Apontamentos & desapontamentos: o insustentável peso do futebol

É frequente em contextos de crítica social, económica ou política, surgir a alusão à síntese de Juvenal, panem et circenses, – locução latina que significa «pão e espectáculos de circo». Juvenal caracterizou com estas palavras a situação de decadência que o Império atravessava, substituindo-se uma política de medidas favoráveis ao povo, pela demagógica dádiva de pão e de divertimentos gratuitos. Juvenal – poeta latino nascido em Aquinum, Apúlia cerca do ano 60, foi o autor de «Sátiras», textos que opunham à Roma dissoluta da época a imagem da República, justa e íntegra, idealizada por Cícero e por Tito Lívio. Se substituirmos o pão pelas «medidas» sociais dos governos (as obras e reformas anunciadas antes dos períodos eleitorais) e se pusermos no lugar do circo o futebol, temos um quadro perfeito da situação sociopolítica portuguesa – Dois milénios depois, a receita denunciada por Juvenal continua a funcionar, em Portugal e não só.

O futebol é um dos meus desapontamentos. Gosto muito de ver jogar futebol, sobretudo quando é bem jogado, embora como conversa não seja dos meus assuntos preferidos. Por mais voltas que se dê, resulta sempre numa conversa tonta, na melhor das hipóteses sobre tácticas, na pior, trazendo à superfície facciosismos clubísticos, quando não mesmo frustrações de outra espécie – futebol é mesmo para jogar ou para ver jogar. No entanto, ganhou tal peso que se transformou num tema incontornável. É interessante ver políticos, economistas, cientistas, escritores, a recorrerem a metáforas futebolísticas para explicar pontos de vista das suas áreas. O que já não tem tanta graça é o que o futebol custa aos contribuintes. É um peso insustentável para os nossos fracos recursos.

Moro perto de uma pequena vila no litoral Oeste. Há umas semanas, no «meu café», havia um clima de excitação – o presidente do clube de futebol tinha entrado em greve da fome porque, sendo avalista da colectividade, ficara com uma dívida pessoal às costas – dois milhões de euros, correspondendo ao passivo acumulado do clube. A greve de fome era uma forma de protesto contra o presidente da autarquia que terá prometido apoios que não cumpriu. O homem está em vias de ver todos os seus bens penhorados, ficando, ele a mulher e os filhos sem nada. Ao cabo de nove dias, a greve foi interrompida com o grevista a entrar nas urgências de São José em perigo de vida. Espera que o Município, o Governo, seja quem for, encontrem maneira de ele, cujo crime foi gostar de futebol e ser crédulo, não ficar sem os seus bens. Senão, ameaça recomeçar a greve da fome. Mas dá que pensar, um pequeno clube e que, mesmo assim, acumula um passivo de dois milhões de euros. Ignoro que apoios o município terá prometido, o certo é que, pelos vistos, não os cumpriu.

Apesar de tudo, esta é uma autarquia sem escândalos assinaláveis (o que já em si é assinalável). O caso mais marcante sobre o «sentido de justiça» deste autarca, no poder há vários mandatos, foi o de, certamente por motivos políticos, se ter recusado a dar o nome de José Saramago à escola secundária. Porém, deu (modestamente) o seu próprio nome à maior estrutura do concelho, o parque polidesportivo, onde não falta um estádio com relvado sintético e pista de tartan, pavilhões, piscinas, courts de ténis… Referira-se que, após a pressão de alunos e professores, foi forçado a dar o nome do Nobel à escola. Adiante.

Os pequenos clubes, como o da minha vila, não têm geralmente equipas que se destaquem. Mas isso seria mais do que secundário se promovessem o desporto, particularmente entre os jovens. Não conheço a situação particular do grupo de futebol cujo presidente entrou em greve da fome, embora me pareça que a dívida tem a ver com obras que se fizeram nas instalações e com os juros do empréstimo bancário que a colectividade contraiu. Não é o caso típico de endividamento para contratar jogadores profissionais ou semi-profissionais em geral estrangeiros ou portugueses em fim de carreira. Do mal, o menos.

No debate «Democracia e Corrupção», realizado em Constância há cerca de dois anos, falou-se do papel do futebol na criação de climas favoráveis à corrupção. Maria José Morgado comparou o combate que no nosso País se trava contra a corrupção com a luta que a justiça italiana move à Máfia. Defendeu a adopção de reformas institucionais que garantam o exercício de cargos políticos com transparência. É óbvio, até para os leigos como eu, que a Justiça não dispõe de instrumentos que lhe permitam lutar com eficácia contra o crime e a corrupção, dotados de tudo o que necessitam para ser eficazes. Que dizer da situação anómala das escutas telefónicas. Ouve-se pessoas responsáveis a combinar resultados de futebol, o crime está ali mais do que provado e documentado, mas pelo pormenor processual de que as escutas não foram previamente autorizadas, a prova é considerada nula e os criminosos ficam a rir da Justiça, de quem os acusa, de quem os critica. Também nos diz muito sobre a natureza humana a massa apoiante que estes autarcas corruptos têm. Tal como acontece com a corrupção no futebol – os corruptos são defendidos pelos adeptos com unhas e dentes. Sobretudo se a corrupção deu frutos, ou seja campeonatos. Voltamos atrás: a corrupção nas autarquias se for acompanhada de apoio aos clubes de futebol, tem o apoio da população. A corrupção encontra no futebol um bom local para nidificar. Se a Justiça funcionasse com maior celeridade e eficiência, talvez se pudesse começar a erradicar os males que o futebol enquistou na sociedade portuguesa – as pequenas e grande máfias que giram em torno dos clubes, a escumalha das claques, alfobres de marginalidade onde a droga e o neo-nazismo, por exemplo, se encontram e acasalam, gerando híbridos monstruosos – tráfico de droga e de pessoas, redes de pedofilia… Os negócios ínvios que, autarcas e presidentes dos clubes fazem, são um caldo mafioso e sinistro que vive sob os tapetes relvados onde, ainda por cima, se joga cada vez pior.

Pão e circo? – Mas que pão, mas que circo!

Comments


  1. Os casos como o do presidente do clube da terra são muitos por esse país fora. A maior parte sem a gravidade da greve de fome como forma de protesto. Mas existem às dezenas clubes e dirigentes perto da falência graças ao absurdo do excesso de paixão clubística. As paixões são assim. Como são os casos de quem quer viver acima daquilo que pode. Não utilizou o dinheiro do empréstimo para contratar jogadores? Óptimo. Utilizou para fazer obras no recinto desportivo? Porreiro. Mas justificavam-se essas obras? Se sim, porque é que além da autarquia, os associados, as empresas locais não deram uma ajuda, em dinheiro ou materiais? O desporto é fundamental para os jovens? A formação desportiva é essencial? Então porque não envolver toda a sociedade na empreitada e toda a sociedade aproveitar essa estrutura para fazer desporto?


  2. Meu caro José Freitas: Acabo de chegar de férias. O seu comentário sucita-me um esclarecimento: já depois de ter escrito e enviado o texto, soube que o empréstimo bancário foi de aproximadamente 600 mil euros, sendo os 1 400 mil de juros bancários. O que nos levaria a outro tipo de reflexões. Concordo com tudo o que diz, embora (quanto a mim) o que leva estas pessoas a cometer estas loucuras, não seja o amor pelo desporto, nem o querer promover a formação desportiva entre a juventude- Acho que se trata de «futebolite» em estado puro. E isso é que é preocupante. Um grande abraço.

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