A máquina do tempo: apresentação

«A máquina do tempo» porquê? Porque entrando nela, posso ir até ao passado, regressar ao futuro, revisitar o presente. Porém, antes de mais, é de toda a justiça e gratidão começar por falar no dono do título (surripiado como vai sendo meu hábito). Herbert George Wells, nasceu em 1866 em Bromley, Inglaterra, e morreu em 1946, em Londres. «The Time Machine», publicado em 1895, foi um dos seus primeiros romances e um dos seus maiores êxitos. Mas teve outros, como por exemplo «The Invisible Man» (1897). De 1898 é «The War of the Worlds», a famosa «Guerra dos Mundos» que, pela mão de Orson Welles, que a transformou em peça radiofónica, pôs em 1938, a América em pânico, pensando que os marcianos estavam a invadir a Terra (hei-de contar esta história). Ideia que o Mário-Henrique Leiria, o António José Forte e outros manos do Gelo aproveitaram para a sua «Operação Papagaio». Como muitos sabem, a história original conta como «o viajante no tempo» (the Time Traveller) inventa uma máquina capaz de se mover também na quarta dimensão. E lá vai ele parar, nem mais nem menos, do que ao ano 802 701 a um mundo estranho, uma espécie de Eden, mas com um inconveniente – os Elois, uma raça de gente boa e vegetariana, serve de alimento aos malvados Morlocks, carnívoros o mais possível (que se escondem em subterrâneos). Ora bem. H.G. Wells, se bem que jovem escritor estreante, era tudo menos inocente – a época vitoriana em que o livro é escrito era fértil em «elois», que trabalhavam literalmente como escravos a partir dos cinco anos de idade, para alimentar os «morlocks» que se pavoneavam por Londres e não só, porque a desenfreada exploração a que a Revolução Industrial deu lugar, foi o «caldo de civilização» em que Karl Marx, de colaboração com Engels, escreveu em 1848 o seu «Manifesto Comunista», tal era a densidade da injustiça social vivida na Europa. Mas Wells escusava de ter ido tão longe no tempo – andando pouco mais de um século para a frente, encontraria, sem se mover no espaço, morlocks e elois, ali mesmo em Londres. Se quisesse deslocar-se um pouco para Sul, sobretudo se viesse durante a primeira década do século XXI, encontraria por aqui exemplares bastante interessantes dessas duas espécies de humanóides.
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A minha máquina funciona a baterias alimentadas pela memória e pela imaginação. Memória de livros lidos, de filmes vistos, de factos vividos; imaginação de conjecturas feita. Muitas vezes, misturando umas coisas com as outras e unindo-as com a argamassa de alguma fantasia. Passado, futuro, presente, tudo misturado. Um exemplo – num dos primeiros posts falarei da evolução da língua galega e da recente criação da Academia Galega da Língua Portuguesa, ou seja de uma projecção do passado no presente. Também especularei sobre o que vai ser da televisão no futuro próximo – como já devem ter reparado, a televisão é uma espécie de obsessão que me ficou desde, quando, há muito tempo, trabalhei na RTP. Falarei também sobre o marketing do livro (outra obsessão), mas desta vez na Roma do século I da nossa era. Dedicarei uma crónica à história da minha rua (mas, desta vez, sem roubar o título ao Mário Zambujal). Viajaremos até ao dia de Outubro de 1936 em que Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, proferiu a sua lição magistral e visitaremos Antonio Machado, o autor do verso «o caminho faz-se caminhando». Regressaremos ao drama do Chile, em Setembro de 1973. Daremos os parabéns a Óscar Lopes, um homem do futuro que, felizmente, vive entre nós. Veremos como eram brandos os costumes na PIDE e lembraremos, noutro post, alguns marcos da luta armada, civil e militar, contra o regime salazarista. Enfim, prometo-vos algumas dezenas de viagens. Prometimento que espero poder cumprir (e talvez cumpra mesmo, pois não sou político).
Para finalizar por hoje, ouçam esta descrição de uma ida ao futuro feita por quem a fez: «O Futuro é tão antigo como o Passado. E ao caminharmos para o Futuro é o Passado que conquistamos», disse António Maria Lisboa (1928-1953), o grande poeta surrealista que morreu com 25 anos, louco e tuberculoso. Porém, digo eu, sabendo como gostaria que fosse o Futuro, ignoro totalmente como irá ser. O Presente, salvo excepções raríssimas, é mesquinho. Não me apetece muito falar destas coisas, da gente da política. Serão talvez pessoas, mas não são personalidades e, muito menos, personagens. Falar deles é dar-lhes uma espessura que não têm nem merecem ter. Não sei o que dizer mais sobre isto que estamos a viver. No Passado, que envolve algumas décadas vividas por mim, procurando bem, como quem anda no sótão das arrumações, lá vou encontrando factos, personalidades e personagens, ou seja, gente de que merece a pena falar (coisas que não deitei fora, está a ver Carla?). Por isso talvez viaje mais até ao passado, não por ser passadista, mas pela razão aventada pelo António Maria Lisboa. Pondo-a do avesso, fica assim: – «o Passado é tão novo como o Futuro. E ao caminharmos para o Passado é o Futuro que conquistamos» – ou que, neste caso, compreendemos. De acordo? Não? Não faz mal – porque o mesmo poeta também dizia «que tudo é e não é alternadamente». O que, a ser verdade – e é – pode ser utilizado como saída de emergência para qualquer situação – TUDO É E NÃO É ALTERNADAMENTE! – já viram?. Numa máquina do tempo, esta frase dá muito jeito, pois funciona como uma espécie de assento ejectável.

Comments

  1. carla romualdo says:

    Não tenho dúvidas de que essa gaveta de memórias guarda inúmeras maravilhas, amigo Carlos.


  2. Maravilhas e não só.

  3. Belina Moura says:

    Pois, morlocks e elois sempre houve e sempre haverá, em todos os séculos, por mais que nos pareça serem as injustiças sociais apenas da nossa época.

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