Apontamentos & desapontamentos: Tele-disparates


Konrad Lorenz, o grande naturalista austríaco (1903-1989), prémio Nobel para a Medicina em 1973, criou o conceito do imprinting, que em castelhano se traduziu por «impronta», mas que entre nós se tem preferido deixar em inglês, já que uma tradução literal – estampagem, cunhagem, gravação – podia dar lugar a uma distorção do conceito científico. O que é o imprinting? Estudando o comportamento dos gansos recém-saídos da casca, Lorenz verificou que eles aprendem a seguir a mãe, mesmo que seja uma falsa mãe, um ser humano, outro animal ou mesmo um objecto, copiando-lhe o comportamento. Sugiro que o amigo Adão Cruz, com a experiência clínica e a bagagem científica de que dispõe, um dia destes, nos dê uma lição de Etologia, até porque, segundo julgo saber, a disciplina procura sobretudo explicar a raiz da agressividade. Num tempo de agressividades múltiplas e de agressivos fundamentalismos, seria útil compreendermos os mecanismos desse comportamento que, à primeira vista, é, do ponto de vista humano, irracional e autodestrutivo. Deixo a sugestão e volto ao tema inicial. Saído da casca, o meu primeiro emprego «a sério» foi na RTP. Por isso, talvez, à luz do conceito etológico do Lorenz, me tenha ficado dos longínquos dois anos em que lá trabalhei o hábito de preferir o canal de serviço público aos outros dois que surgiram muito posteriormente. Confesso que raramente ligo para a SIC (embora o canal de Notícias, não seja mau) e, por razões que me dispenso de explicar, quase nunca para a TVI. Vejo diariamente os serviços informativos da RTP, o «Jornal da Tarde» emitido do Porto e o «Telejornal». Imprinting? Talvez. Na realidade, não sendo grande consumidor de televisão, mesmo quando não presta e me desaponta – ou seja, quase sempre – a RTP é o «meu canal». Vou dar-vos conta de alguns dos meus desapontamentos.

Vou apenas abordar pormenores. As coisas transcendentes não são para aqui chamadas, Um amigo que leu um desses meus textos sobre a democracia, disse-me uma coisa muito sábia – entre o que se tem e o que se idealiza é preciso criar degraus, porque se deixamos um abismo intransponível entre realidade e sonho nem as asas da imaginação de quem lê o consegue por vezes transpor. E as pernas da realidade muito menos. Mutatis mutandis, entre o canal de serviço público que temos e o que gostávamos de ter, a diferença é abismal. Por isso, vou falar de pormenores, ou seja de alguns dos modestos degraus que poderiam conduzir a RTP ao patamar satisfatório que merecíamos ter, se o soubéssemos exigir, num serviço público de televisão.

Por exemplo, no que se refere ao «Jornal da Tarde», lamento os critérios de um alinhamento que muitas vezes privilegia notícias regionais sem grande relevância, deixando para o fim acontecimentos mais importantes da actualidade nacional ou internacional. Não seria preferível a RTP ter mais dois ou três canais regionais onde se desse uma informação local completa e minuciosa (como o da Madeira e o dos Açores e como acontece com a descentralizada TVE)? Assim, embora se compreenda perfeitamente a necessidade de dar, num palco com audiência nacional, protagonismo à região Norte, esse desiderato resulta muitas vezes em mau jornalismo – o que diríamos de um jornal que trouxesse na primeira página um vulgar acidente de viação ocorrido na cidade onde o periódico se edite e nas páginas interiores a notícia de um terramoto na China, ou de um descarrilamento na Índia, com centenas de mortos? Outra deficiência, esta comum a todos os serviços informativos da RTP, é a sua exagerada extensão, incluindo numerosas peças temáticas, com maior ou menor interesse, mas que não têm a ver com o tipo de informação que se espera. Os serviços da RAI, por exemplo, são modelares, pois em meia hora dizem tudo o que de importante se passou no mundo e no país. Na RTP (e nos outros canais generalistas) existe a peregrina ideia de que um serviço informativo é «uma espécie de magazine».

Dá-se demasiada importância ao futebol. Não é invulgar os serviços abrirem com um flash de um jogo o que me leva logo a pensar: «hoje não aconteceu nada de importante». E às vezes nem é verdade. Outra coisa que não percebo é a razão por que se gasta tanto dinheiro em tele-tontice, pagando a «cantores populares» que nos despejam em cima o seu analfabetismo e a sua mentalidade pornográfica servidos sob uma suposta forma musical. É puro lixo, que serve para preencher programas como a Praça da Alegria, Portugal no Coração, e quejandos, verdadeiros hinos à imbecilidade (salvo uma ou outra entrevista que teria interesse se o Jorge Gabriel e a Sónia Araújo fossem capazes de as fazer). Se tiverem paciência, deliciem-se com o vídeo de cima, apreciem a subtileza do poema e a qualidade da frase melódica repetida até à exaustão…

É nestas indescritíveis porcarias que o dinheiro dos nossos impostos é gasto?

Registo aqui também aquele tique anedótico dos jovens profissionais que, depois de termos escutado uma personalidade discorrer sobre qualquer assunto da sua área de actividade, nos «explicam», como se estivessem a fazer uma tradução do chinês, as mais das vezes em linguagem confusa e demorada, aquilo que, por vezes, a pessoa disse de forma escorreita e ágil. Como fazem todos os mesmo, penso que será lição (mal) aprendida nos cursos de jornalismo onde lhes devem ter dito para encerrar cada entrevista com uma breve síntese do que o entrevistado disse.

Claro, eu disse atrás que não percebia porque é que se gastava o dinheiro dos contribuintes em lixo, mas até percebo perfeitamente. A RTP está na guerra das audiências com a TVI e com a SIC e para isso precisa de ir abastecendo o seu tele-contentor. O serviço público de televisão não deveria entrar nessa competição, nem deveria passar publicidade. Em suma, não deveria competir em nada com os outros canais generalistas. Informar, formar, divertir educando… Mesmo correndo o risco de perder telespectadores. Mantê-los servindo-lhes programas que competem em estupidez com a «concorrência», não é prestar um serviço público. Era preciso mudar totalmente a filosofia da estação. Mas isso é entrar no campo das coisas impossíveis, dos sonhos, das transformações megalómanas e eu hoje só vim falar de pormenores. É abrir o tal abismo intransponível entre o que existe e o que deveria existir.

Uma última nota, agora para outra secção – a das tele-calinadas. José Rodrigues dos Santos, além de um bom profissional, é um escritor de sucesso, professor da Universidade Nova de Lisboa e um dos pilares da informação do serviço público de televisão. Tem uma responsabilidade intelectual tripla de, tanto quanto lhe seja possível, respeitar a língua portuguesa. Os seus erros de português não são aceitáveis. Tanto mais que, estou convencido de que os comete por teimosia. Quando digo teimosia é isso mesmo que quero dizer. Teimosia e arrogância, pois não acredito que nunca lhe tenham chamado a atenção para dois erros que repete há anos como se estivesse acima das regras que regem a língua portuguesa. Diz Ter a haver quando o que pretende dizer é ter a ver. Outra calinada do Zé: Ir de encontro, quando o que quer dizer é ir ao encontro. Dispenso-vos da lição de português. Todos sabemos o que cada uma destas quatro expressões significam. E não creio que Rodrigues dos Santos o não saiba. Outro erro que comete, imperdoável para quem estudou em Londres e foi correspondente da CNN, é a sua pronúncia da palavra rugby – ele diz
r
eigbi. Bem sei que muita gente diz assim, incluindo alguns dos jogadores da selecção de râguebi. Mas isso não é desculpa. Porém, apesar do ter a haver, do ir de encontro e do reigbi, o José Rodrigues dos Santos é um dos grandes profissionais da minha RTP.

Paquete de Oliveira, provedor do telespectador, continua no seu estilo tímido e soletrante, a dar vazão a alguns reparos que lhe chegam sobre a programação do serviço público de televisão. Já tenho ouvido críticas, dúvidas ou sugestões pertinentes, mas nunca dei conta de o caminho da RTP ter sido alterado num milímetro que fosse em função desses reparos. Talvez a ideia seja mesmo essa – dar espaço às pessoas para protestarem, mas não ligar a mínima importância ao que dizem – uma espécie de «deixa-os lá falar!».

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