Um conto da vida de Zé Pequeno (3)

(Continuando)

Zé Pequeno mirou em redor a terra revolvida. Segurava o saco de cabedal dos picos com que moldava a pedra. A manhã estava clara, pronunciando um bom dia de trabalho. Respirou profundamente o cheiro da obra, como se tivesse acabado de conquistar uma vitória. Vagueou por entre as pedras trabalhadas soltas ao longo da propriedade, e com as mãos tacteou o relevo de cada uma delas, como se lesse o que cada pedra lhe tinha para contar.

Fora o primeiro a chegar à obra, como o seu orgulho lhe ditara e fizera ganhar forças para ultrapassar o cansaço da jornada passada.

Pela estrada surgiu o vulto de um camião a que a breve trecho se juntou o barulho do motor. E dele viu sair dezenas de homens que seriam agora os seus companheiros de trabalho.

Ao volante, lá estava o Senhor Nogueira a incitar os homens ao trabalho. Descarregou a carga humana de trabalho e parou ao largo da obra após um curto arranque. Saiu do camião e lançou o olhar sobre o novo pedreiro.

“Pareces ter vontade de trabalhar. Vamos, moço!” disse o Senhor Nogueira abrindo o caminho por entre os operários até o levar à banca de trabalho.

Zé Pequeno passou a manhã a moldar a pedra, trabalhando afincadamente com os seus picos o granito tosco e bruto. Sentia que era mirado com desconfiança por outros companheiros. Um novo homem na obra podia significar a perda de trabalho de algum outro.

Pela hora de almoço, as mãos calejadas levaram sofregamente à boca o sustento e logo foi o primeiro a retomar o trabalho.

Pela tarde, descarregou pedra e rolou-a até à banca, onde depois a trabalhou.

A sua força parecia inesgotável. Como era a sua determinação.

No fim do dia, o ferreiro havia afiado os seus picos. Guardou-os com o cuidado de quem recolhe um tesouro. Nas suas mãos encardidas pelo pó da pedra, sentiu o toque das moedas reluzentes que pagavam o seu trabalho e sentiu-se feliz.

Regressou a casa com metade do percurso feito sob a lona do camião.

“Até amanhã” disse o Senhor Nogueira, quando o deixou.

Uma alegria ter uma certeza daquelas: um amanhã. Sabia que no dia seguinte havia um lugar para ele na obra, à sua espera. Nesse tempo os “amanhãs” valiam por si mesmos.

Durante dias a fio Zé Pequeno era aguardado pelos seus companheiros. Conquistara o respeito e o reconhecimento pelo seu valor. E aos poucos, pedra a pedra, hora a hora, dia a dia ia vencendo a luta da vida.

(Continua)

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