Apontamentos & desapontamentos: Tele-cunha ou tele-política?

Há cerca de um ano ou dois houve um problema na RTP com o jornalista José Rodrigues dos Santos, tendo mesmo a administração instaurado um processo na sequência de declarações que Rodrigues dos Santos prestou à revista Pública sobre irregularidades cometidas na nomeação da correspondente em Madrid, Rosa Veloso. A jornalista, tendo, segundo é voz corrente, ficado em quarto lugar no concurso interno, terá passado à frente dos três primeiros classificados. Rodrigues dos Santos, na altura (2004) director de informação, demitiu-se do cargo por entender que fora desautorizado, pois a nomeação competia à direcção editorial. Quando deu a entrevista à revista do Público, o assunto criou alguma agitação, a Alta Autoridade para a Comunicação Social (depois substituída pela ERC), aconselhou a administração a não repetir a ingerência. O assunto morreu. O processo disciplinar a Rodrigues dos Santos foi arquivado em Janeiro do ano passado e a Rosa Veloso lá está em Madrid, impante na sua gloriosa incompetência. Tudo em águas de bacalhau, desfecho tão típico da «comédia à portuguesa». Porque será que as coisas se passam assim? Talvez tudo não tenha passado de uma vulgar «cunha» metida, segundo também se diz, pelo ex-ministro do PS António Arnaud ou até de uma recomendação do substituído, o Cesário Borga, que fora chefe da jornalista quando ela, em 1981, entrou para a RTP como estagiária. Também já ouvi dizer que tudo não havia passado de uma embirração com a pobre da Rosa, embirração em que a Judite de Sousa teria tido algum papel. Oxalá seja só isso, porque «cunhas», «tachos» e «empenhocas», (tal como as «embirrações») são instituições nacionais. Tão erradas, injustas e estúpidas como os touros de morte em Barrancos – que, com apenas 80 anos, já são consideradas como fazendo parte das tradições populares – mas muito mais antigas. Como tal, respeitemo-las.

Deixemos pois o «diz-se» e analisemos objectivamente a Rosa como profissional. Façamos de conta que ficou em primeiro lugar no tal concurso. Não é uma novata, tem 28 anos de profissão. Portanto, inexperiência não pode alegar e devia saber que os idiomas são instrumentos de trabalho, principalmente para os correspondentes. A RTP tem tido, e tem, belíssimos profissionais como correspondentes, tais como Carlos Fino que falava o russo com fluência, como Evgueni Mouravitch, cujo português é impecável, o poliglota António Esteves Martins, Paulo Dentinho, Vítor Gonçalves, todos são correspondentes com qualidade. Rosa Veloso fala mal o castelhano, misturando-lhe termos e construções frásicas de português, começa a esquecer-se do português, misturando-lhe termos e a sintaxe do castelhano, a sua fala começa a deslizar para um «portunhol» ridículo, bom para ir de compras, mas inaceitável numa correspondente. .Vasco Lourinho, o antecessor de Cesário, que, segundo julgo saber vivia em Madrid quando, ainda no antigamente, foi convidado para ser correspondente da RTP, falava muito bem o castelhano e esquecera o português. Cesário Borga, era discreto, pelo menos seguiu o conselho de Eça de Queirós a respeito das línguas estrangeiras e, sem esquecer o seu português, sempre falou sempre orgulhosamente mal o castelhano – o que, apesar de tudo, era uma posição mais aceitável.

Por exemplo, deu nas vistas a teimosia da Rosa em pronunciar «Valadolid», sabendo-se que Valladolid se pronuncia Valhadolid (ao contrário de Alhambra que se deve pronunciar Alambra). Em suma, a quem a ouve e vê, como é o meu caso, dá a ideia de que não prepara as reportagens, ou que as prepara em cima do joelho o que, frequentemente, dá em rematada trapalhice – lembremo-nos da ida de Mariano Gago a Espanha em que ela o tratou sistematicamente por ministro da Indústria, tendo ele que esclarecer que o seu ministério não era o da Indústria, mas si o da Ciência Tecnologia e Ensino Superior. Então, como jornalista portuguesa não teria obrigação de saber que tal ministério nem existe em Portugal? E quanto ao idioma: terá ao menos Rosa Veloso estudado um pouco de castelhano ou ter-se-á limitado a inscrever o idioma no currículo, como quase toda a gente faz? Há uns cursos intensivos no Instituto Cervantes, para além dos que se ministram nas Faculdades de Letras geralmente englobando língua e literatura. Terá ela frequentado algum destes cursos? Se sim, tal saber não transparece. Mas isto nem é o mais importante.

Porque até aqui, cunhas, incompetência, enfim, não digo como os brasileiros «tudo bem», mas não são coisas a que não estejamos habituados. E se (aqui entram os fantasmas) não foi uma tele-cunha e se é um caso (mais um) de tele-política? É isto que me preocupa, porque incompetentes sempre os houve naquela casa, ombreando olimpicamente com os «assim-assim» e com grandes profissionais, que também os houve e há.

Porque pior do que a incompetência da Rosa Veloso é a sua posição subserviente relativamente ao estado espanhol – cidadã de uma República, ela não tem que se referir a Juan Carlos como «sua majestade», basta dizer «o rei» nem que referir a ETA como «organização terrorista», basta que diga «movimento separatista» para apenas referir duas expressões muito utilizadas pela senhora. É uma jornalista, uma correspondente estrangeira, tem é de ser independente e analisar objectivamente a realidade, não é súbdita de «su majestad» nem adversária política da ETA. Sem desrespeitar o estado espanhol do qual é hóspede, tem sobretudo de respeitar as muitas sensibilidades de quem a escuta e vê. Os telespectadores, os contribuintes portugueses, é que são os seus patrões e não o rei ou o PSOE. Alguns deles não gostam de reis (sobretudo de reis que se comportaram como criados de quarto de ditadores ranhosos), podem aprovar ou não aprovar os métodos da ETA, mas compreendem a legítima aspiração dos bascos à independência; há os que adoram e os que detestam o PSOE… e por aí fora.

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A toda essa gente anónima que lhe paga o vencimento, a Rosa Veloso tem de respeitar, portanto tem de ser poupadinha nos adjectivos e nas tontas considerações bebidas em jornais espanhóis de cuja leitura apressada parece decalcar as reportagens, se assim se lhes pode chamar. Não vão os comentários e adjectivos agradar ao PSOE e desagradar a muitos portugueses. Mas não, do alto da sua incompetência, a Rosa arremessa-nos as suas ideias sobre os factos, esquecendo-se do que lhe ensinaram sobre objectividade no curso de jornalismo, sobre a inconveniência de misturar factos com opiniões pessoais; opiniões que a muitos de nós nos importan un pepino.

Em suma, não foi por acaso que ela ficou em quarto lugar no concurso, valendo-lhe para ser nomeada segundo a vox populi uma cunha. A irregularidade parece ter existido. Só uma vulgar cunha? Ou será porque Madrid é um lugar estratégico e convêm lá ter alguém devidamente domesticado, não propriamente um jornalista, o que só serviria para atrapalhar, mas uma caixa de ressonância do PSOE? Ou do PP, se for o caso. Lembremos que, quando da alegada nomeação fraudulenta, embora o governo português fosse do PSD, Zapatero ganhara nesse ano, no Março anterior, as eleições legislativas. Coincidência.? Talvez. Mas acho que a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) devia interessar-se pelo caso.

Coisa que, todos sabemos, nunca acontecerá.

Comments

  1. Errata – Onde está António Esteves Cardoso, Leia-se António Esteves Martins. Peço desculpa pelo engano.

  2. Luis Moreira says:

    Pois é, isto de “estar á fora” dá uma “patine” do caneco.

  3. Cum catano, não posso estar mais de acordo!”porque incompetentes sempre os houve naquela casa, ombreando olimpicamente com os «assim-assim» e com grandes profissionais, que também os houve e há” – naquela casa como noutras, seja na CSocial, na Indústria, na Função Pública, etc.

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