A máquina do tempo: o nosso coração também é árabe

Ouvimos aquí uma das «Cantigas de Santa María», do rei Afonso X de Leão e Castela (1252-1284) que, como sabemos utilizou na sua poesia o idioma galego-português. Este rei, embora tenha participado activamente na guerra da Reconquista, conservou na sua corte numerosos artistas, nomeadamente músicos mouros, dando assim um exemplo de tolerância para com os vencidos. Esta cantiga fala dos alarifes mudéjares, ou seja dos arquitectos e artífices mouros. Mudéjares eram os mouros aos quais foi permitido continuar a viver entre nós, mediante o pagamento de um tributo. Muitos deles eram artistas, cientistas, médicos… Afonso X, o Sábio, dedicou esta cantiga a esses artistas e artífices que embelezavam com a sua arte igrejas e palácios dos cristãos vencedores.

O meu amigo José Pedro Machado, o grande filólogo de que já vos tenho falado por diversas vezes (pai doutro grande amigo, o João Machado. que aqui colabora com belos textos sobre política internacional), legou-nos dois importantes livros sobre a influência do árabe na língua portuguesa «Vocabulário Português de Origem Árabe» (1991) e «Ensaios Arábico-Portugueses» (1997). Por eles, podemo-nos aperceber da grande quantidade de vocábulos que, do árabe, foram emprestados ao português.

Muitas delas são palavras de uso comum e quotidiano, como alarido, alarde, albufeira, alcaide, aldrabão, alface, alfândega, algazarra, alicate, alpergata, alvoroço, argola, armazém, arsenal, baldio, bazar, bolota, cabide, chafariz, cifra, debalde, divã, enxaqueca, enxovia, falua, fateixa, fato, forro, fulano, garrafa, gazela, jarra, javali, lacrau, laranja, marfim, matraca, múmia, nora, oxalá, quintal, recife, sucata, tagarela, tarefa, tremoço, xadrez, zagaia… São milhares, incluindo muitas centenas de topónimos

Da arquitectura árabe pouco nos ficou, sabendo-se que os conquistadores destruíam os monumentos dos vencidos e, desse modo, as mesquitas eram transformadas em igrejas (acontecendo também o inverso), pois nem árabes nem cristãos tinham nesse dramáticos tempos o conceito da conservação do património. Assim, consumada a Reconquista, tudo o que era muçulmano foi destruído, reconvertido, reciclado, usando uma expressão dos nossos dias. Em todo o caso, é notável o que se tem avançado no estudo desse aspecto da cultura árabe, nomeadamente no Campo Arqueológico de Mértola, superiormente dirigido pelo Professor Cláudio Torres.

Na literatura, existem numerosos legados. O poeta e ensaísta Adalberto Alves, director do Centro de Estudos Luso-Árabes, de Silves, no seu livro «O Meu Coração é Árabe», estuda essa influência da cultura e da literatura árabes no nosso território. Com este livro obteve um prestigiado prémio internacional , o Prémio Sharjah para a Cultura Árabe, outorgado pela UNESCO. E poderia dar muitos mais exemplos da forte influência que os árabes, nos séculos que aqui estiveram, nos legaram. Eis um poema de Ibn Ammar, nascido em Silves, extraído desse livro:

Poema de Ibn Ammar – (1031 -1084)

Este poema é para ti, Como um jardim que a brisa visitou
Sobre o qual repousar o orvalho da noite
Até que o ataviou de flores.
Do teu nome fiz-lhe uma veste de ouro.
Com o teu louvor derramei o melhor almíscar
Quem me suplantará? Se o teu apoio é sândalo
Eu o quereria no fogo do meu génio
Quando as brasas estavam ainda a arder.
O orgulho no amor – temei-o – é a sua vergonha
Mas o prazer – aproveitai-o – é o seu ardor.
Não peças à paixão que te dê domínio
Prefere ser escravo, nas suas mãos é que és livre!
Vós me dissestes: o amor prejudicou-te.
Eu respondi. Quem me dera me tivesse feito mal.
È que o meu coração escolheu doença para o corpo
Como forma própria de o adornar.
Deixai, pois, fazer a sua escolha
E não me critiqueis por estar emagrecido:
Não está a excelência de uma adaga
Precisamente na finura do seu gume?
Troçaste porque me deixou minha amada?
Quanto fim de mês oculta o crescente que vai vir!
Julgais que o fogo do esquecimento me consolara
Ou que um profundo sono chegará depois?
Mas ó coração, guerreiro da dor, se não sofresses mais
Quem te acudiria o socorro das lágrimas.

(Do livro de Adalberto Alves
O Meu Coração é Árabe).

Onde pretendo chegar? A várias conclusões, mas principalmente a uma – depois de vos ter, já por diversas ocasiões, falado da esplendorosa cultura galega, coisa que tenciono continuar a fazer, falo-vos agora da grandeza da cultura árabe – pré-islâmica e islâmica. Nós não somos nem galegos, nem mouros, mas devemos a galegos e a mouros muito do que somos. E também aos judeus. Quanto os filhos de Moisés, que chegaram a constituir uma parte importante da nossa população, enriqueceram a nossa cultura e a nossa ciência e quanto do seu sangue circula nas veias de tantos de nós! E a herança celta, tão visível no Minho e em Trás-os-Montes? Somos um interface de culturas. E não pára.

Não pára, porque o fluxo de emigrantes extra-comunitários: cabo-verdianos, ucranianos, brasileiros, é mais um factor de enriquecimento do nosso património cultural (para não falar do património genético). Compensam, em termos demográficos, o défice que as novas concepções da estrutura familiar impõem.

Somos pessoas, em suma. Nenhuma cultura parte do zero ou se alimenta do vácuo. A nossa resulta de um intrincado tapete, de um mosaico onde se misturam e cruzam influências culturais, heranças, empréstimos linguísticos. Como sociedade aberta que somos e fomos nos momentos cruciais da nossa História, como na época dos Descobrimentos, a nossa cultura é enriquecida com o passado e com o que, no presente, nos trazem os milhares de imigrantes. Não temos que nos envergonhar de nenhuma dessas heranças nem com os contributos actuais.

Só temos de nos envergonhar quando somos estúpidos ao ponto de ter vergonha.

Duas dedicatórias, hoje para dois amigos que tão interessantes textos escrevem e não menos judiciosos comentários têm feito a alguns dos meus – o Carlos Ruão e o Isac Caetano. Abraços para ambos.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    É bem verdade, somos uma mistura de genes e de culturas, e vê-se bem que diferentes no norte em relação ao centro e ao Sul.

  2. Carlos Loures says:

    Essa mistura de genes e de culturas verifica-se de Norte a Sul, pois o país é muito pequeno. As diferenças dialectais são irrelevantes, uma mera questão de acento: um minhoto percebe perfeitamente um açoriano ou um algarvio e vice-versa. Nós, notamos muito as diferenças; quem nos veja do exterior, um estrangeiro, acha-nos iguais. É como as famílias – nenhum dos membros é igual aos outros, mas todos se parecem. Em Portugal, as diferenças são acentuadas por quem tem interesse em acentuá-las – caciques políticos, por exemplo.


  3. Tu és um bom exemplo de uma mentalidade sábia e aberta, com uma grande capacidade de prosseguires o trabalho de todas as mentalidades abertas que nos precederam. É uma sorte poder ler o que escreves, e sentir o gosto de aprender.

  4. Carlos Loures says:

    Obrigado, Adão – as lentes da amizade fazem-nos ver os amigos de uma forma favorável. E tu usas sempre óculos com essas lentes. O que se passa é que vivi em vários pontos do País – No Norte, No Ribatejo (quase na Beira-Baixa) e, naturalmente, em Lisboa, onde nasci. Por outro lado, conheço bem o País: o Algarve onde vou com frequência fora da época estival, o Alentejo que me encanta, no Norte, conheço bem Vila Real e o Porto, cidades lindas, cada uma com o seu estilo e dimensão; Vou uma vez por ano passar duas semanas na Madeira (mais precisamente no Porto Santo). Gosto do meu País por inteiro. As pessoas, acentos e expressões regionais aparte, são muito semelhantes. Criam-se mitos e clichés – anedotas de alentejanos, brinca-se com o sotaque da Beira, mas nada disso tem importância. Boas pessoas, más pessoas; gente capaz, madraços, etc. , são subespécies que se encontram em toda a parte. Dizias há tempos da boa impressão que te causaram as cidades espanholas, bem arranjadas, com gente bonita e bem vestida, contrastando com o ar desmazelado das nossas cidades e das pessoas. Tens razão. E isso é que nos devia preocupar – quem é que tem culpa de que as coisas corram mal? Sou eu, aqui em Lisboa, tu aí no Porto? Os lisboetas, os alentejanos, os madeirenses? Um dia destes escrevo um post sobre este tema (ou temas).

  5. carla romualdo says:

    Mais um belo texto, Carlos, e sobre um tema que me interessa particularmente. Aproveito para sugerir-te, se ainda não o conheces, um ensaio de Adalberto Alves: “As Sandálias do Mestre – o Islão Iniciático na Formação de Portugal” (saiu há dois ou três meses, editado pela Ésquilo) sobre a figura de Ibn Qasi, mestre sufi natural de Silves. Estou a lê-lo e parece-me excelente.

  6. Carlos Loures says:

    Ofereceram-mo e ainda não o li. Tenho ainda uma meia-dúzia à frente, entre eles o «Invisível» do «São» Paul Auster. Mas vou ler. A cultura pré-islâmica e islâmica também é um dos meus temas preferidos. Obrigado pelo comentário

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