Pelo direito a decidir morrer

Fotografia via The Local

David Goodall viajou até à Suíça, onde agendou a sua morte medicamente assistida para o dia de ontem. Aos 104 anos, e com a sua saúde a deteriorar-se mais do que o botânico australiano pretendia suportar, David decidiu morrer.

Não o pôde fazer na Austrália, como não o poderia ter feito na maior parte dos países do planeta, porque a liberdade individual é um conceito relativo. Mesmo nas orgulhosas democracias ocidentais, ainda existem aqueles que defendem que o direito a colocar um ponto final na nossa vida, ainda que manifestado por alguém na posse de todas as suas faculdades, lhe está vedado. Como se a vida de cada um fosse propriedade do Estado ou dos defensores do politicamente correcto. [Read more…]

«La nouvelle orthographe figurera au cœur des discussions officielles»?

Não? Ah! OK: «les domaines de la formation et de la recherche», «les thèmes économiques et internationaux», «la politique européenne»… Oh!

Ainda a papelada do Panamá

Por que será que a Suíça, país sem mar e entalado entre montanhas, tem uma das mais poderosas Marinhas Mercantes do mundo?

Bem vindos ao Swissleaks

Uma história de fraude fiscal denunciada pelo ICIJ, com epicentro na filial suíça do banco HSBC, através da qual centenas de multimilionários fugiram aos impostos nos seus países. Não perca o próximo episódio porque nós também não!

Não pagamos, dizem eles

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Na Suiça há €24 mil milhões não declarados, fugidos de Portugal. Nós pagamos.

Limpeza étnica no futebol suíço

Selecção Suiça

(Fonte: Extra3)

Ainda que por escassa diferença (50,3%), a Suiça disse este Domingo “Sim” à introdução de restrições à circulação de cidadãos da União Europeia no seu território. E enquanto a extrema-direita festeja e os dirigentes da União avisam que este uso “desregrado” da democracia terá consequências, o blog alemão Extra3 publica uma montagem daquilo que seria a selecção nacional suíça sem os seus imigrantes ou descendentes. O Mundial do Brasil estaria seriamente comprometido para o que restasse dos helvéticos. Em Portugal resolvia-se o problema com “vistos-talento”.

José Sócrates começou a trabalhar

Ao fim de 55 anos de vida, finalmente começou a trabalhar. Alguma vez haveria de ser a primeira. Só é pena que seja numa empresa ligada à Máfia, mas temos de ter em conta que é um trabalhador inexperiente a dar os primeiros passos no mundo do trabalho…

Este Schengen não é para pobres

A Suíça planeia fechar as suas fronteiras a espanhóis, italianos e portugueses (notícia em castelhano).

Reformas na Suíça têm tecto máximo de 1700 euros

Aparição fugaz, de 3 minutos, na RTP2! O governo suíço fixou que o máximo que um suíço pode receber de reforma são 1700 euros

Esta notícia foi tratada apenas em noticiário pouco visto para evitar, naturalmente, o contágio. Porque será ?

Nunca se poderia passar em Portugal porque… cá…  somos MUITO RICOS!!!

Bandex – Na Suíça

As reformas em versão Suiça.

Guerra Santa – Kadhafi não esquece os minaretes

Cá se fazem cá se pagam. Leiam porque é que o espaço de Schengen se encontra seriamente ameaçado. Se a perda de poder solidário do ocidente no mundo continuar, qualquer dia nas nossas relações com os países muçulmanos verificar-se-á uma obediência antecipada da nossa parte. Será o fim das nossas liberdades democráticas.

Rolf Domher

SPIEGEL ONLINE, 02/26/2010

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Alpine Jihad: Libya’s Gadhafi Declares Holy War Against Switzerland

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The feud between Libya and Switzerland has been simmering for months. On Thursday, Moammar Gadhafi went on the offensive, calling for a jihad against the Alpine country.

You can download the complete article over the Internet at the

following URL:

http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,680525,00.html

Inverno e árvores de cimento

Inverno. Neve, frio, fogo dentro de casa, a hospitalidade dos amigos, a trompetista  Hilaria Kramer e Luigi Abbondanza, com quem partilhei algumas aventuras teatrais.

E esta sua casa, em Lugano, construída em 1920 por um seguidor de Gaudi.

As árvores que fotografei são colunas da casa, feitas de cimento.

Inverno (do meu contentamento) e árvores de cimento.

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Inverno

PC210169Estas fotos são fresquinhas. Foram tiradas agora mesmo.

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Crónica de Basileia em imagens

Continuação daqui
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Mercado de Natal
039
Servindo Vinho Quente (Gluhwein) no Mercado de Natal
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Simpático grupo de suíços bebendo Vinho Quente (Glühwein) no Mercado de Natal
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Rede de eléctricos rápidos no centro da cidade
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Crónica de Basileia

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Basileia é uma cidade interessante e agradável, à qual se vai porque há viagens «low cost». Tem especial interesse nesta altura do ano, com o seu típico Mercado de Natal, que dá um colorido muito especial às ruas da cidade.
Mercado de Natal só para ver, claro, não para comprar. A principal nota deste fim-de-semana na Suíça é mesmo o nível de vida. Basileia é mais cara do que Paris, Londres, Dublin ou Reiquejavique. Tudo caríssimo, quase insuportável para a bolsa de um português médio. Nos restaurantes e mesmo nos supermercados – só para dar dois exemplos, um pão normal (um molete pequeno) custava o equivalente a 80 cêntimos, um frasco pequeno de café instântaneo, tipo Mokambo, quase 10 euros. A somar a tudo isto, a dificuldade da conversão dos francos, para quem não está habituado a pensar senão em euros.
Passando ao lado do frio intenso, que se suporta com muita roupa em cima do corpo, existe a grande dificuldade do idioma. Estando Basileia na fronteira com a França e com a Alemanha (visite-se com tempo a Esquina dos 3 países), esperar-se-ia que tudo estivesse escrito em alemão e em francês. E em Inglês, a língua universal. Nada, apenas em alemão. Entrei e saí da Suíça sem perceber patavina do que li, como se pode ver pelo cartaz que fotografei e que estava à entrada de uma igreja. [Read more…]

A democratização das viagens aéreas

Estou a escrever este «post» a bordo de um «Airbus 319» da EasyJet, que dentro de um quarto de hora vai aterrar no Aeroporto de BSL – Basel-Mulhouse-Freiburg (Basileia, seus incultos!). Parti do Porto às 9 menos um quarto, regresso amanhã ao fim da tarde. No total, paguei 55 euros por uma viagem de ida e volta. Com dormida, a festa fica por menos de 120 euros.
Há alguns anos atrás, seria impossível a um português da classe média, como eu, ir passar um fim-de-semana à Suíça e gastar tão pouco dinheiro. Durante muitos anos, aliás, nunca passei de Tuy, na fronteira com Valença. Lembro-me perfeitamente das cabines, onde eram controlados os documentos oficiais, e dos sacos de caramelos que os meus pais traziam de lá – os duros e os moles.
A globalização, a economia de mercado e a União Europeia trouxeram-nos muitos aspectos positivos. A democratização das viagens áereas, às quais tem acesso, hoje em dia, a generalidade de classe média portuguesa, foi uma delas.

P. S. – Alguém sabe se há minaretes em Basileia?

As mulheres e o fim dos minaretes na Suíça

Devo dizer que acho muito mal que nunca mais se possam fazer minaretes na Suíça.

Para além de uma intolerável intromissão na vida privada dos casais, ignoram-se desta forma os direitos das mulheres, que nunca mais podem contar com um bom minarete. E o prazer delas, onde fica?

Eu cá acho mal!

A máquina do tempo: a Suíça e os minaretes

 

 

Domingo passado, dia 29 de Novembro, 57,5% dos eleitores suíços exprimiram em referendo o apoio à proposta do Partido Popular Suíço (SUP-UDC), uma organização ultra-direitista, de integrar na Constituição a proibição de construir minaretes nas mesquitas que se edifiquem em território helvético. O índice de participação foi de 55% dos eleitores recenseados. O resultado deste referendo não afecta os quatro minaretes existentes em mesquitas já existentes em território helvético.

 

 

aqui falei da Suíça, salientando a ausência de tragédia que assombra um país onde a grande tragédia, estatisticamente expressa no elevado número de suicídios, é precisamente essa extrema arrumação, a obsessão pela correcção e, sobretudo o facto de tudo isso, incluindo o elevado nível de vida que os cidadãos gozam, ser conseguido à custa dos negócios ínvios que para ali canalizam fortunas, protegidas pelo sigilo bancário blindado. No fundo, uma tranquilidade conseguida pelo preço da miséria, da exploração, da lepra do narcotráfico, das máfias, do tráfico de seres humanos, de tudo o que de podre, corrupto e horrendo se passa em redor da Suíça, no resto do mundo, em suma.

 

Mas que importa isso aos suíços se eles vivem bem e numa sociedade assepticamente organizada? Que lhes importou a II Guerra Mundial que dilacerava o mundo em seu redor? Isso era fora da Suíça, que tinham eles, povo neutral, a ver com os outros que se matavam entre si? Além disso, seis milhões de judeus eclipsaram-se em fumo, saindo pelas chaminés dos campos de extermínio. Muitos deles tinham contas nos bancos suíços e todo essas fortunas foram incorporadas no tesouro nacional. Morreram muitas dezenas de milhões de seres humanos? Que importa? Quem os mandou não ser inteligentes como os suíços?

 

Também já falei aqui do problema do Islão. Da intolerância da sua hierarquia clerical e da compartimentação cultural, semelhante à da nossa Idade Média. Quando duas intolerâncias colidem, o que acontece? Resultados como o do referendo de domingo em que os suíços recusam a existência de minaretes de mesquitas nas cidades da Confederação Helvética. Lamentável? Certamente.

 

      

A intolerância da clerezia islâmica baseia-se no pressuposto de que sendo a sua fé a única verdadeira, não fazem os cristãos (os infiéis) mais do que a sua obrigação em tolerá-la, sendo mesmo assim grave aos olhos de Alá o facto de não se apressarem a converter-se. Eles, possuidores da verdadeira e única fé, não têm de tolerar as falsas confissões. Exactamente a postura que na Idade Média levou os cristãos a empreender a triste aventura das cruzadas. Já aqui falei desse fenómeno da intolerância dos islamitas.

 

As fotografias que o João José Cardoso aqui publicou provam que não é por uma razão de ordenamento paisagístico, como alguns defensores do resultado do referendo afirmam, que os suíços recusaram a edificação de minaretes. É por medo. Justifica-se esse medo? Em parte sim. Os islamistas não brincam e entre inofensivos fiéis de Maomé que limitam a sua crença às cinco orações rituais e à observância das demais leis corânicas, misturam-se aqueles que acham que se «não vai a bem vai a mal».

 

Porque a verdade é que o índice de conversões ao islamismo entre as populações de acolhimento aos imigrantes muçulmanos é irrelevante – deve mesmo estar abaixo dos números obtidos pelas Testemunhas de Jeová. Não será pela prática do proselitismo que o Islamismo entrará nos países europeus de maioria cristã. A iniciativa de Kadhafi em Roma, ao reunir 200 boazonas para lhes falar do Islão (deixando muitas delas desiludidas, pois pensavam que iam para uma orgia de Berlusconi…), só nos pode fazer rir.

 

Nós cristãos, judeus, ateus, temos de fazer um esforço para compreender a maneira que os islâmicos têm de ver o mundo. Afinal eles são muitos milhões. Porém, enquanto eles não compreenderem também que há muitos mais milhões de pessoas no planeta que se estão nas reais tintas para o que Maomé terá dito ou não e que nunca conseguirão convencer-nos duma verdade que só o é para eles, nada feito. Há mesmo o perigo de uma grave confrontação, porque a cegueira dos fanáticos (os islâmicos, os judeus, os cristãos…) é enorme.

 

O sim suíço à proibição é lamentável. Atesta a existência de uma corrente dominante de islamofobia no pais e é um sintoma de medo e de intolerância. Não porque os activistas islâmicos sejam tolerantes e, por essa tolerância, mereçam reciprocidade. Mas porque a intolerância vinda do nosso campo só aumentará o ódio no campo deles. Demonstrar medo (porque foi isso que aconteceu domingo na Suíça), fornece-lhes argumentos e motivos para o seu fanatismo.

 

O que me parece pedagógico é aceitarmos que eles pratiquem livremente a sua crença entre nós e que tentem convencer-nos à vontade. Para mim e para os que pensam como eu, vêm de carrinho… Quanto ao terrorismo, sendo uma forma inaceitável de fazer política, tem de ser reprimido com firmeza, não por ser islâmico, mas por ser criminoso. A integração dos islâmicos nas sociedades europeias é a arma mais eficaz contra o fanatismo e contra o consequente terrorismo. Leis como esta que o eleitorado suíço acaba de aprovar são o que os extremistas querem – motivos para odiar e para matar.

 

O resultado deste referendo, fornece-lhes álibi para mais uma das suas sangrentas acções. Os islamitas honrados e trabalhadores, que são a esmagadora maioria, terão ficado tristes por este acto de descriminação para com a sua crença. Os outros, os islamistas fanáticos, minoritários, mas influentes e manipuladores, esfregam a estas horas as mãos de contentes.

 

E mais alguns dos primeiros, passam para o campo dos segundos.

 

 

A Suiça escolheu o medo

"Quem luta com monstros deve velar para que,

ao fazê-lo, não se transforme também … o abismo

também olha para dentro de ti."

Friedrich Nietzsche

 

 

O Osama Bin Laden, se ainda for vivo, hoje deverá estar a esfregar as mãos de contente. Com efeito, devido ao medo subliminarmente sentido perante uma islamização, com o seu voto de hoje, a Suiça abandonou praticamente o seu estatuto de país neutro tornando-se, visível perante todo o mundo, um “combatente” ao lado de god’s own country and his partners in misleadership. Welcome to the crew, Switzerland!

 

Tal como todos os outros vizinhos e restantes países do assim chamado 1º mundo, a Suiça optou pela reacção em vez da acção. E acção teria significado, identificar as mais profundas causas espirituais-psíquicas desse crescente insegurança, para seguidamente passar à acção: p.ex. no sentido do meu esboço estratégico “New Deal”. Lembrem-se: a única solução pacífica que evitará uma enorme tragédia a nível mundial, é mudarmos do nosso actual comportamento introvertido-egocêntrico para um comportamento extrovertido-sóciocêntrico.

 

O que provavelmente irá acontecer agora, é que com o voto dos suiços a ameaça por forças antagónicas, até aqui apenas latente, se materialize. Por exemplo através de atentados de forças islámicas radicais ou apenas a sua ameaça. Portanto, os “monstros” até aqui apenas existentes nas cabeças das pessoas, darão lugar a “monstros” reais os quais precisam de ser combatidos.

 

E isto significa: com os “monstros” a aparecerem, as pessoas ver-se-ão confirmadas nos seus mais profundos receios o que irá atiçar uma espiral negativa – tal como nos restantes países que resolveram combater os problemas reagindo com meios materiais-mecanicistas e não agindo com medidas energéticas-estratégicas. Nesta situação, no fim poderá acontecer que na tão civilizada e idílica Suiça situada em pleno coração da Europa, ganhe, nas próximas eleições gerais, um governo populista da direita a maioria absoluta. Vade retro satanás!

 

E o que está a acontecer com a nossa Alemanha em vias de ficar sem rei nem roque que já encontrou o seu “monstro” no Afeghanistão e continua incapaz de aperceber-se que o “inimigo” vem de dentro em consequência dos nossos próprios actos?

 

RD

 

 Rolf Damher – convidado

Ó suiços, agora não se esqueçam de demolir estes minaretes

Catedral de Bâle

Catedral católica de Bâle

Catedral Protestante de Lausanne

Catedral protestante de Lausanne

A Suíça é uma mentira

Um dos mais falsos neutrais países do mundo voltou hoje a mostrar a sua verdadeira face, impregnada de uma cínica xenofobia.

A Suíça é uma daquelas coisas estranhas que prefere nunca tomar posição, mas tomando-a sempre. Seja sob a capa do implacável negócio, onde o dinheiro é que mais ordena, seja sob a capa de uma qualquer igualdade. Como no caso dos minaretes.

A Suíça é uma mentira.

A máquina do tempo: Guilherme Tell e a grande oportunidade perdida

 

 Diz a tradição que foi a 18 de Novembro de 1307, faz hoje 602 anos, que se deu o episódio de Guilherme Tell, a história da flecha, da maçã e da cabeça de seu filho. Todos conhecem a lenda que inspirou poetas, escritores e o grande compositor  Rossini que criou uma ópera com o nome do herói suíço, cuja abertura é particularmente famosa. A história é assim: Guilherme Tell e o filho, ao passarem pela praça central de Altdorf não saudaram, como era obrigatório o símbolo do domínio dos Habsburgos, o chapéu de Gessler, o tirano que, em nome dos austríacos, governava o território. Presos, Tell  foi condenado a disparar com a besta uma frecha sobre uma maçã colocada em cima da cabeça do menino.

Situando-se a 50 passos, atada a criança a uma árvore e colocada a maçã sobre a sua cabeça, Tell disparou, acertando na maçã. Porém, vendo que Tell tinha uma segunda frecha, o governador perguntou-lhe para que a queria: «Para atravessar o teu coração, caso tivesse morto o meu filho!» A lenda de Guilherme Tell tem várias versões. Nas crónicas de Melchior Russ de Lucerna, por exemplo, do último quartel do século XV, Tell aparece como o principal herói da luta pela independência travada pelos primeiros cantões.  

A ciência histórica contradiz as lendas, pondo mesmo em causa a existência de Tell. Porém, no imaginário popular suíço, ele é uma figura com que os helvéticos se identificam – numa recente sondagem, verificou-se que 60% dos cidadãos da Confederação acreditam que ele existiu. Para o escritor argentino Ernesto Sábato, quando Tell acertou na maçã, perdeu-se uma grande oportunidade de ocorrer uma tragédia na Suíça…

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A Suíça é um país bonito. Visitei-o há uns anos na Primavera, por altura da Páscoa. Apanhei alguns daqueles fortes nevões sem os quais a Suíça tem tanta graça como o Algarve sem sol ou a Alemanha sem cerveja.  Com a minha mulher e outro casal amigo e o seu filho (o Gomes Marques, a Célia e o António Pedro), percorremos o país que, como sabemos é pequeno – uma área ligeiramente superior à soma do Alentejo com o Algarve – ao longo de um pouco mais de uma semana. Chegados de avião a Zurique, visitámos depois as demais cidades – Genebra, Lausana, Basileia, Montreux, Lucerna, Zermatt, os Alpes… (estive a ver as fotografias, mas não sei se o itinerário seguiu esta ordem). Quando atravessámos a fronteira e chegámos a França, após uma maravilhosa viagem sem incidentes, sentimos uma certa sensação de alívio. Porquê?

A Suíça é um país muito bonito, mas é um bocado monótono, os suíços são inteligentes e diligentes, fabricam relógios, chocolates, canivetes e tudo isso, mas são um pouco, como hei-de dizer … (ia a dizer chatos) previsíveis em demasia. Para nós, latinos, habituados a uma certa balbúrdia, fora e dentro das cabeças, toda aquela limpeza, método e arrumação são enervantes. Contou-nos uma imigrante portuguesa que quase foi expulsa por, no Natal, estar a partir nozes que lhe tinham chegado de Portugal. Os vizinhos acharam o ruído insuportável e chamaram a polícia que a intimou a cessar de imediato a operação. Senão…

Pese embora este irritante (para nós) feitio miudinho, não pode deixar de surpreender como, quase sem recursos naturais, num território pequeno e super-povoado com quase oito milhões de habitantes, consigam ter um dos níveis de vida mais elevados do mundo. Embora, num registo diferente, surpreenda também, como tão civilizados, só em 1971 tenha sido concedido o direito de voto às mulheres, sendo que, até então, a maioria das cidadãs entendia não dever votar.

Recusando-se a integrar a União Europeia (não sei se resistirão durante muito tempo), conservam a moeda, o fortíssimo franco suíço, mantendo a condição de principal praça financeira do mundo na gestão de fortunas, lugar que ocupam mercê de um blindado sigilo bancário que permite aos europeus ricos fugirem à apertada rede fiscal que vigora na União. E não só.

Um país impecavelmente limpo que mantém essa limpeza asséptica mercê da sujidade que reina em seu redor. Uma jangada, um paraíso fiscal, num oceano mafioso. Em todo o caso, o cerco a esta vergonha vai sendo apertado: em 2 de Abril deste ano, depois da reunião do G20 em Londres, a Suíça foi finalmente incluída pela OCDE na lista dos paraísos fiscais. O governo helvético comprometeu-se a dar mais informações sobre os depósitos nos seus bancos. O que irá prejudicar este negócio tão próspero que teve avultados lucros quando, após a segunda Guerra Mundial, tendo desaparecido no fumo dos fornos crematórios do tio Adolfo muitos dos depositantes judeus, os valores depositados foram incorporados no património dos bancos.

Depois foram os políticos corruptos, os barões do narcotráfico e outros activos empreendedores internacionais a usar os bancos suíços como máquinas de lavar para o seu dinheiro. Por isso, deixar de ser um porto seguro para os miseráveis que enriquecem com a miséria e com a morte, vai ser um duro golpe para um país tão limpo, tão certinho. Mas de uma coisa podemos estar certos: tudo se passará sem tragédia. Rodeada pelo oceano da tragédia dos outros, na jangada Suíça não acontecem tragédias.

Em «Heróis e Túmulos», o escritor argentino Ernesto Sábato tem uma frase lapidar sobre o tema: «os mitos nacionais» (…) «são fabricados intencionalmente para descrever a alma de um país, e assim me ocorreu naquela circunstância que a lenda de Guilherme Tell descrevia com fidelidade a alma suíça: quando o arqueiro acertou na maçã com a flecha, por certo no meio exacto da maçã, perdeu-se a única oportunidade histórica de uma grande tragédia nacional. Que se pode esperar de tal país? Uma raça de relojoeiros, no melhor dos casos.»

Por falar em relógios: de72 em 72 horas, há um suicídio na Suíça. É a principal causa de morte no país, que tem uma das mais elevadas taxas de suicídio do mundo.  Porque será?