A Carbonária, a «Coruja» e a conspiração do Regicídio – 1 (Centenário da República)

Com mais este terceiro texto (desdobrado em dois) sobre o tema do Regicídio encerrarei, para já, este assunto. Com a plena consciência de que muito (ou mesmo quase tudo) fica por dizer. Tendo servido de assunto a muitos livros, a questão do Regicídio não se esgota em pequenas crónicas que, como esta, apenas permitem aflorar, muito superficialmente, alguns aspectos. Nos textos anteriores, além de um enquadramento político do atentado, vimos como ele se passou.

Como disse no texto anterior, todas as reconstituições iconográficas do Regicídio são, no mínimo imprecisas. A que vemos acima é, apesar de tudo, uma das menos fantasiosas. O cenário está perfeito, é a Rua do Arsenal sem invenções. O Costa está a ser agarrado pelo cívico que lhe vai disparar um tiro na cabeça. Mas, à esquerda vemos Buíça, que tinha ficado no Terreiro Paço e ali terá sido acutilado e morto. Todavia, mesmo com este erro, talvez seja, entre as muitas dezenas de reconstituições que vi, a que menos mente.

Em todo o caso, ficou na sombra algo que nunca se esclareceu. No Terreiro do Paço, além de Buíça e de Costa, quantos mais elementos intervieram. Pela peritagem da Polícia Científica, chega-se à conclusão de que foram pelo menos cinco, os que participaram no atentado. É uma evidência que os projecteis encontrados, nos corpos, no landau, nas arcadas, foram provenientes de cinco armas diferentes, embora duas delas fossem iguais – carabinas Winchester de calibre 351.

Identificou-se também as munições de calibre 7,65, da pistola Browning do Costa. No landau, foram encontrados vestígios de projécteis de calibre 6,35 e, também no landau, a perfuração de um projéctil 5,5 do chamado tipo «Vello-dog», revólveres de pequeno calibre e fraco poder de penetração que os ciclistas usavam para afastar os cães.

Alguns destes disparos parecem ter sido feitos apenas para espalhar o pânico. Algumas testemunhas oculares, falam num intenso tiroteio. Assim, Buíça e Costa teriam a missão de matar os membros da família real, enquanto os outros três serviram para criar um clima de confusão e terror. E, tanto os dois regicidas mortos como os nomes que foram apontados (entre eles, o do grande escritor Aquilino Ribeiro, que sempre negou ter participado na acção) como sendo os dos seus acompanhantes, pertenciam a republicanos.

No imaginário popular, cristalizou-se a ideia de que o atentado mortal de 1 de Fevereiro de 1908 foi obra de republicanos ao serviço do Partido Republicano Português. Outra ideia feita é a de que o Regicídio constituiu um marco no caminho para a implantação do novo regime. Quanto a mim, são duas ideias falsas.


Romagem de populares às campas dos regicidas.

Talvez a confusão derive do facto de se saber que o atentado foi executado por carbonários e de se considerar que a Carbonária era uma organização exclusivamente republicana (frequentemente era designada por «exército secreto da República»). Ora isto não corresponde à verdade. Havia monárquicos na Carbonária.
Para já, vamos ver, em traços muitos largos, no que consistia a Carbonária.

A Carbonária, proveniente do italiano “carbonaro” (carvoeiro) foi organizada de acordo com o modelo maçónico, embora com uma nomenclatura diferente. Obedecendo a um conjunto de grandes princípios (a fé e a virtude, por exemplo), obrigava os candidatos a demonstrar, antes de admitidos no seio da Ordem, serem pessoas de bom carácter, dispostos a ajudar os infelizes, a combater as injustiças, etc.

Só passada esta prova inicial, eram admitidos como “aprendizes”. Todos os carbonários, se tratavam entre si por tu e por “bons primos”, substituindo o tratamento de “irmãos”, da Maçonaria. As estruturas equivalentes às lojas maçónicas, designavam-se por “choças”. Havia quatro graus iniciáticos – rachadores, carvoeiros, mestres e mestres sublimes.

Falando das origens: em 1822, deslocou-se a Portugal um grupo de oficiais italianos para organizar aqui uma Carbonária, inspirada no modelo italiano. Houve novas tentativas ao longo dos tempos, mas só 1896, surgiu com a sua estrutura definitiva a Carbonária Portuguesa que iria ter um papel importante no derrube do regime monárquico.

Artur Augusto da Luz Almeida, bibliotecário da Câmara Municipal de Lisboa e diplomado pela Faculdade de Letras, com o Curso Superior de Letras, sozinho organizou toda a estrutura: “choças” de 20 homens, cujos 20 chefes formavam uma “barraca”, sendo que cada 20 chefes de “barraca”, constituíam uma “venda”. Portanto, uma «venda» correspondia a cerca de 8 mil homens. Cada responsável de “venda” fazia parte de uma cúpula – a «Suprema Alta Venda».

Havia ainda os “canteiros”, núcleos de base que eram compostos por cinco Bons Primos, por Rachadores que se conheciam a todos entre si, mas que não conheciam mais ninguém. Era uma medida de segurança, que previa a prisão, a tortura, e a impossibilidade de, nessas condições, denunciar mais do que os quatro outros membros do mesmo “canteiro”.

Quando se reuniam nos outros órgãos apresentavam-se sempre todos de capuz negro ou com a cara mascarrada de carvão, o que tornava assim impossível a identificação dos superiores, os quais, no entanto, conheciam os subalternos.

As primeiras Choças foram formadas com elementos vindos da Maçonaria Académica. Numa das primeiras sessões da “Alta-Venda provisória”, foi apresentada a proposta para serem admitidos elementos populares na Carbonária Portuguesa. Proposta aprovada, mas que motivou a saída de «bons primos» que defendiam que só académicos podiam integrar a organização.

A fórmula do juramento que os neófitos pronunciavam perante a assembleia de iniciados encapuçados, era a seguinte: «Juro, pela minha honra de cidadão livre, guardar segredo absoluto dos fins da existência desta sociedade, derramar o meu sangue pela regeneração da Pátria, obedecer aos meus superiores e que os machados dos rachadores de cada canteiro se ergam contra mim se faltar a este solene juramento.

Os populares iniciados, operários quase todos eles, foram colocados nas Choças que com o abandono dos académicos tinham ficado muito desguarnecidas. A primeira Choça exclusivamente formada por trabalhadores recebeu o nome de “República”.

A Alta-Venda, comando supremo da Carbonária, era composta pelo Grão-Mestre eleito na Venda Jovem-Portugal e por mais quatro Bons Primos nomeados e escolhidos por este de entre os membros da Carbonária Portuguesa. Os nomes eram conservados como secretos. Esta Alta-Venda era a instância máxima da Carbonária Portuguesa.

Para além da estrutura civil acima descrita, havia em paralelo uma outra organização constituída por militares, com um organograma similar ao do ramo civil. Por ser gente mais disciplinada e enquadrada hierarquicamente, o ritual de iniciação era bastante simplificado, quase se limitando ao juramento.

Após a implantação da República, a Carbonária ainda foi útil na mobilização popular contra as incursões monárquicas. Porém, as lutas internas nos partidos, nomeadamente a divisão do Partido Republicano Português em diversas outras formações políticas, determinou a extinção do «exército secreto da República»
Por diversas vezes, até ao golpe militar de 1926 que veio a dar lugar à ditadura, várias diligências foram feitas no sentido de recuperar a Carbonária, todas elas sem resultado. Alguns núcleos de carbonários subsistiram – gente que foi recrutada para a «Formiga Branca» de Afonso Costa, por exemplo. A organização enquanto tal, esgotou-se no processo de luta pela República. Implantada esta, deixava de fazer sentido a sua existência.

Foi, portanto desta organização secreta que saíram as ordens para eliminar os membros da família real. Os seus responsáveis máximos sempre negaram ter a Carbonária alguma coisa a ver com o Regicídio. No entanto, os dois regicidas identificados e mortos no local do atentado, Manuel dos Reis da Silva Buíça, 32 anos, natural de Vinhais, professor do Colégio Nacional, e Alfredo Luís da Costa, 28 anos, natural de Casével, Alentejo, comissionista comercial, eram indiscutivelmente membros da Carbonária.

O que se terá passado? Quem mentia?

Carbonários em 5 de Outubro de 1910.

(Continua)

Comments

  1. Raul Iturra says:

    Caro Carlos,
    estava a espera de acabar estas parte da história de Portugal, para comentar. Tenho comigo o livro de de 1850, de Philippo Buonarroti, o fundador da carbonária em Portugal, editado por Chez C Garavay Jeune, em Paris. As tuas dúvidas sobre a certeza do regicídio são mais do que certas. A Carbonária tinha-se especializado em atentados contra figuras proeminentes da Europa, para semear o liberalismo preconizado por Napoleão, quem ao invadir Portugal sem sucesso de por no trono a um seu familiar e destruir cidades, pelo menos deu aço a uma ideia nova, materializada na Constituição de 1828, que impôs ao Rei uma Assembleia para não ser um tirano absolutista. Ainda me lembro quando o actual Conde de Mangualde, tetraneto do Albuquerque da época de Napoleão, contava-me que para salvar a vila, hoje cidade, optara por entregar as chaves da fortaleza e mandar a todos, civis e militares, não opor resistência, evitando assim saquei-os, roubos e violações de direito e de pessoas. Buonarroti já andava por esta terras, novo como era, para impor a República pela que o liberalismo lutava com sucesso. Não é possível esquecer que Buonarroti nã era apenas sobrinho tetraneto de Michelangelo, o arqiconhedido escultor e pintor, era antes, discípulo de Grachus Babeuff revolucionário que com os seus panfletos no seu jornal L’Égalité, tinha já levantado ao povo contra a opressão da aristocracia, com os seu lemas manifestados no seu tecto O Manifesto dos plebeus, de 1885, que mais tarde for seguido pelo de 17995 de Sylvain Maréchal: O manifesto dos Iguais, e bem mais tarde, pelo dos Marxs.Jenny e Karl, com apoio de Engels, o de 1848, o manifesto dos comunistas.
    É a denominada época dos manifestos. Todos eles levaram ao povo a essa procura de se governar a si próprios, dividendo o país em comunas, com um grupo da redondeza, para as governar. Foi assim como nasceu a primeira comuna de Paris e o regicídio dos Bourbon, a Liga dos Comunistas e a revolução francesa. Bem sei que sabe esta história bem melhor do que eu. Queria apenas criar uma ligação entre a comuna de Babeuf, as ideias de Sylvain Marèchal e esses auto governos, acabados sempre a sangue e fogo contra o povo, como acontecera rambém, na base dessas ideias, com o derrubamento dos Bourbon da Itália e a sua substituição pelos liberais Saboya com um último rei Humberto III a morrer em Cascais. O regicídio português que tão bem nos ensinas e ilustras, analisando os desenhos da época é uma consequência da derrubada da Monarquia Inglesa das suas colónias americanas, que inspiraram a Jefferson a escrever o manifesto da Independência, reproduzido poucos anos depois, pelo do Abade Sieyès e Les Droit des Homes e des Citoiyans, incorporados na primeira Constituição Francesa Republicana, e 1795, se não estou em erro quanto as datas, mas não quanto aos factos. É desta cadeia de acontecimentos do povo rebelde, que nasceram as guerras e, bem mais tarde, a libertação do nosso país, não por António Costa, mas por um conjunto de conspiradores que queriam a igualdade desde meados dos Séculos XVIII, com Mozart, Voltaire, a seguir Saint-Simon, que influenciara ao então liberal Karl Marx quem criara a pesquisa de porque havia capitalismo. Com a criação da União Internacional dos Trabalhadores, acaba por ascender a fogueira as revoluções. Mais nada digo, está todo nos meus posts anteriores, ao longo de 2009.
    Os teus textos são brilhantes, eruditos, coloca questões que eu tento responder com estes dois séculos de revoluções. Tinha começado por Sebastião José de Carvalho e Melo, encarcerado e exilado por querer impor a indústria em Portugal. Para quê? Dizia a aristocracia, se com os rendimentos das terras vivemos tão bem! E assim não foi. Morto El-rei e o seu herdeiro, deportados os Braganças para a Grã-bretanha, como me tem referido Duarte Pío e os Van Udem Bragança em casa deles. É a história que eu faço, analisar a vida das pessoas. A morte de Dom Carlos, foi o fim de 200 anos em procura de liberdade, com o exemplo das Colónias britânicas dos Hannover, e das latinas, dos diversos Borbons. Bem sabemos que a história não acabou ai, que o Segundo Presidente da Primeira República, Sidónio Pais, pretendia tornar à monarquia, mas os republicanos e o povo o não o permitiram. A primeira República foi um desastre, Portugal apenas conseguiu estabilidade em 1985, com a entrada na União Europeia, mas neste dias estamos a viver uma volta para trás, com uma não aparente ditadura de quem nos governa

  2. Carlos Loures says:

    Meu caríssimo amigo, muito grato fico por este comentário que tanto enriquece o meu post. Eu diria que o teu comentário é um post com vida autónoma, e que refere pormenores que a minha síntese não contém, completando-a.
    Conforme tenho defendido ao longoi desta série de crónicas sobre o Regicídio e amanhã, no último, acentuarei, o assassínio do rei e do priíncipe herdeiro foi um acto cruel e gratuito, por desnecessário. O Partido Republicano Português, tinha como objectivo a tomada do poder e, portanto, esse desiderato passava previamente pelo derrube da Monarquia. Matar o rei não era necessário, como se viu com o D. Manuel que, com os projécteis da artilharia naval a perfurarem as paredes do Paço das Necessidades, fugiu e nunca mais voltou ao País. Quanto a mim, o Regicídio foi obra de conspiradores monárquicos, dissidentes do Partido Progressista que odiavam profundamente o rei – digamos, que foi um crime com motivações de natureza pessoal. O dinheiro para comprar as armas (caríssimas, pois eram sofisticadíssimas, último modelo da Winchester) terá sido dado por um monárquico, o visconde de Pedralva. O cérebro que planeou o atentado foi, indiscutivelmente o de José de Alpoim, ex-ministro da Justiça e líder da chamada Dissidência Progressista. A execução foi entregue a carbonários republicanos, como o Buíça, professor, e Alfredo Costa, comerciante. Era gente ligada a uma célula paralela da Carbonária, a Coruja, e que funcionava fora do controlo da Suprema Alta Venda, órgão máximo. É uma tese que tem muitos apoiantes, mas nenhuma explicação poderá ser provada, porque toda a documentação, o processo, desapareceu misteriosamente. De modo estranho, inexplicável, monárquicos, republicanos e a própria família real, aceitaram uma explicação disparatada (a de que o crime foi obra de dois desvairados). Toda a gente pareceu interessada em que a verdade ficasse sepultada.


  3. Apesar de tudo, e não se sabendo tudo, a investigação já avançou. Sugiro que vejam Dossier Regicídio -O Processo Desaparecido, meu e de mais autores http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/dossier-regicidio/9789728799786/

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