A propósito do comentário do amigo Prof. Raul Iturra

 

Amigo Raul Iturra, em primeiro lugar, as melhoras da sua gripe.
Em segundo lugar queria dizer-lhe que nos encontramos em campos opostos, no que respeita ao entendimento das emoções e dos sentimentos. Desta forma, é sensato não querermos ter a pretensão de nos convencermos um ao outro. Mas é saudável, sob todos os pontos de vista, dialogarmos sobre tão cativante tema. Assim sendo, gostaria de lhe dizer que a biologia do espírito é um conceito muito actual, praticamente irreversível, e cada vez mais aceite por, praticamente, todos os neurobiologistas contemporâneos. O facto de se usar a palavra espírito, não significa que a ciência tenha necessidade dela, mas utiliza-a, exclusivamente, como contraponto ao raciocínio.

A ciência não procura controvérsias, mas apenas tentar com toda a seriedade e honestidade explicar os fenómenos da vida, como é seu dever natural e seu objectivo incontestável. Todos sabemos que hoje, na vida, tudo se processa á base dos conhecimentos científicos, desde o lavar dos dentes às viagens interplanetárias. E ninguém contesta. Este conceito de biologia do espírito, ao contrário do que o meu amigo diz, em nada afecta a natureza das emoções e dos sentimentos, totalmente diferentes, umas e outros, em cada pessoa.

O esquema neural é o mesmo em cada um de nós, na nossa espécie, mas o padrão neural da emoção, desencadeada por um estímulo exógeno ou endógeno, e que precede sempre o sentimento, e o padrão neural do sentimento, que precede a propriedade do sentimento, a reflexão e a consciência, são diferentes em cada um de nós. Precisamente o contrário daquilo que o meu amigo diz.

Em nada, mesmo nada, a biologia do espírito deprecia a natureza afectiva dos sentimentos. Estou em crer que enobrece a sua própria natureza, ao aproximá-los o mais possível do racional e afastando-os o
mais possível desse “abjecto” irracional. Como tudo na vida é alvo da curiosidade humana, a ciência tem o único e nobre papel de nada antepor às deduções lógicas da investigação.

Toda a gente tem o direito de sublimar hipóteses e toda a gente tem o direito de dogmatizar essas mesmas hipóteses. A ciência não. A ciência não dogmatiza nada. A ciência coloca perante a razão do ser humano, tanto quanto possível, os elementos que lhe permitem afirmar-se como provavelmente certa, dentro das inúmeras provas que tem dado. Se os sentimentos existem e nos envolvem, uma coisa é utilizarmos todo e qualquer tipo de linguagem, afectiva, poética, artística, e porque não, mística e metafísica para os vivermos e expressarmos. Outra coisa é procurar saber o que são, do ponto de vista humano e neurobiológico, como se realizam, como se processam, em que estruturas cerebrais assentam, quais as neurotransmissões, dentro dos triliões que percorrem o nosso cérebro a cada momento, que lhe estão subjacentes.

Este é o papel da ciência, de uma ciência que não pretende substituir-se a nada, mas que não prescinde, de modo algum de todos os créditos que a tornam, a nível da nossa vida, a maior e mais credível fonte de conhecimento.
Para terminar, dado que isto seria conversa para muitas e muitas horas,
queria dizer-lhe que nos fins do século XIX e princípios doséculo XX, a
neurologia e a psiquiatria estavam fundidas, separando-se mais tarde. Freud foi neurologista. Hoje, o caminho é de novo a sua fusão, com a conclusão de que não há hipótese de qualquer separação entre as duas.
Esteve há dias em Lisboa, a falar de tudo isto, o cientista americano Tom
Insel, Director dos “National Institutes of Mental Health dos EUA. Este
senhor tem um orçamento de 1500 milhões de dólares para desenvolver,
exactamente, toda a investigação nesta área. Este senhor termina uma
entrevista que deu ao Público no dia 11 de Março passado, com a frase: “O NIMH está a criar as condições para se começar a pensar que, a menos que levemos em conta a biologia das doenças mentais, não vamos conseguir tratá-las”. Elucidativo.

Caro amigo Raul Iturra, o amigo não me conhece, mas não precisa de me dizer para ser um espírito aberto. Eu sou um espírito aberto, não duvide, e não precisa de me aconselhar a ser igual aos outros, pois eu serei sempre igual aos outros dentro das minhas diferenças. 

Comments

  1. Raúl Iturra says:

    Meu Caro Adão Cruz,
    obrigado por convertir em texto o seu comentário ao meu. Acredite que sai trez vezes da cama, abri o computador para também converter em texto o meu. As ideias estão na cabeça e choram paea passar a palavras. No entanto, como bem sabe, a gripe causa uma teperatura que dificulta o pensamento. Estou certo que amanhã de manhã, se Aventar, advertido por esta resposta, da-me hora e publica. Agtadezco este debate, parece-me interesante….e bem arguido

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