E viva a Greve

Acabo de ouvir um senhor da TAP queixando-se que os trabalhadores com greve marcada não aceitaram os serviços mínimos que a administração exigia. E que exigia a administração: nada de especial: todos os voos turísticos para a Madeira, todos os voos que trouxessem emigrantes a passar a páscoa, e parece que sobravam dois ou três que podiam ser cancelados.

Esta nova prepotência patronal, a que se somam as ilegalidades hoje cometidas na CP, traduzem a realidade actual: a greve, arma por excelência dos trabalhadores, vai sendo amestrada e em tempo de desemprego facilmente contornada pelos empregadores, expressão que em linguagem contemporânea faz do patrão uma espécie de santa casa da misericórdia, benemérita, generosa, a que todos devemos obediência e respeito.

Num tempo em que se proletarizaram tantas profissões, sobretudo na área dos serviços, em que os direitos mínimos dos trabalhadores são transformados em poderes máximos dos que os exploram (sim, o trabalho é explorado, ou querem que enumere os bónus dos administradores, os dividendos dos accionistas, os espantosos lucros em época de crise?), num tempo de crise em que eles brincam com a bolsa de desemprego com que ameaçam os que hipocritamente chamam de “colaboradores”, o que se vai seguir é inevitável, e um clássico: as greves tendem a tornar-se selvagens, os desempregados um dia explodem, e o povo volta à rua.

Arranjaram a lenha, um dia vão-se queimar.

Comments

  1. mjoao Rijo says:

    As greves não podem ser amestradas, concordo, mas esta dos pilotos, uma classe já por si bem remunerada, nesta época de crise, a pedir aumentos astronómicos, parece-me vergonhosa.

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