as mulheres não gostam de nós II parte

o homem confessa

Torno a perguntar porque é que as mulheres não gostam de nós. E torno a ficar sem resposta. Será que não há colaboração entre ela e ele? Será que o homem a abandona reiteradamente? Será que o gosto e o desgosto mudam com o tempo e a idade? Ou será apenas que a mulher gosta de mandar, ser obedecida e seduzir por meio do desgosto do homem que verdadeiramente ama?

Um casal não é unicamente uma junção de dois. Esses dois, inseridos numa época histórica e num contexto social, têm vários papeis a cumprir ao longo do tempo. O mais importante é o de serem pais e ocuparem-se dos filhos. Não apenas da sua saúde e bem-estar, bem como do seu saber e da sua educação. A minha experiência de etnopsicólogo diz-me ser a mulher quem se interessa mais pela sabedoria dos mais novos, pela sua aprendizagem, pela sua mais-valia como ser humano. Não é em vão que vão à escola perguntar como anda esse saber infantil, bem como não é em vão ser a mãe a convidada pelos professores das crianças para saber dos seus comportamentos na escola. O pai está sempre ocupado com o seu trabalho de ganhar dinheiro, ou a sentir a emoção de ser chefe de família, essa de educar em casa o descendente. Normalmente, com punição. Às vezes, com alegria.

É mais do que conhecido que a alegria da leitura depende da alegria que essas leituras causam nos ascendentes. Enquanto mais lêem os adultos, mais lêem os mais novos. Como acontece com outros saberes. O que se fala em casa fica gravado na memória da infância e passa a ser uma temática que é contínua entre adulto e criança. Não é que em casa não se brinque ou se façam brincadeiras, mas brincadeiras eruditas, como dançar Rimsky-Korsakov, ou representar Shakespeare à laia e entendimento dos mais novos. Os adultos, em casos como esses, observam com atenção e não fazem mofa dos erros; bem pelo contrário, calam e depois, em silêncio e entre adulto e criança, o livro à revisto e explicado. Esse é, diria eu, um lar feliz, com exercício, passeios ao ar livre e horas certas para adormecer e levantar, seja Sábado ou dia de semana.

Quem mais incentiva esta erudição, é a mulher. O homem aceita e colabora, mas está sempre nos seus afazeres. Como foi o caso da família Curie, Marie e Pierre, que, apesar de ter descoberto como se partia o radium e galardoada duas vezes com o prémio Nobel de Física – a primeira em 1903 com o seu marido, a segunda já viúva em 1911, o prémio Nobel em Química, tiveram tempo de se dedicar aos seus descendentes, Éve e Iréne, escritora a primeira, cientista a segunda. Sua filha mais velha, Irène Joliot-Curie, recebeu o Nobel de Química de 1935, ano seguinte ao da morte de Marie.

É possível apreciar como de pais com vida calma, trabalho em colaboração e dedicação à vida doméstica, podem emergir descendentes com vida calma, com sabedoria e criatividade. Como foi o caso de Pablo Picasso e Françoise Gilot, pintores de nomeada, que tiveram dois filhos, Claude (1947) e Paloma (1949), dedicados à arte. Ou o caso de vida de descendentes de Alfred Kinsey.  Após completar o seu doutoramento, Kinsey ingressou como professor assistente do departamento de zoologia da Universidade Bloomington de Indiana, em 1920. Era chamado pelos alunos de Prok, um diminutivo de Professor Kinsey. Lá, conheceu Clara Bracken McMillen, a quem passou a chamar carinhosamente de Mac. Kinsey casou-se com Clara em 1921, com quem teve quatro filhos. Quatro filhos educados dentro dos parâmetros da zoologia, biologia e liberdade de amar, que souberam tomar cuidado da herança do saber dos seus pais, no laboratório Kinsey, para Estudos de Sexologia.

Qual é o perdão que um homem pode pedir a uma mulher, se há compreensão e entendimento na obra dos dois e da sua descendência? Diferente é o caso de Auguste Rodin e da sua companheira escultora Camille Claudel (Fère-en-Tardenois, Aisne, 8 de Dezembro de 1864Paris, 19 de Outubro de 1943), ou do escultor mexicano Diego Rivero e da sua companheira, escultora mexicana também, Frida Kalo, roubadas e mal tratadas até à loucura de Camille e à invalidez de Frida Kalo.

Esses são os homens que as mulheres não gostam e que devem pedir perdão. Eruditos e sábios, eram a perversão das suas mulheres, como Picasso e a sua inveja de Françoise Gilot, que ainda pinta de forma brilhante.

Penso que esta parte era necessária para fechar o círculo dos pecados que os homens cometem com as mulheres.

Não é estranho, pois, que muitos povos tenham criado uma divindade que trata bem e perdoa, sob diferentes nomes, essa Senhora denominada Maria, mãe de um carpinteiro vulgar a quem ele ajudou a revolucionar-se contra os ricos que não tinham consideração pelos desvalidos…se a história for real. Mas de que há uma mãe universal denominada Maria, é um facto histórico.

Mãe criada pelos homens que gerem a sua vida, chamados Padres, é uma divindade para os ocidentais como a Baloma estudada por Malinowski o é para os nativos da Papua Nova Guiné.

É a imagem colocada no começo do texto: o homem é cruel, a mulher zanga-se, e apenas fica essa mãe universal para o amar e, eventualmente, perdoar….

Comments

  1. maria monteiro says:

    As marias perdoam sempre tudo o que acham que devem perdoar… ás vezes enganam-se mas também faz parte da vida … gostam de vocês homens mas… com conta, peso e medida… digo eu que sou Maria e… lhe mando um abraço, Prof Raúl

  2. Raul Iturra says:

    Querida Maria, parece-me não ter entendido o meu texto. Não é uma auto acusação, é uma crítica ao comportamento dos homens com as mulheres que começa, de facto, por esse permanente perdão às faltas de respeito dos seres masculinos para os seres femininos. Não falo apenas de deslealdades emotivas, falo do tratamento geral ao que a mulher fica submetida, sempre subordinada aos caprichos de uma sociedade onde os homens parecem ser as pessoas mais importantes, os que mandam mais e têm sempre os melhores sítios sociais, altas hierarquias e ordenados. Há os que têm consciência desse comportamento, mas há os que não se importam porque a testosterona orienta as emoções em sentido negativo para as mulheres. Normalmente estou a atacar esse comportamento, e justamente uma senhora, diz que as “Marias” perdoam todo. Está, por acaso de acordo com essa subordinação? Não reparou na imagem que acompanha o texto, um homem a chorar e uma mulher a duvidar qual será a sua reacção? Não tem reparado que os tempos têm mudado, mas a relação entre homem e mulher continua igual? Não me parece que tenha comentado o meu texto, que é apenas uma continuação do anterior, mais duro com os homens do que este é. Pedirlhe-ia que lê-se com calma os dois e comente depois…Obrigado

  3. maria monteiro says:

    assim farei

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