É a arte contemporânea, estúpido

No seu mais recente romance, “A vida em surdina” (Asa, 2009), David Lodge põe na boca do seu protagonista a seguinte apreciação:

“Muita da arte contemporânea assenta numa enorme estrutura discursiva, sem a qual ela pura e simplesmente viria abaixo e se tornaria indistinguível de um monte de lixo.”

A observação segue-se à contemplação de uma série de obras de arte cujos significados apenas lhe são aclarados pela explicação que consta no catálogo.

Não ponho no mesmo chapéu todas as manifestações de arte contemporânea, mas sinto-me demasiadas vezes próxima do raciocínio desta personagem de Lodge .

Uma das minhas incompatibilidades é com certo teatro pós-moderno, em que os actores parecem recrutados de entre os membros de um grupo de apoio a doentes com síndroma de Tourette.

Vestidos de andrajos, ou com uma espécie de saco que os cobre até aos pés, convulsionam-se pelo palco, ou correm num frenesim louco, ou gritam, ou, o que mais me assusta, passeiam-se por entre os espectadores, naquilo que parece menos um intercâmbio criativo do que um confronto que pode acabar mal.

O ambiente é medieval, psicótico, tenebroso, e à saída do espectáculo respiramos o ar poluído da cidade com volúpia e um agradecimento por termos sobrevivido. Fomos confrontados com “o vazio existencial da sociedade pós-moderna” ou “a angústia do indivíduo num mundo dessacralizado”, mas não conseguimos ver mais do que uma pandilha de loucos à solta por um palco.

E que dizer de certa música experimental? Sento-me com a melhor das disposições,  intenção essa afectada, à partida, por certos assentos alternativos, como quadriláteros vagamente parecidos com puffs, sem respaldo onde apoiar as costas, e aguardo uma epifania.

Depois de quase embalada por umas repetições que me parecem uma afinação interminável de instrumentos de corda encontrados numa cave depois de quarenta anos de abandono e humidade, e quando já me começa o traseiro a resvalar pelo quadrilátero, desperto em sobressalto com a irrupção de um estranhíssimo instrumento de sopro, cruzamento de um fagote com uma mangueira de plástico.

O som que dali sai evoca o urro de dor de um animal ferido de morte, talvez um rinoceronte ou um hipopótamo, ou criatura igualmente gigantesca e tonitruante. Eu sei que a música erudita percorreu um longo caminho desde os Madrigais de Monteverdi, mas eu pareço não ter conseguido acompanhar a evolução.

Valha-me a abençoada sorte de apreciar a dança contemporânea, sinal de que ainda há esperança na minha conversão.

Mas sinto, como o insensível protagonista de Lodge, que se me retirarem as legendas não serei capaz de reconhecer nem uma única obra de arte contemporânea, e incultamente a confundirei com um monte de lixo.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Tu, além de escreveres lindamente, tens o dom de repor a discussão nos assuntos sérios e realmente importantes!


  2. Tens toda a razão Carla. De uma maneira geral, a dita arte contemporânea, com alguns trabalhos de grande mérito, não tenhamos dúvidas, é um saco sem fundo onde oportunisticamente se enfia tudo, desde aquilo que tem valor até àquilo que de merda pouco passa. Como é um campo de natureza tão dúbia e sobre o qual as pessoas têm medo de dizer o que pensam, a merda lá vai aparecendo à superfície dando-se ares de coisa bem cheirosa. São precisas muitas pessoas como tu para denunciar sem peias a patranha que por aí grassa. Aconselho-te um livro de José Javier Esparza “Los ocho pecados capitales del arte contemporáneo”, “una denuncia despiadada y profunda de las estafas del arte contemporáneo”.

  3. Carlos Loures says:

    Uma componente essencial do êxito (não só nas artes plásticas) é o marketing. Parece que já contei a história, mas volto a contá-la: uma jornalista pega na «Aparição», do Vergílio Ferreira, digitaliza o livro, muda-lhe o título e põe um nome qualquer para o autor. Manda cópias para algumas das mais importantes editoras. De todas, sem excepção, recebe o livro devolvido com a carta do costume:«Apesar da qualidade do seu original, lamentamos…» Isto significa que a maioria dos livros. dos quadros, não se vendem pela sua qualidade intrínseca, mas pelo nome do autor. O Saramago, se não fosse quem é, não conseguiria uma editora que lhe publicasse o «Caim». Em marketing chama-se qualidade técnica à qualidade intrínseca de um produto, e qualidade percebida ao valor que esse produto tem no mercado. As obras de arte e sobretudo a arte moderna, tão permeável a mistificações, não fogem às leis que regem a venda de iogurtes. É triste, mas é verdade. Bom texto, Carla.

  4. Carla Romualdo says:

    Honra lhes seja feita, algumas dessas obras acabam por resultar divertidíssimas, pese embora não ser essa provavelmente a intenção de quem as criou.

  5. carlos ruão says:

    … nÃO!
    antes pelo contrário e sem querer contribuir para o con(senso) geral entre texto e comentários -porque apenas partilho dos seus apêndices no que respeita à «confusão» e ao «marketing» (para o qual o divino Miguel Ângelo nos idos de 500 contribuiu ao forjar um baixo-relevo romano, convencendo toda a gente de que se tratava de uma antiguidade) devo lembrar que o david lodge é um escritor de ficção – vá lá – de rédea curta e não um crítico e/ou historiador da arte e que a informação citada está bem dentro do tipo de sátira típica dos seus livros (e que não me venham dizer que, bem, bem, embora toda a gente saiba como é a vida de um investigador e blá blá blá, ela está plasmada de forma veraz e tal como é nessa única obra de relevo do dito escrevinhador – «o mundo é pequeno»)
    … por outro lado a frase «muita da arte contemporânea assenta numa enorme estrutura discursiva, sem a qual ela pura e simplesmente viria abaixo e se tornaria indistinguível de um monte de lixo», se pode até ser verdadeira na ampla garra divina da virtude opinativa do escrevinhador, até vai mais além do que ele pensa e fundamenta positivamente uma boa parte dos movimentos da arte contemporânea ; quero com isto dizer que, por exemplo, a «arte povera», a «land art» ou a «arte conceptual» passam na sua totalidade pelo exercício/exposição física de uma ideia na qual o objecto material não tem necessariamente valor de per si (a não ser que voltemos ao mundo dos mármores de carrara e aos oiros do brasil) ; portanto, querendo ser satírico, não deixa também de ser verdadeiro (não o sabendo).

    … em duas palavras: o problema da incomunicabilidade do homem actual com a arte do seu tempo surge de uma falta por parte daquele da leitura semiótica e iconológica do objecto que tem perante si (quando ele não corresponde à nossa «humanidade» como explicava há muitas muitas muitas décadas atrás ortega e gasset no «a desumanização da arte», livrinho que expõe em pequeninas cento e vinte paginazinhas o porquê da nossa/vossa incapacidade de «ler» a contemporaneidade e quando falo de contemporaneidade estou a falar até hoje não até à «pop art» dos anos 50/60).

    … é para mim evidente que sem perceber o significado teórico do neoplasticismo não vale a pena olhar para um Mondrian porque de nada me vale
    … é para mim evidente que sem entender a estrutura musical do serialismo ou minimalismo não vale a pena ouvir Steve Reich e tudo me parecerá igual
    …. e por aí adiante.
    (a não ser que se viva em permanente Carnaval, mas isso é outra coisa…)

    … que não se confundam as deficiências de «legibilidade» e sensibilidade pessoais com os seus supostos abusos (então não há literatura cor-de-rosa e arquitectura de fachada que não de espaço ?) e mais importante do que isso: deve sempre separar-se o «trigo» do «joio» isto é, um juízo de valor sobre algo que se conhece, domina e se entende da mera «opinião» assente em sensibilidades e «ilegibilidades» pessoais.

    … pois se for assim, os muitos e muitos museus de «natividades», «cristos crucificados» e de «apolos e dafnes» que tanto amo (não entendidos pelos chineses e pela juventude em geral já laica e certamente ateísta) seriam queimados de imediato, qual nova noite de «arte degenerada», pois também aqui – no que respeita às ditas novas gerações – há o mesmo problema mas ao contrário (em aulas de história da arte tive belos e conhecedores alunos que identificavam na mão e na cabeça dos bispos e arcebispos, chapéus e cajados!!!!)

    …sIM! a raiz está na última frase do «post».

    … e, agora sim, se poderá dizer, «é a arte contemporânea, estúpido!»

  6. Carla Romualdo says:

    Absolutamente de acordo, Carlos Ruão, com essa sua síntese: este texto não é mais do que “mera «opinião» assente em sensibilidades e «ilegibilidades» pessoais”, enquanto o seu comentário, é, inegavelmente, “um juízo de valor sobre algo que se conhece, domina e se entende”.

    • Luís Moreira says:

      Carla, tu não gostas. E ainda bem que não gostas porque só assim,(havendo quem não goste) é que há quem se especialize em gostar de tudo, por amor à arte ou por dever de ofício. Há inúmeras manifestações de arte de que gosto mas há outras de que não gosto e isso faz parte da minha forma de ser feliz. Esta tarde voltei à Gulbenkian para ver uma forma já considerada medíocre de pintura…

  7. Miguel Dias says:

    Ó Rouen, tanta coisa para dizer o que a distinta astróloga resumia de forma brilhante:
    “não negue à partida uma ciência que não conhece”.

    • Luís Moreira says:

      A Carla não está a negar nada, está a dizer que não gosta, o que é uma arte absolutamente salutar…

  8. Carlos Loures says:

    Tenho tido este tipo de discussão numerosas vezes com um amigo que o Carlos Ruão, por certo, conhece – o Rui Mário Gonçalves. Aprendi com ele que não se nasce a gostar da arte – aprende-se a ver a arte e, vendo-se e compreendendo-se, gosta-se ou não se gosta. O que digo sobre o marketing, mantenho-o, porque não implica juízos de valor: uma boa operação de marketing vende bons e maus iogurtes, vende bons e maus livros, bons e maus quadros… Mas a reacção da Carla à permissividade da arte moderna em matéria de mistificação ou mesmo de pura aldrabice (sobretudo nas artes plásticas) é também a minha. E não me diga o Carlos Ruão que é preciso estudar a fundo a obra de um pintor para poder emitir uma simples opinião, porque,nesse caso , a arte seria dirigida exclusivamente a um público muito reduzido de críticos de arte (avalizados por academias, por exemplo). É a história do Apeles e do sapateiro. Eu nunca percebi por que motivo o sapateiro não há-de poder ir além da chinela. Não fazem os sapateiros parte do público a quem as obras ou os livros se destinam? De facto, pessoas como a Carla e como eu, que apenas analisamos a arte na óptica do utilisador e que se tivermos uns cobres até podemos comprar um quadro e gastamos dinheiro em livros e em discos, não havemos de poder dar a nossa opinião (não avalizada)? Compramos o quadro porque o Rui Mário ou o Carlos Ruão nos dizem que é bom, mesmo que (sapateiros) na nossa opinião não preste? Aprender a gostar. Talvez seja verdade, mas eu vou continuar a gostar do que me agrada. E, Carlos Ruão, pelos meus padrões, o David Lodge não é um escrevinhador – é um escritor de cujos livros eu gosto.

    • Luís Moreira says:

      Completamente de acordo contigo, Carlos! Os matemáticos dizem que não há nenhuma arte com a beleza e a utilidade, intrinseca e formal do cálculo matemático. Não será a opinião do Carlos Ruão. Mas tambem é verdade que aprendi a gostar da Pintura de Picasso depois de ler e ter tido a sorte de trabalhar com um Madrileno que me explicou, pacientemente, a Guernica e “as mademoiselles de Avignon” por exemplo. E passei a gostar!Mas os conhecedores e especialistas podem ajudar chamando a atençaõ para pormenores, técnicas que nos escapam, mas isso não quer dizer que o meu “gostar” seja igual, ou passe a ser igual. Revelador, foi a discussão entre dois professores de arte italianos que nos acompanhavam sobre a “a virgem e Jesus descido da cruz”(não me lembro do nome ) que está à direita na basílica do vaticano que um considerava a obra mais extraordinária e o (a) outra nem tanto.

  9. carlos ruão says:

    deve haver aqui um equívoco: apenas costumo comentar, e muito muito raramente, um pouco daquilo que estudo (e que de nenhuma forma domino ou conheço com profundidade !!!) para evitar coisas como aquela da «pá» do Oldenburg em Serralves que vi aqui no blog tida como uma farsa/falso objecto artístico.
    … enfim, não sou crítico da arte nem antiquário
    e não tenho capacidade para aconselhar ninguém a comprar arte (de qualquer época ou feitio)
    … muito menos sou ou pretendo ser um moderno savonarola do «gosto dos outros»
    … trabalho em historia da arte, o que é uma coisa substancialmente diferente (aliás o meu modelo estético é e sempre será o «divino» pintor, escultor, arquitecto e poeta Miguel Ângelo, portanto, estou à vontade quanto à contemporaneidade na qual me sinto relativamente confortável) e pretendi apenas partir da frase do david lodge (que não gosto como escritor por ser demasiado leve para o meu gosto pessoal – nos EUA prefiro o Poe ou o Faulkner, por exemplo) e dizer que ela também sustenta o contrário… e … fui por aí adiante.
    … mas não tenho intenção nem talento para ser um pedagogo de «gosto» e de «opinião» e sei muito bem sabido que pertenço a um mundo de negrume e de «paixões kafkianas» que os meus caros aventadores não partilham… e ainda bem 🙂

  10. carlos ruão says:

    … já agora, meu caro Carlos Loures, por outras palavras, sou «anteriano» e não «queirosiano» (usando o seu último post como referência).

    cumprimentos a todos vós

  11. Carlos Loures says:

    Meu caro Carlos Ruão, o meu comentário dirigia-se mais à argumentação do Rui Mário, formulada de A a Z, do que às suas palavras. Pareceu-me que a sua opinião era coincidente com a dele e zás! Aliás, há muita razão na ideia de que só se pode amar o que se compreende. No entanto, aplicando esse princípio às artes plásticas, só um reduzido número de pessoas estaria em condições de apreciar as obras de arte. Desculpe a veemência. Os anterianos são mais meticulosos do que os queirosianos (disse mais meticulosos, não disse mais chatos). Nessa universo dicotómico, sinto-me mais queirosiano (mais superficial e frivolo). Os seus comentários são sempre profundos e bem estruturados (os anterianos são assim). Um abraço.

  12. Pedro says:

    O post do Adão Cruz sobre este da Carla fez-me vir aqui, à raíz da discussão, opinar.
    Concordo com a Carlos Loures sobre as virtualidades de uma operação de marketing na imposição de uma marca ou produto – incluindo os culturais. Também acho que o sapateiro deve aspirar a mais do que o chinelo – se, de facto, aspirar, caso em que estuda o sapato, a bota, o botim, os saltos altos,etc., e ao estudar e praticar vai evoluindo na técnica e na teoria
    Mas, no geral, concordo com o Carlos Ruão. E cito aqui uma frase sua: “e quando falo de contemporaneidade estou a falar até hoje não até à «pop art» dos anos 50/60)”.
    Ora aí está a questão: a arte, no momento temporal da sua “modernidade” ou da sua novidade, se quisermos, nunca foi popular, nem constituiu fenómeno de massas. Hoje, de resto aqui mesmo, ainda se fala popularmente de Picasso como se de um contemporâneo – no sentido que actualmente se dá à palavra no campo artístico – se tratasse. Pois a arte de Picasso foi nova há muitas décadas (daqui a nada há um século), envelheceu e ficou ultrapassada há bastantes, do ponto de vista da história da arte contemporânea. A própria expressão arte contemporânea – A Picasso aplica-se a designaç&atilo;o Arte Moderna – está agora a ser substituída segundo alguns autores pela express&atilde Arte Post-contemporânea dividida em;o Artes Visuais ( que engloba as “clássicas” pintura e escultura, mas também o vídeo, as artes digitais, a instalação, etc.) e Artes Performativas que englobam a dança, a representação, as formas artístisticas ligadas ao corpo, etc. Todas estas valorizam, em geral, a contaminação de umas formas artísticas por outras, a interpenetração,etc., assim como os conceitos, os pressupostos teóricos, os pontos de partida para a sua realização.
    E é aí, nesse ponto, que discordo um pouco do Carlos Ruão: eu acho que é verdadeira a afirmação de David Lodge – muita da arte contemporânea assenta numa enorme estrutura discursiva sem a qual pode ser inintelegível, logo reduzida a nada por quem não está dentro da dita estrutura. Em muitos casos é assim. Mas isso não é, necessáriamente, mau ou estúpido. Pelo contrário, acho eu. Para ler também é necessário conhecer o alfabeto e juntar as letras.
    Quanto ao resto há, hoje como sempre, boa e má arte, arte mais simples e arte mais complexa, arte mais acessível e arte mais para “iniciados”. Eu, pelo meu lado, não vejo que devesse ser diferente.

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