O socialismo morreu? (Memória descritiva)

No pórtico do seu livro “O Pós Socialismo” (“L’Après socialisme”) que recentemente reli, quase trinta anos depois de ter sido editado em Portugal), dizia Alain Touraine: «O Socialismo está morto. A palavra figura por todo o lado, nos programas eleitorais, no nome dos partidos e mesmo dos Estados, mas está vazia de sentido». Este reputado sociólogo francês, criador do conceito de sociedade pós-industrial, propõe uma acção apoiada, não em partidos ou em sindicatos, mas sim em movimentos sociais.

Note-se que Touraine fazia esta afirmação antes de, na Europa, a grande ofensiva dos partidos socialistas ter tido lugar – em 1981, François Miterrand vencia as eleições presidenciais francesas e Andreas Papandreu as legislativas da Grécia; em 1982, Felipe González ganhava as eleições legislativas em Espanha e em 1983, Mário Soares, as de Portugal. Embora em Itália, o Partido Socialista de Bettino Craxi não conquistasse votações significativas e o seu nicho no ecossistema político italiano fosse, desde 1976, preenchido pelo euro comunismo do Partido Comunista de Enrico Berlinguer, o socialismo parecia estar vivo. A realidade contrariava a tese de Touraine? Foi precipitada a sua afirmação?

Ele falava de uma coisa diferente – do ideal que com Saint Simon e Owen deu os primeiros passos, acertando depois a respiração pelo resfolegar das máquinas com que o capitalismo inaugurava a era industrial e, com Marx e Engels, passou da fase utópica à fase cientifica. Filtrado pela revisão leninista, definido como ponte entre o capitalismo e o comunismo, após o pesadelo estalinista, entrou na senda do «socialismo real».

Num livro mais recente, “Un nouveau paradigme” (2005), Touraine analisou o percurso histórico das difíceis relações entre política, economia e sociedade, assinalando três etapas na laicização e privatização da economia europeia. Na Idade Média, séculos XI e XII o poder político fugia à tutela da Igreja. Os senhores feudais e as casas reinantes começavam também a sacudir o jugo religioso e a consolidar as fronteiras e soberanias. Deu-se depois uma aliança entre o poder político e económico. Nobres e mercadores conciliaram interesses Os príncipes patrocinaram grandes empreendimentos mercantis (nomeadamente os descobrimentos). Só, séculos mais tarde, com o advento da era industrial e do liberalismo, o poder económico ganhou vida própria, fora da esfera do poder político. A economia de mercado faz a sua aparição e estabeleceu o seu império.

O fim do séc. XIX e o dealbar séc. XX viram nascer nova aliança. Foi a vez da economia e do social se unirem, casamento que pode ser explicado pela vida infernal dos trabalhadores, pela conversão de camponeses em proletários. Gente que saiu dos seus tugúrios e se organizou em partidos e em sindicatos, corroendo os alicerces da economia de mercado. Era o parto sangrento da sociedade industrial e do movimento que a enfrentou. O socialismo.

A cavalgada «socialista» dos anos 80, em França, Grécia, Espanha e Portugal foi ganha por uma estirpe de políticos – Soares, Miterrand, Papandreu que deram ao termo «socialismo» um novo significado e, sob o fogo cerrado da direita, tentaram demarcar-se do socialismo histórico, inventando slogans como «O socialismo de face humana» por oposição ao socialismo de Estado, que tão má reputação dava ao conceito.

Transformaram em rosa o que foi vermelho, recusando conotações com o Outubro russo, com a Guerra Civil de Espanha e com outros marcos que os socialistas revolucionários sempre ostentaram com orgulho. Do socialismo conservaram apenas o nome. Aquilo que esses políticos fizeram, em termos comerciais é designado por uma «usurpação de marca». Com este passe de mágica, prepararam o socialismo para os novos tempos: pegaram na embalagem e meteram-lhe dentro um produto diferente. Sócrates ou Zapatero encontraram o trabalho feito e duvido que relacionem o que dizem com a história do socialismo. São pragmáticos.

Diz Touraine: «Os que são proprietários do socialismo como se duma marca comercial se tratasse já não sabem em nome do que é que falam; reduzem a politica à táctica; tornam-se estranhos à vida das ideias. São padres pretensiosos de uma religião sem fiéis». Este corte entre o discurso político e a prática partidária, acentuou-se nestas três décadas.

Esta evidência de que os actuais partidos socialistas não entroncam na árvore genealógica que vem das lutas heróicas do século XIX é escamoteada pelos partidos actuais, dirigidos por gente «pragmática», ligada a uma lógica burguesa e aos interesses do grande capital. Gente com mentalidade empresarial, com ambições de fazer carreira, para os quais o partido é uma passagem para lugares de topo no mundo dos negócios. Socialistas, estes partidos? – pura mistificação.

Um episódio que me contaram há dias: um advogado, assessor jurídico de um dos ministros substituídos na recente remodelação do Governo, preparava-se para voltar ao escritório onde trabalhava antes de ter sido convidado para o ministério; o ministro cessante disse-lhe : «Não, você, não pode voltar para o escritório de advogados – isso ir-lhe-ia estragar o currículo – agora tem de se lhe arranjar um lugar mais importante». Depois, o novo ministro resolveu manter o assessor.

É uma história que não revela nada de grave, mas que nos diz muito sobre o conceito que os «socialistas», fazem do exercício da funções políticas – um marco nas carreiras, uma linha no currículo. Como dizia um político «socialista» madrileno para um outro da UCD de Adolfo Suárez, quando Felipe González venceu as eleições gerais legislativas em 1982 – « Ahora, nos toca a nosotros comer langosta». Lagosta, tem de ser entendida lato senso: cargos para amigos, familiares e correligionários, negociatas e, sobretudo, subir um degrau na carreira. Saídos do Governo, vão direitinhos aos conselhos de administração de bancos ou grandes empresas. O cargo público, serve de alavanca para a ascensão. O que tem isto a ver com o socialismo?

O socialismo, apesar de, em seu nome se terem organizado estados autoritários, se terem cometido atropelos à democracia e cometido as maiores ignomínias; apesar de fazer parte do nome de partidos que em nada respeitam os princípios do ideal socialista, continua a ser um capital de esperança para os que desejam um mundo mais fraterno e justo.

O socialismo não morreu. Ainda não nasceu e, digamos, o que nunca existiu não pode morrer. O socialismo tem sido uma palavra cujo campo semântico é vasto, ilimitado, cobrindo desde as ideias mais puras e fraternas até a pesadelos vividos em estados policiais que usurparam a palavra, passando por estes neo-liberais que, com despudor, ousam designar-se socialistas.

A história os julgará. A demanda do socialismo deve continuar – e esta utopia de toda a humanidade conviver numa comunidade fraterna, igualitária e livre, é algo porque vale a pena lutar. Ainda que o homem, raiz e medida de todas as coisas, tenha de mudar para que a vida mude também e a sociedade se transforme.

Comments

  1. Adão Cruz says:

    Os três últimos parágrafos do teu texto resumem aquilo que as pessoas, ou por ignorância, ou influenciadas pela poluição política maldosa e reaccinária, não sabem.

  2. Pois é Adão – nós gostamos de pregar no deserto. Somos uma espécie em vias de extinção. Um abraço.

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