Tiger Woods no inferno da moral

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Fazendo o zapping pelos canais televisivos noticiosos, deparei com o assunto de fim de semana. As charamelas da EuronewsCNNAl-Jazeera, têm preenchido momentos infindos com a pouco ou nada apimentada estorieta sexual de Tiger Woods. Umas louras e outras nem tanto que com ele hipoteticamente contracenaram em cenas de chaise-longue de motel, aproveitam agora o ensejo de fazer render os seus créditos nos meandros da especialidade, descosendo-se em entrevistas, off the records e revoltantes statements que confirmam as infidelidades matrimoniais do “génio do taco”.

A paranóia moraleirona da ralé micro-burguesia que nestes tempos conseguiu totalitariamente o poder que vale – o da informação à venda -, intromete-se sempre naquela área que nas democracias devia ser intangível: a intimidade, a esfera pessoal. De facto, a coscuvilhice mais sórdida, a porcaria atirada em forma de rotativa betoneira sobre todos os “prevaricadores”, consagra um longo caminho que terá as suas origens nos famigerados Pilgrim Fathers do Mayflower. Gente ridícula, sombria, bisonha, má, tacanha e profundamente imbecilizada por crendices sem pés nem cabeça, fundaram os caboucos de uma sociedade que aspira a uma globalização planetáriade de lares submetidos aos ditados de Salt Lakes, reverendos Jones ou de Davides Koreshes mais ou menos exportáveis. Se poucos anos após a sua infausta chegada ao Novo Mundo já se erguiam forcas e crepitavam fogueiras em Salem, a independência de 1776 consagraria também um imenso rol de superstições e certificados de duvidosa virtude de um puritanismo que pretende no fim de contas, demolir a essência daquilo que une todos os seres humanos, independentemente da sua origem étnica, religiosa  ou geográfica. A interdição do prazer mesmo que completamente anónimo, tem sido uma obsessão burguesa que apontava todos os imaginados vícios aos inimigos das classes que a espartilhavam. Em nome de todas as moralices, decapitaram-se milhares de nobres – sem esquecer os camponeses da Vendeia, também “decadentizados” pelos antigos senhores – numa França que pouco depois veria sentada no trono de Maria Antonieta, uma mulher de ligeiríssimos costumes  que republicanamente mereceu o suspeito cognome de Merveilleuse e que foi apenas uma Primus entre batalhões de Pares em traje Império.

Todo o século XIX consistiu num inferno de ex-capatazes erguidos à condição de oficiais assopradores dos ventos da nova sociedade. Curiosamente, a velha Lenda Negra anti-católica que ainda ferreteia os povos do sul com a Inquisição,  nada fica a dever às perfídias calvinistas dos cantões suíços, ao racismo pré-eugénico dos batavos  e à beatífica sandice da generalidade dos nórdicos. A mania da forca e a decapitação que tornaria lendária Tyburn, alastraram logo no século XVI,  como fogo em palha seca por todos os Países Baixos e Principados reformados alemães, sendo no entanto a Inglaterra Tudor o paradigma. Pouco importava a violência usurária e de feroz impiedade exploradora dos comoventes relatos que mais tarde, a pena de Charles Dickens imortalizaria. Aquelas pseudo neo-medievais igrejecas com altares cheios de sucata prateada que pontilhavam cada bairro de Londres, Amesterdão, Filadélfia, Nova Iorque  ou Atlanta, com  coros estridentes e tementes do olhar carrancudo do pastor tornado Lei, obrigavam ao constanteAmen acompanhado pelo infalível assentimento craniano que a cinematografia crítica americana tão bem nos deu a conhecer. O móbil de todo o arrazoado de patacoadas enxertadas à guisa de fábula de uma Bíblia que para tudo servia, era e acaba sempre por ser, o vil metal. Afinal, foi a causa primeira do ataque à até então Igreja que durante séculos conformou o Ocidente.

Todo este apontar de indicadores em riste aos atemorizados dissidentes da Ordem, traz plenos de contentamento todo o tipo de safardanas mais ou menos ilustrados que nos enchem os ecrãs noticiosos e o cinema do Canal Hollywood. É uma catadupa de reverendos, Sarahs Palins, igrejas pentecostais do milionésimo dia disto e mais aquilo, não esquecendo magotes de homenzinhos histéricos que no traje só podem rivalizar com o bastante mais talentoso e inofensivo Liberacce. A política do red-neck que da América profunda vai conquistando os centros urbanos, espalha-se como uma peste, invadindo a América do Sul – especialmente o Brasil -, com toda uma série de seitas onde a extorsão e o abuso da consciência se tornou norma. Já nos anos sessenta, as novas independências africanas foram sendo interesseiramente assistidas pela chegada subversiva  de gente que em nada media meças ao mais básico roçeiro boer de uma África do Sul então ferozmente batavizada. Quem viveu no Moçambique português, bem se recorda da ostensiva hipocrisia dos turistas afrikanders que chegados do “Jonas” (1), logo corriam em calções para as palhotas das Lagoas ou para a Rua Araújo (2), almejando ao pleno gozo de prazeres proibidos na sua pátria, onde, para grande escândalo dos portugueses de África,  aos negros eram reservados bebedouros públicos, casas de banho, transportes e até bancos de jardim em regime de Apartheid! Nas praias, as “bifas” (3) alternavam prazeres ocultos pelas dunas, nos braços dos soldados portugueses ou dos pescadores nativos que labutavam na Costa do Sol. Aí, as orgulhosas descendentes de Van Ribeeck em frenesim esqueciam todas as restrições impostas pela sua superior condição racial que o verniz protestante oriundo dos tempos de Grotius, atestava.

No exacto momento em que a funesta e em boa hora  desaparecida administração J. F. Kennedy se decidia a castigar o colonialista Portugal, os negros eram perseguidos por todo o sul e interior dos EUA, levando ao processo de revolta ordeira de que Martin Luther King seria a face. Mal sabiam aqueles “afro-americanos” que em longínquas colónias portuguesas, já tinham desaparecido todas as medidas vexatórias de segregação, sendo normal brancos, negros e mestiços partilharem transportes, cafés, escolas e todo o tipo de serviços públicos, sem excepção.

Regressando ao tema do momento, não nutro qualquer tipo de simpatia – não o conheço – por Tiger Woods. O campeão mundial do mais perdulário, anti-ambiental, estúpido e aborrecido “desporto” da Terra (4), é hoje açulado por hordas de mentecaptos que seraficamente debitam todo o tipo de sentenças que indesejavelmente nos entram pela casa adentro. O “amigo” e colega de profissão sueco, a “mãe de família” dos costumeiros values mais sugadores de reputações que qualquer Buraco Negro por esse Universo fora, lá fazem os seus statementscondenatórios, numa cacofonia que quase indicia recônditos desejos de uma condenação à morte, mais previsível na iracunda e vociferante autoridade do imã ou mulá de um qualquer bazar de Tombuctu ou Shiraz.

Esta gente que  guincha contra a “infidelidade conjugal” de Tiger Woods, pouco se importa em saber qual o verdadeiro – e privado, diga-se! – estado da relação matrimonial do campeão de golfe. Os values e os statements pouco respeitam a necessária protecção psicológica e a intimidade da família Woods, esquecendo rapidamente os rebentos do casal em aparente crise. Querem falar e decidir-se atempadamente pela condenação. Umas testemunhas de acusação mais nervosas que outras, surgem no ecrã em feroz crítica que impôs o ostracismo de T.W. perante o mundo atónito.

No fundo, pouco lhes interessa se Tiger pernoita em casa do Peter ou da Brenda. É-lhes indiferente se Monica anda de caso com a Sheryll ou com o Bill. O importante é aparecer, demolir, canibalizar e se possível, fazer eclodir aquele rendoso processo que enche revistas, espaços televisivos e claro está, umas contas bancárias. Para essas figuras, surge sempre um amigo, um colega ou o insuspeito familiar que de ar grave e em negatório movimento de cabeça, mostra postiça consternação. Que canalha. O pior de tudo, é que já está entre nós.

(1) “Jonas”, era o nome que em Lourenço Marques, se dava à cidade de Joanesburgo.

(2) Lagoas e Rua Araújo. As Lagoas situavam-se na zona do aeroporto e era uma zona de “prostituição ao domicílio” sob a forma de sanzala. A Rua Araújo é uma artéria que une as Praça Mac-Mahon e 7 de Março, sendo até à independência, bem servida de bares, botequins e cabarés com um inconfundível sabor de outros tempos. Ali se misturavam locais, soldados em comissão e turistas ocasionais. Música ao vivo, bebida e aquilo que se imagina  como saudosa decadência, própria de um Hemingway.

(3) “Bifas”, o nome genericamente dado pelos luso-moçambicanos às sul-africanas, confundindo-se as de origem inglesa ou boer.  Eram conhecidas pela rápida e voraz cafrealização em época de férias.

(4) Jogo próprio para Sampaios, Balsemões e respectivo staff, com tudo o que isso significa.