A democratização das viagens aéreas

Estou a escrever este «post» a bordo de um «Airbus 319» da EasyJet, que dentro de um quarto de hora vai aterrar no Aeroporto de BSL – Basel-Mulhouse-Freiburg (Basileia, seus incultos!). Parti do Porto às 9 menos um quarto, regresso amanhã ao fim da tarde. No total, paguei 55 euros por uma viagem de ida e volta. Com dormida, a festa fica por menos de 120 euros.
Há alguns anos atrás, seria impossível a um português da classe média, como eu, ir passar um fim-de-semana à Suíça e gastar tão pouco dinheiro. Durante muitos anos, aliás, nunca passei de Tuy, na fronteira com Valença. Lembro-me perfeitamente das cabines, onde eram controlados os documentos oficiais, e dos sacos de caramelos que os meus pais traziam de lá – os duros e os moles.
A globalização, a economia de mercado e a União Europeia trouxeram-nos muitos aspectos positivos. A democratização das viagens áereas, às quais tem acesso, hoje em dia, a generalidade de classe média portuguesa, foi uma delas.

P. S. – Alguém sabe se há minaretes em Basileia?

A Restauração de 1640, Rafael Valladares e a revista Clio

 

 

 

Os historiadores espanhóis manifestam intermitentemente, algum interesse quanto ao relacionamento que o seu país manteve ao longo dos séculos, com Portugal.

1640, é sem dúvida, a data chave convencionada além Guadiana, que marca indelevelmente o declínio do poderio mundial espanhol.

Se a revolta catalã mereceu – dada a proximidade territorial com a França – uma rápida reacção militar e se integrou no conflito espano-francês a decorrer no âmbito da Guerra dos Trinta Anos, a independência portuguesa era de difícil resolução, embora os estudiosos espanhóis ainda a encarem depreciativamente como um mero conflito entre a alta nobreza conservadora e o governo centralizador de Madrid.

O artigo descreve sucinta e cronologicamente os factos ocorridos, embora a interpretação dos mesmos, peque da habitual parcialidade, omissões várias e alguns erros de alguma importância. Assim, é decerto por mero desconhecimento, que o autor apresenta Filipe II como o herdeiro natural e …"el mejor situado en cuanto a parentesco"… para assumir a coroa vacante em 1580. O argumento utilizado, pode de facto, ser aplicável ao Prior do Crato, devido à sua condição de filho bastardo do infante D. Luís. No entanto e segundo o autor, a Duquesa de Bragança, seria automaticamente arredada da sucessão, por ser uma herdeira feminina, o que a deixaria em desvantagem sucessória perante o rei espanhol. 

Neste ponto, o dr. Valladares decerto não desconhece a inexistência da Lei Sálica nos dois maiores reinos da península, até porque no que a Portugal respeita, existia o bem conhecido precedente de D. Beatriz, natural sucessora de D. Fernando I. Torna-se assim evidente que a exclusão de D. Catarina, duquesa de Bragança, se deveu ao exercício de uma clara coacção por parte de quem detinha a força militar e o poder corruptor do dinheiro. Argumentando correctamente acerca de movimentos precursores da fusão dos diversos reinos da península, nomeia sem especificar …"un nieto de los reyes católicos"… que no ocaso do séculos XV, era o herdeiro dos três tronos. É claro que sabemos tratar-se de D. Miguel da Paz, filho de D. Manuel I e da princesa D. Isabel, herdeira de Castela e de Aragão. O facto de D. Miguel – se tivesse sobrevivido aos seus progenitores – ser o possível unificador da península sob o ceptro de Avis, é para o autor, despiciendo. Compreendemos porquê.

O período efectivo da chamada União Ibérica, não merece senão algumas muito vagas referências, limitando-se Valladares a focar os interesses mercantis de sectores muito localizados de mercadores desejosos do comércio e acesso à prata espanhola, e da nobreza sequiosa de prebendas e desempenho de cargos administrativos na Monarquia dos Áustrias. 

Ao longo do texto, esperámos encontrar, mesmo que de forma difusa, alguma menção aos factos que decididamente levaram à colisão de interesses entre os dois reinos e isto mais estranho se torna, por serem tão evidentes e conhecidos. Não há qualquer referência à proibição do rendoso e tradicional comércio com as potências do Norte – a Holanda sublevada e a Inglaterra protestante -, não existe a mínima menção à depredação do poder naval português em empreendimentos de cariz imperial (Invencível Armada, etc) e nos conflitos com aqueles que eram alguns dos nossos mais importantes clientes; não se vislumbra qualquer interesse no estudo da situação criada pelo esvaziamento dos arsenais portugueses, cujas armas foram utilizadas nos campos da Flandres e na guarnição da rede de fortalezas que protegiam os territórios filipinos no norte da Itália e zona renana. O estado de abandono das defesas portuguesas no Oriente, que foram aliás os primeiros alvos dos inimigos de Espanha (antigos clientes de Portugal), levou à total ruína da presença lusa no Índico e Pacífico ocidental, onde ingleses e holandeses instalaram uma nova talassocracia. A perda de vultuosas rendas provenientes do antigo monopólio do comércio com a Índia, China e Insulíndia, levou à inevitável e extrema pauperização do tesouro da coroa de Portugal, com a eclosão de um descontentamento sempre ascendente. O não cumprimento dos juramentos efectuados nas Cortes de Tomar, nem sequer merece uma reflexão sumária e tão mais importante, quando se torna afinal, no móbil ideológico e propagandístico utilizado pelos revolucionários de 1640, na sua acção diplomática em toda a Europa. 

Já na fase pós-1º de Dezembro, o autor vai divagando acerca …"del nuevo régimen bragancista: una monarquía limitada por la tradición, respetuosa con las inmunidades estamentales y regida por unos consejos integrados por la nobleza". Desta forma, o dr. Valladares parece não compreender o transcendente suporte que o trono dos Bragança recebeu por parte daqueles a quem os espanhóis habitualmente chamam de "poderes fácticos", isto é, os interesses comerciais, a nobreza administrativa e militar e a Igreja. Não parece entender o aspecto chave de toda a questão, até porque todos os conflitos internos do Estado espanhol, giram até aos nossos dias, em torno da velha questão dos "fueros".

A evidência de todo o Império colonial luso ter aderido ao novo estado de coisas, não merece qualquer relevo e isto é demonstrativo, de uma verdadeira incompreensão da situação vista pelo prisma português. É que a viragem do interesse da expansão para a zona do Atlântico, já era notória no reinado de D. João III e a aventura africana de D. Sebastião, pode talvez, ser encarada neste âmbito de consolidação de posições de controle de uma nova área de influência. Assim, as boas relações com as potências marítimas – que para grande alívio dos governos de Lisboa foram reduzidas, décadas após a Restauração, a uma Inglaterra interessada na manutenção de um Portugal independente -, não são compreendidas à luz do interesse do estado português. Este aspecto é tão mais relevante, porque é bem conhecido dos estudiosos além Pirenéus, como condição sine qua non da política externa nacional desde 1372, e que chegou sem fissuras ao século XXI.

As explicações relativas às tentativas diplomáticas para a reincorporação na coroa de Filipe IV, são igualmente nebulosas e inconsistentes, uma vez que versam repetidamente, a correcção do caminho trilhado por Madrid, que rasgara o acordado em Tomar. Assim, o texto menciona o objectivo de Filipe IV, consistindo aquele em …"restaurar un patrimonio usurpado y tiranizado para devolver a los portugueses a un gobierno legítimo y justo basado en las leyes y tradiciones de Portugal". O autor não tem em conta a profunda clivagem ocorrida quando da tentativa de colocação em prática da chamada União de Armas gizada por Olivares, talvez a faísca que ocasionou a explosão da revolta. Esta política de assimilação, pressupunha um esforço militar colectivo e necessariamente, a redução das leis de todos os reinos componentes da Monarquia, à lei geral de Castela.

Não pretendendo discorrer muito mais acerca do texto, deparamos também com a habitual minimização do factor militar. No entanto, é sabido que os grandes confrontos ocorridos após a morte de D. João IV
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em plena regência da rainhaD. Luísa, fizeram ruir a esperança espanhola numa rápida resolução bélica do conflito, dada como garantida por Madrid. É certa e infalível a costumada menção ao factor da intervenção inglesa – justificando-se airosamente as estrondosas derrotas do exército espanhol – sem manifestar qualquer referência ao tremendo esforço português, que pagou caro em sangue e em bens, as vitórias que de tão incontestáveis, ditaram o sucesso em 1668. Este esforço militar não se fez sentir apenas na defesa da integridade do território metropolitano, pois foi também evidente na defesa do Brasil face à ameaça holandesa – a grande potência naval daquela época – e à posterior reconquista de todos os territórios do nordeste ocupados, assim como a expulsão dos batavos de Angola e S. Tomé. O empenho da nova dinastia – uma das grandes casas senhoriais da península, senão a maior – na consolidação da independência, se ditou a sua ruína financeira, foi a base sólida que fez dobrar a vontade espanhola. A essa energia e porfiar de esforços e sacrifícios, deve Portugal a sua existência como país e nação independentes.

Este texto publicado pela Clio, é uma vez mais, um já habitual reescrever da História. Uma história que não é agradável para alguns, mas que deverá ser sempre vista sob o crivo da verdade.

 

Pior que todas as touradas

 

 

Será o espectáculo popular com que umas centenas de animais se deliciarão esta noite em Medinaceli, um município de Soria no reino de Castela e Leão.

As bestas lançarão fogo aos cornos de um touro indefeso, terminando por soltá-lo entre fogueiras e outras chamas, para seu gaúdio de pobres seres sem inteligência.

Eu sei que os animais são inimputáveis. Mas estes deviam ser enjaulados por uns bons tempos, ou talvez convertidos ao reino vegetal, ao menos não incomodavam, e daí, bestas destas viravam no mínimo em silvas bem espinhosas.

Masturbar é pecado, e é pecado sim senhor

 

O Conselho da Juventude do governo da Extremadura decidiu promover oficinas sobre sexualidade onde entre outras coisas os jovens podem aprender alguma teoria sobre o acto masturbatório.

Vai daí a direita mais tolinha teve o seu ataque de idiotice aguda adequado às circunstâncias: desde queixas por corrupção de menores à habitual acusação de esbanjamento de dinheiros públicos (14000 Euros, uma fortuna), petições, exaltações, e outras formas menores de sublimarem a sua própria sexualidade reprimida.

Entretanto as oficinas decorrem com toda a tranquilidade  e a notícia corre mundo. Como dizia Woody Allen: "não digas mal da masturbação, é sexo com alguém que amo". Mas será que esta gente é capaz de amar alguém, a começar por si próprio?

 

Não acredito…

Cá e lá

Publicado por PauloMorais em 12 Novembro, 2009

 

“Só em Espanha, por exemplo, o caso “Malaya” pôs na cadeia mais de cem famosos. Por cá, nem um único rico condenado por corrupção! (…)

Com leis e regulamentos claros, uma justiça eficaz e célere – a corrupção será residual.”

No

Jornal de Notícias

 

PS . Aventado ao Blasfémias

 

 

Tomar ou não a Vacina da Gripe A

BLOGGER CONVIDADA – MÓNICA LALANDA*

 

Senhora Ministra da Saúde, escute-me:

9 de setembro de 2009 – Senhora Ministra, proponho-lhe que seja a primeira espanhola a vacinar-se contra a Gripe A. De facto, com este despropósito chamado autonomias, se V/ Excia se vacinar junto com toda a gente que nos governa em Espanha, o grupo de controle seria suficientemente grande para nos sentirmos todos mais seguros.

Verá V/ Excia, agradeço que me tenha colocado à cabeça dos grupos de risco e que tenha V/ Excia tanto interesse em que eu não apanhe a gripe.

Entendo que V/Excia me necessita para que o sistema de saúde não entre em colapso;

no entanto, é uma grande pena que, da mesma forma que se preocupa V/Excia pela minha

saúde e de repente me valorize como um bem nacional, não se preocupe com a minha

situação laboral. Convido-a a vir ver o meu contrato ou o do resto dos médicos neste país. Na grande maioria, trabalhamos com contratos que no resto da antiga Europa seria uma vergonha.

Senhora Ministra, eu não vou vacinar-me. O vírus não acabou de mutar e a partir da última mutação deverão passar seis o oito meses para elaborar a respectiva vacina. Ou seja, a vacina que nos propõem não pode ser efectiva. Quanto à sua segurança, já temos a experiência de vacinas para a gripe fabricadas à pressa; usam-se adjuvantes perigosos

para poder por menor quantidade de vírus. Francamente, eu prefiro ter muco durante três dias do que sofrer un Guillain-Barre.

 

Senhora Ministra, não gosto de ser um coelho-das-índias. O Centro de Prevenção e Controle de Doenças da UE "está à espera de saber quais são os efeitos da vacina nos adultos sãos para detectar possíveis consequências adversas". Olhe, prefiro que V/Excia a teste e depois me conte.

Senhora Ministra, o assunto está a fugir-lhe das mãos. Já está mais que claro que este vírus, embora muito contagioso, é muito pouco agressivo e mais de 95% dos casos evolui de forma leve. Espera-se um máximo de 500 mortes frente às 1.500 a 3.000 que provoca a gripe tradicional.

Enquanto isso, V/ Excia está a permitir um desperdício de recursos inaceitável. Muitos hospitais no país estão a ser objecto de alterações arquitectónicas absurdas e desnecessárias para se prepararem para uma hecatombe que já sabemos que não vai acontecer. V/ Excias gastaram 333 milhões de euros nesta pandémia de cor e fantasia. A mortalidade do vírus é de 0.018%, francamente irrisória.

Senhora Ministra, deixe que lhe recorde que a Gripe A matou até agora 23 pessoas e que tem uma taxa de incidência de 40-50 casos por semana em cada 100.000 habitantes. No entanto, o tabaco produz em Espanha 40.000 mortes por ano e 6.000 por tabagismo passivo. Isso sim é uma pandémia, mas V/ Excia prefere ignorá-la. é um tema menos atractivo e que lhe criaria uma multidão de inimigos. Dos 447 mortos nas estradas espanholas em 2008, nem falamos, porque não é do seu pelouro.

Senhora Ministra, explique-me por que motivo tem V/ Excia o Tamiflu sob custódia do exército. A eficácia dos antivirais nesta gripe é duvidosa e, de qualquer forma, o único efeito que têm é reduzir um pouco a duração dos sintomas e com efeitos secundários não desprezíveis. Qualquer um diria que V/ Excia guarda com 7 chaves a cura contra o cancro ou a peste bubónica. Ponha o fármaco nas farmácias que é onde deve estar e deixe-se de fantasias mais apropriadas a Hollywood. Em alternativa, faça algo sobre a patente do osetalmivir e permita que o fabriquem outras companhias farmacêuticas, assim não há encargos com restrições.

Senhora Ministra, as previsões da Organização Mundial de Saúde já se extrapolaram em ocasiões anteriores. Quando foi da gripe das aves, previram 150 milhões de mortos que afinal se ficaram pelas 262 mortes. Voltaram a enganar-se, não importa. O importante é parar esta loucura em que estamos lançados e essa, senhora Jiménez, é responsabilidade sua.

Senhora Ministra, isto é dum cinismo muito grande. Há demasiada gente a comer a sua garfada neste assunto. Não só os fabricantes das vacinas e dos antivírus mas também os que fazem as máscaras, os da vitamina C, os do bífidus activo, os fabricantes de ventiladores artificiais e pulsioxímetros, os dos lenços descartáveis, os produtos de

desinfecção das mãos, até os presos com doenças incuráveis que querem aproveitar para ir para casa. No entanto, não me negará tão pouco que a cortina de fumo lhes veio a calhar ao seu governo agora que a crise segue a sua marcha, o desemprego tem níveis históricos, sobem-nos os impostos, sobe o IRC e baixa o PIB. Uma coincidência, suponho.

Senhora Ministra, uma coisita mais. Se tiver que ver muitas mais fotos suas a meia página com olhar astuto, trajes sexys e poses de modelo… vai-me dar uma coisa !

* Mónica Lalanda passou os últimos 16 anos em Inglaterra, a maioria como médico de urgências em Leeds (West Yorkshire). Actualmente trabalha na unidade de urgências do Hospital General de Segóvia, participa em várias publicações inglesas e também produz ilustrações para revistas e livros  médicos.