A Galinha de Luiz Pacheco

O Zé Rijo, se fosse vivo, fazia hoje anos. Não sei quantos, mas sei que fazia. Fomos amigos, pese embora a diferença de idades, pois eu sou da geração dos filhos dele.

Também eu, como tanta gente, abanquei por casa do Zé, com a vantagem de ter ficado independente, no rés do chão, encostadinho à olaria. Foi assim, com um pé fora e outro dentro, que fui assistindo ao cortejo dos que passavam pela casa. Quando lá cheguei, já o Luiz Pacheco teria já saído, tanto quanto me lembro (alguns anos mais tarde li alguns dos cadernos manuscritos durante essa sua estadia em Lagos).

Dizem que não há coincidências. Há-as e algumas muito belas por sinal. Pesquisava os romances do meu colega aventador Carlos Loures e vou dar à biografia de Luiz Pacheco. Autor, Carlos Loures. Ora, eu, quando me lembro do Luiz Pacheco, lembro-me da galinha e, quando me lembro da galinha, lembro-me do Zé, e hoje lembrei-me que o Zé, se fosse vivo, fazia anos, por recordar que fazíamos anos no mesmo dia.

A isto de ir em busca do Carlos Loures, sair Pacheco e ser dia de anos do Zé, chamo eu uma bela coincidência. Confusos? A história foi-me contada algumas vezes, uma delas pelo Zé Rijo.

Dizia eu que o Luiz Pacheco viveu uns tempos em casa do Zé. Um dia voltou do mercado com uma galinha debaixo do braço. Panela – disseram os da casa. O Luiz não deixou. Que não, a galinha era dele, queria tratar do animal. A galinha andava solta pela casa, o Pacheco dava-lhe milho, vai daí cocó aqui, cagadela ali, uma vez por outra, um ovito acoli. O Zé protestou e a galinha recolheu ao quarto do Luiz Pacheco. Este, quando saía, amarrava-a aos pés da cama e ia apanhar ar. O Zé bem tentava convencer o Luiz a fazerem cabidela da emplumada, mas o Pacheco continuava inamovível. Ligara-se ao bicho, não havia nada a fazer.

Um dia vai dar uma volta e, quando regressa, tem uma cabidela fumegante à sua espera. Eu fico-me por aqui porque, há uns dias, encontrei a história da galinha contada pela Mena. Ela sim, estava lá, e desconfio que ainda chegou a comer uns trocitos do galináceo do Luiz Pacheco, que o Zé Rijo pôs na panela.

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