Ainda o Regicídio (Centenário da República)

Este texto é um apêndice de um outro que aqui publiquei no dia 1 de Fevereiro. Como disse na altura, o meu intuito não é resolver o mistério do Regicídio, mas sim esclarecer sobre o que se passou na tarde daquele dia, em 1908, no Terreiro do Paço. Não porque não gostasse de desvendar esse mistério, mas porque os dados que permitiriam saber o que verdadeiramente esteve por detrás do atentado têm sido sistematicamente ocultados.

Embora se saiba, sem margem para dúvidas, que uma conjura de monárquicos, mais concretamente de gente da Dissidência Progressista, liderada por José de Alpoim e pelo visconde da Ribeira Brava, esteve na base da conspiração. Diz José Luciano de Castro, em «Documentos Políticos»: «Os dissidentes, que para a generalidade do país, são os principais responsáveis da tragédia do 1 de Fevereiro de 1908, e que, se não destruíram a monarquia foi porque não puderam».

No meu romance «A Sinfonia da Morte» encontro uma explicação plausível e na qual acredito; mas trata-se de uma ficção, onde as suposições (plausíveis ou não) são permitidas. Inclusivamente, nos chamados romances históricos, é pelos hiatos da documentação histórica que a teia da ficção passa e se constrói. Mas hoje, ainda não vos falarei da tal célula clandestina dentro da própria Carbonária, a «Coruja» que terá, segundo se julga saber, planificado o crime. Isso ficará para um outro texto. Hoje vou falar do que se passou no Terreiro do Paço em 1 de Fevereiro de 1908, cerca das 17 horas.

Com o auxílio do livro que o meu amigo, o historiador Miguel Sanches de Baêna, publicou em 1990, «Diário de D. Manuel – e estudo sobre o Regicídio) nomeadamente recorrendo a algumas das suas excelentes ilustrações e à peritagem a que ele procedeu, com envolvimento do Laboratório de Polícia Científica, vou tentar reconstituir a posição dos principais intervenientes no drama, os seus passos, o que fizeram durante aquele terrível minuto. A atenção dos peritos incidiu sobre três elementos:

a)-O landau em que a família real viajava.
b)-As roupas vestidas pelo rei e pelo príncipe real.
c)-A análise balística.

Recorrerei ainda a um ou outro pormenor das autópsias aos dois cadáveres.

A imagem que vemos acima, retirada de uma revista francesa da época é totalmente fantasiosa. Também é verdade que ainda não encontrei alguma que correspondesse inteiramente à realidade, mas esta está particularmente errada. Não vou perder tempo a apontar-lhe os erros, pois, praticamente, nada está certo. No desenho abaixo pode ver-se a posição correcta da família real no landau.

Vejamos agora como Buíça e Costa se movimentaram na praça. Já sabemos que Buíça saiu de junto do quiosque e se dirigiu calma mas rapidamente para junto das arcadas do lado poente. Colocando-se à retaguarda do landau, aproximadamente a 5/8 metros puxou da carabina que trazia escondida pelo gabão (uma Winchester calibre 351) e começou a fazer fogo. O primeiro tiro foi mortal. Tomando a gola do uniforme de generalíssimo de D. Carlos como referência, acertou-lhe na coluna vertebral, provocando-lhe morte imediata.

Um outro atirador, munido de carabina também, disparou da placa central, de junto do pedestal da estátua.

Os impactos são ainda visíveis na 13ª coluna das arcadas, a aproximadamente três metros de altura. Ao mesmo tempo, Buíça disparou o segundo tiro. Atingiu o rei no ombro esquerdo a 15 cm do primeiro, a bala rasgou a o capote e desfez a charlateira do dólman que vestia por baixo, atravessando ainda o lanternim esquerdo da carruagem. Foi este impacto que projectou o corpo do rei, já sem vida, sobre D. Amélia.

Foi então que Alfredo Costa interveio. Empunhando uma pistola Browning FN, calibre 7,65m, saltou para o estribo esquerdo e disparou sobre o corpo inerte do rei atingindo-o nas costas, debaixo da omoplata direita.
O segundo disparo atravessou o capote à altura do antebraço, mas sem perfurar o corpo. D. Luís Filipe puxou do seu Colt, calibre 38. Costa disparou sobre ele, atingindo-o à altura do pulmão, mas não o matando.

O príncipe, por seu turno, desfechou quatro tiros sobre o Costa, que caiu, ferido de morte, gritando.

Na fotografia abaixo, em que o modelo veste o capote do rei, a primeira seta aponta sobre a gola vermelha o ponto de entrada do projéctil disparado pelo Buíça. Como medida de segurança, este acertou-lhe ainda no ombro esquerdo. O tiro mais abaixo, que se alojou no pulmão direito, foi o disparado pelo Costa com o rei já morto. A foto mostra os pontos de entrada dos três projécteis.

Vemos a gravata e a camisa de D. Luís Filipe, manchadas com o seu sangue. O disparo do Costa sobre o príncipe, não foi mortal, mas provocou uma ferida muito sangrativa.

Buíça, embora professor num colégio particular, tinha sido sargento em Lanceiros 2 e era um atirador de elite. Foi ele quem, com um tiro disparado já de longe, porque entretanto o landau ia a atingir a esquina com a Rua do Arsenal, disparou um tiro que acertou no rosto do príncipe e o matou. Perfurando-lhe a face, o projéctil saiu pela nuca.

Foi então que o efeito surpresa se desvaneceu e a escolta reagiu. Um soldado de Infantaria 12, Henrique Alves da Silva Valente, atacou o Buíça que, já sem ângulo de tiro ainda o feriu na coxa esquerda. O tenente Francisco Figueira Freire, oficial às ordens do rei, de sabre desembainhado acutilou o Costa, já tombado e depois caiu sobre o Buíça e atravessou-o à altura dos rins. Apesar de muito ferido, rodeado por populares e soldados, ainda mordeu na mão um dos soldados que o atingiu à queima-roupa na cabeça. Quando analisaram a carabina, verificaram que o carregador foi integralmente usado. Buíça não falhou um único tiro.

O relatório médico do exame externo aos cadáveres do rei e do príncipe, revelaram que:

a)– o corpo de D. Carlos apresentava o vestígio de duas balas – uma que atravessou o corpo, deixando orifício de entrada e de saída, e outra que não saiu. A primeira bala, a mortal, penetrou a região dorsal a 2 cm da linha mediana; a segunda entrou na região infra-escapular direita e ficou alojada dentro do corpo.

b)– No corpo do príncipe foram encontradas lesões provocadas por duas balas, uma de efeitos insignificantes e outra causadora da morte. Sabemos que a segunda foi a que Buíça disparou e atingiu D. Luís Filipe no rosto e a primeira foi a de Costa (embora a ordem de disparo seja a inversa).

Sobre as mortes dos dois principais regicidas (foi provada a existência de, pelo menos, mais três), há diversas versões, sobretudo sobre o Alfredo Costa que, segundo as descrições mais verosímeis, foi morto por D. Luís Filipe, mas que segundo outros, teria sido somente ferido pelo príncipe e teriam sido os agentes da polícia que teriam acabado com ele. É relativamente irrelevante.

Em síntese, foi isto que se passou. Num próximo texto, falarei então daquilo que se sabe sobre a conspiração propriamente dita. E sobre a sinistra «Coruja».

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Nunca li nada sobre este assunto tão completo. Como é que o Buiça mantem a firmeza sabendo que não saía dali com vida?

  2. Carlos Loures says:

    Tanto ele como o Alfredo Costa sabiam perfeitamente que iam morrer. O Buíça pediu a um correligionário e amigo que olhasse pelos filhos pequenos. O Costa lamentou-se que ia morrer numa altura em que tinha arranjado uma noiva rica e bonita. Por isso é que não aceito que ofendam a memória deles. A morte do rei e príncipe herdeiro foi um crime condenável e, quanto a mim, inútil. Mas os criminosos foram os que tomaram a decisão – o Alfredo Costa e o Manuel Buíça foram dois desgraçados, metidos numa organização que não aceitava hesitações e recusas muito menos. Calhou-lhes cumprir uma missão e deram a vida para a cumprir.

    • Francisco Abreu says:

      Entraram para a carbonária porque quiseram. O facto de terem recebido ordens não os iliba. Foram assassinos e cobardes. Foram mortos no local por colegas . Saberiam ou não que correlegionários os assassinariam. Tudo isto e a ocultação dos responsáveis que culminou no desaparecimento do processo, eleva o acto a uma perfídia imensa.

  3. maria monteiro says:

    Manuel Buíça e Alfredo Costa, dois homens de coragem no cumprimento da missão.
    Foram mártires pela República e pela Liberdade. Claro que mártires destes não interessou ao Estado Novo que apagou da lápide «Libertadores da Pátria Portuguesa»

  4. Carlos Loures says:

    Foram dois homens de extrema coragem e foram mártires, sem dúvida. Tive ocasião de estudar o percurso da vida de cada um deles e quem não os transforme num estereótipo e os analise como pessoas, não pode deixar de estimar a sua memória. No entanto, convenhamos, Maria, que «Libertadores da Pátria Portuguesa» era uma expressão excessiva. Embora não tivesse sido por isso que o Estado Novo apagou a lápide. Exaltar a figura de regicidas, podia dar a ideia a alguém de limpar o sarampo ao «Botas», que tinha muito mais poder do que um dos reis da Monarquia Constitucional.

  5. Bernardo Santos says:

    Não há pior canalha nem criminosos do que aqueles que matam pelas costas com medo de enfrentar nos olhos as suas vítimas.

    Buiça e Costa são e serão sempre criminosos que pagaram o devido preço. Pena é que fossem apenas eles e não toda a maçonaria e a carbonária. É graças a essa escumalha que tudo está como está actualmente em Portugal. Por muito menos foi derrubada cobardemente a Monarquia em Portugal. Pergunto o que nos trouxe a Republica ???

    16 anos de instabilidade extrema
    48 anos de ditadura salazarista
    36 anos de uma democracia que bem se vê ao que chegou.

    Pensem nisto

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