amor fraterno

AMOR FRATERNO

Blanquita ainda menina

 

 

Há quem guarde a sua vida pessoal como um segredo crucial para a sobrevivência da Nação, mas, especialmente, os escritores, sem darem por isso, revelam nos seus romances a sua vida privada. Como Isabel Allende do Chile fez no início da sua carreira de escritora, como Gabo Garcia Márquez, na sua pessoal Colômbia, ou os prémios Nobel do Chile, Gabriela Mistral que ocultava o seu nome real Lucila Godoy Alcallaga,

Gabriela Mistral Consulesa em Lisboa

ou assim pensava ela, e Pablo Neruda que todos sabiam que tinha esse horroroso nome de Neftalí Reyes Basoalto. Foi ele próprio quem o confessou nas tertúlias da sua casa La Sebastiana que ficava ao pé da nossa, em Valparaíso. La Sebastiana, foi uma das três que conseguiu possuir: as outras chamavam-se Isla Negra em Alagarrobo, praia do Pacífico Central do Chile, e La Chascona, em Santiago, a capital do país.

Pabço Neruda na sua casa de La sebastiana, Valpariso

Excepto Lucila, a quem conhecera na minha infância, todos os outros escritores não se incomodavam com a forma de como eram nomeados (nome real ou nome fictício). Gabriela não o permitia na sua arrogância de solteirona pobre que passou a ser rica, não sabia falar, apenas escrever, e a sua vida privada só se tornou pública quando o nosso excelente escritor Volodia Teitelboim, falecido aos 91 anos, no começo deste Século, esse Amigo que inspirava respeito e admiração, escreveu para a Editorial Sudamericana, Santiago, em 1991, 1ª edição: Gabriela Mistral, Pública e Secreta.

Esse Volodia que a minha mais querida irmã, Blanquita Iturra de Toro Melo, denominava Don Volodia.

Blanquita serena na sua luta pela vida calma

O senhorio da minha irmã tem sido imenso. Não foi por acaso que lhe dediquei o meu livro: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças. Qual o motivo? Ensinou-me a viver, a não sentir raiva por tudo ou por nada, a saber tratar as pessoas sem me imiscuir nas suas vidas privadas, mais ainda, a não comentá-las com outras pessoas.

O apoio que dela recebi iniciou-se no dia do seu nascimento. Era eu um garoto crescido, quase com cinco anos, filho único, mimado pelos tios, avôs e primos. Era o cravo das crianças. A nossa Senhora mãe, sábia como toda a mulher estrangeira que tem que se habituar aos hábitos de outros, teve a inteligência, quando ao correr para ela, após três dias de desaparecimento, parar a minha corrida e dizer-me: não estava cá porque fui comprar um presente para ti. Mimado, perguntei com urgência: onde está? A resposta foi um gesto elegante: esticou o seu braço desde a sua cama e assinalou um berço branco perto dela. Eu, nada entendia, lembro bem. Corri para o berço, meti a minha cabeça entre as barras que seguravam… um bebé: eis a tua irmã, tens que tomar conta dela e ensiná-la.

Blamquita Académica

Adorei essa boneca toda branca e pequena, com o seu boné de bebé e a dormir, sempre a dormir. Se me lembro bem, e penso que sim, nunca a ouvi chorar de noite ou por motivos anódinos.

Blamquita em bebé

Calma e comedida, foi, mais tarde, uma excelente estudante, brilhante política, participava nas mudanças sociais com afinco, não havia bairro no qual ela entrasse e as formas de vida se mantivessem. Por hábito familiar, o seu matrimónio foi tratado com um jovem da sua idade, que tinha apelido antigo e dinheiro a herdar. Com os convites já distribuídos para a cerimónia, as jóias da família do futuro Senhor da minha irmã entregues e o fato de noiva mais do que provado, estava um dia, recordo bem, sentada na mesa da casa de jantar calada e, típico nela, o braço direito a segurar o queixo, e, sem eu dar por isso, deu um murro na mesa, e disse: é isso, não me caso com esse tonto que nada sabe, nem viver. Telefonou desde o telefone da copa da cozinha, ao seu futuro marido, dizendo-lhe: o nosso compromisso pára aqui, não desejo ver-te mais. E nunca mais soube dele.

O escândalo familiar, por respeito, não o refiro. As devoluções de dotes, prendas e jóias foram feitas pela família. Em segredo e silêncio.

Entretanto, eu tinha-me enamorado e a minha prometida passou, com a minha irmã, a serem unha e carne.

Nós casámos, saímos do Chile, voltámos com Allende para quem essa minha irmã fazia campanha, e todos votamos nele. A sua influência….

Os tempos voaram, casou com o analista que tratava de nós pós campo de concentração. Ele próprio foi preso, o hoje meu cunhado, Blanquita virou o mundo até encontrá-lo na prisão secreta onde estava a receber chuva de electricidade, depois telefonou-me para Espanha para onde eu tinha sido enviado pelo meu chefe para sarar as feridas da minha alma, e lá foram ter connosco, à casa da aldeia. Para curar a depressão, o seu marido partia lenha, imensa lenha para o nosso fogão.

Tivemos de sair do Chile por sermos qualificados de subversivos: pelo facto de nos termos dedicado a alfabetizar, especialmente mulheres e, durante dois anos e meio, na província de Talca, ensinarmos socialismo, que eu aprendi com ela, introduzindo um certo abecedário meu.

Na Grã-bretanha, foi a rainha dos académicos de Southamptom e aprendeu bem a dividir o seu tempo entre manter uma casa impecável, preparar aulas brilhantes e criar a sua única descendente que queria dominar os pais, o lado fraco dessa rapariga que nunca cresceu muito, mas que soube orientar a torto e a direito, o que parecia ante ético e ante estético.

A sua volta ao Chile, foi a volta ao Éden das lágrimas: habituada a trabalhar e ter uma casa excelente, elegante e esmerada, teve, ela só, que disfarçar fraquezas perante a filha, procurar trabalho como tradutora e largar a modificação de outros, para se modificar a si própria. Após 15 anos tornámo-nos a ver no Chile Livre, não arredou pé, até voltar a ser o que sempre fora: uma senhora calma, excelente analista, orientadora dos desnorteados que voltavam ao Chile, colaborou na fundação do Programa de Reparação Psicológica e Física dos Retornados, que ela dirige em quatro províncias e deu o valor que faltava às pessoas que a ela e à sua instituição, acudiam. Séria, sem grandes gargalhadas, desde as sete da manhã até (muito tarde) à noite, orientava. Como o seu marido e vice-versa, e a sua única filha que é gentil e serena, como a mãe. Até os momentos duros, esses três, hoje quatro por causa do genro. Blanca Isabel Iturra de Toro Melo, é a nova Paula Jaraquemada, a real substituta de Michelle Bachelet.

O futuro de Blanquitao futuro de Blanquita

A sua vida tem sido feliz e é adulta demais para confrontar os avatares inesperados que a vida nos oferece. Não sou homem de fé. Mas deve haver uma divindade para que existam pessoas como ela e os outros três. Se houver, que essa fenda da nossa imaginação a acompanhe, aos quatro e me permita aprender deles.

Uma família feliz, os Toro, Iturra e Irribarren

Comments

  1. Fernando Moreira de Sá says:

    É um prazer ler os textos do Prof. Iturra!
    Obrigado por os partilhar connosco aqui no nosso e seu Aventar.

  2. Luis Moreira says:

    Um prazer renovado, caro Prof e que linda família.

  3. Carlos Loures says:

    Meu caro Raúl, estas memórias familiares, por mais vividas que sejam (ou justamente por isso) constituem belas peças literárias. Devias pôr os teus dotes de escritor ao serviço da literatura a qual, de modo algum, é incompatível com a ciência. Foi um prazer ler este texto.


  4. Meu Amigo Prof.e um Bom ESCRITOR EU ja li o Texto. comtinua a ser Muitos Anos. NUNO FERNANDES.

  5. Raul Iturra says:

    Queiram desculpar que responda aos três dentro da mesma caixa. Escreví este texto para dar apoio a minha irmã mais querida, que passa por momentos tristes de saúde! Devia ter escrito em Castelhano, como faço quando escrevo para os meus netos, aos que me endereço en inglês. Sim, Caro Carlos, memórias familiares tenho imensas: é delas que vivo por me encontrar longe da minha terra de origem e da alegria que esa vivencia me causava, especialmente esse brincar na nossa quinta ao pé do Pacífico os irmãos e os primos, nunca com amigos. A casa era e é grande, mas nós éramos tantos que nem mais um cabia além dos 21 parentes novos. Agradeço esse comentário sintétic e directo de Fernando Moreira de Sá, em poucas palavras diz todo! Luís gosta da minha família, eu também. É pena estar longe deles….espalhados pelo mundo todo. Quanto a ser escritor de romances Caríssimo Carlos, já gamhei um prémio literário por poemas e outro, da UNESCO, por ser o melhor ensaio científico escrito com hipótese, prova e factos analisados de forma literaria elegante. Foi assim também, po esse motivo, que fui condecorado faz quatro anos. Mas a gloria da escrita é também, recentemente partilhada com duas antigas estudantes, hoje as minhas amigas, com essa distância que marca a relação primogénita, docente-discente. Quanto ao Aventar ser meu também, acredite Caro Fernando que desde esse primeiro dia que fui convidado pleo Ricardo Santos Pinto, já me sentia dentro de tanta palavra. O que não aprecio nada, é essas queixas que, durante as últimas semanas, têm feito de mim e da minha pésima maneira de formatar os posts. Mas, Fernando, essa não é a minha ciência nem o meu saber. Felizmente estão os que têm-se formado em informática e podem corrigir as minhas gralhas, que não são assim tão graves. De que o Aventar é meu também, tenha a certeza que asim é como eu sinto, apesar de muitas vezes ter pensado em me retirar pelos “puxões de orelha” que gratuitamente são-me enviados. Eu curo mentes, não informática!
    Caro Carlos, mal acabe estes três livros de ciência que tenho em edição, vou lançarme ao romance. Mas, os textos deste tipo, pofrm ser também escritos como romances!, e é isso o que faço. Este Amor fraterno que tem acordado as pessoas para os meus textos, são o apoio para uma irmã muito querida que vive momentos de violência com a saúde. O segredo é escever com sentimento…qualquer temática.Obrigado a todos

  6. Carlos Loures says:

    Não tenho a menor dúvida de que tens material e talento para muitos e bons romances. E as memórias dão livros de grande qualidade. Estou a lembrar-me da chilena Isabel Allende e do seu, pungente, mas belíssimo «Paula».

  7. Raul Iturra says:

    Lamento que o comentário tenha aparecido no post a seguir a minha resposta aos anteriores. Agradeço o realce. De facto, para escrever, é preciso apenas conhecer a temática sobre a que se escreve, que nasce da nossa dedicação material ao estudo, um pouco de pimenta para alegrar a vida das pessoas que nos lêem, disciplina, como essa que eu uso: é melhor antes que depois, e imensa paciência para estar imobilizado na secretária, com muita concentração sobre o que se escreve, ouvir Bach. Mozart, Beethoven e Bocherinni, e chá permanentemente com esse pão denominado Viana, sem nada dentro. Não há regras para a arte, apenas o saber e a espontaneidade.
    Obrigado pelo seu comentário!

  8. Raul Iturra says:

    Caro Carlos, o meu amigo, aparece agora mais um comentário para me convencer para escrever romances. De certeza que tem sido a minha grande tentação. Aliás, a minha forma de escrito mudou em 1987, ao reencontrar a minha espanhola mãe, já com oitenta anos e viuva, 25 anos depois da ter visto em Cambridge. Já podia entrar ao Chile e fui a convite Presidencial desse amigo do meu pai, que antes timha traiso a Allende e depois lutou ao pé de povo para apagar os seus pecados. Esse reencontro após 40 amos com o Chile e parte da família-os apoiantes de Pinochet nem soube deles! e um pranto da minha mãe, fizeram mudar a minha forma des edcrever- Tinha eu enviado aos pais, o pai ainda vivo, um novo livro meu. O pai o lia na sua Clínica enquanto tomava o pequeno almoço, e derepente, o livro caiu: tinha entrado ma eternidade. A nossa querida Mãe o emprestou a um antigo docente meu, Gonzalo Calvo, quem queria saber de mim. O livro nunca foi devolvido e, no dia da minha partida, dentro do carro para o aeroporto, virei-me para a mãe e dissem: “Mama, hay cosas que nunca se hacen, especialmente libros tan especiales!” Sintiu-se traida e admonestado pelo o seu filho mais velho, esse que ela tanto esperava na sua juventude. Senti mais vergonha que Aylwin com a traição ao Allende ou Jidas, com a do Xristos. A abracei com ternura e prometi um livro. Dois meses depois tinha um dedicado em letra impressa a elsa e ao pai: O Imaginário das crianças. Os siléncios da cultura oral, Fím de Século, Lisboa, já na sua segunda edição. É pena a mãe não estar connosco, porque aos seus 90 anos entrara na eternidade, cansada de viver, sem doença nenhuma. Essa 2ª edição, aumentada com a minha teoria da Etnopsicologia, foi dedicado a minha primeira neta, Maira Rose van Emdem, nascida a 9 de Maio, mesma data da mãe entrar na eternidade. Tive o prazer de acompamhar a mãe durante dez anos e soube acompamhar-me em tidas as conferências que eu proferia quando ia ao Chile nos verões europeus. Até o ponto que, apesar do frío da Cordilheira, acompamhava-me de carro, sítio no qual ficava a calcetar enquanto eu ias falando com as pessoas. Essa Senhora, é a minha Paula da Isabel Allende e uma biografia dela, seria bemvinda, de certeza. É a forma de matar a aussência quando os que amamos e já não estão, são trazidos de volta a vida pela nossa memória. E mais nada digo! Obrigado, Carlos, pelo teu comentário.

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