Haiti ou a hipocrisia americana

 

Como é relativamente longo, retirei de um texto de Eduardo Galeano apenas estes três parágrafos, os quais me parecem oportunos nestes dias de profunda hipocrisia. A sua transcrição isolada não me parece desvirtuar o sentido do texto.

 Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até
1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar
as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia
vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário
de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que
a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem “uma
tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de
civilização”.  

 A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de
vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era
uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada
pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde,
ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores
militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente
Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito
por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca
ideia de querer um país menos injusto.

 Para apagar as pegadas da participação estado-unidense na ditadura
sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil
páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado.
Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o
poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos
votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta
categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo
haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

P.S. Já repararam no absurdo, servido assim ao pequeno almoço? Os EUA vão mandar ou já mandaram 2000 soldados para o Haiti. Com que direito? Já imaginaram o que seria se, por exemplo, a Venezuela mandasse para o Haiti 2000 soldados? E ninguém diz nada, nem uma palavra. Não tenhamos dúvidas de que a Razão e o Direito andam de cu à mostra pelas ruas da amargura.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Tão longe de Deus e tão perto dos US!

  2. António Caldeira says:

    O problema da presunção americana advém na minha modesta opinião de diversos factores.
    Alguns têm a ver com a sua imensidão territorial que leva a que muitos americanos não consigam ter uma percepção da realidade mundial além daquela que lhes é transmitida pelos media (informação essa já de si “tratada” de acordo com a visão editorial do grupo que a sustenta), por outro lado o seu poderio económico levou os EUA a terem uma projecção e importância mundial que fez com que os outros países se tenham remetido a uma posição de subserviência por vezes escandalosa.
    A tudo isto há que adicionar um regime democrático com um poder de iniciativa célere e musculado que contrastando claramente com a liderança hesitante dos restantes países e organizações como é exemplo a UE.
    Para o mal e para o bem os EUA sentem-se legitimados como “polícia do mundo” por força da inépcia dos restantes países e da fantochada que acabam por ser as Nações Unidas.
    Em jeito de brincadeira dizia-me um amigo americano há uns anos, que a noção de mundo para os americanos é tão diferente que viajar para o Canadá ou para o México representa par muitos deles uma viagem de risco.


  3. Que ironia. Obama presidente dos EUA.


  4. Acho a análise do António Caldeira correcta e inteligente, o que não valida, de modo algum o descarado crime destes gajos se considerarem donos do mundo.
    Pouco depois de escrever este post, ouvi no noticiário que os EUA vão enviar mais 4000 soldados, aumentando progressivamente o contingente militar até 15000 !!! Eu chamo-lhe a “operação abutre”. Nunca se viu tal falta de respeito pelos mortos, tal “se cagando” para o resto dos países cobardolas e sem dignidade deste planeta, tal arrogância e perversão do Direito, tão “podre fruto” de um Nobel da Paz.

  5. Carlos Loures says:

    Adão, o que dizes e a tese do Galeano que expões, é muito coincidente com a que o hondurenho Fabrício Estrada aqui publicou há dias atrás. Os EUA exploraram o território e a mão-de-obra e deixaram o país desertificado, sem recursos, as pessoas sobrevivendo de uma forma desumana. Como se explica que um Estado, perante uma catástrofe, nãoi possua a mínima capacidade de resposta e fique cem por cento dependente da ajuda internacional?


  6. Inacreditável, Carlos. E ainda por cima este “quero, posso e mando”. Mexem mais comigo a falsidade, a mentira, a hipocrisia e o cinismo do que o próprio insulto directo. Não basta o que diz Fabrício Estrada, mas ainda no seio de tão grande catástrofe, assaltam o aeroporto, expulsam jornalistas, desviam aviões de outros países, já estacionados e carregados de material de ajuda, impedem a aterragem de outras aeronaves que não as suas, desembarcam milhares de soldados, dispondo assim do Haiti como se de uma quinta sua se tratasse. Bárbaro! Obsceno! Imundo!

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  2. […] que eles dizem por aí Posted on 22/01/2010 por A. Pedro Correia Razão parece ter Adão Cruz no Aventar quando questiona a “ajuda” americana no Haiti. 15 000 é o número de […]

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