Apontamentos & desapontamentos: Fechando o caderno

É tempo de fazer um balanço a este caderno de apontamentos e desapontamentos e de o encerrar. Em cerca de 20 textos, abordei diversos temas. Comecei com uma homenagem ao meu amigo José Pedro Machado que, com os seus «Grande Dicionário» e «Dicionário Etimológico» e muitos outros livros sobre o nosso idioma, continua, todos os dias, a ensinar-me, como fazia em vida, amenamente, à mesa do «Pardieiro», no Largo da Graça, ou da «Chineza», da Rua do Ouro. Aproveitei para, de raspão, aludir à função catártica dos blogues, de que modo os posts nos aliviam de frustrações, de como as palavras que neles colocamos precisamos de as dizer, para delas nos libertarmos. Até para homenagear amigos que já não estão entre nós. Não esqueci o grande jornalista e amigo que foi o Adriano de Carvalho.
Recordei as «primaveras» de Praga e a marcelista que, em 1969 nos deram alguma infundada esperança, e gravei na pedra e no bronze deste blogue a heróica «Operação Papagaio». Verberei o consumismo elevado à categoria de religião e as malditas claques dos clubes de futebol. Referi impressões de uma inesquecível viagem a Cuba. Na onda das minhas embirrações de estimação, não me esqueci da televisão – dediquei-lhe quatro desapontamentos, num deles citando a frase de Luiz Pacheco – «a televisão é para estúpidos!». Lembrei o filósofo Albert Jacquard e a sua fórmula mágica para acabar de vez com o desemprego – acabar antes com o trabalho. Não esqueci também nem os nossos irmãos brasileiros, nem os irmãos galegos.
Falei sobre a palavra como instrumento da evolução, do primado do conteúdo sobre a forma, e sobre a sobrevivência, ou não, do livro na era digital e, a propósito, dei os parabéns a Ray Bradbury, um defensor do livro impresso, e um indagador do Futuro. E não me esqueci de Marx, de Groucho Marx o tal que dizia ter princípios, mas que os podia mudar num ápice, caso não estivéssemos de acordo com eles – e nesta acepção, verifica-se que os nossos políticos, ou quase todos, são «marxistas». É precisamente por causa dos políticos, da classe política, que falo mais do passado, não porque seja saudosista – sendo falador (escrevinhador, no caso vertente) falo sobre aquilo que melhor conheço – o Passado. Também conheço razoavelmente o Presente, mas há dias em que faço por esquecê-lo. Dias em que nem ligo a televisão. Como quando não olhamos para o espelho por haver dias em que não suportamos enfrentar o próprio rosto. Por isso é que nestes «apontamentos & desapontamentos», falei mais de mortos do que de vivos, mais do passado do que do futuro. E quando falei do presente foi para dele me queixar. É que não estou a gostar nada do presente. E agora vêm aí eleições em dose dupla e todo o lixo está a vir ao de cima. Mas vejo que a maioria dos «aventadores» se está a divertir com a chegada do circo. Do mal o menos.
Paul Auster, um autor norte-americano de que não perco um livro, em «A Noite do Oráculo» (2004), cria uma personagem, um escritor que se habitua a escrever nuns cadernos, ou blocos de notas, azuis, fabricados em Portugal, que compra na loja de um chinês em Brooklyn e que lhe estimulam a veia criativa: «A partir do momento em que começamos a escrever neles, nunca mais nos apetece escrever em mais coisa nenhuma.», diz. Não indo tão longe na minha caderno-dependência, escrevo e tomo os meus apontamentos, desde há anos, nuns cadernos pautados de capa preta revestida de plástico, salvo erro produzidos pela Ambar (será que a Ambar me vai conceder um patrocínio devido a este discreto anúncio?). Foi a esses cadernos que fui buscar alguns dos apontamentos e desapontamentos de que aqui vos dei conta. Sempre que vou de férias ou de viagem, levo um caderno destes. No entanto, ao contrário do que aconteceu com os cadernos azuis do escritor do Auster, que deixaram de se fabricar (interrompendo-lhe a produção literária), estes belíssimos cadernos de capa negra continuam a encontrar-se em qualquer grande superfície.
Em suma, é tempo de fechar este caderno de «apontamentos & desapontamentos». Outro caderno será oportunamente aberto.

Comments

  1. isac says:

    Mas não devia fechar o caderno. Aposto que já existem muitos leitores ávidos dos seus acutilantes e directos Apontamentos a começarem a reclamar. E eu que também escrevo nesses cadernos de capa negra, acho que se devia manter o hábito de escrever, sendo uma forma de fazer com que esses cadernos continuem a existir para outros irem escrevendo os seus apontamentos e desapontamentos. A cultura também é um caderno anónimo com uma capa negra.


  2. Bom dia Isac: já somos dois a gastar dos tais cadernos (o patrocínio começa a justificar-se). Nos próximos dias, abrirei uma nova «frente». A cultura tem a tal capa negra, o que não quer dizer que seja adepta das praxes… Um abraço.

  3. carla romualdo says:

    Carlos, abra novo caderno depressa, não nos deixe ficar assim.


  4. Carla, amanhã começo uma nova série, outro caderno (se estavam a pensar que se viam livres de mim, esqueçam essa esperança). Obrigado pela sua gentileza. Um grande abraço.

  5. Luis Moreira says:

    Carlos, continua, és um farol, digo eu que te conhço há muitos anos. palavra de aventador!


  6. Continuo, mas com outra série. Abraço,

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