Língua de trapos

É que nem no dia internacional se entendem e é o diz que disse do costume. Certo certo é a história do dia ter origem nos trapinhos mas mulher que é mulher conhece desde que nasce o poder de um trapo.

Ninguém pode jurar a pés juntos de onde aparece este 8 de Março porque as histórias são mais que as mães. Fala-se no incêndio da Triangle Shirtwaist mas esse, a ter acontecido, já que nem essa certeza se tem, foi a 25 de Março de 1911 mas em 1909 foi celebrado pela primeira vez o dia da mulher nos Estados Unidos. O próprio site da ONU atira-nos para o colo essa história para justificar a oficialização deste dia internacional em 1975 só que em 1910, quando na primeira convenção internacional das mulheres Clara Zetkin propôe a instituição de um dia da mulher, ainda as operárias não teriam morrido e, no ano a seguir, é escolhido o dia 19 de Março. Diz-se também, lá está, é o diz que disse que nós mulheres tão bem conhecemos, que o dia 8 de Março corresponde ao dia 23 de Fevereiro do calendário juliano e que foi nesse dia que as operárias têxteis russas largaram o trabalho e vieram para a rua protestar contra a I Grande Guerra (na altura não se sabia que era a primeira mas isto é só um aparte) sendo que desses protestos nasceu a Revolução Russa de 1917.

Como eu já tinha dito ninguém se entende e o único fio que liga estas histórias todas é mesmo um fio já que dê por onde der há sempre trapos metidos ao barulho, sejam eles capitalistas ou socialistas. Mas pronto, temos um dia internacional, é hoje, dizem, e eu, mas isso sou eu, acho que a confusão à volta deste dia não está só na história mas está, sobretudo, no nome.

Dia Internacional da Mulher.

Não, não me parece nada bem porque também não me parece bem que a mulher precise de um dia no calendário só para ela porque todas nós, mulheres, cada uma para si e sem contar nada às outras e muito menos aos outros, sabemos que os dias são todos nossos. Nós só nos queixamos para tentarmos que ninguém nos tope porque nós, com os nossos botões e com mais ninguém, que há segredos que levamos para a tumba, conhecemos bem aquilo de que somos capazes só que somos assim uma espécie de super homem ao contrário, escondemos de todos os super poderes e alardeamos a fragilidade. Fazêmo-la pela calada, pois claro. Queixamos-nos dos homens mas fomos nós, mulheres, que durante milénios os criámos e lhes ensinámos a regra número 1, a única, a nossa, a de que só a mãe deles é uma mulher decente e respeitável todas as outras são perigosas. E os homens, entes crédulos, sobretudo se fôr a mãe deles a falar-lhes, trataram desde cedo de nos manter sossegadinhas num canto que o medo do que pudéssemos fazer era grande. Tão grande, e eles sentiam-se tão desprotegidos, que inventaram mil e um artifícios para conseguirem viver connosco sem estarem sempre a vigiar as costas, porque esse é um outro facto, eles não conseguem viver muito longe de nós, a tentadora maçã paira-lhes na frente do nariz desde o início dos tempos. Sabiam que quase desde que os homens fizeram as leis o envenenamento era o único crime em que a mera tentativa era punida tão duramente como o crime consumado? Pois, lá está, miúfa, medinho, cagaço. É que eles não são parvos e sabem por onde lhes chegamos, o Camilo Castelo Branco ensinou há muito que entre o coração a cabeça e o estômago os homens se apanham pela pança, e sendo o veneno a arma preferida das mulheres convinha avisar desde logo que era melhor nem termos ideias de salgar a sopa.

A mulher, qualquer mulher, pode quer e manda e a mulher, qualquer mulher, sabe isso. Os homens sabem-no ainda melhor. O dia internacional da mulher não me faz assim muito sentido mas outro galo cantaria se o nome fosse ligeiramente diferente. Um “s”, só lhe falta mesmo um pequeno “s”. É que há muito que os homens perceberam a nossa fraqueza, a nossa kriptonite, e foi graças a ela que nos dominaram. Juntem uma mulher, outra mulher, outra mulher. Tirem-nos do singular e tornem-nos plural, reunam-nos em grupos, pequenos, médios, grandes, e temos a desgraça feita. Minhas amigas, há que reconhecê-lo, nós não nos suportamos umas às outras e lixamos a parceira do lado com a ligeireza com que trocamos os collants. As mulheres, essas sim, têm sido exploradas, usadas, abusadas, maltratadas por gerações e gerações de homens mas fomos nós que nos pusémos a jeito porque somos as primeiras a tirar o tapete de debaixo dos pés umas às outras. No último século conseguimos fazer qualquer coisinha mas foi mais por distracção deles que por mérito nosso porque foi só quando eles se começaram a misturar connosco, a diluir o nosso veneno colectivo, que conquistámos alguns direitos como classe e comecámos, finalmente, a assumir-nos como plural. Assim, acho que deveriamos celebrar o Dia Internacional das Mulheres porque só esse faz sentido, só as mulheres são, e foram, discriminadas, sendo de uma extrema utilidade que nós, mulheres, pelo menos uma vez por ano, nos lembremos que a solidariedade, a lealdade, o respeito, têm de começar por nós, mulher, para nós, mulheres.

Mas sabem o que vai acontecr hoje? Bandos de mulheres vão juntar-se por aí em alegres jantaradas onde gajo não entra, achando que essa é a verdadeira conquista, a liberdade suprema, o grito do ipiranga, e vão voltar para casa, uma a uma, levando para o homem delas a tupperware com os melhores petiscos da noite, as histórias, as muitas histórias, cheinhas de veneno, das outras que com ela lá estavam.

Dúvidas? Leiam outra vez este post. De cima abaixo que fiz eu? Limitei-me a ser mullher e disse mal das outras todas.

Tereza, Cabra de Serviço

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Tereza, fantástico texto! Sempre tive a percepção que são as mulheres quem manda, principalmente quando não parece. Conheço a avó do meu filho há 40 anos, atão nã é que somos todos como ela queria que fossemos há quarenta anos atrás? Filhas, pais dos netos, netos, bisnetos…e ela tirou a antiga 4ª classe e trabalhou o resto da vida.Tem hoje 85 anos, e ninguem a consegue tirar da sua casa onde vive sozinha. Isso é que era bom, diz ela com uma risada! Quem é que manda, quem é?


  2. Luis, eu nunca tive dúvidas que quem manda somos nós. O pior é que nunca aprendemos a caçar em conjunto, mandamos lá em casa e na rua somos umas galinhas. Ou éramos, espero.


  3. Luís, ando com uma preguiça nos ossos, deve ser da chuva, que nem no meu sítio escrevo, mas obrigada na mesma. É sempre bom ouvir estas coisas e nós gaijas, com i, também gostamos que nos adulem….

    • Luís Moreira says:

      É mesmo, a preguiça faz bem, e uma “gaija” com preguiça é irresistivel…só é pena perder-se esse talento.Não se pode ter tudo, mas de vez em quando…


  4. Pois eu já discuti com ela por causa do post, Luis! Mas cada vez que ela discute comigo fica mais refinada. Aposto que agora é uma catedrática na história do 8 de Março…

    E também já vai sendo hora de lhe sair a preguicite do corpinho…


  5. (Até porque agora acabaram-se as desculpas, ou não, Dª Tereza?)


  6. Srª Dona Mente, eu já hoje andei na Biblioteca do Congresso, na de Oxford e na de NYCity (filhos da mãe que é só para quem tem cartão e vive em NY, estive quase para dizer que me chamava Carrie Bradshaw) por causa de ti e da lenda urbana (sim, que é uma lenda!) da marcha das mulheres no 8 de março de 1857, portanto tu nem me digas nada, ó pita.

    • Luís Moreira says:

      Como eu invejo aqueles homens que as mulheres adoram. Deixam-nos partilhar estas conversas de sonho.


  7. quais desculpas? não estou a perceber nada. Nadinha.

  8. Luis Moreira says:

    Mente Perigosa, a Tereza é um “estalo”…(espero que não seja machismo)


  9. Mente, tradução simultânea sff, antes de responder ao Luis. “Estalo” é o quê?

    • Luís Moreira says:

      “Estalo” diz-se de uma daquelas mulheres que,mesmo sem as conhecer, as achamos …preciosas! (eu fui um menino de rua, levei metade da minha vida a sonhar…)


  10. Tereza, estou a fazer outra tradução neste momento. Já me dedico a esta.


  11. Ahahahahah… eu nem quero saber…
    (olha lá Peixa, tu já reparaste que estamos a estragar este blogui tão sério? Os senhores nunca mais me convidam a não ser que lhes responda ao anúncio)


  12. (responde lá ao anúncio para nós podermos instalarmo-nos aqui…)


  13. (pssst, tu cála-te que tenho estado a pensar nisso. Os senhores têm uma casinha airosa, devem ter quem limpe o pó que isto tem ar arejado, não tinhamos de andar de balde e esfregona na mão, não podemos é dar nas vistas. Disfarça, tu disfarça)


  14. (o que te safa é que eu estou ocupada)


  15. A fazer traduções com oito nos de atraso. Já sei. Tu põe o serviço em dia e depois diz qualquer coisinha, sim?


  16. (upa, upa, isso é que foi um elogio…)


  17. (põe upa nisso, é que vou passar a vir aqui mais vezes que isto faz melhor ao ego que a minha velha receita da mini saia e do prédio em construção. até porque se mini saias ainda tenho pernas para que a coisa resulte em pleno já não sei…)


  18. (Será que posso continuar a passar também? Estes senhores têm estilo…)


  19. (pronto, mais um pouco e estás a perguntar se usam fatos às riscas… tu tem tino peixa maria)


  20. (Usam???? Tu não me dês esperanças…)


  21. (cama. tu vai para a cama e não te ponhas a perguntar aos senhores, que são tão simpáticos, essas coisinhas do âmbito pessoal. é que se bem te conheço a seguir pedes as medidas)


  22. (Não posso ir para a cama que ainda estou a traduzir.)


  23. Tu vais cansar os olhinhos, vais vais…


  24. (e olha lá, nós que até somos quase vizinhas, como se diz por aqui, precisamos de vir ocupar a sala dos senhores para a conversa, precisamos?)


  25. é tão agradável quando as pessoas humanas chegam, estendem uma manta, e tomam o seu cházinho. ficamos com aquela certeza que a casa é acolhedora e as pessoas cá gostam de estar.
    venham mais vezes humanas, e disponham. há sempre água quente, e só fazer a infusão e esponjem-se à vontade. o prazer é todo nosso.


  26. E servem também pequenos almoços?


  27. Pode ser antes dois ovos estrelados, bacon frito, tomate na chapa, torradas com muita manteiga e um café duplo com um farrapinho de leite? É que preciso de começar o dia repondo os indíces de colesterol.


  28. Café! Triplo! Sem farrapinho nenhum! Antes disso não consigo ser gente.


  29. Ó faxavor, eu já cá estava, tá bem? Se está com pressa de ser gente dirija-se a outra tasca com menos freguesia.


  30. Eu gostava tanto de te pôr no lugar.
    Mas o meu neurónio recusa-se a reagir. Vou ficar para aqui atirada à espera de energia para respirar…
    (Mau feitio da gaija, pá… Só porque a elogiaram, já se julga a Rainha da Cocada Preta…)


  31. Psst, olha que comigo agressão gratuita não. Queres agredir, pagas.

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