Palavras velhas e gastas

As palavras estão gastas, estão gastas as palavras. Mas há pessoas que têm sempre dentro de si uma permanente sensação de paisagem. Pode ser o Universo, uma floresta, um rio ou um sorriso.

Mesmo gastas, as palavras são olhos de distância e água, as palavras são sopros de horizonte, as palavras são bonitas. São bonitas as palavras ditas e não ditas.

São boas as palavras, por fora e por dentro, mesmo as palavras más, para ver e falar com a paisagem, sobretudo se não somos capazes da poesia de Grieg numa Canção de Solveig, ou da melodia de Smetana nas ondulações do Moldava.

Mesmo gastas, as palavras gastas ainda têm dedos, olhos e lábios.

Eu ainda acredito nas palavras velhas e gastas.

Mesmo gastas, puídas, sem cor, são elas que dão a tangência da música e acendem as noites com unhas de fora.

Não matem as palavras gastas, velhas, assim sem mais nem menos, não deitem fora as palavras velhas, até que me ofereçam, no dia em que ficar mudo, uma caixa de palavras novas.

Comments

  1. Adão, querido amigo, eu diria que as palavras são sempre novas. Et par le pouvoir d’un mot – Je recommence ma vie – diz o Eluard no seu famoso poema sobre a Liberdade. O poder de uma palavra é enorme. Na minha opinião, as ideias que as pobres palavras transportam é que estão gastas. A plasticidade da palavra, a capacidade que tem de transmitir ideias estúpidas ou geniais, é, quanto a mim, um dos grandes milagres realizados pela nossa espécie. Mas compreendo a tua ideia – no fundo, dizes o mesmo que acabo de dizer – por outras palavras.

    • Luís Moreira says:

      Coragem, dizia o meu professor, Alberto Fialho, é usar pela primeira vez, uma palavra (seja gasta ou não)

  2. Que repousante comentário, Carlos, como sempre. Um abraço

  3. Carla Romualdo says:

    lembraste-me um poema do Daniel Faria, do qual cito o início, e que me parece lindíssimo:
    “Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
    Restauro-a
    Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
    Ilumino-a “

    • Luís Moreira says:

      Consertar as palavras, restaurar os sentidos, és uma felizarda, Carla, adoras livros, poesia… e recordas sempre o essencial…

  4. maria monteiro says:

    Uma carreirinha de palavras já com muitos anos…
    Surge a palavra
    em nova forma,
    salta da boca
    servindo um ideal
    onde nada te obriga

    onde nada te diz
    tua vida em decreto
    e de nova raiz
    surge a palavra
    distante, sem medo
    reflecte e pensa
    quando da vida
    se inventa,
    e posta em seum outro matar;gredo
    no silêncio da terra
    em dia sem fim
    ela surge
    lançada ao vento
    e na parede pintada
    sua luta é travada
    de não ser mito
    nem gerada
    para uso restrito

    • Luís Moreira says:

      Posso publicar? Quem é a autora? Lindo! Se és tu andas -nos a enganar. com essa conversa que não queres…

  5. maria monteiro says:

    Luís, fica tão bonito aqui na palavras velhas e gastas e pois, foi escrito em junho de75

    • Luís Moreira says:

      Publica as tuas coisas, Maria! esse poema é lindo. Não sejas tímida, arranja um pseudónimo…

  6. maria monteiro says:

    Luís não é ser tímida! escrever era a minha forma de luta … quando comecei a trabalhar aprendi que lutar era estar ao lado de quem não tem voz… por lá continuo sem escrita mas com muito calor humano
    bjs maria

  7. Comentários poéticos de luxo, Maria!

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