Falando de democracia: Ainda o tema do iberismo (II)

continuação daqui

No primeiro semestre de 2009 o défice espanhol disparou – o governo de Zapatero gastou quase o dobro da receita encaixada – situava-se esse défice no final de Julho em aproximadamente 40 mil milhões de euros. Segundo a OCDE, a taxa de desemprego em Espanha situava-se nos 18,7%, sendo a mais elevada entre os países pertencentes à instituição, cuja média estava, em Maio, nos 8,3%. Em Portugal a percentagem de desempregados, embora elevadíssima, andava pelos 9,1%. Não significa isto que em Portugal se viva melhor do que em Espanha – as estatísticas não dizem tudo e a economia paralela, lá mais do que cá, é uma realidade. Tomaram muitos de nós viver como alguns daqueles «desempregados».
No entanto, no caso de uma integração num mercado de trabalho tão rarefeito, os portugueses partiriam em desvantagem – índices de formação mais baixos e a desvantagem da língua – o castelhano (ainda que isso fosse dito de outra maneira) seria o idioma oficial e obrigatório e os portugueses que, embora, de facto, compreendem o castelhano, não o falam conforme supõem e indicam nos «curricula». Na sua quase maioria, falam um «portunhol» ridículo do qual o jornalista João Marcelino nos deu um excelente exemplo num dos vídeos que pudemos ver. Para os portugueses em geral a integração seria um desastre. Contudo, há portugueses e «portugueses».
Os empresários, alguns empresários, vêem na integração uma solução para a grave crise económica que atravessamos. Os grandes vislumbram a hipótese de um mercado mais do que quintuplicado, a oportunidade de parcerias com grupos espanhóis ou com grupos internacionais sediados em Espanha. Falaciosamente agita-se a miragem de um mercado de 800 milhões de pessoas, como se as ex-colónias obedecessem ainda aos ditames das antigas metrópoles. Outros, menos grandes, sonham com a possibilidade de vender os seus negócios em condições favoráveis a esses grupos. Quer nuns, quer noutros, verifica-se um desprezo generalizado pelo conceito de independência nacional. Tudo se reduz a uma questão de mercado. Mas esta gente da alta roda do capital, eu compreendo. Se for preciso até dizem que são patriotas, e que estão a defender os interesses nacionais… O que se torna mais difícil compreender é ver esse desprezo compartilhado por gente que, no seio de uma «Ibéria unida», passaria à condição de cidadãos de segunda, a heróis de «chistes» que os falantes castelhanos logo inventariam sobre os «portuguesitos». Com a arrogância própria da ignorância, riem-se quando lhes falamos de valores como o idioma, a História, a cultura. Nem sabem o que são essas coisas. Vi num blog a afirmação de que «seria giro» os clubes portugueses jogarem no campeonato espanhol – o que representa, pelo menos, uma visão inédita do tema, reduzindo-o a uma dimensão futebolística. Embora os cidadãos do estado espanhol não pareçam muito entusiasmados com a ideia, ao centralismo castelhano ela não deixa de ser simpática, porque provaria àqueles bascos, catalães e galegos que defendem a independência das suas nações que até os portugueses, mais de trezentos anos depois de terem abandonado o redil a ele regressam de cabeça baixa e pedindo licença para entrar.
Quem defende a integração de Portugal em Espanha, onde seria uma Comunidad autonómica, a 19ª, salvo erro, tem de ter consciência de uma coisa – Num referendo a anexação não passará. Se este ou outro governo nos integrassem à revelia da vontade popular, como entrámos na União Europeia, violando a Constituição da República, teríamos um grande problema – todos nós, portugueses, traidores e invasores. Onde quero chegar é que confio em que há portugueses e portuguesas corajosos em número suficiente para fazer a vida negra a quem nos quisesse anexar e a quem nos tivesse vendido. Poderia ser o fim de um estado artificial e sem razão para perdurar – a Espanha hegemonizada pela Castilla miserable, ayer dominadora,/ envuelta en sus andrajos desprecia cuanto ignora como disse Antonio Machado em «Campos de Castilla» e Josep Vidal nos recordou. E Vidal disse-nos também no seu excelente comentário ao meu texto sobre a questão do iberismo: «A Espanha é uma má companheira de viagem para qualquer projecto de integração em qualquer âmbito cultural, estando totalmente incapacitada, não só para liderar, como também para participar em qualquer projecto de iberismo.» (…)«Os actuais estados europeus, independentemente de serem monarquia ou república – e não é necessário que te diga que não sou, de modo algum, afecto à monarquia, que considero uma forma de governo anacrónica e periclitante – não conseguiram afastar-se do conceito patrimonialista que herdaram das antigas monarquias (Ponho-te como exemplo a questão da capitalidade do Estado; hoje em dia não faz sentido falar de “capital”, mas continuamos a fazê-lo em vez de falarmos de pólos ou centros dinâmicos para determinados projectos… O governo pode estar em qualquer local, mas nem tudo deve passar pelo governo, seja Lisboa, Madrid, Barcelona ou Valência…) E enquanto não nos desfizermos desse lastro, os projectos de integração – inclusivamente de convivência em igualdade – estão condenados ao fracasso, por algo de tão básico como a falta de respeito. Em suma, podemos dar cabo da cabeça discutindo, mas, basicamente, estamos perante uma questão de respeito: respeito pela singularidade, pela diferença, pela identidade… Essa é a premissa sobre a qual se podem construir num plano de igualdade todas as alianças e todos os acordos para trabalharmos juntos em projectos concretos… Mas em Espanha – onde se diaboliza o nacionalismo catalão, rotulando-o de excludente – pratica-se visceralmente, para além de toda a racionalidade, um nacionalismo incluente, assimilacionista. Essa é a tónica dominante, com todas as honrosas excepções que podemos assinalar (e oxalá fossem muitas). E isso conduz-nos a outro dos motivos essenciais pelos quais os projectos de integração – ou de convivência em igualdade – estão condenados ao fracasso: a ignorância. Não é que não nos tenham ensinado a conhecermo-nos, é porque nos ensinaram a ignorar-nos, ensina-se a «desconhecer» o que é diferente. Com? Com preconceitos, com desinformação, com a tergiversação da história até limites escandalosos.»
«Se Espanha não tem solução, se Espanha não quer outra solução, por que não aceitamos que a única saída que depende estritamente de nós, a que não passa por pedir licença a mais ninguém, é a da independência? De maneira surpreendente, os argumentos contra a independência são do tipo: “A independência não pode ser e, além disso, é impossível”. Quero dizer que quem argumenta contra é que a torna impossível. Não sou tão estúpido para subvalorizar as dificuldades do processo, está claro. Porém, se me colocam perante a alternativa de uma impossibilidade historicamente experimentada – a inclusão em Espanha – e uma impossibilidade por experimentar, inclino-me pela segunda via». (Salvador Cardús, sociólogo e escritor, que publica semanalmente um artigo no jornal diário Avui, dizia em 3 de Julho (citado por Josep Vidal).
Em 19 de Agosto , um leitor galego fez o seu comentário, lamentando a falta de uma referência à dimensão económica do tema, na sua opinião (e na minha) fundamental. Terminava dizendo: «Como galego amante de Portugal, só posso desejar aos portugueses que não acabem cedendo a sua soberania a Espanha
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Para a minha nação – a Galiza – a dependência dos espanhóis tem sido historicamente nefasta… e continua a sê-lo». A este amigo, para já, deixo-lhe uns versos da também nossa Rosalía de Castro em «Cantares Galegos»: «Que Castilla e castellanos,/todos num montón a eito,/non valen o que unha herbiña/destes nosos campos frescos».
Acrescente-se que o tema da integração tem uma raiz eminentemente económica (o leitor galego tem toda a razão). O que o que se esconde por detrás desta campanha, tem como base o desiderato de um mercado alargado onde algumas empresas portuguesas possam expandir-se, o que é natural que aconteça com meia dúzia delas. Enquanto isso, a grande massa das empresas, nomeadamente as PMEs, seriam implacavelmente cilindradas e destruídas, implicando uma taxa de desemprego que não é possível calcular, mas que nos mergulharia numa miséria ainda mais atroz do que aquela em que estamos.
Em contrapartida, a desconstrução do estado espanhol implicaria na Catalunha, por exemplo, uma catástrofe de sentido inverso – milhares de empresas, competitivas como só os catalães sabem ser, perderiam um mercado de mais de quarenta milhões de pessoas, passando a estar confinadas ao pequeno mercado nacional. Por isso, apesar da vontade de muitos patriotas, os tubarões catalães querem continuar a ser espanhóis. E alguns tubarões portugueses almejam também esse mercado.
Estranhamente, os grandes aliados de quem quer preservar a independência nacional portuguesa, são, sempre segundo o tal estudo de Salamanca, a maioria dos cidadãos do estado vizinho. Enquanto apenas 34% dos portugueses seria contra a união, do lado espanhol a percentagem dos opositores seria de 30%, havendo 29,1% que se manifestou indiferente ao projecto. Isto significa que, se prevalecesse a estúpida ideia de nos integrarmos, teríamos de pedir licença para entrar e, obviamente não impor condições, aceitar um rei como chefe de Estado, a capital em Madrid e o português como segunda língua, sendo o castelhano o idioma oficial da tal Ibéria (que, obviamente, continuaria a chamar-se Espanha. Porque haveriam eles de se dar ao incómodo de mudar o nome?).

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Em 1965, com um grande grupo de gente apanhada na leva de prisões causada pela traição do controleiro do sector universitário do PCP (um tipo que, curiosamente se chama ou chamava Nuno Álvares Pereira), eu à época ligado à FAP, estive com Mário Lino num calabouço colectivo do 2º piso do Aljube e depois em Caxias. Recordo nele um militante do PCP, onde esteve até 1991, rapaz amante de cinema (creio que dirigia o Cineclube Universitário), bem disposto, inventor de boas pilhérias – lembro-me dele, ataviado de bispo, com trajos fabricados por nós e por um báculo feito com um cabo de vassoura oficiar uma missa em improvisado latinório. Porém, aos poucos, a imagem do ministro arrogante e trapalhão, faz desvanecer a recordação positiva que guardo do jovem de há mais de 40 anos. Agora é o golpe final – Mário Lino, ministro das Obras Públicas Transportes e Comunicações declarou-se «iberista confesso», numa palestra em Santiago de Compostela (afirmando que «temos uma língua comum»). Como já vimos, há várias espécies de «iberismos» Na maior parte dos que se dizem iberistas existe a ideia da integração na monarquia espanhola, com capital em Madrid, e o castelhano como língua principal. A ideia tão absurda, respondo, citando o meu antigo companheiro de prisão: Jamais! Jamais!

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