Ir para fora cá dentro

ImageOs sucessivos líderes políticos criaram um sistema que resolveu, durante décadas, todos os nossos problemas. Mas quem nos deu tudo secou tudo à nossa volta

O António trabalha na suíça numa pastelaria. O patrão diz que é o melhor empregado que já teve, e diz mais: Os portugueses são os melhores trabalhadores que há lá na terra dos cantões. António já fazia o mesmo na padaria Miranda em Freixo de Espada à Cinta, mas nota uma diferença fundamental – Aqui tenho mesmo que trabalhar, não conheço ninguém. Estou entregue a mim próprio.
O Rui trabalhava em Coimbra na construção civil mas regressou a Toronto no Canadá. Foi a família que o devolveu a Portugal num turbilhão de emoções feitas de barrigas de freira, crédito bancário e pasteis de Tentúgal. Quando a crise entrou foi-se outra vez embora. Ninguém lhe pagava. Os anos que viveu na Lusa Atenas foram feitos alegria, projetos sem orçamento, sol e praia, trabalhos a mais, simpatia e incompetência.

O problema de Portugal não é uma questão económica. É um questão de atitude. Qualquer trabalhador português emigrado é um Cristiano Ronaldo da vida. Pasteleiros na Suíça! Golo. Trolhas no Canadá! Vai buscar! Futebolistas em toda a parte? É sempre a aviar. Mas cá dentro, como sempre fizeram tudo por nós, ficámos uns calaceiros incorrigíveis. Só funcionamos bem quando estamos órfãos.

Cristiano ainda era muito novo naquele clube às riscas verdes e brancas quando se foi embora. Ainda nem tinha chegado a efetivo quando uns ingleses o levaram. Era bom demais para ficar. Encontrou outros portugueses lá fora. Trabalhadores do show business em que se tornou o futebol. Uns mais ou menos milionários, outros quase desconhecidos, mas todos cumprindo o passe curto, o treino inteiro e a distância, atingindo sempre com sucesso os objetivos da sua viagem. No balneário falava-se russo, grego, com sorte espanhol.

Portugal tem esta estranha sina de não conseguir trabalhar-se por dentro. De desabrochar apenas quando escapa ao rectângulo lusitano. Uma espécie de complexo de Édipo onde a presença do pai nos tolhe.
Hoje temos a nosso favor o facto de termos estado trinta anos a ser educados como os melhores, em escolas como as melhores, com tecnologia de ponta. Mas continuamos à espera da mama do estado. Quando ela falha achamos que temos mais hipóteses lá fora.
É uma tragédia precisamos de nos sentir órfãos para sermos bons. Os sucessivos líderes políticos criaram um sistema que resolveu, durante décadas, todos os nossos problemas. A casa, a doença, o emprego, a escola. Tudo grátis, mas pior, entendido como um direito adquirido. Quem nos deu tudo secou tudo à nossa volta.

Artigo publicado originalmente no Diário de Coimbra

Por José-Manuel Diogo

Comments

  1. maria celeste d'oliveira ramos says:

    N-ao concordo completamente – trabalhei no Estado e nunca enontrei u Director Fral e director de serviço e mesmo chefe de divisão que fosse capz – são uns empatas e era os piores téc nicos – e hierarquia não funcionava e faiam jantaradas etre eles ne, sei para combinar o quê – e quanto a sabedoria era muito duvidosa e levavam pelo menos um ano não a aprender mas a rentar saber o que lhes competria saver .- falo de DG Turismo + DG agricultura para não falar de outras – os FP sabem os chefes estão ao serviço dos merdosos dos políticos e até impedem que se faça o que se deva . a PAC é para já exemplo disse – PAC – política agr+ixola comum – onde estáo os 78 % de produção agricola e pescas ?? – acho triste que exista quem não queira ver e adore espanhóis e elogie espanhõis e vá aos continentes e não sabe o que diz embore am todos os minist+érios sejam iguais – falo dos onde trabalhei – e o eu trabalho não era lavar o chão

  2. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Desculpai por ter dado tantos erros de dactilografia mas o teclado está maluco e continua a distrair-me e não olhar as palavras – já não tenho cura – perdão perdão perdão

  3. palavrossavrvs says:

    Magnificamente bem escrito. Subscrevo.


  4. E depois queixamo-nos, em surdina, da má sorte. É tudo isso que escreveu. Obrigada 😉

  5. nightwishpt says:

    Não tem nada a ver com o facto de só haver chefes broncos que não fazem ideia do que são boas práticas, nem sequer valorizam o trabalho dos “colaboradores”. É que não tem mesmo nada a ver.

  6. Amadeu says:

    Parafraseando Bill Clinton, “é a economia, estúpido”.
    Num contexto em que a generalidade dos patrões pagam o mínimo possível, em que não investem em tecnologia e formação, roubam quanto podem o estado e os colaboradores, estás à espera de quê ?
    Se a culpa fosse o estado social os nórdicos eram piores que nós.
    “É a economia, estúpido”.


  7. Cá está outro problema que o acordismo não resolve: a falta de palavras para novas realidades. Um português passa ali a raia e logo é louvado, premiado, como o melhor, e não temos palavra para isso. Talvez borgear, em honra a António Borges de quem o FMI era seu: vou borgear em Badajoz, vou ter sucesso em Badajoz.

    • palavrossavrvs says:

      LOLADA!

    • Amadeu says:

      Nós portugueses somos como aqueles maratonistas da Etiópia.
      No nosso país esfalfamo-nos para conseguir uns resultados de miséria. Quando nos dão boas condições o arcaboiço ganho com muitos anos de labuta vem ao de cima.


  8. O texto é muito acertado no que diz mas discordo que “A casa, a doença, o emprego, a escola. Tudo grátis, mas pior, entendido como um direito adquirido.” – quero dizer: a minha casa é paga por mim, o emprego é mantido por mim, a doença e a escola são mantidas pelo dinheiro dos meus impostos. Direitos adquiridos? – Direitos pagos, faz favor!

    Acontece que agora os “tugas” pagam, e cada vez mais, e é-lhes dado cada vez menos. Roubados, portanto.

  9. L. Rodrigues says:

    Também nao papo a tese central do “cá fazem tudo por nós”. Pelo contrário atribuo a pouca produtividade portuguesa a quem vive dela sem a valorizar.

    Séculos de imobilidade social ensinaram aos portugueses que por muito que bulissem não saiam da cepa torta. O poder está atribuido e distribuido de acordo com regras ancestrais e o trabalho não vale nada.

    Li algures (creio que na Grande Transformação de Polanyi) que na inglaterra do século 18 um pobre era alguém que vivia do seu trabalho. Um gentleman vivia das rendas das suas propriedades.
    Cá foi um pouco diferente durante umas décadas, mas estamos a voltar a isso.


  10. Ainda há dias numa conversa de café o assunto foi tão semelhante ao que aqui é descrito, que me sinto obrigado a comentar.
    Nessa mesma conversa, um cinquentenário queixava-se que as pessoas da sua terra eram mal agradecidos com os conterrâneos, e acariciavam os de fora. E era interessante que o trabalho dessas mesmas pessoas em localidades vizinhas era muito mais valorizado.
    Isto vai no sentido do típico ditado português: “Santos da casa não fazem milagres”, e infelizmente é verdade, não o ditado, mas que é exactamente assim que as pessoas pensam.


  11. Obrigado pelos vossos comentários. Mas penso que ainda não chegámos a perceber a “big picture”. Portugal precisa de se sentir órfão: e isso não é um orçamento de estado nem regalias perdidas. É uma atitude

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