Uma História (muito) mal contada


O convite (com muito mau hálito) para a sessão inaugural da Assembleia Constituinte de 1911: mulher NÃO entra!

Neste 8 de Maio e em todo o Portugal, múltiplas instituições comemoram o Dia Internacional da Mulher, num oportuno enxerto com as comemorações oficiais da República. O lema? A Mulher e a República.
A verdade é bem diversa daquela que nos querem fazer crer. Nem sequer dando muita ênfase ao facto de Portugal ter tido duas mulheres que acumularam a Chefia do Estado com a de comandante-em-chefe das forças armadas, há ainda que considerar as regências que se sucederam ao longo de séculos e onde brilharam nomes como Catarina de Áustria ou Luísa de Gusmão, entre outras. A I República excluiu as mulheres da vida cívica, considerando-as como seres inferiores e ameaças ao regime de 1911, atribuindo-lhes um pendor religioso contrário aos postulados vigentes. Neste artigo publicado no pró-Partido Democrático jornal Humanidades (1913), torna-se evidente a contradição entre a retórica de hoje e a verdade da História de ontem. Aqui vai um naco da prosa, para aguçar o apetite:
“As mulheres na sua maioria são verdadeiras crianças, com caprichos singulares, excêntricas exigências, são histéricas, nervosas, morbidamente tímidas, deploravelmente ignorantes. Em frente desta fotografia, o que pretendem as feministas, onde quer que elas existam?
Para disfarçar a sua infantilidade, os seus caprichos, as suas exigências, envergam um trajo tanto ou quanto possível semelhante ao do homem, para proteger o nervosismo, o histerismo, e a sua timidez, usam pistola e para acabar de vez com a ignorância, uma formatura. (…) Basta que ela saiba ser mãe para o que é preciso aprender. Uma parte desta sublime missão sabe-a ela instintivamente, outra desconhece-a geralmente – a educação dos filhos.Para isto é preciso despartilha-la; despi-la de muitos preconceitos que a perseguem e gritar-lhe bem alto ao ouvido: não sacrifiques a tua saúde ao rigor artístico dos figurinos porque ao desenhista nada custou a manejar o lápis sobre um pedaço de papel! “


É claro que os maridos destas senhoras da Belle Époque também gostavam de usar aventais bordados e com rendinhas, mas apenas nas horas vagas e em divertimentos cerimoniosos. Quanto às cônjuges, elas que ficassem em casa, usando-os durante o dia inteiro na cozinha, no jardim ou a lavar as fraldinhas dos bebés a cargo. As avozinhas das Mmes. Cavaco, Canavilhas e Ana Jorge não tugiam nem mugiam.

As mulheres passaram a votar em 1931 e foram pela primeira vez eleitas para o parlamento de Salazar (!), em 1934. Ainda muito teriam de esperar até verem – ainda que parcialmente – garantidos os seus plenos direitos: 40 anos, 1976!

Por Maria de La Fontaine

Comments

  1. XicoAmora says:

    Logo no início da nossa história (de Portugal) é uma mulher que comanda uma das facções, D. Teresa, e depois a sua neta, outra Teresa, que administrou a corte em nome do pai.
    A república portuguesa nasceu assim com Afonso Henriques, com os forais concelhios e com a protecção a judeus e mouros. O 1º ministro das finanças era um grande rabino (judeu). A monarquia portuguesa foi sempre a república que a que saíu do 5 de Outubro nunca soube ser.

  2. Nuno Castelo-Branco says:

    Até que enfim… !

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