Ao comentário de Talvez…

Caro Talvez…parecem, mas não são falácias. No que respeita à “falácia” ad hominem, há que reconhecer que o papa é, na realidade, para mim, o representante de uma instituição verdadeiramente indecorosa. Todos os dias surgem na imprensa, e não me digam que é perseguição, relatos escabrosos atribuídos ao clero (passados em muitos países de que há muito temos conhecimento, agora vem a Irlanda envergonhada, a Alemanha incomodada, a Holanda estupefacta, a Suiça de boca aberta e o que mais se vai ver. Não tenho dúvidas de que as grandes revelações, isto é, revelações de abomináveis crimes de perversão sexual e pedofilia da igreja, praticados não só pelo clero mais subalterno mas também pela alta hierarquia, não tardam. O tempo levantará todos os véus sujos e conspurcados). A “falácia” ex populum também não é verdadeira, até porque as pessoas que se sentem repugnadas com os actos da igreja desde há séculos, mas sobretudo da metade do século passado para cá, gravosos crimes economico-financeiros, tráficos de influência, compadrios, nepotismos, intrigas e intromissão vergonhosa em países soberanos, “assaltos” ao poder e ao domínio, ao ensino, à saúde, às instituições e aos bancos, políticas e intervencionismos camuflados em conflitos bélicos, sempre ao lado dos agressores e dos poderosos, tudo isto caldeado numa monumental hipocrisia sem a mais pequena centelha de humildade cristã, são muitos milhões. São pessoas que, como disse no post, têm uma testa e dois olhos debaixo dela, e não podem deixar de se sentir incomodadas e ofendidas com a visita do papa.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    É claro que tudo isto são sinais do tempo, a Igreja sempre teve poder para abafar casos tenebrosos e deixou de ter, é escrutinada como todas as instituições que são públicas. Mas há muita gente que se revê na visita do Papa!

  2. Carlos Loures says:

    O papa é um chefe de Estado. Um regime laico como é o nosso devia limitar-se a gastar o que habitualmente gasta nessas visitas, não mais. Se querem uma recepção sumptuária, a Igreja que pague. Acho que esta é a única maneira de ver o problema, Adão. Num país, como Portugal, em que a mairia da população é, pelo menos oficialmente, de confissão católica, não se poderia ir mais longe (mesmo que o Governo fosse outro, mais coerente e verdadeiramente socialista).


  3. Concordo contigo, Carlos. Mas sou um tanto radical nesta matéria. Não digo que o façam, nem acredito que o pudessem fazer, mas há países que, por esta ou por aquela, não recebem oficialmente determinados chefes de Estado. Mas, como tu dizes, deviam limitar-se a gastar o mínimo que o protocolo pode exigir. Se há muitos cidadãos católicos, também há outros tantos cidadãos que o não são, e o respeitinho deve-se tanto a uns como a outros. Receberem -no com honras de chefe de estado já é uma boa cedência. Agora pagarmos a sumptuosidade desta fantochada é inadmissível.

  4. Talvez... says:

    Então, suponho que me permita umas perguntas: a primeira, são os actos de alguns padres que definem uma instituição? Não seria isso generalizar? Era o mesmo que dizer, quer por certos professores serem incapazes de manter a ordem na sala de aula, que todos os professores são uns brandos incapazes?
    A falácia ex populum vem do facto de apelar «a toda a gente com testa e olhos debaixo dela» para se vestirem de luto. Mais uma vez, fala de «assaltos ao poder e ao domínio, ao ensino e à saúde», etc. A minha outra pergunta é, onde estão esses atentados? Não peço que mos ilustre todos, apenas alguns, para ter a ideia. E segundo, serão esses supostos atentados, verdadeiramente atentados? O que é para si um atentado?

    Agradeço a atenção que dispensou ao meu comentário, à qual não poderia deixar de responder. O meu comentário não pretende ser ofensivo nem agressivo, apenas, catalisador.
    P.S.: A minha relação com a Igreja Católica é a mesma que é partilhada por grande parte dos portugueses.


  5. Talvez. De qualquer modo obrigado pela sua correcção. Quanto aos actos, eles não são de allguns padres. São actos que atravessam praticamente todos os países e continentes. Ainda ontem, no jornal, um membro do clero falava em três mil, conhecidos. Há dias um outro membro do clero falava em 5% dos padres. Como deve reconhecer, num contexto em que a verdade dos números é muito difícil de atingir, por razões que não é difícil compreender, estes valores poderão ser bem mais elevados. Quanto a mim, não tenho dúvidas que isto é a ponta do iceberg. Mas mesmo que estes números correspondessem à realidade, não são “alguns” padres. E o que repugna é que isto se passa numa igreja cujas palavras-alicerce são Deus, pureza e santidade! Se estes crimes são abomináveis dentro da sociedade, eles tornam-se cem vezes mais abomináveis dentro duma igreja. Obviamente que eu não sou contra a igreja e muito menos contra quem a segue. Sou muito amigo de padres e freiras, sendo alguns, até, meus doentes. O que me revolta na igreja, como fenómeno social, que eu, como cidadão, tenho o direito de julgar e contestar, é que ela está muito longe da santidade que impinge aos fiéis e à sociedade em geral. O que nela me repugna é a sua descarada hipocrisia, a sua incapacidade de fazer um verdadeiro acto de contrição, e o seu inglório desvio da verdadeira doutrina de Cristo.
    Quanto aos crimes da igreja, aos seus atentados, não cabe aqui uma conversa aprofundada sobre o assunto. Mas eles estão descritos na história, em variadíssimos textos de jornalistas sérios e em muitos livros de investigadores conceituados, que o meu amigo porventura conhece, ou terá facilidade de encontrar e ler. Um abraço

  6. Carlos Loures says:

    Subscrevo integralmente. Em todo o caso, e voltando ao problema inicial, o da vinda do papa, não acredito que um governo, por mais coerentemente socialista que fosse, a pudesse evitar, dado o número de católicos existentes no País. Agora, não aceito que se desvie para a recepção a esse chefe de Estado, mais do que a verfba estritamente indispensável. O que se gastaria com o Chávez, por exemplo.

    • Luís Moreira says:

      Há milhões de católicos cá no país, nem pensar não o receber com todas as festanças.

  7. maria monteiro says:

    Também subscrevo integralmente.
    Como católica tenho pena que Bento xvi não venha como simples peregrino


  8. Carlos, estamos plenamente de acordo.
    Maria, as palavras de um católico ou não católico deveriam ser mesmo essas.


  9. Luis, não sei se haverá assim tantos milhões. Faz-se crer que sim, mas a realidade não é essa, mesmo contando com aqueles que só usam o rótulo. Há estudos que revelam, por exemplo, que o número de ateus no mundo é bem maior do que o dos crentes. Simplesmente não parece, porque eles não se apresentam como tal, nem têm interesse nisso.

  10. Talvez... says:

    Sejam 3 mil, sejam 5% (fossem 30% até!), caro Adão, não continua a ser julgar o todo pela parte?
    E pergunto-lhe, repugnam-lhe esses padres que cometem essas atrocidades, ou a instituição? Ou exalta-se apenas pelo facto de uma instituição, supostamente santa, não o ser e ainda assim impingir aos fiéis santidade?

  11. Talvez... says:

    Adão Cruz :
    Luis, não sei se haverá assim tantos milhões. Faz-se crer que sim, mas a realidade não é essa, mesmo contando com aqueles que só usam o rótulo. Há estudos que revelam, por exemplo, que o número de ateus no mundo é bem maior do que o dos crentes. Simplesmente não parece, porque eles não se apresentam como tal, nem têm interesse nisso.

    Eu não confiaria nesses estudos. Há demasiadas variáveis a considerar. E é preciso distinguir ateus de agnósticos.
    Quanto àqueles serem apenas católicos de rótulo, é quanto baste. Se eles se dizem publicamente católicos, para a sociedade (que só lhe interessa o que é exteriorizado) é como se o fossem.

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