Para o amigo Carlos Loures: Às voltas com a gramática

Amigo Carlos Loures,

 

O texto que se segue é de um grande amigo meu, Magalhães dos Santos, a quem pedi opinião sobre " A maioria dos comentários revela…(e não revelam)".  Simples curiosidade.

 

934      GRANDE DICIONÁRIO DE DIF1CULDADI~ E SUBTILEZAS

 

 O excomungado, no lance, foi o grande escritor Rodrigues Lo Corte na Aldeia, redigiu:

“Nem é outra cousa os desvarios e desalentos dos que amam.”

O escritor pecou, segundo a Gramática, a qual ensina que ele deveria ter escrito:

‘Nem são outra cousa os desvarios.

Mário Barreto, benemérito gramático brasileiro, foi mais indulgente para com

os pecadores, visto que admitiu a possibilidade do singular, quando no predicado não

entra a palavra coisa. Citou ele um dia o mesmíssimo Rodrigues Lobc ‘Os títulos é coisa conveniente e necessária. . • (‘).

Até aqui, falou a Gramática.

Agora vão falar os escritores, isto é, os pecadores, e eu serei humilde mas sincero advogado.

 

 

Venha em primeiro lugar o grande Mestre da Arte de Dizer e de de Escrever

o glorioso Padre António Vieira. Redigiu assim num dos seus modelares

sermões:

“A morte do Infante, considerada da parte de Deus, foi ciúmes”.~

Isto vem assim mesmo no volume xv, pág. 205 (ed. 1748).

Note-se bem — a morte foi (e não foram) ciúmes.

Distracção pecaminosa! — vociferam os gramáticos julgadores. E eu observo que Mestre António Vieira sempre era muito distraído! Em outro dos seus magistrais Sermões, redigiu outra vez com o verbo no singular, onde a Gramática impõe o plural:

Os mais celebrados montes, que há no mundo, é o monte Olimpo, o monte

Sinal, o monte Tabor e o monte Olivete~ (xv, pág. 110, cd. 1748). Exclamam, agora, alguns gramáticos:

—Isso, agora, já é mania, o emprego do verbo no singular.

Venha, então, outro maníaco (sem ofensa), Mestre Alexandre Herculano, Cartas (11, 250):

O         cânon enfitêutico, o censo, qualquer quota no produto da terra, senhorio directo de um prédio. . . reserva para si. . . é, em rigor a renda de um capital.

Mas, então (objectam-me os puritanos), o senhor quer fazer violência à Gramática? Não se tratará de meros descuidos dos escritores, tal concordância, ou antes, tal discordância do singular, em vez do plural?

 

 

(1)               Cf,, neste mesmo artigo, a alínea 11.

 

 

 

 

 

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Eu sinto as mãos dos gramáticos prestes a agredirem-me, se me atrevo a proferir uma desobediência, mas peço justiça; peço que, antes de me condenarem, vejam não ser eu o desobediente, mas sim a fluência natural de quem fala e escreve.

Aos meus exemplos de Vieira e de Herculano ajuntarei mais dois, registados pelo douto vernaculista Padre Pedro Adrião, no belo livro Tradições Clássicas da Língua Portuguesa.

Ai se lê:

‘Já tudo é cinzas; tudo, destruição.. (De Gonçalves Dias.)

‘Um livro nem sempre é uma obra: as mais das vezes é palavras.,… (Castilho.)

o que indelevelmente diviso na tela do meu espírito é as grandes árvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos.. (Camilo.)

Senhores gramáticos: tenham piedade para com os grandes escritores de Portugal. Consintam que, mais uma vez e também neste facto de expressão, o uso seja o inspirador da lei. Permitam que o verbo ser concorde com o sujeito

ou com o nome predicativo (nos casos, mencionados), consoante ao espírito de quem escreve ou fala apeteça uma redacção ou outra, pois tal duplicidade sintáctica é humana, é natural, é psicologicamente necessária.

Evidentemente, a concordância ‘Migalhas é pão” está de acordo com a gramática, e evita a detestável sequência fónica — são pão.

Mas, se Gonçalves Dias escreveu, contra a Gramática, ‘Já tudo é cinzas., escreveu eufonicamente melhor, escreveu expressivamente melhor do que se houvera redigido: Já tudo são cinzas.

Além do ciciar de “são cinzas”, o é tem expressividade. Tudo é só isto:

cinzas.

Quando o genial Camilo escreveu “o que diviso na tela do meu espírito é as grandes árvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos”, o Mestre não quis saber da Gramática, e só o Estilo ganhou com isso, pois o é ficou mais intenso (no significado de ser) do que um esbatido e pouco enérgico são.

Não se julgue, aliás, que eu sou apologista daquelas infracções dos Mestres que nada têm a seu favor senão o dormitar natural. Para prova, lembro o que escrevi nos Estudos Vernáculos (pág. 24), ao estudar a linguagem de Camilo:

‘É horas…” Na pág. 7 da Luta de Gigantes aparece a redacção:

‘É já horas de lhe falar de umas paixões do tempo que foi”. Não é para imitar

semelhante construção, visto que a Gramática, neste ponto fidelíssima ao g
n
io da

 

 

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língua, determina que se realize, por atracção, a concordância do verbo ser empregado impessoalmente, com o nome predicativo.

Aliás, o próprio Camilo escreveu logo após, na mesmíssima pág. 7:

‘Eram paixões de uma classe.

Portanto:          são já horas, e não ‘é já horas..

No entanto, devo acrescentar a esse meu comentário, de 1930, que estudos posteriores me deixaram esta explicação (de modo nenhum defesa) do erro de Camilo. Ao escrever “é já horas”, o escritor, de certo, tinha em mente ‘é já tempo , e esta influência analógica determinou o lapso.

Em resumo, e a meu ver, tão legítimas devem ser as concordâncias deste tipo assim:

— ‘Os sinos são uma coisa poética e santa.. (Herculano.)

— ‘Eram tudo memórias de alegria.. (Camões.)

— A vida são dois dias (frase de nós todos).

— Migalhas é pão (maneira mais expressiva e gramatical) como legítimas devem ser igualmente consideradas as construções destoutro género sintáctico:

—        ‘A morte foi ciúmes.. (Vieira,)

— Tudo é cinzas.» (Gonçalves Dias.)

— ‘O que nos falta é exemplos. (Camilo.)

E, ainda que os respeitáveis gramáticos não queiram, a não menos respeitável vida da Expressão portuguesa quer, e há-de querer mesmo.

Contra factos teimosos da linguagem de pouco valem argumentos rígidos ou intolerantes da Gramática.

Esta só vence, quando não exorbita. E se exorbita, nem sequer convence, como provam as belas páginas da literatura portuguesa e as bocas populares nas suas dições louçãs. (G. C.).

*

 

 

 

Qual será a frase correcta — ‘Na mina estão soterradas algumas dezenas de operários ou “Na mina estão soterrados algumas dezenas de operários” ?

Consoante já frisei no meu livro intitulada Contra os Gramáticos, há duas espécies de concordâncias — a gramatical e a semiótica, mental ou latente..

Ora, revertendo às frases apresentadas, temos isto:

Concordância semiótica, mental ou latente— “Na mina estão soterrados algumas dezenas de operários”.

A concordância semiótica é, muitas vezes, mais lógica e por isso deve preferir-se, mesmo que a Gramática proteste.

 

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São os operários que, de facto, estão soterrados, e não as dezenas.

Para reforço dou este exemplo:

Comi ontem uma dúzia de carapaus estragados Se inverter, direi — comi, estragados, uma dúzia de carapaus.

Semelhantemente: ‘Aquela dúzia de carapaus estavam estragados’ é concordância semiótica, perfeitamente lógica.

Aliás, já neste Dicionário apresentei a redacção de Frei Luís de Sousa, que é assim: ‘se tirarão um grande número de corpos’, comparável à frase que estou a estudar.

Claro que também, gramaticalmente, se podia redigir— ‘se tirará um grande número de corpos’. Mas Sousa fez a concordância mental— ‘se tirarão um grande número de corpos’.

Nas mesmas condições, temos, repetindo:

Concordância mental ou semiótica — ‘Na mina estão soterrados algumas dezenas de operários.’

A lógica, portanto, explica certas concordâncias semióticas, mentais ou latentes, embora não gramaticais. (P.).

 

 

 

 

 

Comments


  1. Creio, depois de ter consultado o meu guru Lindley Cintra, que a frase correcta é «a maioria dos comentários revela», porque o sujeito da oração é «maioria dos comentários» (não se colocando a dicotomia «maioria» vs «comentários»), o predicado deve ser singular – «revela». Acho que, gramaticalmente, é assim. Na linguagem falada, o «revelam» é perfeitamente aceitável e talvez até mais usual. Assisti a uma discussão do Fernando Namora com um revisor (aliás, muito competente) que insistia em emendar no diálogo de um romance a palavra «bêbado» pondo «bêbedo». A discussão eternizava-se, até que Namora perdeu a calma e gritou.«Porra! Eu sei que bêbedo é mais correcto. Mas a minha personagem (um pescador,salvo erro)não sabe. É bêbado e não se fala mais nisso.» Nem sempre o que é mais correcto é o mais aconselhável e a nossa frase em discussão pode ser um exemplo disso. 


  2. Esqueci-me de invocar o apoio do Padre António Vieira referido por Magalhães dos Santos: «A morte (…) foi ciúmes» e não foram ciúmes. O sujeito é a morte e não os ciúmes, logo, o predicado é foi.  Tal como revela.


  3. Plenamente de acordo. Um abraço.


  4. Adão, quanto mais procuro, mais confuso vou ficando. Agora surge-me uma opinião diferente – no «Prontuário Ortográfico» , de Magnus Bergstrom e Neves Reis, a propósito da concordância, ou seja, a correspondência de género e número entre substantivos e adjectivos, ou de número e pessoa entre verbos e restantes palavras, diz que se um colectivo singular, servindo de sujeito (maioria dos comentários), tiver um adjunto plural regido da preposição de, a concordância do verbo faz-se com o colectivo ou com o adjunto. Dá um exemplo: «o exército dos inimigos foi avistado; a maior parte dos soldados mostravam-se desanimados». Portanto, meu amigo, tinhas razão – pode dizer-se das duas maneiras. Não procuro mais – ficamos assim, num empate.


  5. És um porreiraço. Eu não reivindico vitória nenhuma. Sou um indivíduo que procura escrever correctamente porque tenho um enorme respeito pela língua, arrepiando-me as asneiras, mas sou um nabo no esmiuçar destas coisas. Cada macaco no seu galho. Obrigado pelos ensinamentos. Aproveito para dizer que li ontem ou anteontem “A quando” em vez de “Aquando” (Brrrrrr)

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