Poesia no feminino (Homenagem a Lurdes Rocha Girão)

O meu amigo de infância, Luis Moreira, conhecedor do quanto admiro a MULHER, pelo amor que recebi de minha mãe e irmã e pelo mistério que a envolve, desafiou-me a escrever um texto no dia que alguém entendeu designar como “O DIA MUNDIAL DA MULHER”.

Para mim todos os dias, tal como para o Homens, é dia da mulher e por isso considero um absurdo e um símbolo da discriminação que a sociedade continua a fazer quando já estamos no século XXI.

Decidi por isso aproveitar o desafio do meu amigo para revisitar legados da minha querida mana, falecida em Novembro do ano passado. Encontrei um livro “Janela Indiscreta” de uma poetisa (Paula Salema), sua amiga, onde ela escreveu o prefácio que a seguir transcrevo:

Prefácio
Apesar da Idade que nos separa, somos amigas de longa data, e foi por isso que acedi a escrever este prefácio, no entanto tentei ser imparcial e isenta.

Mulher/menina, Menina /mulher?
Qual delas nos dá a conhecer a sua riqueza interior?

No seu dualismo sensitivo utiliza o saltitar de palavras cadenciadas, imprimidas no seu ritmo para se libertar de grilhetas sociais que lhe encarceram os sentidos.

E é, na liberdade de expressão, que os sentimentos aparecem, quer aflorando o onírico, quer embriagando-se e aturdindo-se nas nebulosas dos destroços da menina que já cresceu.

O desejo de viver a vida, muito a seu jeito, sem incongruências do não e do não ser.

…….”Somos presença/Intensidade/não somos tristeza/Somos constelação em desejos/ Forças magnéticas de afirmação e negação”…….

Cada palavra, nalguns poemas mais do que outros, está carregada de grande sensualidade que vai reprimindo no dia a dia ….

….”Entre o silêncio e mim/impulsos gritantes desmedidos/dois desejos alienados/abraçados nos espelhos de palavras alienadas ….”

No poema “Shadow”

Porque existe um mundo/terrivelmente belo/para ser visto/tocado/sonhado/ e admirado/ feito à medida das mulheres/…. Ainda que esteja /sempre a perder-te/sempre a querer-te e a perder-te “….

….” de onde o meu norte chamará o teu norte/onde o teu sul será o meu destino/e eliminaremos desnorteados os tabus sexocráticos/com as misturas do teu sul e do meu”……

E para quê fazer mais citações? Acreditem que vale a pena meditar, divagar e talvez sonhar com as palavras desta Menina /mulher, Mulher/menina,

Maria de Lurdes Rocha Girão

Este Prefácio reflecte a sensibilidade única que só as mulheres têm (o tal mistério insondável que as torna tão especiais e a que chamo “ALMA DE MULHER”).

Também os poemas de Paula Salema no seu livro “Janela Indiscreta” reflectem essa sensibilidade e por isso não posso deixar de também transcrever os poemas que se seguem:

Olhar

O doce e misterioso sabor de ti
Vem pelos braços da criança que foste.

Sei-o, enquanto te perdes a contemplar-me

Afirmação

Não somos espera
Somos acção, viagem.
Não somos silêncio
Somos palavra abraçada.
Não somos morte
Somos vida, energia, fulgor.
Não somos medo
Somos luta, aprendizagem.
Não somos dor
Somos prazer, sentidos.
Não somos pó
Somos epicuristas da terra.
Não somos frágeis
Somos fragatas em descoberta.
Não somos doença
Somos presença, intensidade.
Não somos tristeza……

Somos constelações de desejos
Forças magnéticas de afirmação e negação ……

Lurdes Rocha Girão / Paula Salema

Comments

  1. Carlos Loures says:

    A Lurdes Rocha Girão é merecedora de todas as homenagens – quer as institucionais que sei terem sido feitas na cidade onde exercia, com devoção, entrega e sentido de serviço à comunidade, a sua profissão de médica, quer aquelas que familiares e amigos lhe podem fazer, dedicando-lhe palavras que, como as do post, conservem a sua memória. Porque as pessoas só morrem verdadeiramente, quando ninguém as recorda.

  2. Carla Romualdo says:

    Belíssimo texto

  3. Luis Moreira says:

    A Lurdes foi uma grande mulher! Todos os dias acordou homens, animais e bestas, na sínteses fantástica de Maria Velho da Costa..

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