A idade dos processos

Sabem como é a idade dos casamentos? Quando todos os nossos amigos se casam? Depois há a idade dos baptizados, a idade dos divórcios e a idade dos funerais. Mas eu acho que existe uma outra idade, a dos processos na justiça. Antes de a ela chegarmos é como se fossemos seres sem freio a navegar no mar dos decretos, sem atender às ondas das alíneas nem aos furacões dos regulamentos. É um tempo de liberdade onde pequenos nadas se vão depositando num dos pratos da balança até que um dia alguém solta o fiel e o braço tomba para um lado. É o momento onde se constata que o outro prato poderá vir a ser equilibrado pela lei mas que isso só acontecerá em pequenas prestações a chegarem durante vários anos. E quando os anos trouxerem esse último quinhão, descobre-se que a ferrugem já colou o eixo, impedindo a balança de alguma vez voltar a ter equilíbrio. Até tremo por pensar que um dia chegará a minha idade dos processos.

Sexta-feira é o melhor dia da semana, que é quando um potencial de opções aguarda a oportunidade para se concretizar. A sexta-feira não sofre da ansiedade dos domingos véspera de segunda-feira nem do desalento dos sábados meio fim-de-semana ido. Tudo é possível à sexta-feira. Basta prolongar a noite por dois dias pois, já se sabe, o relógio só avança depois de se dormir.

https://aventar.eu/2012/04/20/e-sexta-feira/

A Direita e a escravatura

“O trabalho liberta” foi o terrível slogan usado pelo nazismo nos campos de concentração e parece ter-se transformado na solução que a Direita aponta para evitarmos a bancarrota, nomeadamente pela política de mais trabalho e menos salário como forma de aliviar o gigantesco défice interno e externo.  A tese tem como pressuposto que um Estado com menos encargos é capaz de se tornar menos pesado para a economia, assim lhe trazendo competitividade num contexto de mercado em auto-regulação por força da oferta e da procura.

O erro neste raciocínio reside em não se considerar se de facto existem iguais oportunidades quando se trata de competitividade. [Read more…]

A Esquerda e a escravatura

A tese “as dívidas não se pagam, gerem-se” implica a existência de um capital alternativo, o capital humano. Neste contexto, a produção individual de riqueza  é continuamente canalizada, em maior ou menor parte, para pagar essa dívida gerível, que nunca se anula, face à repetida adição de nova dívida.

Gerir assim a dívida é colar um fardo ao indivíduo, o qual pauta a sua existência pela necessidade de trabalhar para a pagar. Acaba-se escravo da dívida, implacável tirana que marca o compasso dos impostos com crescente carga fiscal. Pertence-se-lhe, sendo o trabalho do indivíduo a garantia bancária para novos endividamentos.

A Esquerda, ao defender modelos de crescimento económico baseados nas “grandes obras públicas”, os quais acarretam endividamento, cai no paradoxo de, por um lado advogar a libertação do indivíduo face aos “patrões” mas por outro acorrenta-o ao trabalho que acabe por pagar esses investimentos. Haverá diferença entre ser-se escravo do patronato e ser-se escravo do trabalho? Se no sistema feudal o indivíduo pertencia à terra, a qual era pertença de um dono, no modelo económico do Estado como impulsionador da economia pertence-se à dívida, a qual é gerida pelo Estado. E o Estado não somos nós. Por mais que se deseje, o Estado é o conjunto desses que governam. São os novos senhores feudais e a Esquerda, com o seu ideal económico, faz-nos deles escravos.

Hoje estou assim, como que coiso

De manhã tenho um ritual. Começa por acordar – surpresa. Ouço as notícias na rádio, visualizo frases de posts sobre o que vou ouvindo, tomo o pequeno almoço enquanto vou para o trabalho e aí me consumo no resto do dia. Não sei se se vai no trabalho ou se se esgota no noticiário das oito; o facto é que a minha vontade de escrever sobre o que se passa diminui na proporção inversa da crescente parvoíce que ouço aos nossos iluminados líderes. Há de tudo, desde os eternos contra, aos profetas da desgraça, sem esquecer os vira-casacas.

Hoje de manhã, por exemplo, ouvi Camilo Loureço comentar a questão da fábrica de baterias, esse grande desígnio onde o admirável líder aprendiz de filosofia enterrou uns milhões em apoios. O carro eléctrico, a maravilha do futuro-hoje, não está afinal em todas as esquinas e, por isso, não são precisas baterias. Parece que o spin foi meter dois dos responsáveis directos pelo dinheiro perdido e mais um que procura ocupar o lugar do filósofo de domingo a insinuar que a fábrica se foi por falta de acompanhamento por parte do Estado.  Enfim, o que é que vai uma pessoa escrever sobre isto? Que há por aí uns tipos a assobiarem para o lado e a insinuarem que a culpa é dos que andam a rapar o tacho para arranjar dinheiro para a banca? Que ainda há menos de um ano havia um governante a falar de quão brilhante era a nossa execução orçamental que até havia excedente orçamental? Para quê? Para sublinhar que o dinheiro que se andou a estoirar nas baterias, na Qimonda, no BPN e em todos esses fabulásticos incentivos à economia tem agora que ser pago?

Mais vale trabalhar. Sou dos antiquados, daqueles que ainda acham que o trabalho traz riqueza, donde, naturalmente, resultam duas consequências: chego ao fim do mês sem fortuna que se veja e faço questão de não me enquadrar no grupo dos que acham que devem receber apoios – nem que por isso tenha que voltar à lavoura. Mais vale, portanto, trabalhar do que comentar a casa sem pão onde todos ralham e ninguém tem razão. Hoje estou assim, como que coiso; amanhã logo se vê.

Post scriptum: Quando a tolice comanda a política…

Sobre a estratégia comercial de uma marca de camisolas

bento bosingwa

Uma marca de camisolas tornou-se conhecida devido às imagens chocantes que usa na sua estratégia de comunicação. Poderia ter usado as que ilustram as miseráveis condições das ocidentais-deslocalizadas fábricas orientais mas preferiram o choque do conforto. Eram imagens preparadas mas retratavam alguma realidade, nem que fosse a do estúdio de fotografia. Agora deram um passo na direcção da irrealidade. Pouco importa, o objectivo de chamar a atenção continua a funcionar e diverte-me imenso que até a esquerda, tão ciosa dos males do capitalismo selvagem e tal, opte por ser parte dessa campanha quando o tema chega à religião.

L’État c’est moi

Como é que se separa o Estado das pessoas que personificam o Estado? Eu posso conceber um Estado hipotético onde todos contribuem conforme as suas possibilidades e onde a riqueza é proporcionalmente distribuída. Mas depois há os que,  pelas suas razões, preferem trabalhar menos e os que são mais ambiciosos. Há os que se contentam com pouco e aqueles para quem o céu não tem limite. As pessoas são diferentes e têm diferentes objectivos, pelo que as perspectivas igualitárias logo me arrepiam.

Mas voltando à minha questão inicial e indo ao detalhe, como é que se distingue o ministro das obras públicas das obras que são públicas? Por exemplo, o ministro decide fazer uma autoestrada; é o Estado que decide fazer uma autoestrada? O Estado não existe mas as pessoas que o personificam são concretas. Os governantes tomam decisões em função dos poderes que detêm. E um governante com mais poder é aquele que têm capacidade para decidir os rumos do dinheiro, ou da economia, como eufemisticamente se diz.

É nesta dicotomia que o diabo se esconde. [Read more…]

O regime feudal do século XXI

Apesar da República, da igualdade e todas essas conquistas de Abril e não só, continuamos a viver num regime feudal. Tudo o que aparentemente possuímos apenas nos está temporariamente cedido até que o Estado o reclame de volta. Tal como os senhores feudais, também o Estado usufrui de nós sempre que precisa. Das expropriações aos salários, passando pelos impostos sobre impostos incidentes no que sobrou depois de pagos os impostos, sobra-nos o sol, o ar e a água que ninguém nos tirou. Ainda.

Evolução, uma ova.

Os miseráveis

Valores acumulados das PPP 1985 ~ 2009

Os miseráveis têm sido sucessivamente eleitos e até com maiorias absolutas. De que se queixam agora os que se indignam? Durante anos apoiaram activamente a estratégia de manter a economia aparentemente em crescimento à conta de sistematicamente se despejar dinheiro no cimento e no alcatrão e nos “apoios” às empresas e à banca. Mas sai o dinheiro de alguma árvore das patacas? Chegada a factura, gostava de saber onde estão agora todos esses “keynesianos” que até andaram a brincar aos manifestos.

Agora vieram as mentes brilhantes que ditam o nosso rumo com mais um leque de contenção. Esqueceram-se eles mesmo de serem contidos no uso do disparate e, consequentemente, aí está menos salário, mais trabalho e menos serviços prestados pelo Estado (mas com aumentadas taxas de acesso). E eis o último dos disparates, fechar a linha do oeste entre a Figueira da Foz e as Caldas da Rainha. Uma linha que atravessa a zona do país mais densamente povoada não consegue ser rentável. Por falta de pessoas não o será, sobra por isso a incompetente gestão que tem sido feita. Olhem-se para os horários que têm sido praticados nos últimos vinte anos, com viagens demoradas, ligações desconexas e esperas longas e desnecessárias para se perceber isso mesmo. A estratégia de fechar tudo excepto a linha do norte e alguns suburbanos vem de há décadas. Nada tem a ver com a “crise”.

Gostava de ver um governo formado pelo PCP e pelo BE, só para perceber o que iriam fazer quando chegasse a hora de pagar salários e quando, passado um ou dois anos, o dinheiro dos “ricos” já se tivesse ido.  Se calhar nacionalizavam tudo para passarmos a ter em todo o lado a mesma excelência dessa CP que nem consegue fazer dinheiro passando pelo meio dele.

Lamentem-se, ou usando a novilíngua, indignem-se. Mas não se esqueçam do que fizeram ontem.

O mal

Nascemos bons e é o meio que nos transforma? Ou somos naturalmente maus? Uma melodia bela e forte é também capaz, só por si, de nos transportar para o universo onde o maniqueísmo do preto e branco acaba por se transformar num enorme cinzento. É o que vejo na obra prima  musical de Ennio Morricone, a qual acrescenta um indelével substrato à igualmente suprema obra de Sergio Leone no filme “Era uma vez no Oeste”.

O que é que eles querem?

Dei conta que, no passado sábado, houve uma manif em Lisboa e outra no Porto. Noutros sítios também, se calhar. Passou-me despercebido porque, força das circunstâncias, não tenho televisão desde as legislativas, mais coisa menos coisa. Digo-vos, recomendo igual tratamento: por um lado, mantenho-me informado porque da net não prescindo, mesmo que seja só no raio do trelégaitas; pelo outro, a agenda política das televisões, sempre em busca da novidade e do escândalo, em detrimento da análise e da reflexão, não me faz falta alguma.

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Os malandros dos neutrinos

Por causa dos malandros de uns neutrinos que, assim parece, andam mais depressa do que a luz e que já parecem os moços do IC19 que andam mais depressa na curva do Palácio de Queluz do que o seu veloz pensamento lhes permite, está a comunidade científica pasma. Sumidades nacionais e até, veja-se, mundiais, mal conseguem conter o espanto, que se traduz pelo suposto ruir dos pilares da física. Quando Einstein veio com a sua teoria da relatividade, deve ser sido assim algo que essa comunidade terá dito por causa das leis de Newton. E, afinal, a teoria da relatividade apenas expandiu a anterior. Quiçá se agora não se passará o mesmo?

Mas a comunidade científica, nacional ou não, não teria ficado assim tão surpresa se tivesse escutado João Magueijo. Recordo o que aqui se escreveu há uns tempos, que reutilizar também é preciso 🙂

Sábado

Hoje é sábado. Poderia ser outro dia se a luz viajasse com velocidade diferente. Que até viaja, já que nos tempos do Big Bang  a constante c era, afinal, uma variável.  E numa redoma de vidro, por não ser o vácuo, também a luz demora mais tempo a ir de um ponto a outro.

Portugal, dizem, está 25 anos atrasado relativamente à Europa. Parece que o tempo corre aqui a outro ritmo. Poderá assim ser por a luz no nosso rectângulo viajar a uma velocidade menor. O que faz sentido se atendermos a essa campânula vítrea que parece isolar os nossos governos do país que os rodeia.

Sobre a teoria da velocidade variável da luz e sobre João Magueijo, um dos seus autores, é de ouvir o programa Pessoal e Transmissível de 25 de Setembro de 2007

Crime e castigo

Durante as últimas décadas, governos, partidos – mesmo os que não chegaram a governar – e eleitores colaboraram activamente para que a nossa qualidade de vida subisse consideravelmente. O salto foi de tal forma intenso que foi possível fazer um colosso cultural em Belém (agora emprestado a um particular), ergueram-se estádios em todo o país (que até vão ser demolidos por causa do custo de manutenção), a lista de aldeias com acesso por autoestrada gratuita cresceu exponencialmente (apesar de agora terem que ser pagas) e o número de pessoas a trabalhar directa ou indirectamente no Estado não parou de crescer (tanto bem público precisa, inevitavelmente, de mais eleitores – perdão, trabalhadores).

Talvez nem houvesse problema se por acaso os consumidores não preferissem o preço dos jeans feitos por orientais a trabalharem 14 horas por dia do que os nossos que eram feitos no Vale do Ave em condições laborais justas mas mais caros. Ou se os carros não viessem da Alemanha, os computadores de Taiwan, os tomates de Espanha, os lápis da China e o software da América. Ou então, que tivéssemos todas essas importações mas que a nossa balança comercial não fosse 10% deficitária ao ano, levando o país a endividar-se no valor do seu PIB a cada 10 anos.

Eleição após eleição vemos o crime da irrealidade ser premiado com o voto. Chegado o castigo da conta, é altura de irmos para a rua gritar contra os que até aqui nos trouxeram. Chega de conformismo, abaixo os eleitores. Ups, se calhar os culpados não são “eles” mas sim nós.

As guerras do canal de distribuição e das moedas (2)

(segunda e última parte desta  divagação)

É quase um lugar comum afirmar que o cavalgante custo do dinheiro emprestado resulta de uma guerra das moedas. Nesta perspectiva, um conjunto indefinido de pessoas e corporações agiriam de uma forma consertada para fazer dinheiro à conta dos que precisassem de pedir emprestado. Sem duvidar que isso acontece, esta explicação confunde a consequência com a causa, já que este cenário só ocorre porque quem se endivida não tem outra solução que não seja essa.

Mais do que bramar contra os moinhos de vento, interessa perceber como é que aqui se chegou. É neste contexto que entra em jogo aquilo a que chamo de canal de distribuição e que constitui o grupo dos que fazem as pechinchas orientais cá chegarem para serem vendidas a preços  ocidentais.  [Read more…]

As guerras do canal de distribuição e das moedas (1)

A China fez hoje saber que a sua agência de notação financeira desconfia da capacidade dos EUA para pagarem as suas dívidas e recomenda-lhes cautela, particularmente no que respeita os gastos militares, que é como quem diz, tenham juízo e deixem de intervir nos conflitos mundiais. Sendo a China o maior credor dos EUA, esta mensagem vai muito para além do aviso.

Até há poucos anos poderio militar e económico eram sinónimos mas essa realidade tem sofrido considerável mutação. Neste momento, o ocidente continua com o domínio do poder militar mas perde a passos largos o poder económico. Já o oriente está na situação inversa, ainda sem o domínio militar mas, claramente, em vantagem na questão económica.

Existe um sério risco do ocidente tentar puxar o fiel da balança para o seu lado usando o poder que ainda controla. Cada desvalorização dos ratings das dívidas é mais um empurrão para a guerra. Esperam-nos tempos conturbados.

(continua)

2013, 5 de Junho

waveofthefuture

Trabalho baseado n’ “A Grande Onda de Kanagawa”, de Hokusai.  Imagem do início dos anos 90,
então lançada pelo Boston Computer Museum  e por uma  revista chamada  The High Tech Times, com
o nome “A onda do futuro”.  Mais detalhes no post “A onda do futuro é agora o passado” (em inglês). 

 
Faz hoje dois anos que decorreu o acto eleitoral que ficou conhecido por “as eleições da troika”. Tem sido uma quarta-feira infernal e daqui a pouco, em directo nos três canais televisivos privados, o líder da oposição falará ao país. Talvez algum desses viciados da bloga repita a boca “ó Luís, fico melhor assim ou assim?” mas poucos se lembrarão desse episódio quando Sócrates falar. [Read more…]

Sábado

Hoje é sábado. Poderia ser outro dia se a luz viajasse com velocidade diferente. Que até viaja, já que nos tempos do Big Bang  a constante c era, afinal, uma variável.  E numa redoma de vidro, por não ser o vácuo, também a luz demora mais tempo a ir de um ponto a outro.

Portugal, dizem, está 25 anos atrasado relativamente à Europa. Parece que o tempo corre aqui a outro ritmo. Poderá assim ser por a luz no nosso rectângulo viajar a uma velocidade menor. O que faz sentido se atendermos a essa campânula vítrea que parece isolar os nossos governos do país que os rodeia.

 

Sobre a teoria da velocidade variável da luz e sobre João Magueijo, um dos seus autores, é de ouvir o programa Pessoal e Transmissível de 25 de Setembro de 2007. Deveras interessante.

Como numa novela de há uns anos

RTP: primeira mira técnica

Há uns anos, quando televisão e RTP1 eram sinónimos, mesmo se atendermos ao fugaz lampejo que eram as quatro ou cinco  horas de emissão nocturna da RTP2, a telenovela que estivesse no ar tinha sempre alguns pontos em comum. Lembro-me das actuações com ar forçado e, apesar delas, da continuada presença dos mesmos rostos. Como se uma má representação não fosse motivo suficiente para mudar de actores. Mas tudo se passava em circuito fechado, numa viagem por vias paralelas à realidade.

De cada vez que olho esse Prós&Contras parece que estou a ver uma dessas novelas. As mesmas caras e a mesma artificialidade, também funcionando em re-alimentação.

Como é que se mudam estes actores que nos governam quando o público acaba sempre por bater palmas no final da peça?

Notícias desse país

Campos junto ao Rio Pranto

Sem televisão e com pouca rádio – mas sobretudo sem net – têm os dias passado sem sobressaltos. O temporal que fez furor nas notícias, facto que pude (desnecessariamente) comprovar, trouxe-me anos idos à memória. Tempos em que as manhãs começavam com quinze minutos de caminhada até à camioneta que me levaria à cidade, a dezoito quilómetros de distância, onde depois de outros vinte minutos chegaria ao liceu. Nesses idos anos oitenta, antes das obras de hidráulica do Baixo Mondego, eram frequentes as cheias nos campos de arroz. Não havia televisões a fazer a cobertura – até porque só havia "a" televisão – nem prevenção civil a emitir alertas. Mas as pessoas sabiam que a chuva viria e preparavam-se. Limpavam valetas, removiam a vegetação das valas e, também, o solo não estava tão impermeabilizado com cimento como agora.

Tal como por estes dias, o dinheiro era igualmente escasso. Banalidades de hoje, como uma bola de berlim, eram uma alegria. Que por vezes se trocava por uma outra maior, que era a ida à Luna para dois jogos de Space Invaders – duas moedas de dois escudos e cinquenta centavos (vinte e cinco tostões como lhes chamávamos). Os dias de então eram como estes que agora experimento na ausência do frenesim noticioso. E sem o desemprego, coisa que se ouvia dizer ser alta em Espanha, deixando-nos patrioticamente confortados. E com as mesmas cheias, que eram boas por fecharem a estrada do Campo, o que significava dia sem aulas por causa do autocarro não passar.

Alcatrão e betão à parte, trinta anos não mudaram assim tanto os dias de hoje. Excepto que o desemprego chegou em força e a histeria político-noticiosa é mais omnipresente, muito graças aos novos canais televisivos.

 

Foto: bordadocampo.com. Sobre as cheias do Baixo Mondego, ver: A Ponte-Açude de Coimbra (e também a DGADR).