A máquina do tempo: Ponto final nas buscas dos restos mortais de Federico García Lorca – o poeta não foi sepultado no lugar de Alfacar (Granada)

Aspecto que apresentava ontem a zona onde se julgava estar sepultado Federico García Lorca, no lugar de Alfacar.

Ontem, chegou ao fim a busca dos restos mortais de Federico García Lorca. Utilizando meios sofisticados de detecção, durante cinquenta e um dias, foram procurados no local onde, desde há 73 anos, se julgava estarem enterrados. Fontes ligadas à busca, concluíram «Não se encontraram restos humanos. A partir de agora ter-se-á que escrever a história com dados científicos. Acabaram-se as especulações» (…) «escavou-se a terra até ao limite do possível». Na última vala onde se procuravam os restos do poeta, foi encontrada uma rocha com o que parecia ser impactos de bala. E isso deu alguma esperança.

Porém, o veredicto final foi ontem emitido: «Não se encontraram restos humanos. Há evidências científicas de que nunca houve enterramentos nesta zona» (…)«Não apareceu nem um só osso, nem roupa, nem cápsulas de balas. O terreno foi visto palmo a palmo». Francisco Carrión, arqueólogo-chefe das escavações, sentenciou a questão: «A possibilidade de ali haver alguma coisa não é nenhuma. Nem um grama de informação»,

Durante estes 73 anos, todos os testemunhos orais e escritos têm apontado Fuente Grande, em Alfacar, como local do fuzilamento e de enterramento. Diz-se agora, dado o insucesso das buscas, que Lorca, terá sido fuzilado e enterrado ali, mas que o corpo teria sido depois mudado para outro sítio. Mas há também quem diga que nunca esteve enterrado em Fuente Grande.

Como já disse no texto de ontem, em 1966, Manuel Castilla, que foi quem enterrou o poeta, conduziu até ao local o hispanista irlandês Ian Gibson. À pergunta «Acredita que Manolo lhe pode ter mentido?», Gibson responde: «Não tinha motivo para tal. Nada ganhava com isso» (…)«Nem me pediu dinheiro para me levar até ali e quando o fez era muito arriscado. Estava com medo, mas não com dúvidas. A mim, convenceu-me. Por isso, continuo a pensar que Lorca está ali, muito perto do local onde estão a procurar».

Dez anos antes de conduzir Gibson até ao lugar de Alfacar, Manolo levara já até lá Agustín Penón, filho de exilados espanhóis, que viera dos Estados Unidos para investigar a morte do poeta. Quando Penón lhe perguntou se sabia exactamente onde enterrara Lorca, Manolo respondeu: «Como me poderia esquecer de uma coisa assim?». E acrescentou que o poeta não morreu sozinho. Acompanhavam-no, Dióscoro Galindo, um professor republicano, e dois bandarilheiros, Joaquín Arcollas e Francisco Galadí.

Recentemente, as famílias de outros dois fuzilados, pediram também que fossem procurados na mesma vala comum. Manolo, insiste naquele local, e afirma que nos anos oitenta o município de Granada ao fazer um inquérito sobre a localização da vala, obteve uma maioria de respostas assinalando aquele sítio. E tanto assim é, acrescenta, que a autarquia comprou o terreno e nele ergueu no local o Parque García Lorca.

Contudo, há também o testemunho de Laura García Lorca, sobrinha-neta do poeta, segundo o qual a família de Federico retirou o corpo e o transferiu para outro lugar. Mas, nesse caso, onde estão os outros três cadáveres que foram enterrados na vala com Lorca – Galindo, Arcollas e Galadí?

Ian Gibson ocupa-se deste apaixonante mistério há 45 anos. Tem estado em permanente contacto com familiares dos que foram fuzilados e enterrados com Lorca em 18 de Agosto de 1936. Foram, segundo parece, 45 anos gastos em vão. Perguntam-lhe o que vai fazer agora. Desalentado, responde que se vai ocupar da biografia do cineasta Buñuel, pois há anos que está mergulhado no seu mundo. Mas ocupando-se de Luis Buñuel, este levá-lo-á de regresso a Lorca – «Estou condenado», conclui.

Francisco Carrión, o homem que chefiou a equipa multidisciplinar, emitiu ontem um axioma que resume o erro de Gibson: «É um erro basearmo-nos numa história oral e num só informador».

A história da morte de Lorca naquela manhã de Agosto de 1936 terá agora de ser rescrita. Mas a poesia que sobre a sua morte escreveu Antonio Machado (1875-1939) permanece como um dos mais válidos documentos sobre o fuzilamento.

El crimen fue en Granada

Se le vio, caminando entre fusiles,
por una calle larga,
salir al campo frío,
aún con estrellas, de la madrugada.
Mataron a Federico
cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ¡ni Dios te salva!
Muerto cayó Federico.
-sangre en la frente y plomo en las entrañas-.
…Que fue en Granada el crimen
sabed -¡pobre Granada!-, en su Granada…

O sevilhano Antonio Machado foi também ele uma vítima da Guerra Civil, morrendo em França, fugindo da perseguição que a polícia fascista lhe movia. Já aqui falei dele.

Está, por agora, encerrada esta questão, tão importante, da localização dos restos mortais do poeta. Amanhã, finalmente, falarei sobre Lorca, a sua vida e a sua obra.

(Continua)

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