagonia), ou seja, o «reino da loucura». Os passageiros representam todos as classes – clérigos, nobres, mercadores, poetas, camponeses e artífices.
A cada louco, Brant dedica um capítulo do poema o qual, além do prefácio e do epílogo, tem cento e doze capítulos. Brant não de se esquece de si mesmo, referindo-se aos seus méritos e defeitos no prólogo, no primeiro e nos dois últimos capítulos – «O Louco dos Livros» e «Dos Livros Inúteis», falando dos loucos que, como ele gente que ama a sua biblioteca mais do que o saber que ela lhes pode oferecer, transformando-se em coleccionadores de livros, mas, nem por isso, em pessoas mais sábias. Outros temas interessantes são, por exemplo, «A Apologia do Poeta» e «O Homem Sábio e Prudente», em que faz o elogio de Sócrates (o filósofo grego, claro). Em cada um dos capítulos a obra retrata um vício humano personificado num louco – o louco da moda, o da avareza, o da discórdia, o da luxúria, o da gula, o da inveja, etc. Sobre todos, predomina a tutelar figura de Frau Venere (Vénus). «Das Narrenschyff» é sobretudo um poema moralista e, como tal, nele abundam sentenças bíblicas, aforismos populares alemães portadores da sabedoria conceptual da Idade Média. Por outro lado, representa-se nas suas páginas uma viva angústia pela trágica situação da Igreja, onde sopravam já os ventos de divisão que resultaram na Reforma, e pela iminente desagregação do Sacro-Império, ameaçado naquela época por poderosos inimigos internos e externos. A Nave dos Loucos de Brant era, portanto, uma mística barca representando a «Civitas christiana» à deriva num mar de loucura e de inovações «sacrílegas», filhas do Renascimento, concebidas a partir das cinzas profanas da Grécia e de Roma. Pela mesma época, o grande pintor brabantino Hieronymus Bosch criava o seu Barco ou Nave dos Loucos, também antes do final da era de Quatrocentos, pintura inspirada pelo poema de Sebastian Brant.
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A narrativa de Brant Inspirou também o romance «Ship of fools» da norte-americana Katherine Anne Porter (1890-1980), publicado em 1962 e, em 1965, baseado no livro e com o mesmo título, um filme do genial Stanley Kramer, com Vivien Leigh, Simone Signoret, José Ferrer, Lee Marvin, entre outros. Num paquete de luxo, no ano de 1933, pessoas de diversos estratos culturais e sociais, numa amostragem de um pequeno universo concentracionário, viajam do México para a Alemanha – No decurso da viagem, na Alemanha a situação muda, Hitler sobe ao poder. Alguns dos passageiros, judeus por exemplo, vão alegremente a caminho do holocausto. E chegamos à terceira parte da minha «homilia» de hoje.
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. A política partidária portuguesa, tal como actualmente se apresenta, afigura-se-me repugnante. Não compreendo como podem as pessoas preocupar-se com gente como Sócrates (o político português, claro), Manuela Ferreira Leite, Santana Lopes e quejandos. É gente que não pensa existe no sentido nobre da palavra (pois recebe o pensamento já mastigado pelos seus donos de Bruxelas, de Washington, da Sonae, da Galp, do Espírito Santo (o banco, claro)… Max Aub, um grande escritor espanhol (1903-1972) num dos seus deliciosos «Contos Exemplares», diz que as árvores existem, mas não pensam, pondo com esta constatação em causa o princípio de Descartes. Eu diria que estes nossos políticos não pensam e que, a aceitarmos a cartesiana teoria, como não pensam logo não existem. Andam por aí, fala-se muito neles, mas daqui por dez anos ninguém se lembrará deles. De facto, não têm qualquer importância. São meros peões movidos por gente mais ou menos discreta, mas que em todo o caso não goza do protagonismo dos políticos. Por exemplo, alguém, a não ser os americanos, acredita que o wrestling é um desporto honesto? Ou que é sequer um desporto? Com as lutas verbais dos políticos dos partidos do poder tenho o mesmo sentimento de burla descarada. Não é uma luta honesta e muito menos tem a ver com a democracia. Não é uma luta, é mais um ritual. Não lhe chamo palhaçada, pois já aqui expliquei o profundo respeito que nutro pelos palhaços. Vamos chamar-lhe farsa, com os devidos pedidos de desculpa aos farsantes. Quarta e última parte – vamos à moralidade (ou imoralidade?) da história.
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Numa barca cheia de gente alienada, vamos navegando na irremediável direcção do caos. Não seria inevitável, se soubéssemos exigir aquilo a que temos direito, se soubéssemos escolher entre nós os mais capazes de dirigir a barca e de escolher a rota. Mas não. Masoquistas impenitentes, vamos elegendo como aparentes capitães os criados de poderes ocultos ou discretamente afastados da ribalta. Chegados à ponte de comando, perguntam aos patrões como e para onde devem conduzir a barca, pois nem sequer são eles os timoneiros desta nave que nos conduz ao caos. São simples marionetas. São os rostos e as bocas da corrupção, mas não o seu coração, os seus pulmões. Não nos enganemos com as frases grandiloquentes, mas ocas, com que protestam patriotismo e honra – são coisas que não têm. Se for preciso e der jeito até ajudam a vender a nação a quem der mais. Sempre em nome dos «superiores interesses nacionais». Uma nave de loucos conduzida por crápulas.

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida: Os últimos anos


Em 1981 volta a ser internado no Curry Cabral e depois no Sanatório do Barro, em Torres Vedras. Requer a pensão de reforma – afinal, apesar do caso da gravata escocesa, do sobretudo involuntariamente emprestado pelo senhor director e da quadrilha dos selos, foi funcionário público. Escreve para o Diário de Lisboa e para o Diário Popular. Os amigos dão apoio económico. Mas o tempo de extrema penúria vai passar. Em 1982 começa a receber a pensão de reforma. Depois é uma bolsa do Ministério da Cultura que lhe é atribuída por mérito cultural. Pacheco conta: «O Alçada Baptista»(…) «encontrou-me um dia na Av. Da República e perguntou-me: “não lhe dava jeito uns sete ou oito contos por mês?”. “Ó doutor, não me diga isso, se fosse um conto ainda acreditava…” Depois vi o decreto e concorri. Tive logo um subsídio de dez contos. Depois, a Maria João Rolo Duarte, a mãe deste Pedro, é que conseguiu que o Santana Lopes, quando era Secretário de Estado da Cultura, me aumentasse o subsídio, que na altura ia nos 60 contos… a Maria João Rolo Duarte sabia que o Cesariny recebia mais do que eu e, numa festa em que encontrou o Santana Lopes, fê-lo prometer que me aumentava o subsídio. Como ela escrevia na Capital, publicou um texto que comprometeu o Santana. Recebi mais 30 contos por mês, passou para 90 contos.» (…)«Gosto do Santana por causa disso. E também porque é um playboy, um gajo dos copos, das discotecas e das putas».
É novamente internado no Sanatório do Barro. Em 1983 é reinternado pela quarta vez no Sanatório do Barro. Em 1984 é internado na Clínica de Pneumologia de Celas com broncopatia obstrutiva e infecção respiratória. É internado no Hospital Psiquiátrico de Júlio de Matos. Em 1985 e 1986 continua a publicar, inéditos e reedições. Em 1988, o Teatro da Cornucópia adapta e leva à cena a Comunidade. Muda-se para Setúbal. Cecília Neto realiza um filme sobre Luiz Pacheco para a RTP-2, adere ao Partido Comunista Português. A este respeito, João Paulo Cotrim, quando o entrevista, pergunta-lhe como é que ele, tendo mantido sempre uma postura anarquista, acaba por se inscrever no PCP, Pacheco responde: «Pois é, mas eu também só entrei para o partido quando me apareceu uma hérnia. Nessa altura, mandei um recado ao José Casanova: “Psst! Quero entrar para o partido como extrema-unção”. Isto não obriga a nada, nem aqui há uma esperança revolucionária. É porque é giro, um gajo morre e vai lá com a bandeira no caixão. É que eu tinha visto o enterro do Ary dos Santos a subir a Morais Soares, com eles aos gritos Ary amigo, o Partido está contigo! – e pensei: “Isto é que me convém, porra! Pagam-me o enterro, pagam-me o caixão e levo a bandeira que me deixa aconchegado. Sabe, é que eu sou um gajo muito friorento…».

Conclusão

Muito provavelmente, ele rir-se-ia da afirmação que vou fazer e quase consigo ouvir as suas casquinadas asmáticas acolhendo esta afirmação; em todo o caso, faço-a – ter conhecido e privado com Luiz Pacheco foi um privilégio.
Naquela tarde do princípio de Janeiro de 2008, não devia ter ido, mas fui à Basílica da Estrela, vê-lo pela última vez. Não devia ter ido porque, tal como a maioria das pessoas não gosta de ser apanhada «descomposta», ao Pacheco não agradaria que os amigos o surpreendessem tão composto em «câmara ardente» na Basílica da Estrela, à espera da missa, rezada por iniciativa de uma das filhas, que antecedeu a cremação no cemitério do Alto de São João. Lá estava ele, comprido, bem vestido, penteadinho, hierático. Silencioso como só os mortos sabem ser e estar. Pela primeira vez, o achei sem ideias. Para rematar esta crónica, à falta de melhor, lembro-me da sua resposta quando, numa das entrevistas da fase jubilatória da sua vida, lhe pediram uma mensagem para as novas gerações: «- Puta que os pariu!».

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida: Os amigos. Como conheci Pacheco


Eu era assumidamente um amigo de «vintes». As cartas e postais que me mandava, terminavam com frequência assim: «Um abraço (manda vintes!)». Houve um período, na década de setenta, em que fui promovido – passei a mandar «cinquentas» e às vezes «cens». Nos últimos tempos, o Pacheco não precisava já destas ajudas – tinha a reforma, todos os filhos criados e relativamente bem na vida. Tinha colaborações pagas em jornais. E estava mais sereno, menos propenso às loucuras. Só a língua e a prosa continuavam soltas, aceradas e certeiras como setas de zarabatanas. Na minha relação com Pacheco houve três marcos – o Café Gelo, onde nos conhecemos, a revista Pirâmide, de que fui um dos coordenadores e onde eles colaborou activamente e Tomar, onde ele me visitou e onde, com um grupo de amigos, vivemos uma noite épica de copos.
Foi em 1957 ou 1958, quando comecei a frequentar o Café Gelo que o conheci. Ele era na altura funcionário da Inspecção-Geral de Espectáculos, fiscal, segundo julgo saber. È difícil imaginar o Pacheco de fato e gravata, mas naquela altura a função pública implicava manter rígidos padrões de comportamento e de apresentação. Trabalhava no Palácio Foz, ali a dois passos, e aparecia cedo no café. Por ali paravam também, além do Pacheco, o Mário Cesariny de Vasconcelos, o Raul Leal, sobrevivente do «Orpheu» , o Herberto Hélder, o Manuel de Lima, o António José Forte, o Virgílio Martinho, o Ernesto Sampaio, o João Rodrigues, o Manuel de Castro, o Renato Ribeiro, o Pedro Oom e muitos outros, entre os quais eu. O Pacheco aparecia, pouco depois das seis da tarde, estragando o formalismo do vestuário com uns sacos e saquinhos onde transportava as suas edições que se punha imediatamente a vender (ou a oferecer). Maio de 1958 foi uma época escaldante, com o furacão Delgado a incendiar as imaginações daquele grupo de poetas, todos, ou quase todos, antifascistas
piramide
A Pirâmide surgiu nesse clima de entusiasmo e de exaltação política. O Pacheco colaborou no primeiro número, que saiu no começo de 1959, com um texto muito interessante – «Surrealismo e Sátira (de André Tolentino a Nicolau Breton)». No segundo número, que saiu no mesmo ano, dedicou um longo extra-texto a rebater a crítica que se abatera sobre o grupo, após a saída do primeiro numero – «A Pirâmide e a Crítica». No terceiro e último número, não colaborou. Entretanto, em 1962, saí de Lisboa e perdemos um pouco o contacto. Mas através do Forte e do Herberto Hélder, meus colegas na Fundação Gulbenkian, o Pacheco lá me descobriu e reatámos a correspondência. Ele enviava-me as suas edições e eu ia-lhe mandando «vintes» de cada vez que lhe escrevia – uma nota de dólar como ele às vezes também chamava às notas verdes com a imagem do Santo António.
Morava e trabalhava em Tomar. Um fim de tarde, quando cheguei do trabalho, quem estava em minha casa? O Luiz Pacheco. Sobre o tapete da sala, deitado no chão, ele e os meus filhos, na altura com cinco e três anos respectivamente, faziam desenhos com lápis de cores nas páginas de livros novos. Livros que o Luiz Pacheco adquirira com um crédito aberto por Manoel Vinhas numa livraria da baixa lisboeta. Acusado por Eduardo do Prado coelho de não ter ideias, respondera «Pois, só tem ideias quem lê livros». Obtivera assim uma espécie de bolsa para comprar livros. E era nesses livros novos, edições francesas, obras de Sartre, de Malraux, de Breton, de Merleau-Ponty, que os miúdos, incentivados pelo Pacheco desenhavam. «- Que bonito!», dizia ele – «Olha, uma aranha!». Os garotos adoraram-no.
A história desses livros é curiosa: na sua coluna semanal do Diário de Lisboa, Eduardo do Prado Coelho criticara desfavoravelmente o livro de Pacheco «Crítica de Circunstância», elogiando a forma como estava escrito, mas acusando o autor de «não ter ideias». Pacheco retorquiu dizendo que, efectivamente, tendo vendido os seus livros, tinha ficado sem ideias, pois os livros é que nos dão as ideias. Depois, a seta envenenada: dizia que os «Coelhos» eram para ele uma maldição – no liceu fora aluno do António Diogo do Prado Coelho, avô do Eduardo, que o obrigava a recitar a «Balada de Neve». Na Faculdade de Letras tivera como professor Jacinto do Prado Coelho, que só falava nos heterónimos do Pessoa. «Quando pensava que já estava livre dos Coelhos, aparece-me o Eduardinho…». Manoel Vinhas, o seu mecenas, terá achado graça à afirmação de quem não lê, não tem ideias e abriu um crédito de mil escudos (muito dinheiro naquela altura) numa livraria. E ali estava o Pacheco em minha casa com dois enormes sacos de livros que os meus filhos iam enchendo de desenhos – «Ficam muito valorizados», dizia-me o Pacheco, com ar grave, ante o meu olhar desolado ao ver as páginas cobertas de rabiscos.
pacheco
Depois do jantar saímos. Apresentei-o aos amigos tomarenses – o Arnaldo, o Manuel, o Camilo, o Fernando… O Pacheco causou sensação. Ainda há dias, o Manuel Simões me reproduziu o pachequiano discurso (confesso que a minha memória não é tão privilegiada – passaram mais de quarenta anos! – e tomei apontamentos). Num pequeno café, perorou sobre o trauma da «morte do pai». Recordou-se do dia em que o pai morreu. Começou a perguntar-nos, um por um, «Tu tens pai?», mais jovens, todos os cinco tínhamos ainda pai. Pacheco, não desarmou – gritou para o dono do café que atrás do balcão remoía pensamentos inescrutáveis: «O senhor tem pai?» – contou-nos ainda como, no dia em que o pai morrera, mergulhado numa indizível tristeza deitou-se sobre a cama no seu quarto, sozinho com a sua dor. Uma criada veio dar-lhe um beijo na face. E nunca mais esqueceu esse gesto afectuoso. Contou-nos a história dos livros oferecidos pelo Vinhas e a maldição dos Coelhos que o perseguia desde o Liceu Camões. E, entre histórias e copinhos diversos – ginjinha, amêndoa-amarga, eduardino, évora, anis, aguardente de figo… lá fomos percorrendo a via-sacra dos tasquinhos e botequins nabantinos. Os amigos foram-se despedindo. Quando ficou sozinho comigo, deu-me bons conselhos – eu fazia crítica semanal no Jornal de Notícias, crítica de poesia, e dizia mal de quase tudo (ao José Régio, por exemplo, na reedição da «Poemas de Deus e do Diabo», acusei-o de fazer «poesia de sacristia!»). Aconselhou-me moderação. «És um escritor! Há coisas que não se dizem!». Tinha toda a razão, claro. Embora o conselho também se lhe aplicasse – Fernando Namora, Vergílio Ferreira, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Eugénio de Andrade, Lobo Antunes, Saramago, entre muitos, outros que o digam. As quatro da manhã surpreendeu-nos a ambos em frente da estação de caminho de ferro onde ele ia apanhar o comboio que o levaria ao Entroncamento e daí partiria de regresso às Caldas. Os candeeiros de iluminação pública imersos numa neblina densa, típica da cidade do Nabão, criavam uma atmosfera irreal.
-Isto existe mesmo ou estamos bêbedos? – Perguntou-me.
– As duas coisas – respondi.
– Não. Isto é uma invenção tua.
O comboio chegou. Despedimo-nos. Mandou-nos depois um postal muito tocante, agradecendo a recepção que teve.
Outro encontro com o Pacheco, acho que o último, foi na Feira do
Li
vro de Lisboa. Fomos beber uma cerveja a uma das esplanadas do alto do Parque. Mostrou-me, com orgulho, o cartão de militante do Partido Comunista e contou-me o que motivara a (tardia) adesão. Tem sido referido por numerosos «cronistas»: assistiu ao funeral do Ary dos Santos, viu a bandeira do Partido cobrindo-lhe o caixão e pensou que friorento como era, lhe calhava bem aquele agasalho da bandeira. E no dia seguinte mandou um recado ao José Casanova, do Comité Central, para que lhe fizesse chegar um formulário. E ali estava ele, o libertino, duzentos por cento anarca, integrado num partido que primava pela disciplina. Ele que tanto condenara homens como Soeiro Pereira Gomes ou Alves Redol fora dar, por causa do frio onde eles tinham chegado por convicção política.
Por curiosidade incluo aqui o texto de uma carta que Pacheco me escreveu em 1998, uma das últimas que dele recebi – eu tive um grave acidente de automóvel que me deixou quase um ano «fora de jogo» e quando voltei à vida activa, Pacheco tinha mudado de lar e tive dificuldade em reencontrá-lo.
carta
Carta de Luiz Pacheco a Carlos Loures

Palmela, 7 de Outubro de 1998

Caríssimo e Velho Amigo
(do Gelo, da Pirâmide, de Tomar, etc.)

Gostei muito de ler a tua carta. Achei que te devia uma explicação desta minha edição do Dostoievski. Não creio que saibas tudo: em 1995, ainda em Setúbal, num quarto bera como uma tumba, achei que ou fazia mais algum com edições ou estava tramado. Daqui este ressurgimento, canto de cisne final ou de corvo maluco da Contraponto. Não era por gracinha literária: era por «vai, Maria, com as outras», isto é, entrar no jogo de escrever para o mercado (aquele mínimo mercado que há…). Falas dos teus trabalhos de forçado das letras com tradutor. Mal podes imaginar que, aí por 78,79, me tramaste sem querer. Foi assim: eu preparava para a LER, livraria e delirante editora de Campo de Ourique (onde, por então, também morava em casa de uns amigos, «asilava», melhor dizendo, trabalhos de tradução, conselhos literários e dois volumes de compilação de artigalhadas minhas, que foram os «Textos de Guerrilha», I e II (ainda há, eram a 200$00 e 300$00, estão, parece, a 1 conto. Mas eram malta amiga, o Luís. pai e filho, este depois na Gradiva e, agora, com outra editora, parece que a Bizâncio (?). Davam-me todos os dias uma nota de 50$00. A certa altura, recomendei-lhes uma versão de «La bête humaine», do Zola, que eu achava giro traduzir (havia, parece-me, uma edição de 1910 ou 1920, da Guimarães. Compro o francês e caio para o chão quando o Luís pai me mostra uma edição quase recente da Europa-América e em versão tua!
Adiante – a tua versão.
Esta coisinha do Dost, trouxeram-ma da Biblioteca de Santarém (a tua versão), eu apenas tinha a da Inquérito, do José Marinho Mas era esta que me convinha, mas naquele processo do scanner, que fotografa ou filma ou como é? As páginas iguaizinhas. Era mais rápido, mais barato e dispensava a minha revisão (a minha vista está bera). Não foi assim. Tiveram de ir pró computador, 3 provas – a edição saiu caríssima. Tive de rever, tive de comprar a edição da Pleïade, de pedir a versão espanhola. Já te terei contado isto. Mas ficou muita coisa por emendar. É assim: por mais escrúpulos, dúvidas, boas intenções de traduzir pelo melhor, chega aquela data em u o livro tem mesmo de ficar despachado, pronto a vender-se, a recuperar o que já se gastou, pagou.
És editor, estás no meio há que anos, sabes que é assim. E depois nem dá gosto olhar para a edição, saber-lhe os defeitos, o muito que falhou. E eu fiz 73 anos em Maio. E já estou neste lar há 2 anos e dias (Vim a 1 de Outubro de 1996.
E tenho 2 títulos mais. E uma versão do Umberto Eco. E planos que chegavam para outra vida. LOUCURA! Tenho é que parar. Conheces o meu sistema. Com um bom ficheiro, sempre actualizado (repara na informação que me deste hoje sobre a tua nova morada – e como é que eu iria adivinhar, saber?…), consigo recuperar em poucos meses. Mas o livro não tem a expansão que devia – ou podia – ou, até, merecia. Dei uma edição à Audil… Será que pagam? E quando? Perdi, agora, um amigo fixíssimo de há 40 anos, o Fernando Fernandes, da Leitura, do Porto. Não morreu, felizmente! Reformou-se. O Joaquim Machado, de Coimbra, está tão velhadas como eu. São duas pessoas, estas, que me ajudaram muito, in illo tempore, e de 95 para cá.
Próximos títulos: Viva a Alegria: Prazo de Validade, L.P., Isto de Estar Vivo, do mesmo. Talvez a 3ª edição dos Exercícios de Estilo, na Estampa. E o Agostinho de Macêdo, o Padre Lagosta – beberrão, fodilhão, aldrabão, reaccionário. Mais do que o Padre Milícias.

Abraço do

Luiz Pacheco

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida – Alguns casos

O caso da quadrilha dos selos

Em Fevereiro de 1959 dera-se o caso do sobretudo – usara, sem autorização do proprietário, um opulento sobretudo do Chefe da Secretaria da Inspecção-Geral de Espectáculos – processo disciplinar e condenação a cinco dias de multa. No final de 1959, Pacheco pede a demissão do seu cargo de fiscal da Inspecção-Geral de Espectáculos. Antes disso houve uma nova bronca – a da falsificação dos selos. Luiz explica: «Um gajo está numa repartição a lidar com requerimentos e selos fiscais de duzentos, trezentos paus, um conto de réis – na altura era muito dinheiro. Ora não se põe um gajo a ganhar seiscentos paus por mês quando lhe passam diariamente pela mão dezenas de contos de réis pela mão sem a mínima fiscalização. Aliás, não era um gajo, eram dez.»
E conta como um filho de família numa atmosfera de corrécios adere a uma quadrilha – um inspector dos mercados, um colega, foi quem teve a luminosa ideia – não havia controlo dos selos que entravam Então eram limpos com lixívia e novamente vendidos. Alguns tinham de ser reformados porque começavam a ficar amarelados. A matéria-prima era abundantíssima. Um deles especializara-se a imitar a assinatura do director. Havia um outro especialista em falsificar passaportes – um novo ramo do negócio, que ia de vento em popa: «Arranja aí um passaporte dos nossos!». «Passa-me aí uns selos dos nossos!» «Aquilo tinha-se tornado uma instituição paralela ao Estado português!», diz Pacheco resumindo a situação. Funcionários com ordenados miseráveis compravam automóveis, tinham amantes, faziam uma vida de ostentação. Pacheco apenas fez duas extravagâncias – comprou uma mota e foi jogar ao Casino Estoril – saiu a ganhar na roleta e nunca mais lá voltou com medo de apanhar o vício (mais um). Mas os membros da quadrilha estavam a desleixar-se. Não havia cuidado. Pacheco apercebeu-se de que, mais tarde ou mais cedo, tudo iria desabar. Foi então que entrou um novo inspector… Damos de novo a palavra ao Luiz: «Até era um gajo giro, e perguntou-me: -“Então como vai isso?” – E eu mandei uns bitaites. Ele ficou fodido: – “Eu não preciso dos seus conselhos para nada, era o que faltava!” – Ora este cabrão! Apanhei o gajo sozinho e disse-lhe: “- O senhor inspector não precisa dos meus conselhos, mas vou dar-lhe alguns». E descreveu por alto o que se passava. «Você também pertence à quadrilha? – Pertenço, mas isto não pode continuar, senão vai tudo parar à cadeia.». O homem começou a ficar roxo, com as veias a inchar. «Ai que este gajo vai-me ter aqui uma congestão e eu fico com a morte dele na consciência», pensa Pacheco. Mas não. O inspector começa de imediato a pôr em prática os conselhos de Pacheco. A mama acaba-se, mas ninguém é preso. O chamado crime perfeito.

Os casos da gravata escocesa e do sobretudo do director

Como já disse, Pacheco trabalhava na Inspecção-Geral de Espectáculos, organismo estatal que fazia parte do dispositivo de repressão, a par do Secretariado Nacional da Informação e da Comissão de Censura, entre outros apêndices institucionais orquestrados pela polícia política e dirigidos pelo parido único. Era, pois, um departamento do Estado com funções repressivas embora actuasse a níveis modestos, inspeccionando salas de espectáculos, teatros e cinemas, zelando porque as directivas superiores, de carácter político e de carácter burocrático, fossem cumpridas. Funcionava no Palácio Foz, onde funcionava também o Secretariado Nacional da Informação. Quando em Abril de 1951morreu o marechal Carmona, presidente da República, foram decretado os regulamentares dias de luto nacional. Aos funcionários públicos era exigido que usassem gravata preta e roupas de tons escuros. Era algo que talvez não estivesse escrito em nenhuma ordem de serviço, mas que toda gente sabia.
Pois Luiz Pacheco apresentou-se ao serviço no dia seguinte ao da morte do marechal com uma gravata colorida, de padrão escocês em cores vermelha e castanha. Tal enormidade foi objecto de movimentações e de indignação a nível das chefias. O caso foi mesmo enviado ao ministro da Presidência! Veja-se o ofício abaixo:
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O Caso do sonâmbulo chupista logo seguido pelo dos «Clandestinos»

Sobre o meio literário, Pacheco disse: «O meio literário é de cortar à faca, mas muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc. andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides.» Houvera uma controvérsia lançada por Pacheco que acusou Fernando Namora de ter plagiado no seu romance «Domingo à Tarde», o livro de Vergílio Ferreira «Aparição». «Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… O Namora era um vigarista, o gajo que mais plágios fez em toda a história da literatura», diz numa entrevista a Guilherme Pereira. Em 1972, Namora lança um romance, «Os Clandestinos», editado pelas Publicações Europa-América. Uma tarde, na livraria da editora na Avenida Marquês de Tomar, o editor Francisco Lyon de Castro repara num sujeito, alto, magro, semi-calvo e de óculos que folheia livros com ar interessado. Lyon de Castro aproxima-se e vê que o homem está a ler passagens do recém lançado romance de Namora.
– Gosta dos livros de Namora? – o sujeito faz um gesto passível de ser interpretado como um sim (ou como um não). Tagarela e gabarola Lyon de Castro continua: «- Sabe? Esse livro foi praticamente escrito por mim… » – por detrás das grossas lentes os olhos do cliente abrem-se de espanto «– Ah sim?» Castro não se faz rogado e explica com grande cópia de pormenores como descreveu a Namora as suas aventuras quando, nos anos trinta, fugindo à polícia política, se escapou para França. Namora tomou apontamentos, gravou cassetes, em suma, colheu a história de Lyon de Castro e transformou-a num romance. Foi uma coisa normalíssima, muito comum – os escritores não podem viver as vidas de todas as suas personagens. Porém o exagero de Lyon de Castro sobrevalorizando a história (que nunca foi capaz de escrever) e subestimando o trabalho do escritor que efabulou algo que, de outro modo, ficaria para sempre sepultado na cabeça do editor, e a aversão de Pacheco (pois era ele o cliente) a Namora, transformaram uma coisa normal num escândalo. No dia seguinte o Diário Popular, no seu suplemento cultural, trazia a toda a largura das páginas centrais a afirmação de que Namora roubara a trama do seu novo romance a Lyon de Castro. Resultado – Namora zangou-se com o editor e passou para a Bertrand.

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida: Os amores e os desamores de Pacheco


Com 18 anos, Luiz Pacheco arranja o primeiro problema da longa série de problemas em que a sua vida se vai transformar. Tem uma ligação sexual com uma jovem criada de seus pais, Maria Helena Alves, com catorze anos. Um tio da menor processa Pacheco. As coisas parecem arranjar-se – Maria Helena é emancipada e Luiz compromete-se a casar com a moça. Tudo solucionado? Não – Pacheco apaixona-se por Maria de Fátima, estudante de piano em casa de uma vizinha, com a qual não pode ter um namoro convencional dado o compromisso de casamento com Maria Helena. Mas é uma paixão escaldante, com encontros secretos em quartos alugados e casas de passe. Tudo isto ocorre por volta de 1945. A relação clandestina com Maria de Fátima durará até 1948.
Em 1947, ainda relacionado com o caso de Maria Helena, é emitido um mandado de captura em seu nome. Refugia-se numa casa que alugara no Mucifal, em Colares, fugindo depois para casa de uma tia, no Campo de Santana. Acaba por ser preso na Estefânia, em casa de seus pais. Na cadeia do Limoeiro recebe o nº 420-47, ficando ali mês e meio. Em Abril, na sexta-feira Santa, desposa Maria Helena no Limoeiro – é provisoriamente liberto. No sábado de Aleluia, o jovem casal, parte em viagem de núpcias para a casa do Mucifal, donde vem depois para Lisboa onde se instala numa casa da Rua Andrade. Porém, o caso não está resolvido. É julgado, acusado pelo crime de estupro e condenado a dois anos e meia, com pena suspensa, visto ter casado com a «vítima». No ano seguinte nasce Maria Luísa, a primeira de uma «comunidade» de oito filhos.
Em Maio de 1950, nasce João Miguel, o segundo. Morre sua mãe, Adelina Maria Machado Gomes. Zanga-se com Maria Helena (que terá sabido do affaire Maria de Fátima?). Mantém uma relação homossexual com um rapaz do Sindicato dos Artistas.
A relação com Maria Helena, que entretanto se formará como enfermeira, piora; no entanto, engravida, enquanto Pacheco arranja outro namoro – agora é Maria do Carmo, a quem a família se apressa a desterrar para a Sertã. Luiz já está de olho noutro sarilho, sob a forma de Maria Eugénia, filha da dona da casa onde mora, na Almirante Barroso. A menina tem 13 anos. Em Maio de1958 nasce Fernando António, terceiro filho de Luiz e de Maria Helena. A evidência de um iminente envolvimento com Eugénia está à vista, e, antes que seja tarde, uma criada denuncia o caso a Maria Helena e à mãe da rapariga. Expulso de casa, instala-se com Maria do Carmo na Rua Jorge Colaço.
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Em 1959, a mãe de Maria Eugénia move-lhe um processo. É condenado por atentado ao pudor de uma menor. Em Agosto nasce o seu quarto filho Luís José, o primeiro da união com Maria do Carmo. Ameaçado por novo mandado de captura (caso Maria Eugénia) anda fugido pelo Porto, Ermesinde, Setúbal, acabando por ser capturado e recolher de novo ao Limoeiro. Ali passa o Natal. Natália. É absolvido do caso Maria Eugénia (à qual, afinal, apenas terá beijado e talvez acariciado), mas condenado por faltar à audiência. Estamos em 1960. Maria do Carmo está grávida.
Em Fevereiro de 1961 nasce Adelina Maria, a quinta. Este 1962 é ano de novo sarilho: engravida Maria Irene, irmã de Maria do Carmo. Novo processo. No ano seguinte, será julgado e condenado à revelia pelo Tribunal da Comarca da Sertã. Pacheco nem sequer tomara conhecimento da existência do processo. Em Maio nasce Paulo Eduardo, o filho de Pacheco e Irene. Em 1964, vive agora nas Caldas da Rainha. Em Maio nasce Maria Eugénia, sétima, segunda da ligação com Irene. Pacheco é preso nas Caldas devido ao processo de Maria Irene, saindo sob caução.
Desentende-se com Irene e fica a viver sozinho nas Caldas da Rainha. O abuso do álcool provoca-lhe o agravamento da asma. Em Novembro de 1967, o casamento com Maria do Carmo é dissolvido «por abandono do lar». Em 1968 é de novo preso nas Caldas da Rainha, sendo depois transferido para o velho Limoeiro, uma segunda casa para Luiz. No ano seguinte, já em liberdade, apaixona-se por Elsa Isabel com quem tem uma ligação. Num breve passeio às Caldas tem um envolvimento de alguns dias com Isabel Valadares. Na véspera de Natal apanha uma monumental bebedeira e passa a consoada no banco do Hospital de S. José. Em Janeiro de 1970 é internado no Hospital de Santa Marta Pacheco continua e intensifica o tratamento ambulatório de desintoxicação alcoólica. Tratamento que, com acidentes de percurso e muitas recaídas, prosseguirá até 1980. Até 1975, Luiz continua a publicar, a fazer traduções e… a beber. Mantém uma política de porta aberta, entrando «toda a bicharada» (expressão sua) – «malucos, marginais, bêbedos, paneleiros, lésbicas» a fama da casa onde vive, em Massamá, é terrível. Luiz Pacheco, sempre segundo regista no diário, tem ligações episódicas com algumas mulheres, engata uns rapazes – «a fome, a solidão, a tristeza, a velhice e a decadência». Sai de Massamá. Até 1980, não tem paradeiro certo. Deambula pelo Montijo, Campo de Ourique, Algarve. Afectado pela subnutrição é internado no Hospital Curry Cabral. Em 1977 é internado na Clínica Psiquiátrica de Celas, com a visão e o raciocínio afectados pelo álcool. Em 1980 faz uma tentativa de suicídio, atravessando de olhos fechados a Avenida de Berna na hora de ponta. Travões guincham, pneus chiam, automobilistas furiosos insultam-no, mas a morte não quer nada com ele.

Luiz Pacheco – Um Libertino passeia pela vida. 2 – Cronologia

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No início desta série de «episódios» sobre este libertino genial, vejamos uma cronologia sumária da sua vida:
A vida de Luiz Pacheco em datas
1925: À uma e quarenta da madrugada de 7 de Maio nasce em Lisboa, num velho prédio da Rua D. Estefânia (no nº 91-1º), Freguesia de São Sebastião da Pedreira, Luís José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, que virá a adoptar o nome de Luiz Pacheco, filho de Paulo Guerreiro Pacheco e de Adelina Maria Machado Gomes. 1932: Entra no Ensino Primário. 1936: No Liceu Camões, começa o curso dos Liceus. 1943: Conclui o curso Completar dos Liceus (antigo 7º ano). 1944-45: Obtém boa classificação no exame de admissão à Faculdade de Letras de Lisboa, ficando isento do pagamento de propinas. Matricula-se no curso de Filologia Românica. 1945: Começa a colaborar em diversos jornais e revistas. 1946: Emprega-se na Inspecção-Geral dos Espectáculos. Com Jaime Salazar Sampaio, dirige o volume antológico Bloco. Assina as listas do MUD. 1947: É preso no Limoeiro, acusado do crime de estupro. 1948: Nasce Maria Luísa, sua primeira filha. 1950: Nasce João Miguel, o segundo filho. Cria a editora Contraponto onde irá publicar textos de escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires. António Maria Lisboa. Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Virgílio Martinho, António José Forte, entre outros.
1951: No dia seguinte ao da morte do marechal Carmona, presidente da República, apresenta-se ao serviço com uma gravata colorida, sendo repreendido e punido.1953: Morre sua mãe. 1958: Nasce o terceiro filho: Fernando António. Publica Caca, Cuspo & Ramela (textos de Luiz Pacheco, Natália Correia e Manuel de Lima; de sua autoria, edita Carta Sincera a José Gomes Ferreira. 1959: Publica na revista Pirâmide o texto «A Pirâmide e a Crítica» em que defende a revista dos ataques de alguns críticos literários. Nasce Luís José, quarto filho. Demite-se da Inspecção-Geral de Espectáculos. 1960: Em Maio, morre seu pai. Publica na revista Pirâmide o texto «A Pirâmide e a Crítica» em que defende a revista dos ataques de alguns críticos literários.1961: Nasce a quinta filha, Adelina Maria. 1962: Publica o conto O Teodolito. 1963: Nasce Paulo Eduardo, o sexto. Edita na Contraponto o livro Surrelismo/Abjeccionismo, uma antologia organizada por Mário Cesariny. 1964: Nasce Maria Eugénia, a sétima. Publica o seu livro mais divulgado A Comunidade.1965: Nasce Jorge Manuel, o oitavo e último filho. 1966: Publica Crítica de Circunstância.1967: Edita os seus Textos locais. 1970: Sai O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. Visita a Tomar.
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1971: Publica Exercícios de Estilo. 1972: Edita Literatura Comestível.1974: É a vez de Pacheco versus Cesariny 1977: Publica Carta a Gonelha e Textos de Circunstância. 1979: Sai Textos de Guerrilha 1. 1980: Publica O Caso do sonâmbulo chupista, sobre o alegado plágio de Namora a Vergílio Ferreira.1981: Saem os Textos de Guerrilha 2. 1984: Publica Textos do Barro.1985: Baptista-Bastos entrevista-o para o Jornal de Letras. 1986: Edita O Caso das Criancinhas Desaparecidas. 1988/89: A Comunidade é adaptada ao teatro e levada a cena pelo Teatro da Cornucópia.
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1989: Adere ao Partido Comunista Português. 1991: Publica Textos Sadinos. 1992: Saem O Uivo do Coiote e Carta a Fátima. 1995: Concede uma longa entrevista à revista Ler. Sai Memorando, Mirabolando. 1996: Em 7 de Maio, por ocasião do seu 70º aniversário os filhos organizam uma festa de homenagem familiar. É publicado Cartas na Mesa. 1998: Publica Prazo de Validade. 2000: Sai Isto de estar Vivo. 2001: Uma Admirável Droga. 2002: Reedita Crítica de Circunstância, agora com o título Os doutores, a salvação e o menino Jesus – Conto de Natal. O Mano Forte. 2003: Raio de Luar. 2004: Figuras, Figurantes e Figurões. 2005: É entrevistado pelo Jornal de Letras. Sai o seu Diário Remendado (1971-1975). Cartas ao Léu.
2006: Vai para um lar no Montijo. 2007: É operado às cataratas. É entrevistado pela RTP. Dá também uma entrevista ao Correio da Manhã. 2008: Dá uma entrevista ao semanário Sol. Saem O Mito do Café Gelo e O Cachecol do Artista. É publicado O Crocodilo que voa. No dia 5 de Janeiro, acometido por doença súbita, morre na ambulância a caminho do hospital do Montijo. São 22 horas e 17 minutos quando o óbito é declarado.
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Luiz Pacheco – Um Libertino passeia pela vida. 1 – Apresentação


Luiz Pacheco nunca quis ser uma «pessoa respeitável». Fez tudo para não merecer essa classificação pela qual tantos se batem durante as suas vidas – foi repetidamente preso, não por política, mas por crimes de delito comum. A cadeia do Limoeiro foi para ele uma segunda casa. Passando em revista as suas «proezas», encontramos «abuso» de menores – embora tanto quanto se saiba não fosse um pedófilo; foi preso por crime de rapto e de estupro, alcoólico, abusando do vinho tinto e da cerveja, pediu dinheiro a toda a gente, chegou a andar a pedir esmola pelas ruas, ia aos quartéis pedir os restos do rancho para alimentar a família, falsificou selos, publicou textos teoricamente impublicáveis (mas de autores que depois se vieram a tornar famosos como Vergílio Ferreira, Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Herberto Hélder, ganhando o rótulo de «editor maldito», fez repetidas incursões na homossexualidade. Disse ter feito sexo com uma cadela… – «proeza» que depois desmentiu – Tudo isto nos chegou em depoimentos do próprio (pois foi ele o seu melhor biógrafo).
Nunca escondeu estas coisas e nem há como saber se tudo foi verdade – com ele, a profissão de chantagista deixaria de fazer sentido, pois enquanto muita gente inventa heroísmos e esconde o que não é bonito nas suas vidas, Pacheco fez gala (e inventou-os?) em ter cometido actos sórdidos. Embora os que comprovadamente praticou fossem suficientes para lhe ornamentar o currículo. Nunca experimentou drogas, fez questão de salientar – o bagaço, o vinho tinto e a cerveja foram suficientes para lhe causar problemas.
Esta luta incessante pela irrespeitabilidade, numa permanente e dir-se-ia que voluntária, descida aos Infernos, valeu-lhe, surpreendentemente, o respeito generalizado da comunidade literária. Não teria nada a aprender com François Villon ou com Bocage. Em todo o caso, é bom que se diga, citando Pacheco em entrevistas, falando dos seus amores por adolescentes – «as miúdas eram mais adultas do que eu, não havia pedofilia» e, outra coisa muito importante, «o libertino tem regras, por exemplo, não se mete com a mulher do amigo». Apesar deste «código deontológico do libertino», não é possível ignorar que algumas das proezas de Pacheco, nomeadamente o seu envolvimento com raparigas menores são hoje, ainda mais do que na época, crimes reprováveis. Porém, sem querer encontrar desculpas, há que contextualizar as coisas – o conceito de pedofilia não estava, por aquela primeira metade do século XX, implantado (os dicionários, os que registavam o termo, ainda diziam: «Pedófilo, s. m. – Amigo das crianças…»). Quando cometeu o primeiro crime de «rapto e estupro» tinha 18 anos, apenas mais quatro do que a «vítima». Casou com a sua a primeira mulher no Limoeiro. Reincidiu. Várias prisões, vários filhos – oito – três da primeira mulher, dois da segunda, mais três da terceira. Filhos, delitos e prisões confundem-se. Estão intimamente relacionados. Não gostava que lhe chamassem «escritor maldito» – «Maldito é o gajo que escreve mal», exclamava. Pacheco nunca quis quer ser respeitável e, sobretudo, não quis respeitar as convenções. É um mundo que não merece ser respeitado – «todos somos culpados até prova em contrário», afirmou.
Porém, de delinquentes estão as prisões cheias. Não é pelas suas incursões no submundo e na face oculta da moralidade instituída que o recordamos. Porque esta faceta da sua reincidente transgressão das normas sociais, esconde outra realidade mais profunda e duradoura – a grande qualidade da sua escrita. Luiz Pacheco é um grande escritor. A sua libertinagem tem muito de quixotesco, transmutando acontecimentos sordidamente banais em episódios épicos. Quando a bruma dos tempos desvanecer as suas aventuras de modesto libertino, transformando-as em lenda (como aconteceu com Bocage), dele ficar-nos-á, além da memória de um ser estranho, irreverente e associal, belas páginas, das melhores que se escreveram no seu século – O Teodolito, por exemplo, é obra literária de elevada qualidade. E foi um grande editor – além dos nomes acima citados, António Maria Lisboa, Manuel de Lima, António José Forte, Virgílio Martinho, foram publicados por Pacheco – tal como os anteriores.

Apontamentos & desapontamentos: Tele-cunha ou tele-política?

Há cerca de um ano ou dois houve um problema na RTP com o jornalista José Rodrigues dos Santos, tendo mesmo a administração instaurado um processo na sequência de declarações que Rodrigues dos Santos prestou à revista Pública sobre irregularidades cometidas na nomeação da correspondente em Madrid, Rosa Veloso. A jornalista, tendo, segundo é voz corrente, ficado em quarto lugar no concurso interno, terá passado à frente dos três primeiros classificados. Rodrigues dos Santos, na altura (2004) director de informação, demitiu-se do cargo por entender que fora desautorizado, pois a nomeação competia à direcção editorial. Quando deu a entrevista à revista do Público, o assunto criou alguma agitação, a Alta Autoridade para a Comunicação Social (depois substituída pela ERC), aconselhou a administração a não repetir a ingerência. O assunto morreu. O processo disciplinar a Rodrigues dos Santos foi arquivado em Janeiro do ano passado e a Rosa Veloso lá está em Madrid, impante na sua gloriosa incompetência. Tudo em águas de bacalhau, desfecho tão típico da «comédia à portuguesa». Porque será que as coisas se passam assim? Talvez tudo não tenha passado de uma vulgar «cunha» metida, segundo também se diz, pelo ex-ministro do PS António Arnaud ou até de uma recomendação do substituído, o Cesário Borga, que fora chefe da jornalista quando ela, em 1981, entrou para a RTP como estagiária. Também já ouvi dizer que tudo não havia passado de uma embirração com a pobre da Rosa, embirração em que a Judite de Sousa teria tido algum papel. Oxalá seja só isso, porque «cunhas», «tachos» e «empenhocas», (tal como as «embirrações») são instituições nacionais. Tão erradas, injustas e estúpidas como os touros de morte em Barrancos – que, com apenas 80 anos, já são consideradas como fazendo parte das tradições populares – mas muito mais antigas. Como tal, respeitemo-las.

Deixemos pois o «diz-se» e analisemos objectivamente a Rosa como profissional. Façamos de conta que ficou em primeiro lugar no tal concurso. Não é uma novata, tem 28 anos de profissão. Portanto, inexperiência não pode alegar e devia saber que os idiomas são instrumentos de trabalho, principalmente para os correspondentes. A RTP tem tido, e tem, belíssimos profissionais como correspondentes, tais como Carlos Fino que falava o russo com fluência, como Evgueni Mouravitch, cujo português é impecável, o poliglota António Esteves Martins, Paulo Dentinho, Vítor Gonçalves, todos são correspondentes com qualidade. Rosa Veloso fala mal o castelhano, misturando-lhe termos e construções frásicas de português, começa a esquecer-se do português, misturando-lhe termos e a sintaxe do castelhano, a sua fala começa a deslizar para um «portunhol» ridículo, bom para ir de compras, mas inaceitável numa correspondente. .Vasco Lourinho, o antecessor de Cesário, que, segundo julgo saber vivia em Madrid quando, ainda no antigamente, foi convidado para ser correspondente da RTP, falava muito bem o castelhano e esquecera o português. Cesário Borga, era discreto, pelo menos seguiu o conselho de Eça de Queirós a respeito das línguas estrangeiras e, sem esquecer o seu português, sempre falou sempre orgulhosamente mal o castelhano – o que, apesar de tudo, era uma posição mais aceitável.

Por exemplo, deu nas vistas a teimosia da Rosa em pronunciar «Valadolid», sabendo-se que Valladolid se pronuncia Valhadolid (ao contrário de Alhambra que se deve pronunciar Alambra). Em suma, a quem a ouve e vê, como é o meu caso, dá a ideia de que não prepara as reportagens, ou que as prepara em cima do joelho o que, frequentemente, dá em rematada trapalhice – lembremo-nos da ida de Mariano Gago a Espanha em que ela o tratou sistematicamente por ministro da Indústria, tendo ele que esclarecer que o seu ministério não era o da Indústria, mas si o da Ciência Tecnologia e Ensino Superior. Então, como jornalista portuguesa não teria obrigação de saber que tal ministério nem existe em Portugal? E quanto ao idioma: terá ao menos Rosa Veloso estudado um pouco de castelhano ou ter-se-á limitado a inscrever o idioma no currículo, como quase toda a gente faz? Há uns cursos intensivos no Instituto Cervantes, para além dos que se ministram nas Faculdades de Letras geralmente englobando língua e literatura. Terá ela frequentado algum destes cursos? Se sim, tal saber não transparece. Mas isto nem é o mais importante.

Porque até aqui, cunhas, incompetência, enfim, não digo como os brasileiros «tudo bem», mas não são coisas a que não estejamos habituados. E se (aqui entram os fantasmas) não foi uma tele-cunha e se é um caso (mais um) de tele-política? É isto que me preocupa, porque incompetentes sempre os houve naquela casa, ombreando olimpicamente com os «assim-assim» e com grandes profissionais, que também os houve e há.

Porque pior do que a incompetência da Rosa Veloso é a sua posição subserviente relativamente ao estado espanhol – cidadã de uma República, ela não tem que se referir a Juan Carlos como «sua majestade», basta dizer «o rei» nem que referir a ETA como «organização terrorista», basta que diga «movimento separatista» para apenas referir duas expressões muito utilizadas pela senhora. É uma jornalista, uma correspondente estrangeira, tem é de ser independente e analisar objectivamente a realidade, não é súbdita de «su majestad» nem adversária política da ETA. Sem desrespeitar o estado espanhol do qual é hóspede, tem sobretudo de respeitar as muitas sensibilidades de quem a escuta e vê. Os telespectadores, os contribuintes portugueses, é que são os seus patrões e não o rei ou o PSOE. Alguns deles não gostam de reis (sobretudo de reis que se comportaram como criados de quarto de ditadores ranhosos), podem aprovar ou não aprovar os métodos da ETA, mas compreendem a legítima aspiração dos bascos à independência; há os que adoram e os que detestam o PSOE… e por aí fora.

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A toda essa gente anónima que lhe paga o vencimento, a Rosa Veloso tem de respeitar, portanto tem de ser poupadinha nos adjectivos e nas tontas considerações bebidas em jornais espanhóis de cuja leitura apressada parece decalcar as reportagens, se assim se lhes pode chamar. Não vão os comentários e adjectivos agradar ao PSOE e desagradar a muitos portugueses. Mas não, do alto da sua incompetência, a Rosa arremessa-nos as suas ideias sobre os factos, esquecendo-se do que lhe ensinaram sobre objectividade no curso de jornalismo, sobre a inconveniência de misturar factos com opiniões pessoais; opiniões que a muitos de nós nos importan un pepino.

Em suma, não foi por acaso que ela ficou em quarto lugar no concurso, valendo-lhe para ser nomeada segundo a vox populi uma cunha. A irregularidade parece ter existido. Só uma vulgar cunha? Ou será porque Madrid é um lugar estratégico e convêm lá ter alguém devidamente domesticado, não propriamente um jornalista, o que só serviria para atrapalhar, mas uma caixa de ressonância do PSOE? Ou do PP, se for o caso. Lembremos que, quando da alegada nomeação fraudulenta, embora o governo português fosse do PSD, Zapatero ganhara nesse ano, no Março anterior, as eleições legislativas. Coincidência.? Talvez. Mas acho que a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) devia interessar-se pelo caso.

Coisa que, todos sabemos, nunca acontecerá.

Apontamentos & desapontamentos: A televisão é para estúpidos (sobre a tele-dependência)

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A frase é do escritor e editor Luiz Pacheco (1925-2008) numa entrevista conduzida por João Paulo Cotrim, quando este lhe perguntou se «a televisão está a matar a literatura – «A televisão não mata nada! A televisão é para estúpidos!», confessando depois, no entanto, que tendo recusado ter televisor até pouco tempo antes, fora «apanhado pelo fascínio do pequeno ecrã» e via tudo (de tudo dizendo mal) – telenovelas, séries, concursos… Groucho Marx (1890-1977), numa frase que já aqui citei, costumava dizer: «Acho a televisão muito educativa – logo que alguém a liga vou para outra sala ler um livro. No fundo, as duas frases dizem a mesma coisa, por palavras e com intensidades diferentes. Ray Bradbury (1920), numa entrevista dada em 25 de Julho ao El País, coloca a mesma questão, da sobrevivência do livro face à concorrência da televisão e, sobretudo, desde há uma década, da Internet e das novas tecnologias da informação em geral. Vamos então tentar saber se, de facto, como disse, com frontal brutalidade, o Pacheco, «a televisão é para estúpidos».
É óbvio que Luiz Pacheco se referia à dependência da televisão que afecta muitas pessoas e não ao meio televisivo em si, um invento notável que, bem utilizado, poderia ser um poderoso instrumento de difusão cultural. Só não o é porque tem sido posto ao serviço de ideologias e de interesses económicos, criando dependências perversas (como todas as dependências) – a Internet, outro meio potencialmente disseminador de cultura e possível eixo estruturante da aprendizagem e do saber acumulado, tem vindo a ser utilizado também para fins criminosos – redes de pedofilia, incluídas – sem que se possa negar os seus benefícios. Sempre que se abre um caminho, seja uma rota marítima ou aérea, seja uma estrada, há sempre piratas e salteadores que saem ao caminho dos viajantes. Não vamos, por esse motivo, deixar de abrir caminhos.
Ficar um dia em frente do televisor, vendo séries, telenovelas, concursos, é, de facto uma estupidez, um atentado contra a vida. A televisão é usada como meio de estupidificação, de criação de uma «ideologia de massas» consonante com os interesses de uma minoria. Um grande exército de agentes está na base dessa «ideologia» – desde os criadores de programas aos criativos das agências de publicidade, por exemplo. As estatísticas que nos informam do tempo que crianças e adultos de diversas faixas etárias passam diariamente em frente dos televisores, são aterradoras. Um inquérito feito em São Paulo, revela que 87% das pessoas com mais de 60 anos vêem televisão durante todo o dia. Uma pesquisa levada a cabo pelo Center for Media Education, dos Estados Unidos, mostra que as crianças de todo o mundo, vêem de três a quatro horas de televisão diária. Para a maioria de crianças e adolescentes (entre os três e os 17 anos) a principal actividade é a televisão. Principalmente para os idosos, a televisão é uma forma de suprir carências afectivas, a solidão provocada pela viuvez, pela morte dos amigos e familiares, causando uma desertificação da sua vida social, etc.
Por outro lado, ao não exigir qualquer esforço das funções cognitivas, limita a imaginação, o que se torna particularmente grave entre os jovens. Nos telespectadores assíduos, reduz a capacidade e a velocidade da leitura, provoca a obesidade, prejudica a postura, tem influência no desempenho sexual (piorando-o), altera o sono, afecta as relações sociais… Resumindo, a tele-dependência é uma patologia com consequências colaterais graves se não for tratada. E não adianta emitir conceitos morais – a televisão, até ser substituída por outro suporte mais apelativo, vai continuar a absorver as atenções de todos, crianças e adultos. È um mal iniludível. Transformar um mal numa coisa boa nem sempre é impossível. Neste caso, tratava-se de aproveitar o sortilégio da TV para educar, ensinar e divertir, claro. Não deixando de incentivar os telespectadores a viverem a vida que acontece para lá da janela do pequeno ecrã.
Contudo, o objectivo de quem controla esse e outros meios não é criar programas de boa qualidade – é engendrar programas «apelativos» – redes que apanhem os otários distraídos. Como, há alguns anos, me disse ironicamente Mr. Hugh House, alto responsável da BBC, queixando-me eu da má qualidade da televisão em Portugal, a função da televisão é, precisamente, não ter qualidade. Quando João Paulo Cotrim pergunta a Pacheco se a Televisão não matará o livro, está a citar a frase de Victor Hugo a que já aludi noutra crónica – «ceci tuera cela» – isto matará aquilo – referindo-se ao livro impresso, ao invento de Gutenberg, que mataria a arte gótica, a arquitectura, a escultura, a iluminura, a glosa medieval, como forma de comunicar com as massas. Foi uma preocupação do final do século XV que, como se viu, era infundada – o livro, a arquitectura, a escultura, conviveram pacificamente até hoje.
Numa entrevista ao El País que já aqui referi, Ray Bradbury, foi aos arames quando lhe falaram no Kindle – «Isso não são livros. Os livros apenas têm dois cheiros: o cheiro a novo, que é bom, e o cheiro a livro usado, que é ainda melhor.» Como muitos de vós sabeis, o Kindle é um pequeno equipamento criado pela Amazon, uma empresa norte-americana, com a função principal de ler livros digitais ( e-books), podendo armazenar cerca de 1500 livros, podendo arquivar música (no formato MP3), actualizar páginas da Internet, entre outras funções. Isto sem que se possa aduzir o velho argumento (a favor da sobrevivência do livro) de que «não se pode levar um computador para a cama» – o Kindle tem um tamanho semelhante ao de um livro e um peso também equivalente. Recentemente, em Maio deste ano, foi lançado o Kindle DX, com um display de 24,6 cm na diagonal, uma vez e meia maior do que a versão standard, e que permite ler jornais e aceder aos formatos PDF, MP3 e TXT. Eu não seria tão radical quanto Bradbury na recusa liminar desta inovação. Também pertenço a uma geração que tem uma forte relação afectiva com o livro tradicional – o cheiro do papel novo, da tinta acabada de secar, a volúpia com que se examina a textura mais rugosa ou mais calandrada das páginas, o vício de tentar avaliar a gramagem, esfregando a folha entre o polegar e o indicador, a análise atenta do grafismo, a busca das gralhas, o odor dos livros usados… Não se pode, à partida, no entanto, recusar uma invenção que evitaria o derrube de florestas inteiras e permitiria sem ocupação de espaço aceder a enormes bibliotecas. Sobretudo para obras de referência, para livros de estudo. O Kindle, e os suportes que lhe sucederem, não matarão o livro – antes o perpetuarão com outra forma. Não haverá tão cedo Kindle que possa substituir o requinte de, por exemplo, uma edição de arte. Haverá sempre quem não dispense os livros em papel alinhados em estantes – os «loucos dos livros», de que, há 500 anos, nos falava o alsaciano Sebastian Brant na sua «Stultifera navis».
A televisão não é para estúpidos. A televisão foi um invento brilhante, mas é, muitas vezes, controlada por estúpidos, por sua vez manipulados por bandalhos espertos e codiciosos que nos querem estupidificar (e, segundo as estatísticas, estão a conseguir). O inteligente escritor e editor Luiz Pacheco era isto que, por certo, queria dizer.

Apontamentos & desapontamentos: Tele-disparates


Konrad Lorenz, o grande naturalista austríaco (1903-1989), prémio Nobel para a Medicina em 1973, criou o conceito do imprinting, que em castelhano se traduziu por «impronta», mas que entre nós se tem preferido deixar em inglês, já que uma tradução literal – estampagem, cunhagem, gravação – podia dar lugar a uma distorção do conceito científico. O que é o imprinting? Estudando o comportamento dos gansos recém-saídos da casca, Lorenz verificou que eles aprendem a seguir a mãe, mesmo que seja uma falsa mãe, um ser humano, outro animal ou mesmo um objecto, copiando-lhe o comportamento. Sugiro que o amigo Adão Cruz, com a experiência clínica e a bagagem científica de que dispõe, um dia destes, nos dê uma lição de Etologia, até porque, segundo julgo saber, a disciplina procura sobretudo explicar a raiz da agressividade. Num tempo de agressividades múltiplas e de agressivos fundamentalismos, seria útil compreendermos os mecanismos desse comportamento que, à primeira vista, é, do ponto de vista humano, irracional e autodestrutivo. Deixo a sugestão e volto ao tema inicial. Saído da casca, o meu primeiro emprego «a sério» foi na RTP. Por isso, talvez, à luz do conceito etológico do Lorenz, me tenha ficado dos longínquos dois anos em que lá trabalhei o hábito de preferir o canal de serviço público aos outros dois que surgiram muito posteriormente. Confesso que raramente ligo para a SIC (embora o canal de Notícias, não seja mau) e, por razões que me dispenso de explicar, quase nunca para a TVI. Vejo diariamente os serviços informativos da RTP, o «Jornal da Tarde» emitido do Porto e o «Telejornal». Imprinting? Talvez. Na realidade, não sendo grande consumidor de televisão, mesmo quando não presta e me desaponta – ou seja, quase sempre – a RTP é o «meu canal». Vou dar-vos conta de alguns dos meus desapontamentos.

Vou apenas abordar pormenores. As coisas transcendentes não são para aqui chamadas, Um amigo que leu um desses meus textos sobre a democracia, disse-me uma coisa muito sábia – entre o que se tem e o que se idealiza é preciso criar degraus, porque se deixamos um abismo intransponível entre realidade e sonho nem as asas da imaginação de quem lê o consegue por vezes transpor. E as pernas da realidade muito menos. Mutatis mutandis, entre o canal de serviço público que temos e o que gostávamos de ter, a diferença é abismal. Por isso, vou falar de pormenores, ou seja de alguns dos modestos degraus que poderiam conduzir a RTP ao patamar satisfatório que merecíamos ter, se o soubéssemos exigir, num serviço público de televisão.

Por exemplo, no que se refere ao «Jornal da Tarde», lamento os critérios de um alinhamento que muitas vezes privilegia notícias regionais sem grande relevância, deixando para o fim acontecimentos mais importantes da actualidade nacional ou internacional. Não seria preferível a RTP ter mais dois ou três canais regionais onde se desse uma informação local completa e minuciosa (como o da Madeira e o dos Açores e como acontece com a descentralizada TVE)? Assim, embora se compreenda perfeitamente a necessidade de dar, num palco com audiência nacional, protagonismo à região Norte, esse desiderato resulta muitas vezes em mau jornalismo – o que diríamos de um jornal que trouxesse na primeira página um vulgar acidente de viação ocorrido na cidade onde o periódico se edite e nas páginas interiores a notícia de um terramoto na China, ou de um descarrilamento na Índia, com centenas de mortos? Outra deficiência, esta comum a todos os serviços informativos da RTP, é a sua exagerada extensão, incluindo numerosas peças temáticas, com maior ou menor interesse, mas que não têm a ver com o tipo de informação que se espera. Os serviços da RAI, por exemplo, são modelares, pois em meia hora dizem tudo o que de importante se passou no mundo e no país. Na RTP (e nos outros canais generalistas) existe a peregrina ideia de que um serviço informativo é «uma espécie de magazine».

Dá-se demasiada importância ao futebol. Não é invulgar os serviços abrirem com um flash de um jogo o que me leva logo a pensar: «hoje não aconteceu nada de importante». E às vezes nem é verdade. Outra coisa que não percebo é a razão por que se gasta tanto dinheiro em tele-tontice, pagando a «cantores populares» que nos despejam em cima o seu analfabetismo e a sua mentalidade pornográfica servidos sob uma suposta forma musical. É puro lixo, que serve para preencher programas como a Praça da Alegria, Portugal no Coração, e quejandos, verdadeiros hinos à imbecilidade (salvo uma ou outra entrevista que teria interesse se o Jorge Gabriel e a Sónia Araújo fossem capazes de as fazer). Se tiverem paciência, deliciem-se com o vídeo de cima, apreciem a subtileza do poema e a qualidade da frase melódica repetida até à exaustão…

É nestas indescritíveis porcarias que o dinheiro dos nossos impostos é gasto?

Registo aqui também aquele tique anedótico dos jovens profissionais que, depois de termos escutado uma personalidade discorrer sobre qualquer assunto da sua área de actividade, nos «explicam», como se estivessem a fazer uma tradução do chinês, as mais das vezes em linguagem confusa e demorada, aquilo que, por vezes, a pessoa disse de forma escorreita e ágil. Como fazem todos os mesmo, penso que será lição (mal) aprendida nos cursos de jornalismo onde lhes devem ter dito para encerrar cada entrevista com uma breve síntese do que o entrevistado disse.

Claro, eu disse atrás que não percebia porque é que se gastava o dinheiro dos contribuintes em lixo, mas até percebo perfeitamente. A RTP está na guerra das audiências com a TVI e com a SIC e para isso precisa de ir abastecendo o seu tele-contentor. O serviço público de televisão não deveria entrar nessa competição, nem deveria passar publicidade. Em suma, não deveria competir em nada com os outros canais generalistas. Informar, formar, divertir educando… Mesmo correndo o risco de perder telespectadores. Mantê-los servindo-lhes programas que competem em estupidez com a «concorrência», não é prestar um serviço público. Era preciso mudar totalmente a filosofia da estação. Mas isso é entrar no campo das coisas impossíveis, dos sonhos, das transformações megalómanas e eu hoje só vim falar de pormenores. É abrir o tal abismo intransponível entre o que existe e o que deveria existir.

Uma última nota, agora para outra secção – a das tele-calinadas. José Rodrigues dos Santos, além de um bom profissional, é um escritor de sucesso, professor da Universidade Nova de Lisboa e um dos pilares da informação do serviço público de televisão. Tem uma responsabilidade intelectual tripla de, tanto quanto lhe seja possível, respeitar a língua portuguesa. Os seus erros de português não são aceitáveis. Tanto mais que, estou convencido de que os comete por teimosia. Quando digo teimosia é isso mesmo que quero dizer. Teimosia e arrogância, pois não acredito que nunca lhe tenham chamado a atenção para dois erros que repete há anos como se estivesse acima das regras que regem a língua portuguesa. Diz Ter a haver quando o que pretende dizer é ter a ver. Outra calinada do Zé: Ir de encontro, quando o que quer dizer é ir ao encontro. Dispenso-vos da lição de português. Todos sabemos o que cada uma destas quatro expressões significam. E não creio que Rodrigues dos Santos o não saiba. Outro erro que comete, imperdoável para quem estudou em Londres e foi correspondente da CNN, é a sua pronúncia da palavra rugby – ele diz
r
eigbi. Bem sei que muita gente diz assim, incluindo alguns dos jogadores da selecção de râguebi. Mas isso não é desculpa. Porém, apesar do ter a haver, do ir de encontro e do reigbi, o José Rodrigues dos Santos é um dos grandes profissionais da minha RTP.

Paquete de Oliveira, provedor do telespectador, continua no seu estilo tímido e soletrante, a dar vazão a alguns reparos que lhe chegam sobre a programação do serviço público de televisão. Já tenho ouvido críticas, dúvidas ou sugestões pertinentes, mas nunca dei conta de o caminho da RTP ter sido alterado num milímetro que fosse em função desses reparos. Talvez a ideia seja mesmo essa – dar espaço às pessoas para protestarem, mas não ligar a mínima importância ao que dizem – uma espécie de «deixa-os lá falar!».

Apontamentos & desapontamentos: uma tele-confusão (D. Afonso Henriques e o fado)

Falando de democracia: A televisão e o computador significarão a morte do livro?


Livraria Lello, no Porto – uma das mais belas do mundo.

A democracia é indissociável do livro. Hoje, falando de democracia, vou falar do livro. E começo por transcrever palavras de José Afonso Furtado em O Que é o Livro: «Uma das imagens recorrentes em diversas obras que se dedicam a problemas de História ou da Sociologia do Livro e da Leitura é uma passagem clássica do romance Nôtre-Dame de Paris, de Victor Hugo. Nela, o arcediago abre a janela da sua cela, contempla por algum tempo a Nôtre-Dame, estende a mão para o livro impresso aberto na sua mesa e, lançando um olhar triste para a igreja, profere a conhecida frase: ceci tuera cela.». Embora como José Afonso Furtado diz, este imagem seja recorrente, utilizo-a mais uma vez porque facilita a compreensão do que quero expor. Segundo o próprio Victor Hugo explica depois, a frase dita pelo arcediago Claude Frollo (o protector de Quasímodo), reflecte o espanto e o receio do sacerdócio, naquele final do século XV, perante o “prelo luminoso de Gutenberg”, o confronto entre a palavra escrita e a palavra falada. Por outro lado (como refere McLuhan) a arquitectura gótica, a escultura, a iluminura ou a glosa medievais eram suportes da arte da memória e o eixo da cultura da escrita. Temia-se que o advento da imprensa pusesse tudo isso em causa e em risco de extinção.
Tal como nesse fim do século XV se temia que um avanço como o que a imprensa significava, pusesse em risco a forma mais popular de comunicar com as massas – a arquitectura gótica, através das quais multidões de gentes iletradas, que faziam das catedrais o seu local de encontro e de passeio dominical (tal como hoje as famílias vão ao centro comercial) «liam», nos elementos escultóricos de pórticos, túmulos, capelas e retábulos, passagens das Sagradas Escrituras, teme-se agora que as novas tecnologias da informação ponham o livro em risco de extinção. Penso que se trata de um falso receio e de um falso problema. Embora, indubitavelmente, o cenário mude – já mudou – e os editores tenham de se adaptar a ele. O feeling que têm usado como sistema, vai deixar (se é que não deixou já) de ser suficiente – vão ser necessários investimentos, nomeadamente na área da formação. As novas tecnologias só podem ser aliadas do livro, nunca adversárias. Concorrentes, sim, inimigas, não. Mas isto, se os editores estiverem apetrechados, inclusive com formação específica que desde há cerca de quinze anos existe, tendo começado com um curso de especialização na Faculdade de Letras de Lisboa e existindo agora outros cursos na Católica e na Nova. Na realidade, do mesmo modo que é impensável um médico ou um engenheiro autodidactas, deveria pôr-se na gaveta das recordações o editor «sem mestre, mas com jeito», como diria o José Fanha. Os editores continuam a publicar por feeling. E não nego que existem pessoas no mundo da edição com uma espécie de sexto sentido. Mas até esse sobredotados às vezes se enganam. Vejam só o perigo que seria se os farmacêuticos, em vez da formação científica que recebem, actuassem por feeling. Ele era aspirina para a queda do cabelo, xarope anti-tússico para as varizes e por aí fora. A edição é uma ciência. A vocação é necessária, mas a formação é indispensável.

Porque a crise do livro é endémica. Quando, há muitos anos, cheguei ao meio editorial a crise do sector era já um dado adquirido. Ironicamente, dir-se-ia que Portugal está em crise desde que o nosso Afonso I derrotou D. Teresa na escaramuça de São Mamede, em 1128, e o que a indústria e o mercado do livro no nosso País estão em crise desde que, em 8 de Agosto de 1489, se imprimiu em Chaves o «Tratado de Confisom», primeiro incunábulo português. As causas apontadas para a crise são numerosas. Umas crónicas, outras que vão surgindo. Há umas décadas, a persistência de uma larga percentagem de analfabetismo entre a população, o baixo poder de compra e a censura, eram três argumentos recorrentes (e todos eles reais). A televisão não se usava ainda como desculpa, pois a oferta desse meio era escassa. Actualmente, o analfabetismo é residual, o poder de compra não é famoso, mas os concertos de música rock enchem-se, para falar só num concorrente do livro. Não há censura, mas há televisão com múltiplos canais, computadores e Internet – as pessoas não ficam com tempo para ler, pois não podem perder os seus programas, os sites ou blogs favoritos. A pouco e pouco a leitura on line dos jornais vai pegando. O que significa que os jornais, ligados geralmente a grandes grupos, já estão a aprender a conviver com a mudança. Também há grandes grupos editoriais, grandes multinacionais da edição, e aí não se brinca às edições – cada projecto é minuciosamente analisado, antecedido de estudos de mercado. Nessas grandes empresa não se usa o velho sistema dos editores clássicos – «eu acho que»… – «Em marketing, não se acha, testa-se!», é uma dos axiomas do Professor Jorge Manuel Martins que lecciona Marketing do Livro na Faculdade de Letras de Lisboa, numa das tais pós-graduações de que falei. Por causa do «eu acho que», os armazéns estão cheios de livros que não se venderam e que, muito provavelmente, não se vão vender. Milhares de árvores inutilmente abatidas.

O empirismo dos editores e a falta de especialização das editoras médias e pequenas, a tentação generalista, a ausência de especialização em linhas editoriais específicas – direito, medicina, culinária, pedagogia, economia – a busca de nichos de mercado, que seria a grande solução para as pequenas e micro editoras; mas não, os pequenos editores, mesmo aqueles que publicam vinte ou trinta títulos por ano, persistem em abarcar todo o imenso leque do conhecimento – do romance à astrofísica. Eles divertem-se, mas arruínam-se. É um suicídio.

Porém, penso que mais do que uma crise no mercado do livro, creio que há a ausência de uma política do livro que induza os cidadãos a ler e a colocar o livro na sua lista de prioridades. Como é que isso se fará? Será coisa para o Ministério da Cultura resolver? Também, mas não só. Para falar só nos últimos cinquenta anos, nem o Estado Novo, nem os governos democráticos souberam criar uma política do livro. E o que será isso? Pitágoras disse. «Educai as crianças par que não seja necessário punir os homens», o que aplicado ao tema que estou a abordar seria «Educai as crianças para que não seja possível em adultas castigá-las com romances da Margarida Rebelo Pinto ou com uma televisão concebida para imbecis». Claro, dirão logo alguns, mas os programas escolares contemplam a literatura. Mas não é de programas escolares que estou a falar. É de educação integrada – uma das minhas utopias, claro. Voltemos à temática da crise do livro.

Resumindo: a verdade objectiva tem contornos estranhos: por um lado, os editores têm razão – há uma crise. Sempre houve. Porém, nunca se vendeu tanto livro como actualmente. Não me perguntem se a qualidade média das edições subiu ou baixou. Estou só a falar de quantidade. Crise do livro? – Sem dúvida! Também crise de mentalidades a afectar os pequenos e médios editores e impedindo-os de se adaptarem às novas realidades.

Sobretudo e sempre, crise de valores da sociedade. Para falar num facto recente, lembremo-nos Cristiano Ronaldo a ser saudado por multidões, com os canais de televisão a seguir todos os seus passos. E se toda aquela força e energia mediáticas fossem postas ao serviço da cultura? Cultura no sentido lato, não no sentido livresco. Embora a disseminação da cultura nesse sentido lato de aquisição de valores e de saberes, se traduzisse também na venda de mais livros

Poemas com história: Natureza morta

Discussão recorrente foi, nos anos sessenta e setenta, a da dicotomia entre forma e conteúdo. Bati-me sempre pela prevalência do conteúdo, sendo da opinião que «o que se diz» é mais importante do que «como se diz». Mas não era, nem é, uma opinião compartilhada pela maioria dos escritores e artistas. Segundo eles, a arte constitui uma linguagem autónoma, independente da realidade do quotidiano, vale por si mesma. É uma posição respeitável. Entretanto, particularmente na literatura, foi vingando um tipo de escrita enovelada sobre si mesma. Os poetas e escritores, sem liberdade de expressão, jogavam com as palavras e, às vezes, no meio de uma floresta de palavras descobria-se um significado. É contra esse tipo de escrita (e de arte) que este poema, escrito por esses tempos, mas apenas publicado em 1990 em O Cárcere e o Prado Luminoso, se batia. Uma arte ligada à vida e à realidade é o que pretendo defender com esta Natureza morta:

Olhando a natureza morta,

frias laranjas dormindo

numa fruteira inerme,

silenciosa,

que o azul cerúleo recorta

na quadrícula branca

da janela,

recuso a natureza

assim estagnada,

sem dentes, sem fome, sem desejo,

sem nada que triture as laranjas:

sem dedos que a esmaguem,

nem crianças que partam

a puta da fruteira;

sem sequer um grito de revolta

que trespasse a gélida fronteira

entre a morte e o silêncio

emoldurados

e a vida que se agita,

grita, ruge e dói

deste lado de cá

da maldita moldura.

Recuso a natureza

pálida, parada,

sem aves, vento ou sons

que sulquem o azul do céu

desta natureza, assim

tão contra-natura

como a que assassinada

a tiros de pincel,

jaz fria, morta e enterrada

na tela e nas cores

desta pintura

Apontamentos & desapontamentos: o insustentável peso do futebol

É frequente em contextos de crítica social, económica ou política, surgir a alusão à síntese de Juvenal, panem et circenses, – locução latina que significa «pão e espectáculos de circo». Juvenal caracterizou com estas palavras a situação de decadência que o Império atravessava, substituindo-se uma política de medidas favoráveis ao povo, pela demagógica dádiva de pão e de divertimentos gratuitos. Juvenal – poeta latino nascido em Aquinum, Apúlia cerca do ano 60, foi o autor de «Sátiras», textos que opunham à Roma dissoluta da época a imagem da República, justa e íntegra, idealizada por Cícero e por Tito Lívio. Se substituirmos o pão pelas «medidas» sociais dos governos (as obras e reformas anunciadas antes dos períodos eleitorais) e se pusermos no lugar do circo o futebol, temos um quadro perfeito da situação sociopolítica portuguesa – Dois milénios depois, a receita denunciada por Juvenal continua a funcionar, em Portugal e não só.

O futebol é um dos meus desapontamentos. Gosto muito de ver jogar futebol, sobretudo quando é bem jogado, embora como conversa não seja dos meus assuntos preferidos. Por mais voltas que se dê, resulta sempre numa conversa tonta, na melhor das hipóteses sobre tácticas, na pior, trazendo à superfície facciosismos clubísticos, quando não mesmo frustrações de outra espécie – futebol é mesmo para jogar ou para ver jogar. No entanto, ganhou tal peso que se transformou num tema incontornável. É interessante ver políticos, economistas, cientistas, escritores, a recorrerem a metáforas futebolísticas para explicar pontos de vista das suas áreas. O que já não tem tanta graça é o que o futebol custa aos contribuintes. É um peso insustentável para os nossos fracos recursos.

Moro perto de uma pequena vila no litoral Oeste. Há umas semanas, no «meu café», havia um clima de excitação – o presidente do clube de futebol tinha entrado em greve da fome porque, sendo avalista da colectividade, ficara com uma dívida pessoal às costas – dois milhões de euros, correspondendo ao passivo acumulado do clube. A greve de fome era uma forma de protesto contra o presidente da autarquia que terá prometido apoios que não cumpriu. O homem está em vias de ver todos os seus bens penhorados, ficando, ele a mulher e os filhos sem nada. Ao cabo de nove dias, a greve foi interrompida com o grevista a entrar nas urgências de São José em perigo de vida. Espera que o Município, o Governo, seja quem for, encontrem maneira de ele, cujo crime foi gostar de futebol e ser crédulo, não ficar sem os seus bens. Senão, ameaça recomeçar a greve da fome. Mas dá que pensar, um pequeno clube e que, mesmo assim, acumula um passivo de dois milhões de euros. Ignoro que apoios o município terá prometido, o certo é que, pelos vistos, não os cumpriu.

Apesar de tudo, esta é uma autarquia sem escândalos assinaláveis (o que já em si é assinalável). O caso mais marcante sobre o «sentido de justiça» deste autarca, no poder há vários mandatos, foi o de, certamente por motivos políticos, se ter recusado a dar o nome de José Saramago à escola secundária. Porém, deu (modestamente) o seu próprio nome à maior estrutura do concelho, o parque polidesportivo, onde não falta um estádio com relvado sintético e pista de tartan, pavilhões, piscinas, courts de ténis… Referira-se que, após a pressão de alunos e professores, foi forçado a dar o nome do Nobel à escola. Adiante.

Os pequenos clubes, como o da minha vila, não têm geralmente equipas que se destaquem. Mas isso seria mais do que secundário se promovessem o desporto, particularmente entre os jovens. Não conheço a situação particular do grupo de futebol cujo presidente entrou em greve da fome, embora me pareça que a dívida tem a ver com obras que se fizeram nas instalações e com os juros do empréstimo bancário que a colectividade contraiu. Não é o caso típico de endividamento para contratar jogadores profissionais ou semi-profissionais em geral estrangeiros ou portugueses em fim de carreira. Do mal, o menos.

No debate «Democracia e Corrupção», realizado em Constância há cerca de dois anos, falou-se do papel do futebol na criação de climas favoráveis à corrupção. Maria José Morgado comparou o combate que no nosso País se trava contra a corrupção com a luta que a justiça italiana move à Máfia. Defendeu a adopção de reformas institucionais que garantam o exercício de cargos políticos com transparência. É óbvio, até para os leigos como eu, que a Justiça não dispõe de instrumentos que lhe permitam lutar com eficácia contra o crime e a corrupção, dotados de tudo o que necessitam para ser eficazes. Que dizer da situação anómala das escutas telefónicas. Ouve-se pessoas responsáveis a combinar resultados de futebol, o crime está ali mais do que provado e documentado, mas pelo pormenor processual de que as escutas não foram previamente autorizadas, a prova é considerada nula e os criminosos ficam a rir da Justiça, de quem os acusa, de quem os critica. Também nos diz muito sobre a natureza humana a massa apoiante que estes autarcas corruptos têm. Tal como acontece com a corrupção no futebol – os corruptos são defendidos pelos adeptos com unhas e dentes. Sobretudo se a corrupção deu frutos, ou seja campeonatos. Voltamos atrás: a corrupção nas autarquias se for acompanhada de apoio aos clubes de futebol, tem o apoio da população. A corrupção encontra no futebol um bom local para nidificar. Se a Justiça funcionasse com maior celeridade e eficiência, talvez se pudesse começar a erradicar os males que o futebol enquistou na sociedade portuguesa – as pequenas e grande máfias que giram em torno dos clubes, a escumalha das claques, alfobres de marginalidade onde a droga e o neo-nazismo, por exemplo, se encontram e acasalam, gerando híbridos monstruosos – tráfico de droga e de pessoas, redes de pedofilia… Os negócios ínvios que, autarcas e presidentes dos clubes fazem, são um caldo mafioso e sinistro que vive sob os tapetes relvados onde, ainda por cima, se joga cada vez pior.

Pão e circo? – Mas que pão, mas que circo!