Jesus?!

Eu tenho Deus!

Agradecimento a Osório Mateus

Fui até à Biblioteca Municipal da minha cidade, na esperança de encontrar um livro de ou sobre o autor de teatro e trovas medieval, Anrique da Mota, nascido no século XV e com quem Gil Vicente colaborou. Qual não foi o meu espanto que consegui: um livrinho de 120 páginas numa edição de Osório Mateus (um nome que me era completamente estranho).

Escrevo este post pelo seguinte: pela «Nota Prévia» redigida em 1999 pelos seus organizadores, José Camões e Helena Silva: “Em 1996, quando morreu, Osório Mateus [1940-1996] preparava a edição das Obras de Anrique da Mota destinada a integrar esta coleção”. [Read more…]

Benfica – Gil Vicente

Duas mascotes. Cada qual com os seus pés de barros.

Pedagogia e futebolês: um divórcio litigioso

Ontem, Vítor Pereira, depois de o F.C. Porto ter perdido com o Gil Vicente, disse duas coisas originais: que a arbitragem foi vergonhosa e que o Benfica está a ser levado ao colo. Pelo meio, ainda reconheceu que a sua equipa jogou mal, mas não foi aí que colocou a tónica.

Se é verdade que este discurso me entristece, mais triste fico por ter a certeza de que a conversa seria a mesma se o entrevistado fosse Jorge Jesus, o Benfica o derrotado, com o primeiro lugar a cinco pontos. Se quiserem substituir os nomes, o efeito será sempre o mesmo.

Nada de novo: o campeão, seja ele qual for, alcançará o título sem outro mérito que não seja o de ter sido beneficiado pelos árbitros cujos erros serão sempre mais importantes do que os passes falhados, os remates para a bancada ou o mau posicionamento dos guarda-redes.

Face à absoluta previsibilidade das declarações de dirigentes, treinadores e outros maus actores, faria muito mais sentido ter declarações gravadas para comentar o resultado dos jogos e criar uma linha de apoio ao jornalista desportivo para onde este poderia ligar, passando a ouvir: “Se quer ouvir declarações sobre derrotas, escolha 1; se quer ouvir declarações sobre empates, escolha 2; se quer ouvir declarações sobre vitórias, escolha 3; se quer ser alvo de blackout e arriscar-se a ser agredido, escolha 1…”

O FC Porto perdeu com o Gil Vicente…

…e o verniz estalou outra vez.

Onde é que eu já vi este filme?

Gil Vicente Campeão

Os de Barcelos são campeões…

O terramoto de 1531 – faz hoje 479 anos

Com um epicentro algures entre Azambuja e Vila Franca de Xira, no dia 26 de Janeiro de 1531, faz hoje 479 anos, um terramoto destruiu parcialmente Lisboa. Sismo que, segundo se julga, pouco terá ficado a dever ao de 1755. No entanto, a cidade não era tão grande, nem tão populosa, embora para a época, fosse considerada de enorme dimensão – teria cerca de 100 mil habitantes (contra os 275 mil de 1755).

As zonas da cidade que foram atingidas não terão também sido as mesmas. Como exemplo desta afirmação, o Hospital de Todos os Santos, no Rossio, não ficou significativamente danificado, vindo porém a desaparecer no sismo de 1755. Sabe-se também que, embora com menos danos registados, o Ribatejo e o Alentejo foram regiões duramente atingidas. Desde o dia 7 que se verificavam abalos, mas o mais grave foi o de 26 quando, ao princípio da madrugada, a terra tremeu por três vezes. [Read more…]

A máquina do tempo: é a arte necessária?

 

 

 

 

 

Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso. Tal como Prometeu, o artista é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra, pela magia da cor, pelo sortilégio do som, cria a beleza para a ofertar aos homens. E produz esta magia usando as mesmas palavras que se utilizam, no dia a dia, para comprar pão, as mesmas cores com que se pintam muros e os mesmos sons que ecoam por campos e cidades. É o poder mágico do homem sobre a natureza hostil que o rodeia, transformando-a, adaptando-a a si. Humanizando-a. E como? Pelo poder da palavra, pela magia da arte. Por isso, enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá. Esta, a natureza da arte, é uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, milhares de filósofos e de poetas discorreram longa e sabiamente sobre este tema. Não vou entrar por aí – o GPS da minha máquina não funciona em labirintos.

 

 

Por isso, a nossa viagem de hoje não nos levará para tão longe. Mais recentemente, nos anos 60 do século XX, num trabalho com o título «A Necessidade da Arte», Ernst Fischer (1899-1972), o ensaísta austríaco,  dizia que «a arte é ela própria uma realidade social. A sociedade necessita do artista, esse supremo feiticeiro, e tem o direito de lhe pedir que tenha consciência da sua função social.» Na verdade, com o advento do capitalismo, surge pela primeira vez na história das civilizações uma classe dominante que não procura colocar, de uma maneira objectiva, a arte ao seu serviço. Pela primeira vez, o artista é livre de qualquer tutela e fica desvinculado das suas obrigações para com a comunidade de que faz parte.

 

Naturalmente que esta desmedida liberdade, longe do o libertar no sentido mais nobre da palavra, o sujeita a uma terrível tirania – à solidão, à angústia e ao desespero. Em alternativa, à submissão. É uma liberdade que, em última instância, o força a enfrentar sozinho toda uma sociedade orientada para o lucro. Das duas uma: ou o que produz é mercadoria vendível ou é rejeitado. Rectifico, portanto: o capitalismo não dá liberdade ao artista – abandona-o, rejeita-o, ignora-o. Dá-lhe a liberdade de aceitar as suas leis ou de não existir.

Voltemos a Fischer: «O artista na época do capitalismo encontrou-se numa situação muito peculiar. O rei Midas transformava tudo o que tocava em ouro: o capitalismo transformou tudo em mercadoria.» A arte passou, pois, a ser uma mercadoria e o artista um produtor. O sistema de mecenato foi substituído por um método de iniciativa privada e por um mercado livre onde a apreciação mercantil da obra ficou à mercê do gosto do público, gosto (de)formado por toda uma dinâmica de relações de mercado. Digamos que um livro, um quadro, uma partitura, têm de submeter-se às contingências da competição mercantil, às leis da oferta e da procura.

Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, viviam de tenças, de sinecuras ou de cargos atribuídos pela Corte. Shakespeare, ainda que burguês de origem, fazia parte da casa do conde de Leicester, submetendo-se a um estatuto feudal. Milton, que foi secretário dos negócios estrangeiros de Cromwell pôde guiar-se por uma norma burguesa, conciliando a sua poesia com as condições em que a criava, com uma total identificação entre a sua obra e as suas concepções políticas e sociais. Também manda a verdade que se diga que os artistas raramente foram gratos a quem os apoiava. Como disse Montesquieu «quase todas as monarquias foram instituídas na ignorância das artes e destruídas porque as cultivaram demais.» Por vezes a arte foi a víbora que tiranos distraídos alimentaram e que os veio a destruir.

Mas então não é um avanço o facto do artista poder criar a sua obra sem ter de agradar aos mecenas, ao rei, a senhores feudais, a burgueses ou ao Estado? Num certo aspecto,  é verdade. Porém, não esqueçamos que agora é a opinião pública que ajuíza do valor da sua obra. E como é formada (ou deformada) essa opinião? Por pedagogos, por gente de cultura? Não. Os chamados opinion makers são, em regra gente ou inculta ou desonesta, frequentemente as duas coisas. O «gosto popular» é formado pela imprensa – tablóides, revistas do coração – pela televisão, da forma que se sabe – telenovelas, reality shows, talk shows e toda essa tralha que nada tem a ver com a cultura. Em suma – o «gosto popular» é construído pelo marketing. No que se refere ao vestuário, à alimentação, a tudo – e também aos hábitos culturais.

Vejamos a literatura. A síndrome de Dan Brown leva a que se produzam em catadupa romances com a dimensão de tijolos competindo em acção e intriga, em teorias da conspiração e teses esotéricas com as séries televisivas e com os filmes de Hollywood. É este tipo de literatura que mais se consome. Está nas grandes superfícies a par com os iogurtes que regulam o trânsito intestinal, com os cereais que mantêm a linha, com o pão tipo esferovite, com as bebidas à base de aditivos… Terão estes livros alguma coisa a ver com arte? Acho que não. Mas têm tudo a ver com as necessidades do mercado.

Saramago, um bom e prestigiado escritor, recorre ao marketing para vender. O que vende milhares de livros seus não é apenas a inegável qualidade da sua escrita, mas a habilidade com que a promoção das suas obras é feita. Atente-se no exemplo recente de «Caim». As declarações que o Nobel produziu em entrevistas sobre a Bíblia são bem mais agressivas do que o livro propriamente dito que se limita a recontar uma história bíblica, virando-a do avesso, mas levando-a a sério. Resultado: a Igreja Católica, mesmo antes de ler o texto, saltou encolerizada, a polémica instalou-se, o livro vende-se a bom ritmo. Ontem, no décimo dia após o lançamento, esgotou-se a 4ª edição – 80 mil exemplares vendidos. É Saramago igual a José Rodrigues dos Santos ou a Margarida Rebelo Pinto? Claro que não. É um bom escritor. Mas numa coisa são iguais –  estão submetidos às leis do mercado, são tutelados pelas regras do marketing.

Dirão, «mas então uma das funções da arte não é precisamente a de entreter, a de distrair? Antes da escrita, quem contava histórias nas cavernas ou as pintava na rocha, não correspondia, nesse esforço de recrear, aos artistas actuais? Sim, uma dos objectivos  da arte será esse. Mas há um outro, mais importante – que é o de chamar a atenção para os problemas do ser humano e da humanidade – «abrir portas fechadas». Voltemos então a Ernst Fisc
he
r.

Criar de acordo com o que o mercado pede é, como disse Fischer, «passar por portas abertas»: «A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas é a de abrir as portas fechadas. A cultura deve ser compreendida como todas as formas de expressão artística e todo o património material é simbólico da sociedade. Esse conjunto é fundamental para a nossa memória e identidade. Quando se promove oportunidade para que todos os grupos, inclusive as minorias, se exprimam culturalmente, fomenta-se o respeito pela diversidade. Assim, a cultura constitui-se como um veículo eficaz de promoção da paz, da cidadania, da coesão nacional». 

Quando o artista trabalha exclusivamente com a preocupação do mercado está a trair a arte. Pessoa escreveu os seus maravilhosos textos não para o mercado, mas para o baú onde os ia arrumando. Os anos 20 e 30 do século XX não estavam preparados para os receber. Morreu apenas tendo publicado o livro menor que foi a «Mensagem». Suspeito de que tinha consciência da sua grandeza. E, se assim foi, mais difícil lhe terá sido não ter destinatários para essa grandeza, gente que o lesse, críticos, leitores… Público, numa palavra.

*

Fischer salienta o carácter mágico da arte. Se for desprovida da magia que provém da sua natureza original, segundo ele, a arte deixa de ser arte. A arte tem a idade do homem e o homem foi, desde a sua origem e face à hostilidade da natureza, um mago. A magia da criação da ferramenta transforma um primata superior num homem. O homem produziu a magia que deu lugar à humanidade. É um produto de si mesmo. Só inventou deuses porque não entendia nem os mecanismos, nem o poder da sua própria magia. Não entendia também a natureza sobre a qual exercia essa magia. E precisava de explicar tudo isso. E a sua magia criou também os deuses e a lenda de que tinham sido os deuses a criar o homem.

A mão precedeu o cérebro no desvendar dos mistérios. A agilidade da mão fabricou o utensílio: mão e utensílio passaram a ser indissolúveis. Por isso disse aqui há dias que «no princípio era o trabalho». O homem primitivo não distinguia a sua actividade do objectivo que a determinava – actividade e objectivo formavam uma unidade. A abstracção veio depois com o advento da palavra. E a palavra veio substituir a magia. Transformou-se ela própria em magia. Os homens eram todos magos. Com a palavra consolidou-se o salto entre animal e ser humano.

Com a palavra nasceu a poesia, como referi num texto em que falei de George Thomson e do seu estudo sobre a origem e a evolução da poesia. Foi-me chamada a atenção para a antiguidade do texto de Thomson (e a primeira edição do texto de Fischer remonta já aos anos 60). As deduções que estabeleço não se baseiam nas últimas descobertas da antropologia, é um facto. Mas não é o estar em dia nessa informação que me preocupa. Há reflexões de Aristóteles que continuam a ser pertinentes. E ele não via a «National Geographic»…

Esta é precisamente um das maiores funções da literatura e arte contemporânea. Finalmente, o homem que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem que se tornou um mágico, o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo.  A arte, em todas as suas formas, era uma actividade comum a todos e elevando todos os homens acima do mundo animal. Mesmo muito tempo depois da quebra da comunidade primitiva e da sua substituição por uma sociedade dividida em classes, a arte não perdeu seu carácter colectivo. Somente a verdadeira e autêntica arte consegue recriar a unidade entre o singular e o universal. Somente a arte consegue elevar o homem de um estado fragmentado a um estado de ser íntegral, total. A arte é uma realidade social.

 

Embora não tenha consciência disso, a sociedade necessita do artista e da arte É a arte, entendida nos seus múltiplos aspectos, que leva o homem a compreender a realidade, e mais , a suportá-la e, até a transformá-la, tornando-a mais humana. A arte é indispensável. Sem ela a humanidade fica amputada e confinada à sua animalidade. Sem arte não há humanidade. Poderá haver robôs ou produtos da engenharia genética. Mas já não serão homens.  

Enquanto houver seres humanos, a arte não morrerá.