Um texto meio ao calhas

(adão Cruz)

Caros amigos:

Há já largos dias que não tenho ligado puto ao Aventar. Não é que esteja zangado nem que me tenha esquecido dos amigos. O facto é que tenho estado de molho. E o molho, neste caso é à base de um estupor de uma tendinite na face interna da coxa direita, que me limita grandemente a minha actividade e me faz dizer umas asneiras daquelas que a gente diz quando está fodido e mal pago. Tenho-me valido dos anti-inflamatórios, que são tão bons a aliviar as dores como a dar cabo de um gajo. Ele são dores de cabeça, ele são tonturas, vertigens, náuseas, vómitos, azia e enfartamento pós-prandial, perda de apetite, eu sei lá! De tal modo que eu arrumei com eles, preferindo as dores aos efeitos secundários, já não falando nos efeitos nefastos que vocês desconhecem e ainda bem, muito mais silenciosos e subtis, que quando eclodem são do carago!

Desta forma, a vontade de escrever é tão grande como a de dobrar a perna. Dirão vocês “mas ele não escreve com a perna”! Sim, eu não escrevo com a perna, mas a dor da perna faz parte daquele tema da felicidade que eu referi há dias, comentando um post da Carla e do Luís Moreira. É que não me sinto feliz, a felicidade amuou, porque a minha homeostasia foi pró galheiro, a minha sintonia foi abalada, a minha harmonia é uma pauta de ruídos, e tudo porque a dor, neste caso inicialmente física, se tornou fundamentalmente “psíquica”, lixando-me a vontade e o bem-estar.

E o tema que eu tinha intenção de abordar, antes desta porra, era, novamente, aquele a que eu chamo “cara ou coroa “, ou seja, Miguel Sousa Tavares. E tudo porque, no expresso de 23 de Janeiro, Miguel Sousa Tavares traz um artigo intitulado “A NAÇÃO INDISPENSÁVEL”. Li e reli, mas já nessa altura a puta da perna (eu peço que me desculpem esta linguagem analgésica) me impediu de comentar. Não é com uma perna assim que se tem vontade e capacidade de dar uma canelada a Miguel Sousa Tavares.

Já num post anterior, eu havia dito: O Dr. MST tem uma habilidade, muito antiga, para dar uma no cravo e outra na ferradura. Parecendo que é uma virtude, dado que pretende mostrar uma independência que não está nem do lado do cravo nem do lado da ferradura, não o é. O Dr. MST não é um intelectual de meia tigela, como tantos outros. Se o fosse, eu não lhe daria troco. Por não o ser, e por escrever bem, eu leio-o, umas vezes com gosto e outras com desgosto. Com gosto, não pelo facto de estar de acordo com as minhas ideias, e com desgosto, não porque esteja em desacordo com as minhas ideias. Com gosto, quando vejo que está de acordo com a verdade, com desgosto, quando está de acordo com a mentira. Isto não significa que seja eu a saber o que é verdade e mentira, mas que a verdade e mentira não pode ser uma roleta na cabeça de um intelectual como MST.

Mas com o raio desta perna assim, sinto-me manco e incapaz de responder ao que ele, na essência, diz: Enquanto Chávez e o ministro dos Estrangeiros da França se vão queixando já da “ocupação americana” do Haiti (as aspas são dele), os que estão no terreno e os que vêm de fora sabem bem que a única esperança para o Haiti é a presença americana.

Apesar desta maldita dor, ela ainda não me estorva a consciência para considerar que este dito é uma das maiores e mais cruéis mentiras que ultimamente tenho ouvido. E os testemunhos corroborando esta minha consideração são aos montes, muitos deles calados por “politicamente incorrectos”, ou por medo de represálias ou, especialmente, porque a comunicação social deles não pode fazer eco (senão!). Ouvi num programa da Antena 1 alguém dizer: A mania da indispensabilidade dos EU, eles que nem as suas tragédias conseguem socorrer! Eles que não apareçam e logo se verá.

Segundo o New York Times, 24 horas após o terramoto, os EUA, enviaram para o Haiti (tão pequenino!) nove a dez mil soldados, preparando-se o Pentágono para enviar mais. Primeira e grande prioridade. O assalto. A solidariedade internacional, para além de boicotada de mil maneiras pelos EUA, só começou a sair de Port-au-Prince, alguns dias depois e aos pinguinhos, de maneira a que os americanos pudessem aterrar á vontade tropas e equipamentos e transportassem americanos e outros estrangeiros para destinos seguros. Duzentos voos a chegar e a partir todos os dias, a maioria para os militares dos Estados Unidos.

Se o texto já não fosse longo e esta maldita fisgada na perna me não impedisse o matraquear do teclado, eu iria especificando melhor muitas outras reacções, nomeadamente da França (Ai tu também, França!), do Brasil, do DARICOM, da Nicarágua. Il Messagero dizia simplesmente isto: “ o aeroporto não está à disposição da comunidade internacional, transformou-se num apêndice de Washington”.

Como este “quero, posso e mando”, que há muitas décadas tem subvertido todo o Direito internacional, passando à margem de tudo, nomeadamente da consciência de MST, a “indispensabilidade dos EUA” consegue ser, para este, um dogma sagrado, aqui e noutros sítios da história e do tempo. “Cara ou coroa”, visão mais “soft” ou mais “hard”de MST, conforme os dias. Sítios da História e do tempo a que eu procurarei voltar (pois há tanto a dizer!) se a perna não der o berro. Entretanto, como o texto vai longo e a dor começa a morder, vou estender-me um pouco e abandonar-me à massagem com que uma grande amiga procura recuperar-me e reconduzir-me à tal homeostasia, a pedra basilar da felicidade.

Comments

  1. As melhoras para a perna!

  2. Luis Moreira says:

    E quando o MST dizia nesse artigo que eles nos US acreditam no “pathos”. Eu vi logo que alguem ía ficar magoado! Adão, põe pachos de água quente, os médicos não acreditam, mas é ginjas…

  3. maria monteiro says:

    melhoras para que a felicidade deixe de amuar

  4. Carla Romualdo says:

    O que te vinha mesmo a calhar era uma medicinazinha tradicional chinesa (hehehehe!). Agora a sério, o meu amigo Hiroshi, médico da medicina ocidental e mestre de shiatsu, podia ajudar-te muito. Eu cheguei-lhe às mãos (salvo seja!) com as cruzes num oito e ele tem feito maravilhas.
    Mas as dores na perna não te turvaram o entendimento e estou muito de acordo com as tuas apreciações sobre o Haiti e sobre o MST.
    Melhoras rápidas e se quiseres que te vá fazer um cházinho ou uma sopinha é só dizer!

  5. Luis Moreira says:

    Já viram o tratamento que enviei para todos , cebola e alho? De nada… Carla, tambem ando na massagista mas é portuguesa…e o meu problema é nos “trapézios”

  6. Carlos Loures says:

    No que se refere ao Haiti, e não só, estamos completamente de acordo – os Estados Unidos fazem parte do problema, não da solução. As melhoras para essa tendinite reaccionária. Um abraço.,

  7. Adão Cruz says:

    Obrigado a todos. Parece que a tendinite reaccionária está a querer deixar de me chatear. Só tenho pena da sopinha da Carla.

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