A máquina do tempo: Santo Eugenio e os campos de extermínio

Bento XVI, apelou no domingo passado, durante a tradicional oração do Angelus na Praça de São Pedro, a um sentido mais religioso destas festividades, dizendo que o Natal «não é um conto para crianças», mas sim a «resposta de Deus ao drama da humanidade em busca da verdadeira paz».

A mensagem começou com uma expressão de pesar porque em «Belém, que é uma cidade símbolo da paz na Terra Santa e em todo o mundo, não reina a paz». Bento XVI explicou em seguida que o Natal «é profecia de paz para cada homem, compromete os cristãos na tomada de consciência de dramas, com frequência desconhecidos e escondidos, e dos conflitos do contexto em que se vive». Recordou que o Natal tem que fazer com que os homens se transformem em «instrumentos e mensageiros de paz, para levar o amor aonde há ódio, perdão onde haja ofensas, alegria onde haja tristeza e verdade onde haja erros».

Entretanto, a comunidade judaica critica a decisão do papa de aprovar as «virtudes heróicas» de Pio XII, primeiro passo para a sua beatificação, apenas faltando que se reconheça um milagre feito por sua intercessão para que Eugenio Pacelli seja considerado beato.

Será que os judeus têm razão? Vamos ver.

Eugenio Pacelli, que vemos na foto com o Führer, foi tão isento, ao longo da 2ª Guerra Mundial, que lhe chamavam «il Tedesco». Todos sabiam que o cardeal Pacelli era germanófilo. Parte da sua formação académica decorreu na Alemanha, em Munique. Entre 1925 e 1929 esteve instalado em Berlim. Foi nesse último ano que Pio XI o chamou ao Vaticano e o nomeou secretário de Estado.

Foi portanto ele que negociou com o governo de Mussolini o Tratado de Latrão (1929). A Igreja Católica recebeu 750 milhões de liras e, em contrapartida, reconheceu o regime fascista. Foi Pacelli quem, em 1933, supervisionou os termos da Concordata entre o Vaticano e o governo de Hitler, que monsenhor Gröber, der braune Bischof (o «bispo nazi» de Friburgo), redigiu, rompendo em nome da Igreja o isolamento diplomático a que a comunidade internacional votara o novo governo alemão.

Em 1939, Eugenio Pacelli, sucedeu a Pio XI, tomando o nome de Pio XII. A sua relação com Mussolini e Hitler sempre foi cordial. Nunca denunciou publicamente os crimes que estavam a ser cometidos, nomeadamente, pelo governo do III Reich. Não podia deixar de saber da Endlösung, a «solução final», que previa a eliminação de todos os judeus da Europa, calculados em 11 milhões.

No Angelus do Natal de 1942, lá disse qualquer coisa discreta sobre as «centenas ou milhares» de pessoas que, sem outra culpa que não a sua nacionalidade ou etnia, estavam «assinalados pela morte e por uma progressiva extinção». Sabia também que muitos dos que iam para as câmaras de gás não era pela sua etnia, mas sim pela sua opção política ou pela sua orientação sexual. Entre os esquerdistas e os homossexuais executados, havia numerosos católicos.

Quando, já depois da execução de 335 reféns civis, o Gueto de Roma foi, em Outubro de 1943, cercado por tropas SS, sendo executados 75 judeus, Pio XII permaneceu em silêncio. A Santa Sé mandou uns telegramazecos e fez uns telefonemas para o embaixador alemão, aceitando as justificações ladradas pelo diplomata. Em vista desta reacção tão violenta os alemães atemorizaram-se e, ainda em Outubro, num Domingo, embarcaram 1060 judeus, cidadãos italianos, directamente para Auschwitz.

Pode dizer-se que, com o seu estranho silêncio, foi um cúmplice de Hitler e de Mussolini. E dispunha da única estação de rádio independente na Europa que estava sob a bota hitlerista. Depois da guerra, os seus defensores deram como desculpa que, se o papa se tem manifestado, isso iria radicalizar as posições dos ditadores.

Mostrando a sua solidariedade com as vítimas do nazismo, quando a guerra terminou, Pio XII proporcionou passes, salvos condutos e passaportes a criminosos de guerra, fascistas e nazis, bem como a colaboracionistas italianos que estavam abrigados no Vaticano e assim puderam recomeçar as suas vidas no Paraguai, na Argentina ou em Espanha. E para cúmulo da severidade, deu-lhes pequenas quantias em dinheiro. Na realidade, um homem que fez tanto bem, merece ser beatificado. Vejam lá se não se atrasam em juntá-lo à Corte dos santos.

Para terminar: eu acho que os judeus têm razão em protestar contra o projecto de beatificação de Eugenio Pacelli. Porém, será que Bento XVI não deveria ter já denunciado as atrocidades que os soldados israelitas cometem diariamente contra os civis palestinianos?

Provavelmente, tal denúncia impedi-lo-ia, após a sua morte, de ser beatificado.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Tambem são uns pecados pequeninos…

  2. Adão Cruz says:

    Maravilha de texto, amigo Carlos. Tudo isto não é novidade para mim que já o sei há muitos anos, e outros o sabem cono nós, mas fecham-se em copas. A evidência é para toda esta gente o pior diabo que lhes pode aparecer. Têm mais medo dela do que do diabo “real”. A monumental hipocrisia e a falsidade da igreja, como acontece nos casos que descreves, são os grandes pilares da sua permanência em pé e de toda a sua estratégia perante a humanidade. Sempre assim foi e sempre assim será até quando deus quiser.

  3. Adão Cruz says:

    Isto é cada beato e cada santo que a igreja fabrica!!! A começar pelo Escrivá, cuja vida e comportamento é bem conhcido de todos aqueles que não se deixam comer por lorpas. Não demorará muito tempo que canonizem Marcinkus. João Paulo II, que sabia de toda a sórdida actividade de Marcinkus e com ele sempre colaborou (ao contrário do seu antecessor assassinado João Paulo I), também deve estar a caminho. Eles lá sabem, melhor que ninguém, os valores da santidade.

  4. Carlos Loures says:

    «Pecados pequeninos» da Igreja Católica, como diz o Luís, davam para fazer uma grande enciclopédia. Teria verbetes de A a Z e milhares de páginas. O Escrivá de Balaguer e o seu Opus Dei, como dizes, Adão, dava para vários verbetes e pano para mangas.

    • Luís Moreira says:

      Eh, Carlos, a ironia tambem cabe aqui. Os pecados que tu apontas, mesmo que um só, já valia um inferno, quanto mais milhões de mortes…

  5. Carlos Loures says:

    Claro que a ironia cabe aqui e eu percebi que estavas a ironizar. Utilizei a tua expressão «pecados pequeninos», embora todos nós saibamos quão gigantescos foram. Grave foi o branqueamento que Pio XII fez da «Solução final», transformando os milhões de mortos em «algumas centenas» ou, vá lá, «uns milhares». Canonizar um bandido destes só poderia lembrar ao Diabo, Deus seja louvado!

  6. maria monteiro says:

    “Canonizar um bandido destes só poderia lembrar ao Diabo, Deus seja louvado!” é sempre isso que penso quando entro na “minha igreja” :Igreja de Santo Eugénio no Bairro da Encarnação … tem um fresco na capela mor que representa a Sagração de Eugénio Pacelli como bispo (depois Pio XII)

  7. Carlos Loures says:

    Maria, com essa minha exclamação de repúdio, não queria ofender a fé católica, que respeito como a todas as outras – queria apenas salientar a distância que vai do que se apregoa nas homilias ao que se pratica. A diplomacia e prática política da Igreja, ao longo dos séculos, tem sido sempre a de estar ao lado dos poderosos, ajudando-os a espezinhar os deserdados. Bem sei que «deles, dos pobres, será o Reino dos Céus», mas, e enquanto estão na Terra? E, principalmente, se não houver Céu?


  8. Parece que o inferno já foi desactivado, a igreja já fechou as fornalhas. O céu deve estar para breve…com a crise que anda por aí!

  9. Carlos Loures says:

    Parece que, por enquanto, só foi desactivado o Purgatório. Ouvi dizer que iam construir no local um centro comercial ou um parque de estacionamento. O Céu e o Inferno ainda continuam a funcionar, embora com menos clientela. É a crise global.

  10. maria monteiro says:

    Quando se começou a falar na “grande santidade” de Pio XII formaram-se grupos de oração para rezarem pela sua canonização. Deus perdoa, nós devemos saber perdoar também não quero ofender a fé católica… mas daí até rezar para canonizar um criminoso é absurdo, até parece coisa do diabo

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