O próximo e todos nós

O palhaço

Jornal de Notícias – 2009-12-14

http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?opiniao=M%E1rio%20Crespo

“O louco tem-se por sábio, mas o sábio sabe que ele é um louco.” (William Shakespeare)

O que Mário Crespo descreve aqui tão magistralmente não só diz respeito a Portugal mas a toda a União Europeia e meio mundo, sobretudo aos EUA. Vale a pena ler, é profundo e divertido ao mesmo tempo.

Todavia, quando Mário Crespo, concluindo, escreve

“(…) Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples. Ou nós, ou o palhaço.”

falta diferenciar o seguinte: os nossos sociosistemas, devido a causas conhecidas, viraram às avessas. Isto é um facto. Tendo a sociedade esquecido como vencer a unidade polar (dualidade) entre os antagonistas inseparáveis e indispensáveis, o “sério” e o “palhaço”, ela ficou de índole “palhaça” no seu todo. É daí que resultou o grave desequilibrio da sociedade do qual todos nos ressentimos cada vez mais.

Quanto à forma de nos livrarmos do “palhaço”, porém, é preciso muito cuidado. Como ele faz parte do sistema, qualquer tentativa de irradiá-lo é inútil e levar-nos-ia pelos caminhos de George W. Bush de má memória. Portanto, não adianta tentar identificar, prender ou eliminar os “palhaços”, pois isto levaria a uma sociedade cada vez mais dividida que entrará em confrontação violente aberta. Basta retirar-lhes o “pio”, o poder. (Que alguns cidadãos que, sob o reinado do “palhaço”, cometeram crimes puníveis pela lei, tenham que ser julgados é natural mas não prioritário. Fica para depois porque as penas impostas em tempos de “palhaço” são…”palhaças).

Isto, retirar-lhes o pio, com o avançar progressivo da crise, será cada vez mais fácil, uma vez que o poder do “palhaço” vai criando crescentes e graves problemas económicos a partes substanciais da sociedade, obrigando-a a mexer-se se quiser sobreviver. Então, impelidas pelas urgentes necessidades de grandes partes da população, criar-se-ão duas facções: primeiro, os que reagindo querem encontrar uma via, não importando que seja violenta, para obter uma fatia do bolo cada vez mais escasso e fazendo, assim, o jogo do “palhaço”e, segundo, os que agindo se dedicam às necessidades gritantes que o “palhaço” criou, isto é, às necessidades do próximo. Criam mais bolo. É esta a via da saída.

Será uma corrida contra relógio das duas facções mas se o exemplo bom e mais convincente da segunda facção vingar, então teremos restabelecido o equilíbrio entre o “sério” e o “palhaço”, ficando o “dito cujo” sem pio na mó de baixo prestando serviço à sociedade em vez da sociedade lhe prestar serviço a ele – até que um dia voltemos ao comportamento linear. É esta a grande hora do “palhaço”.

Sob a perspectiva de uma visão extrovertida e sóciocêntrica do mundo, não se coloca essa alternativa apresentada por Mário Crespo – “ou nós, ou o palhaço”. Coloca-se, sim, a alternativa “o próximo e todos nós”. É que todos somos o próximo de todos….

Rolf Dahmer

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