Não sei onde é que este país vai parar, não

Refastelada num sofá da livraria, com um volume esquecido sobre os joelhos, a senhora gritava ao telemóvel e olhava em volta para assegurar-se de que a olhavam.

“É verdade, parece impossível… Coitadito, acabou o curso mas nada… Ainda o chamaram para um estágio, mas ele não gostou daquilo. Foi à entrevista e quando chegou a casa disse-me logo “Ó mãe, olhe que eu para ali não vou. Eles o que querem é escravos a trabalhar de borla, que trabalhem eles!”… Sabe que também há muito aproveitamento nestas coisas, não é? …  Ninguém valoriza o esforço deles, não, não, nada! Como é que o país há-de andar para a frente, com estas pessoas assim? Este Sócrates… olha, é um melagómano!! E estas coisas emergentes da educação e da saúde, as mais importantes, não é?, ele não lhes passa cartão.”

Gesticulava furiosamente e elevava cada vez mais a voz. Entre os leitores, cada um em seu sofá, ou de pé, entre as estantes, a incomodidade era já evidente.

“Pronto, vai lá, vai lá, depois falamos”. Algo lhe foi dito do outro lado que veio pôr um final abrupto à conversa. Despediu-se e guardou o telemóvel na bolsa com um suspiro de resignação. “Não sei onde é que este país vai parar, não.” Olhou para os lados, pigarreou e retomou o livro que deixara pousado no colo.

Não aguentei a curiosidade, tinha de ir espreitar o título: “O seu futuro na numerologia”.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Estaria procupada com o que lia na numerologia?

  2. Estava, por certo, em busca de uma solução para o petiz no livro. Consta que o 7 é um bom número.

  3. maria monteiro says:

    mas se a senhora for dessas que cresceu com algum trauma matemático… bem …. dificilmente acerta no número

  4. Carla Romualdo says:

    a culpa é do sócrates, que não passa cartão às coisas emergentes

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