Mal-entendidos

Quando cheguei, já tarde, contava-se a história de um homem cuja vida fora marcada por um episódio dramático, ocorrido no final da adolescência. O episódio, que, pelas razões que a seguir se explicarão, não vos posso contar, tinha tanto de torpe como de pungente e era fascinante do ponto de vista ficcional. E foi justamente isso que entendi, que se tratava do enredo de uma obra de ficção.  Um romance a que me apeteceu deitar mãos de imediato, diga-se. Mas a narração do episódio chegava ao fim, impunha-se avançar para outro tema, e eu já não encontrei espaço para esclarecer de que autor e de que obra se falava.

Nos dias seguintes, procurei no Google. Não era fácil, apenas com um excerto da trama, sem saber autor nem título, nem coisa nenhuma. A temática levava-me a supor que se trataria de uma obra relativamente recente, mas a busca revelou-se infrutífera. Não conseguia encontrar nenhum registo de uma obra com esse enredo.

Passaram uns quantos dias e eu voltei a estar com a pessoa que contara aquela que era já para mim uma história lendária. Não hesitei em perguntar-lhe a que romance se tinha referido naquele dia. Enredo? Romance? De todo. Contava-se uma história que sucedera a alguém conhecido de todos nós. Uma história real, saída do tecido palpitante da vida de alguém. E é por ser uma história bastante íntima que não vos conto o episódio que me despertara a atenção.

O livro, esse que eu andara a buscar com a inquietação semi-febril dos leitores compulsivos, não existia. Não fora escrito, ninguém o engendrara. Existira, por alguns  dias, na minha imaginação, fora real nessa dimensão restrita, mas por aí se ficara, e também aí acabara por se extinguir.

Mas, não fora o acaso de eu ter a oportunidade de esclarecer o equívoco, e, enquanto a minha memória o permitisse, eu buscaria esse livro imaginado, esse livro alimentado por um erro de percepção. E provavelmente estenderia esse equívoco a outros leitores, perguntando, sempre que a ocasião fosse oportuna, que livro seria aquele, quem teria assinado essa história portentosa, e talvez dando origem dessa forma a uma rede, cada vez mais ampla, de buscadores de uma obra impossível de encontrar.

E, no desfecho deste enredo tão borgesiano, talvez se desse a grande apoteose que seria encontrar, com efeito, essa obra, e quem sabe descobri-la anterior ao tempo de vida desse homem a quem tudo acontecera, e especular que porventura ela não teria existido se não nos puséssemos a buscá-la, com essa determinação que se coloca nas missões que, não sendo vitais, vêm ampliar o tempo e o espaço quotidianos.

Encerrado o episódio, lamentei a impossibilidade de obter esse livro. E, iluminada como por um relâmpago, deparei-me com a suspeita de que nunca poderei saber quantas das minhas mais arreigadas crenças se fundamentaram em equívocos. O que eu ouvi, ou vi, ou li, ou interpretei erradamente; aquilo que, tendo partido de idênticos erros de percepção por parte de outros, me foi contado como verdadeiro.

Quantos enganos, quanta dificuldade de entendimento, quanta asneira certificada pelo selo da verdade, porque se, num plano teórico tendemos ao cepticismo, no quotidiano somos muitas vezes crédulos e desejos de aceitar como verdade o que se nos apresenta. Quanta ilusão e quanto falso raciocínio petrificados em crenças sólidas como catedrais.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Eu, tambem vi, no outro dia , um livro da tua autoria na montra de uma livraria.

  2. carla romualdo says:

    E de quem era, afinal?

    • Luís Moreira says:

      Oh, Carla, deve ser a percepção que tenho do potencial que revelas no que escreves. Já te estou a ver tu a escreveres, o Carlos a coordenar a edição e a promoção dos teus livros e eu a facturar…

  3. carla romualdo says:

    agora fizeste-me rir, és um capitalista empedernido!


  4. Se o livro não existe, escreve-o. Se é uma história que merece ser contada, conta-a. Arte não te falta.

  5. Carla Romualdo says:

    esta história, em particular, não pode ser contada. Mas quem sabe outras? Obrigada

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