senhora ministra da educação, com respeito mas com firmeza

A Doutora Maria de Lurdes Rodrigues, antiga ministra da educação

Não me parece correcto bater sobre a árvore caida, mas não posso permitir que se dé continuidade a uma crítica permanente a quem parece ter errado por causa de quem ai a colocara. A minha carta aberta a antiga ministra não é um insulto, é um alicerce para animar a mudar a política educativa deste país. O ministério da educação foi sempre difícil de gerir. A Catedrática Maria de Lurdes Rodrigues não podia fazer milagres. Como a carta está a ser usada outra vez, vou publica-la no sítio devido. A carta, publicada no antigo jornal A Página da Educação,  é de Abril de 2008 e diz, enquanto se debate concentração de escolas, que poucos  parecem querer, política sobre a que já escrevi antes neste blogue, vejamos e comparemos, porque reitero o que a carta diz:

Minha querida Maria de Lurdes Rodrigues,

Ainda lembro esses dias em que foi minha discente em Antropologia. Bem sei que é Socióloga e que entende da interacção entre os membros de uma mesma cultura, ou, pelo menos, isso foi o que eu ensinei a si e aos seus colegas nos anos 90 do Século passado, nesses dias em que o meu português tinha esse sotaque que aparece nas cinco línguas que estou obrigado a falar e que a Maria de Lurdes muito bem entendia e ajudava a corrigir  para eu aprender mais. Ainda lembro a alegria das nossas conversas extracurriculares, no corredor do nosso ISCTE ou no meu Gabinete, ao me referir à sua dedicação adequada e conveniente, para o estudo das suas outras matérias. Mais ainda, os comentários, do meu grupo de colaboradores de Cátedra que comigo ensinavam, hoje todos doutores como a Maria de Lurdes, e os comentários dos meus colegas Sociólogos em outra matérias. Especialmente, os do meu grande amigo João Freire, que orientou a sua tese. Se bem me recordo, connosco teve um alto valor como resultado dos seus estudos. Se bem me recordo, era do curso da noite no meu Departamento e na nossa Licenciatura. Por outras palavras, estudava, trabalhava para ganhar a vida e tomar conta da sua família. Por outras palavras também, era uma estudante trabalhadora e uma Senhora devota e dedicada ao lar, como muitos dos seus colegas masculinos e femininos. A minha querida Maria de Lurdes aprendeu comigo e outros da minha Cátedra, de que o tempo era curto, temido e não dava para tudo. Reuniões, falta de livros na Biblioteca para estudar e investigar, o difícil que era entender a, por mim denominada, mente cultural dos estudantes e a dos seus pais, o inenarrável suplício de saber o que pensavam e os parâmetros que orientavam essas mentes. Não esqueço as suas queixas sobre os pedidos do Ministério da Educação que pesavam uma tonelada ideológica e estrutural, na organização dos trabalhos dos docentes primários e secundários, que nem tempo tinham para entender a mente cultural dos seus discípulos ao serem mudados todos os anos para outras escolas. O nosso convívio era aberto e directo. Estou feliz por isso. Aliás, feliz, porque pensava em silêncio: “cá temos uma futura grande educadora”. Apenas que, enveredou para a engenharia da interacção social, ao estudar com o meu querido amigo João Freire. E o problema nasceu. Os professores primários e secundários devem preparar as sua lições, como Maria de Lurdes sabe, especialmente os do ensino especial ou inclusivo, que trata de estudantes com problemas de aprendizagem e precisam trabalhar desde as 8 da manhã até por vezes às 9 da noite. Esse ensino inclusivo de João de Deus, da Subsecretária de Estado, Ana Maria Toscano de Bénard da Costa, da sua colega no saber e no posicionamento partidário do Ministério da Educação, a minha grande amiga Ana Benavente, ou do meu outro grande amigo, o seu colega ideológico e no cargo de Ministro da Educação em 2000, Augusto Santos Silva, que nos foi “roubado” ao passar para a vida política.

Lembro-me, ainda, como simpatizava com a minha luta de Socialista de Allende, por outras palavras, Socialista orientado pelas ideias históricas de Marx, tal e qual Durkheim e Mauss, mencheviques, colaboradores de Lenin para derrubar o regime injusto e arbitrário dos Romanoff, como demostro no meu livro de 2007, da Afrontamento: A Dádiva, essa grande mentira social, do qual lhe enviarei uma cópia, escrito calmamente, para comentar o que comentava consigo como minha discente, os atropelos dos Czares serem semelhantes ao do ditador do Chile, quem entregara as escolas às juntas de freguesia, denominadas municípios, e obrigava a relatórios semanais para controlar a docência do Chile e assim obter o prometido: “nem uma folha mexe no Chile sem o meu consentimento”. Ainda lembro os seus comentários horrorizados: “Senhor professor, é mesmo assim? Que horror. Os professores já sabem, para quê avaliá-los mais, e obrigar a reestudar o que já é sabido nos seus tempos para a família, preparação de aulas e merecido descanso”. A Maria de Lurdes esqueceu acrescentar, nessas as nossas conversas, que os docentes eram avaliados pela educação que recebiam os seus filhos. Mas, como boa engenheira da sociedade, entendia que os sindicatos deviam protestar quando o poder ultrapassa o afazer, já imenso e pesado, dos docentes, especialmente, do ensino especial e inclusivo, e os de classe social.

Maria de Lurdes, tenho estado interessado, como etnopsicólogo, nas recentes notícias sobre a Educação em Portugal. Foi preciso adiar a entrega de teses dos meus mestrantes, para não cair na armadilha de uma especial ditadura, pura e dura, como no Chile de Pinochet. De certeza, deve haver um engano em certos sítios. Maria de Lurdes, se a pessoa Ministro da Educação sabe que é preciso entender essa mente cultural de estudantes e os seus pais, sabe também como um dado adquirido, que esse facto acontece apenas pela necessidade de se prepararem os docentes para ensinar. Como educador, conheço bem essa preparação, tal e qual a Engenheira Social, especialidade que a louva, sabe que já está tudo preparado faz tempo, para a divisão do trabalho, sem acrescentar mais deveres aos docentes primários e secundários, que vivem em sessões que atrasam e arrasam a sua preparação de lições, hostiliza aos sindicatos e, além do mais, importamos desde o Chile esse modelo puro e duro já referido, da morta ditadura. Ou, reabilitamos a nossa em Portugal e tiramos os cravos das espingardas do 25 de Abril.

Com carinho, com respeito, mas com firme persistência, do seu velho Professor, a se restabelecer de uma doença que mata rapidamente, especialmente se não falamos pelos nossos.

Os meus parabéns. Foi-nos roubada, como Presidenta do nosso ictesiano Conselho Científico, para entrarmos todos em sarilhos muito disputados, que causam esta conversa nossa de corredor, desta vez, em formato de papel, uma carta para si, escrita com carinho, mas com firmeza em prol dos professores portugueses.

Abraço querido e, como era habitual, um beijinho para si!, do seu recuperado velho professor,

Raúl Iturra

Professor Doutor Raúl Iturra

Catedrático de Antropologia sempre no activo, membro do Centro de Estudos em Antropologia Social, CEAS/ISCTE, Membro de Honra do CNRS, Paris, Professor Visitantre do Collége de France e Membro do Senado da Universidade de Cambridge.

8 de Março de 2008, denominado Dia Internacional da Mulher

lautaro@netcabo.pt

Coda finalO que fará hoje em dia o executivo, com tantas opções para ensinar? Será que está certo?

Comments

  1. António Soares says:

    Estou de acordo com o o que li sobre a antiga ministra,mas,e há sempre um mas…porque não avaliou primeiro o Primeiro ministro?!!!

  2. António Soares says:

    …já sobre o outro ministro de educação de 2000,actualmente no governo,não sei se ajuda,Governo)ou se compromete …para mim,que sou plebe,não lhe dá credibilidade!!!!

  3. Raul Iturra says:

    Caro António Soares,
    Obrigado pelo seu comentário e pela paciêncoa de ler os meus textos. Mas, como dix… há sempre um mas: O PM já tem sido avaliado várias vezes, especialmente na carta aberta que enviei pelo Aventar e pelo Estrolabio: http://estrolabio.blogspot.com/ São sempre cartas directas e educadas.
    Agradece e cumprimenta

  4. António Soares says:

    Eu não me referia a si,para avaliar o primeiro ministro…era à ex ministra!!!Agora vou pegar nestas palavras suas,nas quais acredito a 1000%( Ou, reabilitamos a nossa(Educação), em Portugal e tiramos os cravos das
    espingardas do 25 de Abril.)

  5. Ricardo Santos Pinto says:

    Foi a Ministra da Educação mais vergonhosa de toda a história do ensino em Portugal. Fez história, sim, mas pela negativa.
    Felizmente, foi derrotada em toda a linha e continua a sê-la – basta ver que todas as suas medidas estão a ser revogadas pelo actual Governo.
    Paz à sua alma.

  6. Raul Iturra says:

    António Soares,
    Acabo de lhe enviar por e-mail xixarrinho ou assim, a morada electrónica da carta aberta ao PM. Aliás, cada vez, embora raramente o faça, que critico as formas de Governo, envio um a cópia ao interessado
    Obrigado pelas suas ideias. Eu também sou plebe, mas tenho essa soberania que António Soares também tem, que me permite colocar questões aos depositários da minha soberania, os que sempre respondem

  7. António Soares says:

    …Obrigado Raul!!Li a carta,que enviou ao PM…mas ele só não a leu, como não a pós no lixo ,porque isso não é possível…eu não acredito neste PM,nem noutros que já tivemos,e vamos continuar a ter…Os cravos nas G3,é que não nos deixam avançar,porque murcharam…

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