peça de teatro procura autores

papagueno

Notas para uma peça de teatro plagiada a reescrever urgentemente… ajuda, precisa-se!

Reacção à *reação

Diz Vítor Cunha que “O Aventar é a reacção à reacção“. Discordo. Naquilo que me diz respeito, pretendo ser tão-somente uma “reacção à *reação“. Contudo, como João José Cardoso, “não sou o Aventar” e, confirmo, aturam-me cá por casa e, de facto, não sou muito de ler blogues.

Como dizia o Brad ‘Aquiles’ Pitt, “let no man forget how menacing we are, we are lions!”. Quanto a ‘verão‘, admito, só conheço a terceira pessoa do plural do futuro do indicativo do verbo ‘ver’.

Escrito isto, voltemos ao Homero (agora, ao autêntico) e às palavras de Ájax (‘Ἕκτορ νῦν μὲν δὴ σάφα εἴσεαι οἰόθεν οἶος οἷοι καὶ Δαναοῖσιν ἀριστῆες μετέασι καὶ μετ᾽ Ἀχιλλῆα ῥηξήνορα θυμολέοντα) — sirvamo-nos da tradução de Butler («Hector, you shall now learn, man to man, what kind of champions the Danaans have among them even besides lion-hearted Achilles cleaver of the ranks of men» ou da pièce de résistance (não, não é a Bombe Surprise), a excelente tradução de Frederico Lourenço (VII, 226-8):

Heitor, agora ficarás a saber em combate corpo a corpo

como são os guerreiros que existem entre os Dânaos,

além de Aquiles, desbaratador de varões, com ânimo de leão.

Post scriptum: Até para se perceber “O Homem que Matou Liberty Valance” (aqui, no Aventar, gostamos muito dele: pelo menos, eu e a Carla Romualdo) convém ter tudo isto bem presente. Quanto ao Dutton Peabody, aposto, por mera intuição, no Bardo.

As obras de Shakespeare

Documentário da BBC, legendado em português, sobre as principais obras de William Shakespeare.

Da série Filmes para o 8.º ano de História
Tema 5 – Expansão e Mudança nos secs. XV a XVI
Unidade 5.2. – Os novos valores europeus

Romeu e Julieta

Uma das obras mais importantes de Shakespeare, que segue muitas das características do teatro clássico. Das várias versões para teatro e cinema disponíveis na net, destaca-se a obra-prima de Zeffirelli, de 1968, legendada em português.
ficha IMDb

Carregue para ver o filme

Da série Filmes para o 8.º ano de História
Tema 5 – Expansão e Mudança nos secs. XV a XVI
Unidade 5.2. – Os novos valores europeus

Ter ou não ser (Memória descritiva)

Talvez Shakespeare pudesse ter formulado a famosa dicotomia deste modo – To have or not to be – that is the question. Contudo, para que assim tivesse sido, teria de conhecer a sociedade actual onde, para se ser, para se existir, é preciso ter. Nos nossos dias, perder tempo com introspecções sobre o ser ou o estar? Inútil, pois uma coisa e outra confundem-se – uma olhadela à conta bancária resolve a questão. Se tem, é e está. Não tem? Não existe, é como se não estivesse.

E, no entanto, ainda há poucas décadas, Jean-Paul Sartre e o existencialismo afirmavam a prevalência do ser e o primado da existência sobre a essência, afirmando que a primeira antecede e governa a segunda. Mas o bom William viveu a época em que os dados acabavam de ser, décadas antes, lançados por Lutero e a semente não produzira ainda os seus perversos frutos. O protestantismo vinha impor o dever da riqueza, o pecado de ser pobre e de um homem não poder prover todas as necessidades da sua família, por oposição ao catolicismo que defendeu sempre (e persiste) na pobreza como virtude. E a igreja de Inglaterra aderiu à Reforma, mas não às teses de Lutero. O anglicanismo erradicou o papa, mas conservou toda a restante parafernália herdada de Roma. [Read more…]

O próximo e todos nós

O palhaço

Jornal de Notícias – 2009-12-14

http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?opiniao=M%E1rio%20Crespo

“O louco tem-se por sábio, mas o sábio sabe que ele é um louco.” (William Shakespeare)

O que Mário Crespo descreve aqui tão magistralmente não só diz respeito a Portugal mas a toda a União Europeia e meio mundo, sobretudo aos EUA. Vale a pena ler, é profundo e divertido ao mesmo tempo.

Todavia, quando Mário Crespo, concluindo, escreve

“(…) Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples. Ou nós, ou o palhaço.”

falta diferenciar o seguinte: os nossos sociosistemas, devido a causas conhecidas, viraram às avessas. Isto é um facto. Tendo a sociedade esquecido como vencer a unidade polar (dualidade) entre os antagonistas inseparáveis e indispensáveis, o “sério” e o “palhaço”, ela ficou de índole “palhaça” no seu todo. É daí que resultou o grave desequilibrio da sociedade do qual todos nos ressentimos cada vez mais.

Quanto à forma de nos livrarmos do “palhaço”, porém, é preciso muito cuidado. Como ele faz parte do sistema, qualquer tentativa de irradiá-lo é inútil e levar-nos-ia pelos caminhos de George W. Bush de má memória. Portanto, não adianta tentar identificar, prender ou eliminar os “palhaços”, pois isto levaria a uma sociedade cada vez mais dividida que entrará em confrontação violente aberta. Basta retirar-lhes o “pio”, o poder. (Que alguns cidadãos que, sob o reinado do “palhaço”, cometeram crimes puníveis pela lei, tenham que ser julgados é natural mas não prioritário. Fica para depois porque as penas impostas em tempos de “palhaço” são…”palhaças). [Read more…]

A máquina do tempo: é a arte necessária?

 

 

 

 

 

Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso. Tal como Prometeu, o artista é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra, pela magia da cor, pelo sortilégio do som, cria a beleza para a ofertar aos homens. E produz esta magia usando as mesmas palavras que se utilizam, no dia a dia, para comprar pão, as mesmas cores com que se pintam muros e os mesmos sons que ecoam por campos e cidades. É o poder mágico do homem sobre a natureza hostil que o rodeia, transformando-a, adaptando-a a si. Humanizando-a. E como? Pelo poder da palavra, pela magia da arte. Por isso, enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá. Esta, a natureza da arte, é uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, milhares de filósofos e de poetas discorreram longa e sabiamente sobre este tema. Não vou entrar por aí – o GPS da minha máquina não funciona em labirintos.

 

 

Por isso, a nossa viagem de hoje não nos levará para tão longe. Mais recentemente, nos anos 60 do século XX, num trabalho com o título «A Necessidade da Arte», Ernst Fischer (1899-1972), o ensaísta austríaco,  dizia que «a arte é ela própria uma realidade social. A sociedade necessita do artista, esse supremo feiticeiro, e tem o direito de lhe pedir que tenha consciência da sua função social.» Na verdade, com o advento do capitalismo, surge pela primeira vez na história das civilizações uma classe dominante que não procura colocar, de uma maneira objectiva, a arte ao seu serviço. Pela primeira vez, o artista é livre de qualquer tutela e fica desvinculado das suas obrigações para com a comunidade de que faz parte.

 

Naturalmente que esta desmedida liberdade, longe do o libertar no sentido mais nobre da palavra, o sujeita a uma terrível tirania – à solidão, à angústia e ao desespero. Em alternativa, à submissão. É uma liberdade que, em última instância, o força a enfrentar sozinho toda uma sociedade orientada para o lucro. Das duas uma: ou o que produz é mercadoria vendível ou é rejeitado. Rectifico, portanto: o capitalismo não dá liberdade ao artista – abandona-o, rejeita-o, ignora-o. Dá-lhe a liberdade de aceitar as suas leis ou de não existir.

Voltemos a Fischer: «O artista na época do capitalismo encontrou-se numa situação muito peculiar. O rei Midas transformava tudo o que tocava em ouro: o capitalismo transformou tudo em mercadoria.» A arte passou, pois, a ser uma mercadoria e o artista um produtor. O sistema de mecenato foi substituído por um método de iniciativa privada e por um mercado livre onde a apreciação mercantil da obra ficou à mercê do gosto do público, gosto (de)formado por toda uma dinâmica de relações de mercado. Digamos que um livro, um quadro, uma partitura, têm de submeter-se às contingências da competição mercantil, às leis da oferta e da procura.

Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, viviam de tenças, de sinecuras ou de cargos atribuídos pela Corte. Shakespeare, ainda que burguês de origem, fazia parte da casa do conde de Leicester, submetendo-se a um estatuto feudal. Milton, que foi secretário dos negócios estrangeiros de Cromwell pôde guiar-se por uma norma burguesa, conciliando a sua poesia com as condições em que a criava, com uma total identificação entre a sua obra e as suas concepções políticas e sociais. Também manda a verdade que se diga que os artistas raramente foram gratos a quem os apoiava. Como disse Montesquieu «quase todas as monarquias foram instituídas na ignorância das artes e destruídas porque as cultivaram demais.» Por vezes a arte foi a víbora que tiranos distraídos alimentaram e que os veio a destruir.

Mas então não é um avanço o facto do artista poder criar a sua obra sem ter de agradar aos mecenas, ao rei, a senhores feudais, a burgueses ou ao Estado? Num certo aspecto,  é verdade. Porém, não esqueçamos que agora é a opinião pública que ajuíza do valor da sua obra. E como é formada (ou deformada) essa opinião? Por pedagogos, por gente de cultura? Não. Os chamados opinion makers são, em regra gente ou inculta ou desonesta, frequentemente as duas coisas. O «gosto popular» é formado pela imprensa – tablóides, revistas do coração – pela televisão, da forma que se sabe – telenovelas, reality shows, talk shows e toda essa tralha que nada tem a ver com a cultura. Em suma – o «gosto popular» é construído pelo marketing. No que se refere ao vestuário, à alimentação, a tudo – e também aos hábitos culturais.

Vejamos a literatura. A síndrome de Dan Brown leva a que se produzam em catadupa romances com a dimensão de tijolos competindo em acção e intriga, em teorias da conspiração e teses esotéricas com as séries televisivas e com os filmes de Hollywood. É este tipo de literatura que mais se consome. Está nas grandes superfícies a par com os iogurtes que regulam o trânsito intestinal, com os cereais que mantêm a linha, com o pão tipo esferovite, com as bebidas à base de aditivos… Terão estes livros alguma coisa a ver com arte? Acho que não. Mas têm tudo a ver com as necessidades do mercado.

Saramago, um bom e prestigiado escritor, recorre ao marketing para vender. O que vende milhares de livros seus não é apenas a inegável qualidade da sua escrita, mas a habilidade com que a promoção das suas obras é feita. Atente-se no exemplo recente de «Caim». As declarações que o Nobel produziu em entrevistas sobre a Bíblia são bem mais agressivas do que o livro propriamente dito que se limita a recontar uma história bíblica, virando-a do avesso, mas levando-a a sério. Resultado: a Igreja Católica, mesmo antes de ler o texto, saltou encolerizada, a polémica instalou-se, o livro vende-se a bom ritmo. Ontem, no décimo dia após o lançamento, esgotou-se a 4ª edição – 80 mil exemplares vendidos. É Saramago igual a José Rodrigues dos Santos ou a Margarida Rebelo Pinto? Claro que não. É um bom escritor. Mas numa coisa são iguais –  estão submetidos às leis do mercado, são tutelados pelas regras do marketing.

Dirão, «mas então uma das funções da arte não é precisamente a de entreter, a de distrair? Antes da escrita, quem contava histórias nas cavernas ou as pintava na rocha, não correspondia, nesse esforço de recrear, aos artistas actuais? Sim, uma dos objectivos  da arte será esse. Mas há um outro, mais importante – que é o de chamar a atenção para os problemas do ser humano e da humanidade – «abrir portas fechadas». Voltemos então a Ernst Fisc
he
r.

Criar de acordo com o que o mercado pede é, como disse Fischer, «passar por portas abertas»: «A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas é a de abrir as portas fechadas. A cultura deve ser compreendida como todas as formas de expressão artística e todo o património material é simbólico da sociedade. Esse conjunto é fundamental para a nossa memória e identidade. Quando se promove oportunidade para que todos os grupos, inclusive as minorias, se exprimam culturalmente, fomenta-se o respeito pela diversidade. Assim, a cultura constitui-se como um veículo eficaz de promoção da paz, da cidadania, da coesão nacional». 

Quando o artista trabalha exclusivamente com a preocupação do mercado está a trair a arte. Pessoa escreveu os seus maravilhosos textos não para o mercado, mas para o baú onde os ia arrumando. Os anos 20 e 30 do século XX não estavam preparados para os receber. Morreu apenas tendo publicado o livro menor que foi a «Mensagem». Suspeito de que tinha consciência da sua grandeza. E, se assim foi, mais difícil lhe terá sido não ter destinatários para essa grandeza, gente que o lesse, críticos, leitores… Público, numa palavra.

*

Fischer salienta o carácter mágico da arte. Se for desprovida da magia que provém da sua natureza original, segundo ele, a arte deixa de ser arte. A arte tem a idade do homem e o homem foi, desde a sua origem e face à hostilidade da natureza, um mago. A magia da criação da ferramenta transforma um primata superior num homem. O homem produziu a magia que deu lugar à humanidade. É um produto de si mesmo. Só inventou deuses porque não entendia nem os mecanismos, nem o poder da sua própria magia. Não entendia também a natureza sobre a qual exercia essa magia. E precisava de explicar tudo isso. E a sua magia criou também os deuses e a lenda de que tinham sido os deuses a criar o homem.

A mão precedeu o cérebro no desvendar dos mistérios. A agilidade da mão fabricou o utensílio: mão e utensílio passaram a ser indissolúveis. Por isso disse aqui há dias que «no princípio era o trabalho». O homem primitivo não distinguia a sua actividade do objectivo que a determinava – actividade e objectivo formavam uma unidade. A abstracção veio depois com o advento da palavra. E a palavra veio substituir a magia. Transformou-se ela própria em magia. Os homens eram todos magos. Com a palavra consolidou-se o salto entre animal e ser humano.

Com a palavra nasceu a poesia, como referi num texto em que falei de George Thomson e do seu estudo sobre a origem e a evolução da poesia. Foi-me chamada a atenção para a antiguidade do texto de Thomson (e a primeira edição do texto de Fischer remonta já aos anos 60). As deduções que estabeleço não se baseiam nas últimas descobertas da antropologia, é um facto. Mas não é o estar em dia nessa informação que me preocupa. Há reflexões de Aristóteles que continuam a ser pertinentes. E ele não via a «National Geographic»…

Esta é precisamente um das maiores funções da literatura e arte contemporânea. Finalmente, o homem que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem que se tornou um mágico, o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo.  A arte, em todas as suas formas, era uma actividade comum a todos e elevando todos os homens acima do mundo animal. Mesmo muito tempo depois da quebra da comunidade primitiva e da sua substituição por uma sociedade dividida em classes, a arte não perdeu seu carácter colectivo. Somente a verdadeira e autêntica arte consegue recriar a unidade entre o singular e o universal. Somente a arte consegue elevar o homem de um estado fragmentado a um estado de ser íntegral, total. A arte é uma realidade social.

 

Embora não tenha consciência disso, a sociedade necessita do artista e da arte É a arte, entendida nos seus múltiplos aspectos, que leva o homem a compreender a realidade, e mais , a suportá-la e, até a transformá-la, tornando-a mais humana. A arte é indispensável. Sem ela a humanidade fica amputada e confinada à sua animalidade. Sem arte não há humanidade. Poderá haver robôs ou produtos da engenharia genética. Mas já não serão homens.  

Enquanto houver seres humanos, a arte não morrerá.