Ainda o iberismo (I)


Tinha prometido não voltar a este tema, pois dizem que falar muito dos fantasmas lhes pode dar entidade corpórea. Contudo, uma sondagem que para aí circulou no princípio de Agosto, aqui referida pelo Luís Moreira num post de 5 desse mês, constitui um desafio e uma tentação. E, tal como acontecia com o Oscar Wilde, eu resisto a tudo menos às tentações. Ainda por outro lado, gostaria de comentar dois comentários que me chegaram do interior do estado espanhol – um do meu querido amigo Josep Vidal, de Barcelona, e outro de um leitor galego.
Houve uma sondagem, feita há três anos pelo Expresso, que indicava que 27% de portugueses estavam dispostos a uma união com o estado espanhol. Neste estudo, mais recente, o da Universidade de Salamanca, a percentagem subiu para 40%. Alarmante? Acho que não. Começo por não acreditar na isenção desta sondagem (nem na da anterior) É um estudo mais do que suspeito. A Universidade entrevistou 876 pessoas em Portugal e em Espanha, nos meses de Abril e Maio. Que pessoas? Quantos portugueses, quantos espanhóis? Em que regiões de ambos os territórios? A que estratos sociais e a que faixas etárias pertenciam os entrevistados? Todos sabemos que é na composição do universo seleccionado previamente que os resultados das sondagens se manipulam.
Curioso é que o trabalho tenha sido feito pela Universidade onde o grande intelectual Miguel de Unamuno foi reitor e onde os falangistas, gritando «Viva la muerte!», em 1937, o levaram a uma histórica intervenção e a morrer de angústia pouco depois. Pelos vistos, o espírito do velho mestre, um iberista e não um anexionista, já não paira pelos claustros da vetusta instituição salmantina – quem encomendou a tal sondagem – uma coisa chamada Barómetro de Opinião Hispano-Luso – pagou e hoje em dia tudo se compra e vende; pelos vistos, até mesmo a honorabilidade de universidades centenárias.
Não acredito na isenção desta sondagem, tampouco creio na da anterior, mas acredito ainda menos na «coincidência» da reiterada insistência com que este tema vem sendo abordado – as sondagens, as declarações de Saramago, as de Arturo Pérez-Reverte, a afirmação de «iberista confesso» feita pelo ministro Mário Lino em Santiago de Compostela, a entrevista de Ricardo Salgado, do Banco Espírito Santo ao Público, para não falar no clamor, que sobre este tema, vai pela blogosfera, faz que eu não acredite em «inocências» e muito menos em «coincidências». Pensar que tudo isto obedece a uma orquestração seria alinhar na desacreditada «teoria da conspiração»?
Creio que não seria, porque não faz sentido chamar «conspiração» a uma tentativa canhestra de criar um movimento de opinião favorável à união, ou seja, à absorção de Portugal pelo estado espanhol. Tentativa falhada ou falsa partida, pelo menos para já. Ao contrário do que diz a locutora espanhola no vídeo, em Portugal o assunto só não morreu porque não chegou a nascer.
Nas tais declarações de finais de Julho passado de Ricardo Salgado, líder do Banco Espírito Santo, ao Público, vem defender o TGV «como forma de acelerar a construção da Ibéria». A Ibéria está construída – é um conjunto de países que deveriam ser todos independentes. E se assim fosse, espanhóis (designemos deste modo os castelhanos e os seus colonizados mais submissos, os andaluzes, por exemplo), bascos, catalães, galegos e portugueses, poderiam talvez pensar numa federação de Repúblicas, unindo-se para o que fosse comum e continuando autónomos para o que não é susceptível de ser amalgamado – a língua, a cultura, a história… Mas a esperança do homem do BES nada tem a ver com iberismo – acha é que o seu banco teria uma expansão maior se estivéssemos integrados num espaço comum com as regiões ricas de Espanha – Madrid e Catalunha.
Em entrevista ao Diário de Notícias, em Julho de 2007, José Saramago defendia a mesma coisa: «Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos», acrescentando que não seria uma integração cultural e dando o exemplo da Catalunha: «A Catalunha tem a sua própria cultura, que é ao mesmo tempo comum ao resto de Espanha, tal como a dos bascos e a galega, nós não nos converteríamos em espanhóis.» Porém, mais adiante, desdiz-se, quando o jornalista pergunta se Portugal seria mais uma província de Espanha e Saramago responde: «Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla-La Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente (Espanha) teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria.» O escritor defende, pois, a anexação, o desaparecimento de Portugal no meio das regiões autónomas. É uma «ideia absurda» – Cavaco disse algo com que concordo – e aventá-la é fazer o jogo de quem nos quer absorver e de quem quer ser absorvido.
Há tempos, Mário Soares, posto perante a questão, assegurou que o papão da perda da independência já teria passado à história, achando mesmo que podemos com base neste «espaço integrado ibérico, fazer trampolim para termos uma influência efectiva na Europa». Pela mesma altura, Joana Amaral Dias, na época assessora da campanha de Soares, opinava que neste projecto de união se podia ver os sinais de «um novo internacionalismo». Claro que a Joana não deve fazer ideia do que é o internacionalismo – pode estar certa de que um país perder a sua soberania a favor de outro estado, nada tem a ver com tal conceito. Provavelmente a exclusão da Joana Amaral Dias das listas do BE terá também a ver com a sua sede de protagonismo e com a sua incapacidade para ficar calada mesmo quando se trata de temas que não domina (como nota à margem, diga-se que é verdadeiramente espantosa, num partido que se reivindica do Socialismo, a tendência para escolher figuras mediáticas, mesmo que fúteis como a Joana – que o Bloco recusou – ou indo a extremos ridículos, como a escolha para «mandatária para a juventude» de Carolina Patrocínio: é bonitinha – não tão bela como se supõe – mas intelectualmente medíocre e de um burguesismo de caricatura – uma Lili Caneças adolescente. Como é possível? O que tem esta gente a ver com o Socialismo?).
No plano da comunicação, vemos envolvidos nesta campanha de tentativa de intoxicação da opinião pública portuguesa, além do El País e dos já referidos semanário e diário portugueses, outros órgãos ditos de informação onde o capital espanhol tem um peso significativo, como é o caso da TVI e da Rádio Comercial, ambos da Prisa – Media Capital. Mas a própria RTP, a estação de serviço público, sustentada com o dinheiro dos nossos impostos, dá uma mãozinha – remeto-vos para um texto que aqui publiquei há semanas atrás sobre «Tele-política». Já em Dezembro de 2006 a RTP dedicara um largo espaço informativo à ideia da criação da «eurociudad» Elvas-Badajoz.
Como dizia Francisco Martins Rodrigues no seu texto «Ibéria», publicado no livro «A Galiza do Século XXI – Ensaio para a Revoluçon Galega», 2007, é uma campanha «promovida a partir de cima». Com a clareza de linguagem que o caracterizava, Francisco Martins Rodrigues, afirmava que «a Espanha se tornou em poucos anos a potência colonizadora de Portugal em termos económicos.» E que, embora os governos falem de um «saudável intercâmbio de investimentos», «a dimensão dos grandes grupos espanhóis cilindra autenticamente quaisquer veleidades do capital português». E cita os grupos que são «o rosto de uma autêntica invasão de capitais» – Santander, Iberdrola, Repsol, Prisa, Zara… Pro
vo
cando, segundo Martins Rodrigues, uma subversão do tecido capitalista tradicional.
Lucidamente, como sempre, denunciava, há dois anos, aquilo que agora se tornou muito claro – a tal campanha promovida a partir de cima quando, em 2004, o director do semanário Expresso e o banqueiro José Manuel de Mello levantaram a dúvida se Portugal, dada a fragilidade da sua economia, tinha viabilidade como nação. E perguntavam – «porque não dividir o país em duas ou três regiões e incorporá-lo no estado espanhol». Creio que é isto que em linguagem de mercearia se chama «vender a retalho» (embora à luz do Código Penal tenha um nome mais dramático…). O texto do Expresso foi mal acolhido e os promotores da «ideia» meteram (provisoriamente) a viola no saco.
Agora aparece este estudo, oriundo de um tal Barómetro de Opinião Hispano-Lusa 2009 e realizado pela Universidade de Salamanca. A ideia da jangada de pedra, lançada há vinte e três anos por Saramago e que pareceu uma inocente parábola literária, era afinal na cabeça do escritor um projecto político que na entrevista de há dois anos ao Diário de Notícias aparece definido com palavras claras. Como parábola literária era interessante, pois salientava a singularidade das gentes desta ocidental península europeia; porém, como projecto político é surpreendentemente disparatado e insensato. Então o José Saramago, em nome de um «bom senso» que lhe deve ter sido incutido pela Pilar, manda às urtigas quase nove séculos de História, a cultura a língua? Ainda por cima, numa altura em que a jangada aqui ao lado está a meter água.

Comments


  1. Teorias da conspiração à parte, vamos lá esmiuçar (palavra que os Gatos vão colocar na moda) a questão.A peça jornalística em causa arranca logo com uma ideia peregrina: as vendas do DN cresceram após a entrevista de Saramago. Desculpe, disse? As vendas do DN subiram? Quando? Mas as vendas do DN estão em queda, sempre em queda! As vendas subirem com uma entrevista do Saramago era coisa do Diabo. A personagem em causa, gente sem memória, entreteve-se a sanear e a perseguir jornalistas quando tomou o poder no dito jornal. Foi uma das mais impressionantes páginas negras da história do Diário de Notícias. Aqueles momentos do Marcelino em portunhol são inenarráveis. A modos do tuga a comprar caramelos em Badajoz ou em Tuy, enfim. As pessoas não têm memória, diz-nos Saramago. Acertou em cheio, realmente, pois até o convidam a escrever no jornal onde ele andou a sanear jornalistas. Memória…gente sem memória, a começar pelos responsáveis do DN.Os espanhóis, e bem, estão-se a marimbar para a União Ibérica, da tal nova Nação Ibérica. Mais problemas? A Espanha já os tem que chegue com os independentistas galegos, catalães ou bascos. Sou um apaixonado por Espanha mas, meus caros, estamos no século XXI, na era do “pensar global, agir local”, num Mundo onde imperam as regiões mais do que as nações, num Mundo cada vez mais global de tendência para o fim das fronteiras não pela fusão de países mas pelo crescer dos espaços regionais de tendência micro num plano macro. Mais depressa se divide Portugal em regiões do que se unem os países ibéricos sob uma só fronteira, língua e política.Não concordo, porém, na imagem do papão económico espanhol. Não é por aí. Para Espanha somos um mercado periférico estranho. Todos os investimentos espanhóis em Portugal, com raras excepções, acabaram por ter de ser geridos por portugueses. “Nuestros Hermanos”, compreensivelmente, não conseguem perceber a nossa maneira de trabalhar. Aliás, já perceberam aquela velha máxima romana: “não se governam nem se deixam governar”. Eu tenho é pena deles.O resto? São tretas de um velho do Restelo que quer é vender livros.


  2. Em parte, caro Farnando, a 2ª parte do post irá ao encontro do que diz. De uma maneira geral estou de acordo com o seu comentário, que agradeço. Também não estou preocupado, nem com a ideia da anexação (que não me parece minimamente viável), nem com «o papão económico espanhol, com diz. Grande parte das empresas espanholas que vemos por aí, têm capitais americanos, alemães. Um abraço.


  3. […] daqui No primeiro semestre de 2009 o défice espanhol disparou – o governo de Zapatero gastou quase o […]

  4. josé says:

    É só traidores á pátria, está à vista que o DN é o jornal dos castelhanos comandado por este primeiro ministro iberista e traidor de Sócrates, ou melhor Iberócrates, e este joão marcelino é mais um dos que se vendeu aos euros castelhanos, e como o dinheiro não tem cheiro, se calhar pensa que os portugueses não se apercebem que ele está vendido.

    Que vergonha os portugueses rebeixarem-se a falar castelhano em Portugal, do João Marcelino não me admira, agora o Vasco Graça Moura já não estava tanto à espera.

    Em relação oa saramago devia morrer já amanhã, é isto que lhe desejo, tanto a ele como ao Mário Soares e a essa cambada de iberistas que anda a invadir Portugal.

    Em relação à TVE em vez de andar a falar de sondagens encomendadas e feitas a preceito penso que se devia era preocupar e noticiarr o referendo feito na Catalunha no dia 13 de dezembro, em que 94,7% dos catalães votaram a favor da independencia da catalunha.

    E já agora está na hora das televisões portuguesas darem atenção a estes temas, e já que os castelhanos da TVE falam destes temas abusivos e ofensivos para Portugal as televisões portuguesas deviam falar da independencia da Catalunha, do Pais basco e da Galiza.

    Contudo não falam, e porque?

    A tvi é impossível, é dos castelhanos, a rtp nem pensar, o iberócrates não deixa, a sic seria a única que lhe podia pagar na mesma poeda.

    É que estes filhos da puta dos castelhanos, como que para refrear os animos independentistas dos catalães, bascos e galegos mandam fazer sondagens onde se diz que os portugueses querem ser espanhóis, para assim tentar acalmar os catalães, que verdade seja dita estão a um passo da independencia,e a seguir ao precedente do kosovo nInguem os para.

    Para finalizar, a este traidor deste Saramago era tirar-lhe a nacionalidade portuguesa, expropriar-lhe os bens e enviá-lo para morrer rápido e bem longe, na sua ilha espanhola.

    Em relação os joão marcelino, devia ter vergonha de se rebaixar a falar castelhano em Portugal.

    Bajuladores, traidores e vendidos.

    Morte à Espanha.

    Independencia para a Catalunha, Pais basco e Galiza.

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