Apontamentos & desapontamentos: A televisão é para estúpidos (sobre a tele-dependência)

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A frase é do escritor e editor Luiz Pacheco (1925-2008) numa entrevista conduzida por João Paulo Cotrim, quando este lhe perguntou se «a televisão está a matar a literatura – «A televisão não mata nada! A televisão é para estúpidos!», confessando depois, no entanto, que tendo recusado ter televisor até pouco tempo antes, fora «apanhado pelo fascínio do pequeno ecrã» e via tudo (de tudo dizendo mal) – telenovelas, séries, concursos… Groucho Marx (1890-1977), numa frase que já aqui citei, costumava dizer: «Acho a televisão muito educativa – logo que alguém a liga vou para outra sala ler um livro. No fundo, as duas frases dizem a mesma coisa, por palavras e com intensidades diferentes. Ray Bradbury (1920), numa entrevista dada em 25 de Julho ao El País, coloca a mesma questão, da sobrevivência do livro face à concorrência da televisão e, sobretudo, desde há uma década, da Internet e das novas tecnologias da informação em geral. Vamos então tentar saber se, de facto, como disse, com frontal brutalidade, o Pacheco, «a televisão é para estúpidos».
É óbvio que Luiz Pacheco se referia à dependência da televisão que afecta muitas pessoas e não ao meio televisivo em si, um invento notável que, bem utilizado, poderia ser um poderoso instrumento de difusão cultural. Só não o é porque tem sido posto ao serviço de ideologias e de interesses económicos, criando dependências perversas (como todas as dependências) – a Internet, outro meio potencialmente disseminador de cultura e possível eixo estruturante da aprendizagem e do saber acumulado, tem vindo a ser utilizado também para fins criminosos – redes de pedofilia, incluídas – sem que se possa negar os seus benefícios. Sempre que se abre um caminho, seja uma rota marítima ou aérea, seja uma estrada, há sempre piratas e salteadores que saem ao caminho dos viajantes. Não vamos, por esse motivo, deixar de abrir caminhos.
Ficar um dia em frente do televisor, vendo séries, telenovelas, concursos, é, de facto uma estupidez, um atentado contra a vida. A televisão é usada como meio de estupidificação, de criação de uma «ideologia de massas» consonante com os interesses de uma minoria. Um grande exército de agentes está na base dessa «ideologia» – desde os criadores de programas aos criativos das agências de publicidade, por exemplo. As estatísticas que nos informam do tempo que crianças e adultos de diversas faixas etárias passam diariamente em frente dos televisores, são aterradoras. Um inquérito feito em São Paulo, revela que 87% das pessoas com mais de 60 anos vêem televisão durante todo o dia. Uma pesquisa levada a cabo pelo Center for Media Education, dos Estados Unidos, mostra que as crianças de todo o mundo, vêem de três a quatro horas de televisão diária. Para a maioria de crianças e adolescentes (entre os três e os 17 anos) a principal actividade é a televisão. Principalmente para os idosos, a televisão é uma forma de suprir carências afectivas, a solidão provocada pela viuvez, pela morte dos amigos e familiares, causando uma desertificação da sua vida social, etc.
Por outro lado, ao não exigir qualquer esforço das funções cognitivas, limita a imaginação, o que se torna particularmente grave entre os jovens. Nos telespectadores assíduos, reduz a capacidade e a velocidade da leitura, provoca a obesidade, prejudica a postura, tem influência no desempenho sexual (piorando-o), altera o sono, afecta as relações sociais… Resumindo, a tele-dependência é uma patologia com consequências colaterais graves se não for tratada. E não adianta emitir conceitos morais – a televisão, até ser substituída por outro suporte mais apelativo, vai continuar a absorver as atenções de todos, crianças e adultos. È um mal iniludível. Transformar um mal numa coisa boa nem sempre é impossível. Neste caso, tratava-se de aproveitar o sortilégio da TV para educar, ensinar e divertir, claro. Não deixando de incentivar os telespectadores a viverem a vida que acontece para lá da janela do pequeno ecrã.
Contudo, o objectivo de quem controla esse e outros meios não é criar programas de boa qualidade – é engendrar programas «apelativos» – redes que apanhem os otários distraídos. Como, há alguns anos, me disse ironicamente Mr. Hugh House, alto responsável da BBC, queixando-me eu da má qualidade da televisão em Portugal, a função da televisão é, precisamente, não ter qualidade. Quando João Paulo Cotrim pergunta a Pacheco se a Televisão não matará o livro, está a citar a frase de Victor Hugo a que já aludi noutra crónica – «ceci tuera cela» – isto matará aquilo – referindo-se ao livro impresso, ao invento de Gutenberg, que mataria a arte gótica, a arquitectura, a escultura, a iluminura, a glosa medieval, como forma de comunicar com as massas. Foi uma preocupação do final do século XV que, como se viu, era infundada – o livro, a arquitectura, a escultura, conviveram pacificamente até hoje.
Numa entrevista ao El País que já aqui referi, Ray Bradbury, foi aos arames quando lhe falaram no Kindle – «Isso não são livros. Os livros apenas têm dois cheiros: o cheiro a novo, que é bom, e o cheiro a livro usado, que é ainda melhor.» Como muitos de vós sabeis, o Kindle é um pequeno equipamento criado pela Amazon, uma empresa norte-americana, com a função principal de ler livros digitais ( e-books), podendo armazenar cerca de 1500 livros, podendo arquivar música (no formato MP3), actualizar páginas da Internet, entre outras funções. Isto sem que se possa aduzir o velho argumento (a favor da sobrevivência do livro) de que «não se pode levar um computador para a cama» – o Kindle tem um tamanho semelhante ao de um livro e um peso também equivalente. Recentemente, em Maio deste ano, foi lançado o Kindle DX, com um display de 24,6 cm na diagonal, uma vez e meia maior do que a versão standard, e que permite ler jornais e aceder aos formatos PDF, MP3 e TXT. Eu não seria tão radical quanto Bradbury na recusa liminar desta inovação. Também pertenço a uma geração que tem uma forte relação afectiva com o livro tradicional – o cheiro do papel novo, da tinta acabada de secar, a volúpia com que se examina a textura mais rugosa ou mais calandrada das páginas, o vício de tentar avaliar a gramagem, esfregando a folha entre o polegar e o indicador, a análise atenta do grafismo, a busca das gralhas, o odor dos livros usados… Não se pode, à partida, no entanto, recusar uma invenção que evitaria o derrube de florestas inteiras e permitiria sem ocupação de espaço aceder a enormes bibliotecas. Sobretudo para obras de referência, para livros de estudo. O Kindle, e os suportes que lhe sucederem, não matarão o livro – antes o perpetuarão com outra forma. Não haverá tão cedo Kindle que possa substituir o requinte de, por exemplo, uma edição de arte. Haverá sempre quem não dispense os livros em papel alinhados em estantes – os «loucos dos livros», de que, há 500 anos, nos falava o alsaciano Sebastian Brant na sua «Stultifera navis».
A televisão não é para estúpidos. A televisão foi um invento brilhante, mas é, muitas vezes, controlada por estúpidos, por sua vez manipulados por bandalhos espertos e codiciosos que nos querem estupidificar (e, segundo as estatísticas, estão a conseguir). O inteligente escritor e editor Luiz Pacheco era isto que, por certo, queria dizer.

Comments


  1. Na televisão, como em tudo na vida, há de tudo. Como há bons livros e livros estúpidos. A arte está em saber escolher.


  2. José, quem só tem acesso aos canais generalistas, não pode escolher. E há muita gente, sem televisão por cabo, que está à mercê de todas as manipulações. Por outro lado, a arte de saber escolher não está ao alcance de todos. Quer falemos de livros, quer falemos de programas de televisão. É a tal política cultural que não temos. Um abraço.

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