Recordando João Vieira


Uma das consequências de se viver durante muito tempo é assistir-se à partida de muita gente, familiares, amigos, conhecidos. Ontem, estava a almoçar e a ver televisão (um mau hábito), e fui surpreendido com a notícia da morte do pintor João Vieira. Não se pode dizer que fôssemos amigos; tampouco inimigos. Digamos que nos conhecíamos e nas poucas vezes em que nos víamos tínhamos uma relação cordial. Sentia uma grande admiração pela grande qualidade da sua pintura. Tenho uma serigrafia do João em minha casa e, na última vez em que falei com ele – num restaurante de que foi proprietário em Azeitão – levantei a hipótese de lhe comprar um quadro. O problema eram dois, disse-lhe eu – ele ser um artista muito cotado e eu não ser rico. Estava com a minha mulher e com um casal amigo, o António e a Célia Gomes Marques (sendo o António, por via do teatro, mais íntimo do João do que eu). Rimo-nos e o João Vieira logo disse que se havia de encontrar uma solução. Coisa que nunca aconteceu nem acontecerá, visto que o João nos deixou.
Em Março, no Dia Mundial da Poesia, estive em Vila Real, a convite do Grémio Literário, para, com o Eurico de Figueiredo, animar um debate sobre o Movimento Setentrião no qual nos anos 60 participei. Já não ia à cidade há uns anos e um dos anfitriões, o Elísio Amaral Neves, andou a mostrar-me as novidades que o burgo tinha para exibir – muitas e nem todas boas – entre elas, e entre as melhores, estão os vitrais que o João Vieira criou para a Igreja de São Domingos ou Sé Catedral. Confesso que a minha primeira reacção foi negativa – a pintura do João incrustada num monumento gótico acordou o reaccionário que há em mim. Pareceram-me duas coisas isoladamente muito belas, mas separadas por cinco séculos, criando uma relação anacrónica que me chocou. Mas fui caindo em mim e o tipo mais desempoeirado, que também cá mora às vezes, levou a melhor. A beleza é intemporal. Os vitrais do João estão muito bem na Sé de Vila Real.

Uma das imagens que guardo da juventude do João (e da minha, claro) é estarmos os dois no Café Gelo, numa manhã de domingo ainda cedo, em que ainda ninguém aparecera (mas eu morava perto e ele tinha o ateliê mesmo por cima) a falar sobre a música popular brasileira, trauteando canções e de repente o João sai-se a cantar muito bem o «É doce morrer no mar», do grande Dorival Caymmi. O Herberto e o Forte que entretanto chegaram não o interromperam e ele pôde chegar ao fim da canção. Um dote do João que talvez poucos conheçam – cantava bem.
Enfim, o João Vieira deixou-nos. E, com ele, um dos maiores pintores portugueses desta atribulada época.
Escutemos Dori Caymmi cantando a linda balada criada por seu pai.

Comments


  1. É Eurico Figueiredo e não Eurico de Figueiredo. O Professor não usa o de.

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